outubro 29, 2004

A não-violência não é uma ideia filosófica abstracta, mas uma atitude mental reflectida, um caminho de aperfeiçoamento individual, uma atitude de liberdade e discernimento corajoso, uma das forças mais dinâmicas e criativas e sublimes da natureza humana.

"A história ensina-nos que aqueles que têm, não obstante os seus honestos motivos, despojado os ambiciosos dos seus cargos usando contra eles a orça bruta, se tornam por seu turno em presas de doenças dos conquistadores"

"É para mim um facto de perene satisfação reter na generalidade o afecto e a confiança daqueles a cujos princípios e política me oponho. Os sul-africanos deram-me pessoalmente a sua confiança e uma extensiva amizade. Apesar da minha denúncia da política e sistema britânico gozo do afecto de milhares de ingleses dos dois sexos, e apesar da incondicional condenação das modernas civilizações materialistas, o círculo de amigos europeus e americanos está sempre a alargar-se. É de novo um triunfo da não-violência"

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

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outubro 28, 2004

«Desembarcar nas praias da hipocrisia»

"Dizer ou escrever uma palavra desagradável é certamente uma coisa não-violenta especialmente quando aquele que a diz ou escreve acredita que é verdadeira. A essêncoa da violência é haver uma intenção violenta por trás de um pensamento, de uma palavra ou de um acto, isto é, intenção de causar dano ao seu oponente.
Falsas noções de propriedade ou medo de ferir de susceptibilidades impedem muitas vezes as pessoas de dizerem o que pretendem, levando-as afinal a desembarcar nas praias da hipocrisia. Mas se a nâo-violência de pensamento é para ser desenvolvida nos indivíduos e nas sociedades, a verdade tem que ser dita, por muito desagradável ou impopular que possa parecer no momento."

M. K. Gandhi; Todos os Homens são Irmãos

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Subconsciente, o supurar de uma ferida inconveniente...

O cidadão é condicionado pelo modelo de sociedade que tem dentro de si, o qual é assimilado, modificado e adaptado ao correr da pena que descreve as (des)venturas existenciais. A distância e independência indispensáveis, a quem deseja perscrutar a realidade social e cultural de todos os ângulos possíveis, para evitar cair na tentação de seguir estereótipos que não foram erradicados completamente do subconscinete. Em princípio não é possível limpar eficazmente, os resquícios e os estigmas causados pela deficiente educação, e em certos aspectos de consequências traumáticas, as cicatrizes psico-emocionais são irremovíveis, ou talvez não, para quem optar por mandar fazer uma lobotomia, e considere essa forma de intervenção, «cirurgia plástica»!
Os estereótipos culturais mais enraízados, a panóplia de recalcamentos funcionam para o indivíduo, como as as sociedades secretas funcionam para a sociedade, os primeiros afectam o modo como reagimos emocionalmente aos mais diversos estímulos e situações no contexto quotidiano, indirectamente afectam o nosso comportamento, e deternimam a forma exacerbada ou contida, lúcida ou dementada, despoletada por sentimentos contaminados com agentes patológicos albergados no subcosnciente.
Os membros das sociedades ocultas elaboraram planos de intervenção na sociedade real, resguardados no obscuro isolamento dos refúgios secretos, longe do olhar do povo e fora do controle das autoridades, apesar das suas actividades representarem um perigo bem real, dado inteferirem nas decisões políticas e nas opções económicas que afectam a existência de milhares de milhões de indivíduos, continuam incólume e serenamente a moldar e impor o modelo de sociedade, com as condições óptimas para manter e perpetuar o poder hegemónico, que já detêem, subjugando pessoas reais com artinhamas ficcionais, é cada vez mais comum a intervenção subreptícia ao nível do subconsciente individual, o método mais eficaz, funciona a longo prazo, por acumulação e associação de ideias, mentalidades, recalcamentos hiperbolizados, mistificações supersticiosas, e um ror de disfuncões emocionais, entrelaçadas a ter formar um cordão de imbecilidade reactiva, que devia atemorizar o mais optimista dos cidadãos, mas continuamos placidamente a navegar neste oceano de inverosímel atonia moral.
No plano pessoal, os códigos de conduta alojados no subcosnciente afectam a liberdade de pensamento e de acção, o indivíduo adopta uma conduta auto-manietação inconsciente, marioneta articulada pelos impulsos sicronizados das forças tentaculares dos fantasmas culturais que encontraram em tempo oportuno, o espaço livre para penetrar e arreigar bem fundo as raízes da resignação, da indiferênça e da descoordenação interna, uma vez instalado um dado programa de realidade cultural razoavelmente pragmático, o uso dá-lhe veste-lhe a pele de verdadeiro, de fiável, ou mesmo infalível e inevitável, o indivíduo tem à mão as ferramentas para trabalhar e se lhe pedem para o fazer, como é bem formado, e obediente, faz o que lhe pedem, e vive à custa disso, não custa nada, basta não pensar, que é para isso, que lhe pagam.
Os problemas não se resolvem por si, quando assim acontece é porque não eram verdadeiros problemas, mas simples escaramuças. Enquanto, indivíduos temos que permanecer atentos aos sinais interiores, e perceber que o acaso, na maioria das vezes, não passa da soma de diversos factores que por arrasto de circunstâncias adversas ou favoráveis desencadeiam uma determinada reacção em cadeia que pode culminar numa crise, ou mesmo em tragédia, este paradigma reactivo pode ser observado no plano individual, como social e até mesmo à escala global. A maioria dos problemas verdadeiramente graves começam por ter origem em pequenas inflamações, insignificantes problemas de saúde psiquíca, emocional, sentimental, moral e espiritual, que não nos incomodam, ou melhor que consideramos comesinhos, e por isso, desprezíveis, em termos de responsabilidade colectiva acontece o mesmo, só acordamos quando a realidade nos agride forte e feito, e mesmo assim, não queremos acreditar, vamos à bruxa, recolhemo-nos em oração na igreja, pedimos a Deus que nos salve a pele, esta é a triste realidade, não podemos continuar a proceder assim, caso tenhamos algum amor pela vida e pela verdade, e deixemo-nos de argumentar que à muitas verdades e que a vida é um fenómeno que transcende a nossa compreensão e outras desculpas ocultas, de que nos servirmos para limpar as mãos sujas dos pequenos crimes que todos os dias nos permitimos cometer em nome vaidade, do orgulho, da inveja, da ganância e do desprezo que cultivamos em relação ao outro, como se não fossemos feitos de matéria tão corruptível e igualmente tão diáfana como a dele.

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outubro 27, 2004

Não-cooperação e justiça social

"Cada homem tem um direito igual às coisas necessárias à vida, tal como o têm as aves e as bestas da terra. E desde que todo o direito acarreta com ele o dever correpondente e o correspondente remédio para resistir a qualquer ataque que lhe seja movido, é uma questão de procurar os deveres e os remédios correspondentes para justificar e reivindicar a elementar igualdade fundamental. O dever correspondente é labutar com os meus membros e o corresondente remédio é não cooperar com aquele que me priva do fruto do meu labor. E se eu reconhecer, como devo, a igualdade fundamental do capitalista e do trabalhador, não devo ter em mente a destruição do rico. Devo esforçar-me pela sua conversão. A minha não-cooperação com ele pode-lhe abrir os olhos para o mal que esteja a fazer."

"Não posso pintar para mim mesmo um quadro que chegue um tempo em que nenhum homem seja mais rico do que outro. Mas posso pintar o quadro de um tempo em que o rico desdenhe de enriquecera a expensas do pobre e o pobre cesse de invejar o rico. Até no mais perfeito dos mundos, falharíamos em evitar desigualdades, mas podemos e devemos evitar conflitos e amargura. Há numerosos exemplos de ricos e pobres vivendo em perfeita amizade. Não temos senão que multiplicar tais exemplos."

M. K. Gandhi; Todos os Homens são Irmãos

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Da paixão à desilusão. As tonturas causadas pelo rodar desgovernado do carrocel da educação.

Muito se fala de educação neste país, e parece ser consensual que a educação não pode continuar a ser uma mera paixão, que passa de mão em mão e acabando por abrir alas, para deixar passar a ignorância, a qual se instalada de armas e bagagens nos hábitos de estudo e de vida dos cidadãos, enquanto os direitos, liberdades e garantias sociais são despedaçados, a indiferença e a inevitabilidade, tornaram-se o denominador comum que regula o fluxo informativo, lastro onde se forma a opinião pública.
A educação não pode depender de paixões arrebatadoras, que além do mais são fugazes; pode até nem estar em causa a honestidade das pessoas (governantes) que fazem da desgovernação apaixonada a norma demagógica, de onde emana o projecto modelo para a educação nacional.
Quando o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, afirmou que a educação carecia de um plano a longo prazo, que não podia estar amarrado às contingências restritivas do exercício simples legislatura, e muito menos dependente dos logros, fantasias e promessas eleitorais, num momento em que as paixões estão ao rubro, e por isso mesmo entram em rápida autocombustão. A educação estaria a transmutar-se em amor amadurecido? É de amor que a educação está carenciada, de amor estável e profícuo; a educação é um processo longo, e como tal precisa de ser acompanhado de perto, a educação pode ser encarada como uma entidade abstracta que ao longo de decénios se tornou tóxicodependente, e como tal, não é de esperar que recupere de um dia para o outro: Não é provável que os senhores deputados presentes (ou ausentes) na assembleia da república, muitos dos quais tem como prioridade diária, a leitura do jornal desportivo, ritual útil de actualização informativa que fornece a base argumentativa nos debates «políticos» de corredor, tem que estar aptos a defender a seu clube, a sua cor, o seu orgulho, a sua dignidade de adeptos, e por aí fora... um excelente meio para exercitarem os dotes oratórios; diferentes deputados, optarão por distintas paixões; e mudar de deputados e/ou ministros não determina diminuição de desilusões.
Entretanto, há que manter a fachada de cara lavada, para isso, é suficiente tomar umas medidas avulso, que não carecem de projecto, nem tão pouco de licênça ou diploma, tudo se resolve entre compadres.
Enquanto proliferarem as alternativas privadas e os filhos dos eleitos (das mais diversas estirpes) continuarem a usufruir de ensino estável e de qualidade, e os pais deste país não entenderem a educação como um processo de formação integral, a educação continuará a ser o abismo nacional. A mensagem actual faz do ensino técnico e profissional, a salvação do ensino, a resolução dos problemas de insercção social, esta mensagem não é inócua, nem é salvação de coisa nenhuma, mas uma outra forma de alienação, de afastamento, de alheamento cultural e de inércia social; a formação do jovem não pode resumir-se à preparação intensiva para ingressar no mercado de trabalho, esse tipo de condicionamento pode parecer favorável, numa perspectiva economicista e laboral, mas deixa o jovem vulnerável em muitas áreas do que considero ser a formação fundamental do indivíduo, que não pode estar apetrechado com ferramentas para execer cabalmente uma profissão, enquanto, por exemplo a educação ética e estética é completamente descurada, caso o ambiente familiar, social e cultural não ofereça alternativas, ou sirva de antídoto ao envenenamento demagógico, o indivíduo dificilmente desenvolverá aptidões, talentos, sentido crítico, por falta de estímulo cultural e humano, um indivíduo nessas condições, apesar de considerar predador, e lutar com unhas e dentes para ter um lugar na sociedade, e quando digo um lugar, refiro-me a um posto de trabalho, e pouco mais; afinal não passa de presa vulnerável, «vítima» de normalização pedagógica, destinada aos filhos do povo, da qual não consta o desenvolvimento harmonioso da personalidade, nem a descoberta da identidade individual, mas sim a sujeição a um esquema de mera formação para integrar o mercado de trabalho, como se fosse ( e como tal é considerado, uma peça de substituição, catalogada e guardada numa prateleira, até que chegue o momento de ser usada.
Ño fundo não é difícil perceber as «razões» que levam os governantes a terem paixões tão efémeras pela educação, o único género de formação que importa dar às classes menos abonadas (material e culturalmente), e seguindo a lógica histórica, a educação popular passava pelo ensino da manejo da enxada e da foice, e com o advento da industriallização a integração na miséria proletária, ao domingo ia-se à igreja lavar a alma, os filhos do povo cabisbaixos na presença dos donos do trabalho, digam-me lá qual é a diferença? A diferença está em que hoje, os cidadãos estão sujeitos a mecanismos de repressão social e manipulação de massas de tal sofisticação que observados por certa gente, e numa dada perspectiva até parecem ausentes.
Continuamos na estaca zero, se pensarmos em educação como um processo dinâmico que envolve o indivíduo como uma entidade independente, como um ser complexo em permanente mudança, a que não podem ser cerceadas as oportunidades de descobrir a sua identidade como ser universal, a maturidade psicológica e intelectual não pode estar dissociada do desenvolvimento da consciência ética e estética, a compreensão do fenómeno vida, não pode orbitar em torno da mera formação profissional, ou profissionalizante, caso desejemos formar cidadão completos, culturalmente despertos e socialmente activos, querer legitimar a ideia de realização individual por intermédio do binómio produtor/consumidor é reinventar uma nova era de obscurantismo popular, o qual parece interessar às elites dominantes, a megalomania instalou-se à escala global, e esse é o mal, a que o cidadão comum não pode ficar alheio. Mas como defender uma educação que liberte o indivíduo em vez de o subjugar a uma ideologia dominante? A resistência e a procura de alternativas requer organização, de outra maneira é pura perda de tempo, fogo fátuo e palavras deitadas ao vento. Acredito na educação baseada na aprendizagem dos princípios da auto-disciplina, que em meu entender é essencial ao desenvolvimento da identidade individual.
Duas crianças da mesma idade, uma entra para o ensino privado de qualidade, é integrada numa turma pequena, professores escolhidos a dedo, das actividades extra-curriculares consta o ensino musical, a expressão dramática, a dança, etc... uma criança educada nestas condições não quer dizer que venha ser um adulto exemplar, mas a estrutura cultural está preparada para aguentar os diferentes patamares, dimensões e plataformas de inteligibilidade da realidade natural e cultural; em poucos anos, o jovem estará a léguas de distância do outro jovem, que em crinça entrou para uma escola pública de algum bairro problemático, a que realidade cultural e social esteje exposto a criança oriunda do meio social mais desfavorecido, que perspectivas de futuro tem, o seu futuro está suspenso entre optar por uma carreira de delinquência e escolher um curso técnico-profissional, que o vai habilitar a ser um cidadão respeitável, não há mais nada, é só isso, ser bem comportado e seguir as setas, e competir com os colegas, e ser uma vida inteira escravo do banco mais próximo da sua aflição, enquanto. Entretanto o jovem mais afortunado, sai do colégio particular para ingressar numa universidade de renome mundial, a continua a afastar-se do seu concidadão, aliás, nunca mais os seus destinos se cruzarão, a não ser que, porventura, o mais afortunado venha a «necessitar» do voto do mais desfavorecido para ingressar na instituição mais digna da Nação, sim, aí mesmo, o local onde supostamente se discute o futuro da educação, onde supostamente se debate a necessidade de esbater as desigualdades de oportunidade, desde que cada um siga o seu caminho, ou seja, um punhado de priveligiados continue a receber uma educação esmerada e os outros, aprendam a manejar as enxadas da pós-modernidade, a harmonia social está garantida, o povo sereno, as elites alcantiladas nos torreões culturais e as crianças plebeias induzidas a sonhar em ser jogadoras de bola, ou coisa que lhe valha.

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outubro 26, 2004

Será que estamos verdadeiramente interessados em evitar a derrocada da democracia?

" A liberdade exterior que devemos atingir será unicamente em proporção exacta à liberdae interior que podemos ter desenvolvido num dado momento. E essa é uma opinião correcta de liberdade, a nossa principal energia deve ser concentrada em encontrar uma reforma interior."

"O verdadeiro democrata é aquele que por meios puramente não-violentos defende a sua liberdade e, por conseguinte, a sua terra e, finalmente, a liberdade de toda a humanidade."

"A democracia disciplinada e esclarecida é a coisa mais honesta do mundo. Uma democracia prejudicial, ignorante, supersticiosa, caminhará por si mesma para o caos e pode ser autodestruída."

" A democracia e a violência dificilmente podem caminhar juntas. Os Estados que hoje são nominalmente democráticos tornar-se-ão francamente totalitários ou, se quiserem tornar-se verdadeiramente democráticos, devem ser corajosamente não-violentos. É uma blasfémia dizer que a não-violência só pode ser praticada pelos indivíduos e nunca pelas nações, que são compostas de indivíduos."

M. K, Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

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O despertar da consciência ética e estética depende da descoberta e compreensão da identidade individual, como forma de afirmação do indivíduo.

"O Indivíduo deve ser a expressão máxima da realização do Homem como ser inteligente e sensível. Como ideal."
A afirmação acima transcrita é da autoria do Francisco Nunes e revela que estamos em sintonia e não em desacordo.
Os conceitos mudam, «evoluem», adaptam-se e sobretudo são modelados pelos fazedores de opinião, e pela propaganda, de maneira a servirem os interesses do poder vigente. O individualismo actualmente mais não é que a expressão exacerbada do êgoismo em detrimento da afirmação do indivíduo, essa é a mentalidade dominante; o individualista actual é um devoto indeflectível do materialismo, que se expressa na modo como o indivíduo se deixa seduzir pelo consumismo ao ponto se tornar escravo de um sistema de trocas comerciais que esvaziam o sentido da dignidade intrínseca da vida humana.
A dignidade da vida, de qualquer forma de vida, não pode estar sujeita aos convencionalismos das modas e caprichos humanos que mudam de humor e de opinião sem o menor sentido das consequências que podem advir da forma descuidada como conduzem a existência; o individualismo tal como muitos outros conceitos foi deturpado de maneira a servir os interesses das elites que desgovernam a vida das populações. O individualismo transformou-se numa arme contra o direito à identidade individual, ao cultivar o individualismo o ser humano constrói uma falsa identidade, porque despreza a estrutura interior para fixar o seu interesse em pseudo-estruturas que lhe são fornecidas pelo mercado, pela indústria do entretenimento, pela propaganda, o individualista cresce fora de si próprio, investe na sua desintegração como ser humano para aderir a um falso e pernicioso conceito de sucesso materialista. Pouco a pouco a derrocada moral é evidente, para o próprio não será assim tão evidente, nem para os que o rodeiam, que provavelmente navegam no mesmo barco empurrados pelos ventos predominantes, é o comportamento que torna evidente o desmoronamento interno, como pode o indivíduo defender a integridade, a independência se vive fora de si mesmo?
O desenvolvimento da identidade individual é o cerne da existência do indivíduo, não no sentido do indivíduo viver fechado sobre si próprio, mas para evitarmos a dispersão estéril, a formação de um novelo existencial, e até para evitar cair na teia de futilidades, que pode dominar por completo os destinos da existência individual, na medida em que aparentemente, preenche os interessses individualistas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:32 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 25, 2004

Questões de sucessão e absentismo cultural...

"Tenho sido frequentemente acusado de ter uma natureza inflexível. Tem sido dito que não me quero curvar às decisões da maioria. Tenho sido acusado de ser autocrático... Nunca fui capaz de concordar com a acusação de autacracia ou obstinação. Pelo contrário, orgulho-me com a minha natureza condescendente com assuntos não-vitais. Detesto a autocracia. Valorizando a minha liberdade e independência, prezo igualmente a dos outros. Não desejo arrastar comigo um único espírito, se não poder fazer apelo para a razão as pessoas. Levo a minha incondicionalidade ao ponto de rejeitar a divindade das mais antigas shãstras (escritura sagrada hindu) se elas não convencerem o meu raciocínio. Mas tenho visto por experiência que, se desejar viver em sociedade e não obstante quiser continuar a permanecer independente, devo limitar os pontos de total independência a assuntos de primeira ordem. Em todos os outros que não envolvam um desvio da religião pessoal de cada um, ou do seu código moral, devemos submeter-nos à maioria."

M. K. Gandhi; Todos os Homens são Irmãos

Apesar de concordar com a ideia expressa por Gandhi, acrescento que o cidadão não pode submeter-se a qualquer maioria que não respeite a sua identidade de indivíduo, o que na prática não acontece. Na verdade, o cidadão anónimo não tem oportunidade de apresentar queixa onde quer que seja, ainda que se sinta encurralado por circusntâncias de mau augúrio e obrigado a sobreviver num ambiente contaminado por dejectos culturais que embotam o discernimento e ensurdecem a alma. Ainda que sinta este castigo como uma maldição sanável, não sabe onde se dirigir, nem a quem confiar, as portas fecham-se, disfarçam-se sorrisos irónicos, o ar é rasgado por risadas sarcásticas e por fim desce o pano da indiferença, acto de misericórdia, supõe-se... Os diferentes poderes instituídos não estão disposto a ouvir o indivíduo, nem a prestar atenção às necessidades específicas que marcam a diferença entre uma existência miserável e a realização de um projecto de vida autónomo; o indívíduo deve, segundo a lógica do poder vigente, resignar-se ou manifestar-se num contexto sócio-cultural em que por vezes se sente um estranho, ou seja não tem voto na matéria, deve seguir regras que já foram determinadas por outros, sem que tivesse tido opotunidade para ser ouvido.
Ao cidadão anónimo é sistematicamente negado o acesso às ferramentas culturais fundamentais ao desenvolvimento da formação da independência de carácter e do sentido crítico e do sentido de cidadania activa; o cidadão anónimo quando a cosnciência individual pende para isso, sente necessidade de desenvolver estratégias de resistência ao obscurantismo institucional, tem que lutar contra a ignorância imposta pela sociedade que supostamente devia ter o papel oposto. Não houvesse uma corrente de resistência intemporal, uma espécie de lufada de ar fresco, uma reserva de lucidez que passa de geração em geração, e não se deixa embalar por modas nem é condescendente com o poder vigente, e o cidadão anónimo estaria condenado a morrer de desidratação ética e estética vítima da propaganda desinformativa e atirado para o fosso comum da imbecilização.
O cidadão anónimo se desejar sobreviver à imbecilização tem que optar pelos circuitos culturais paralelos e periféricos, em certa medida clandestinos para alimentar a sede de conhecimento e esclarecimento que sente não poder satisfazer nas redes normais de abastecimento. Em suma, o estado não cumpre as suas obrigações educativas, mas nunca se esquece de manter a máquina desinformativa bem oleada e afinada. Então quais são as oportunidades reais do cidadão anónimo no campo da cultura geral, do desenvolvimento do gosto pela música e pelas artes, pela filosofia e pelas ciências exactas e humanas, se o estado lhe nega o direito a vislumbrar o patamar de qualidade de vida que merece?!
Centenas de milhar de cidadãos continuam a ser mantidos afastados da cultura e das artes, e é bom que nem sequer sintam falta disso e continuem a mascar e deitar fora a «cultura» de elevado rendimento! Quanto a desenvolver as capacidades e talentos inatos, deixem-nos estar anastesiados... muitos ainda escarnecem dos que assumem uma atitude diferente, é a voz da ignorância atávica a substituir a voz do discernimento activo; ignorância que a modernidade não removeu, muito pelo contrário, está a ser assimilada pelos novos costumes e tradições, e continua entranhada no subsolo cultural, contaminando as novas gerações.
Este país continua a ser uma ditadura escolástica, os doutores continuam a ditar paradigmas de saber morto, defensores de uma realidade social a duas velocidades, a cultura e o saber genuíno apresentam-se em círculos restritos, a grupos de consumidores com necessidades especiais, talvez seja uma questão hereditária, que não interessa resolver, pelo menos é o que parece.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

Rejeito o individualismo como meio de afirmação da identidade individual.

O individualismo seca a identidade individual. Os recursos anímicos são desperdiçados a ornamentar o invólucro, o conteúdo é sistematicamente descurado; a superficialidade serve de mote ao desafinado grasnar ao desafio em que se transformou a litania (ladaínha) quotidiana, não é para admirar que na intimidade do universo individual, se transforme num imenso deserto, ético e estético (moral e espiritual).
A descoberta da importância da identidade individual está intimamente ligada ao despertar da consciência, que é consciência de ser, inserido na complexa teia de interactividade universal; a dimensão macrocósmica e microcósmica complementam-se, permitindo que a intuição humana desenvolva o necessário discernimento do qual há-de resultar a descodificação da complexa teia de superstições, ornamento casual e temporal que veste mitos, dogmas, costumes, lendas, etc... de acordo com as modas de normalização cultural vigentes, quais charruas que lavram e planificam a paisagem humana até obter o aberrante resultado de as tornar semelhantes aos campos onde se pratica a monocultura intensiva de produtos geneticamente modificados.
Os criadores de superstições colocaram no mercado produtos inovadores adequados às necessidades das novas mentalidades de consumo em meio virtual, o importante é manter a ilusão de diversidade, de potencial escolha e oportunidade; obrigar o navegador solitário a percorrer ocenaos previa e preventivamente esterilizados, a navegar sem destino, navegar porque não há alternativa, porque na realidade não tem para onde ir, pode ser que ele(a) tenha a sorte de encalhar num tesouro escondido, num príncipe encantado, ou num sapo envergonhado...
Para interpretar as correntes dominantes e evitar que o barco se afunde, o náufrago deste mundo, explorador virtual do sonho intímo por realizar, é assolado pelo desejo irreprimível de evadir-se da prisão individualista onde (in)voluntariamente se alistou como sombra de si próprio, dá início a um ciclo de corrusão subversiva, transmuta-se em balão colorido cheio pelo ar quente do sopro sublime da imaginação, repudia dos traumas de predador credenciado, abandona-se aos elementos, dissolve a vertigem habitual --- dominar, dominar, dominar --- semblante lívido de argumento vazio, de vida gasta dá agora lugar ao despertar da magrugada de um novo estar, que o tempo há-de metamorfosear em identidade individual.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:18 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 24, 2004

"the revolution will not be televised"

«Em Abril de 2002, dois documentaristas irlandeses estavam na Venezuela com intenção de fazer um filme sobre o presidente democraticamente eleito, Hugo Chavez. O filme tomou um rumo inesperado quando os realizadores deram consigo no meio de um golpe de estado, ficando encurralados no palácio presidencial enquanto os oligarcas de direita tentavam derrubar o líder. Chavez conseguiu retomar o poder em 48 horas graças ao apoio popular, mas este filme fixa os momentos decisivos em que o futuro político de uma nação foi disputado quer através das balas, quer da manipulação dos media.»

Um filme de Kim Bartley/Donnacha O'Brian (...um filme que é um extraordinário documento histórico. Vibrante e mundialmente premiado.) exibido este final de tarde (Domingo, 24 Outubro 04, pelas 18.00 horas) no Grande Auditório da Culturgest, como sessão de abertura do DOCLISBOA 2004.

Trata-se de um filme que merecia ser apreciado por uma plateia mais vasta, visto constituir um avassalador documento histórico no qual a dignidade humana assume uma dimensão épica.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:59 PM | Comentários (0) | TrackBack

Hiperplasia individualista...

Uma sociedade que estimula absurdamente o individualismo e simultaneamente menospreza a identidade individual causa trumas psicológicos e emocionais irreversíveis, os sintomas indiciam que o paciente/cliente/consumidor/cidadão de rabo entre as pernas, que dá saltos de contente sempre que o ídolo/tratador/manipulador/dono lhe promete um osso, e que em tempo de crise (pre)evidente o osso virtual substitui na perfeição o sabor do real; o indivíduo sofre de espoliação multípla e está infectado pela variante pós-moderna do síndrome de esquizofrenia existencial, qual bomba de fragmentação bio-cultural, com efeitos colaterais degenerativos da unidade essencial do ser, que sente e pensa, e que em termos bio-genéticos estaria «programado» para criar e comunicar, mas que a pedido de algumas ilustres famílias (profundamente interessadas na compreensão da condição e da natureza humana) que formam a elite (dos interesses instalados) que governa os destinos da humanidade, foram dadas directrizes de implementação de métodos pedagógicos e didácticos de iniciação à desprogramação da identidade individual e ocultação dos vestígios da íntima necessidade de criar, comunicar e ser; a cada pessoa reserva-se o direito a ser reprogramada, de acordo com as necesidades da época; foram constituídas equipas multidisciplinares que se consagram à investigação, no sentido de encontrar soluções técnicas que permitam uma sistematização dos métodos de desprogramação e reprogramação adequados a satisfazer as necessidades da sociedade, sem danificar as estruturas do suporte biogenético, estão previstas alterações funcionais que ajudem à integração do indivíduo num mercado de mão de obra «livre», como um pássaro dentro da gaiola; a diversidade é um factor de dispersão, a resistência moral atrofia a fluidez das trocas bio-electrónicas, manifestações que perturbam o bom funcionamento da civilização, enquanto que a paranormalização do banal, o misticismo ornamental e a dependência suprarenal funcionam como catalizadores de consensualização individualista, o fundamentalismo extremista, do qual resulta o neoesclavagismo que alastra em forma de chaga civilizacional.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:26 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 22, 2004

"Vivermos e Pensarmos como Porcos"

«Filósofo e matemático de renome internacional, Gilles Châtelet ficou conhecido pela sua verve panfletária, e seguramente o seu documento mais incendiário é "Vivermos e Pensarmos como Porcos", finalmente publicado entre nós ("Vivermos e Pensarmos como Porcos, Sobre o incitamento à inveja e ao tédio nas democracias-mercados", por Gilles Châtelet, Temas e Debates, 2003).
Temos aqui uma visão crítica dos 30 anos que medeiam entre o fim da abundância, que acompanhou a idade de ouro do Estado-Providência e a consolidação da globalização e do consumidor-indivíduo.
A terceira vaga pós-industrial em que vivemos é dominada pelo tecno-populismo, a tirania da estatística, a "tartufice humanitária", numa atmosfera da "Contra-Reforma" neoliberal em que "mercado igual a democracia igual a maioria de homens médios". A nossa democracia já não está ao serviço da solidariedade, da autonomia da pessoa, mas do bom governo dos mercados. Governar bem é estar atento aos desejos do homem médio, mantendo em equilíbrio com o consumidor-cidadão-egoísta, o ciber-comunicador e o pobretana que se alimenta dos restos das indústrias do entretenimento com que as Sobreclasses anestesiam as Subclasses.
No essencial, o livro de Châtelet desmonta os mecanismos do discurso dominante, assente num colectivo de individualidades em que a "engenharia do consenso" faz o equilíbrio mágico da democracia dos mercados.
Se bem que ironizando em torno dos conceitos das classes médias, este libelo acusatório da pós-modernidade carnívora não esconde as suas raízes no pensamento de outro influente contestatário, Herbert Marcuse, pensador emblemático da agitação universitária do período revolucionário dos anos 60. É na linha deste pensador que Châtelet fala na "tripla aliança" (política, económica e cibernética) que é susceptível de auto-organizar as massas humanas, dando-lhes um simulacro de projecto: através do digital, cria-se a utopia de que todos os confrontos são ultrapassáveis; através da cidadania democrática aprende-se a tolerar um sistema de competitividade feroz em que o despojado já não se revolta contra o super-rico; através do consumo, estabelece-se o controlo social, gerando-se a ilusão do respeito pelas diferenças.
A denúncia da impostura, feita pelo autor, não introduz qualquer alternativa à mornidão do sistema controlado em que vivemos. O "homem médio" vive aprisionado na democracia-mercado, mas o filósofo diz que a este homem médio será possível opor o "homem-qualquer" capaz de reabilitar a excelência do político e de nos salvar num processo histórico que ultrapassa toda a rotina e todo o possível antecipado. A democracia do futuro só será válida se der uma oportunidade aos heroísmos do "qualquer um". "Vivermos e Pensarmos como Porcos" é uma obra indispensável aos analistas da sociedade contemporânea, aos estudiosos do consumo, a todos os investigadores que estudam a articulação entre os diferentes pensamentos científicos e mesmo aos políticos confrontados com os sucessivos impasses a que nos conduziu a exaltação do ultraliberalismo. Este manifesto é uma provocação que pode contribuir para um outro mundo possível que transforme a globalização predatória numa globalização de solidariedades.»

Beja Santos "colunista semanal" no Jornal Regional O RIBATEJO (www.oribatejo.pt) 21 Outubro 2004

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O pender dos ramos...

Os ramos das oliveiras pendem
tal o peso sustentável dos frutos que carregam
outrota seria o êxodo
do raiar do dia ao cair da noite
ranchos de pessoas dirigiam-se aos olivais
os tempos mudam... só os mais velhos
seguem o apelo da memória
mistura de obrigação moral e devoção mística
por isso ainda se vêem panais estendidos
e um burro entretido a debicar na rama
uma carroça, um tractor
não é a azáfama de outrora
mas o ar está impregnado de lembranças
de tempos idos...
cheira ao tempo da azeitona
chaira a lagar, a azeite novo
a couves com feijão, a bacalhau assado...

Fixo o olhar num espinheiro
arbusto de ramos nus
nem vestígio de folhagem
permanecem as bagas vermelhas
num arrepio de beleza selvagem
contrastam com o verde lavado
da restante vegetação
este espinheiro alvar
incendeia-me o peito de emoção
sinto-me arbusto animado
no meio das serranias agrestes
paisagem harmoniosamente desgrenhada
espinheiro nu
oliveira de tronco retorcido
sobreiro opulento
carvalho negral
e a tília perfumada
que plantei no quintal...

Langoroso é o passo do tempo
contado pelo ranger do carro de bois
vertiginoso o passo de corrida
destes tempos de loucura
não há tempo para respirar
o aroma a azeitona madura
os mais velhos lembram o tempo
e o sabor das azeitonas
pisadas no cedo e retalhadas para guardar
o conduto disponível
para acompanhar a broa de milho
que o alvo pão de trigo
só os ricos podiam tragar
eram tempos de guerra e miséria
que obrigavam os pequenos lavradores
a enterrar as talhas do azeite
entre as carreiras das vinhas
para evitar que fossem confiscadas
pelos peçonhentos algozes
os velhos recordam esses tempos
lembram-se do jantar engolido à luz da candeia
não eram bons tempos
por muitas e más razões
mas que tempos temos hoje
se nem sequer reparamos
na azeitona a pender dos ramos
se já não vamos ao olival
e a mais importante safra anual dos tempos idos
está soterrada por um manto
espesso de soturno esquecimento...

Será uma questão do foro ontológico?
ou a sociedade toca em uníssomo uma marcha fúnebre
afinada pelo diapasão demagógico?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:50 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 21, 2004

Educar é deixar um rasto de amor pelos caminhos da vida...

"A genuína educação consiste em libertar o melhor de vós mesmos. E que melhor livro pode haver do que o livro da humanidade?"

"Mantenho que a verdadeira educação do intelecto só pode ser conseguida por um treino adequado dos orgãos corporais; por exemplo, das mãos, pés, ouvidos, nariz, etc. Por outras palavras, uma inteligente utilização dos orgãos corporais de uma criança proporciona o melhor e mais rápido meio de desenvolvimento do seu intelecto. Mas a não ser que o desenvolvimento do cérebro e do corpo vão de mãos dadas com o correspondente despertar da alma, só por si o meio designado provará ser uma pobre coisa sem equilíbrio. Por treino espiritual quero dizer a educação da alma. Por conseguinte um desenvolvimento completo e apropriado da mente, só pode ter lugar quando caminhar a pari e passu com a educação das faculdades físicas e espirituais da criança. Elas constituem um todo indivisível. Por isso, segundo esta teoria, seria um sofisma grosseiro supor que essas faculdades podem ser desenvolvidas separada e independentemente."

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

A condição humana também se exprime através da necessidade compulsiva de aderir a causas (as melhores e as piores).

Até a existência do cidadão mais apático gravita em torno de alguma causa, a devoção pela causa da apatia, numa perspectiva democrática de direito ao livre arbítrio, considera-se tão legítima como as mais nobres.
As causas funcionam como uma forma de catarse individual ou de grupo, uma necesidade cultural de converter em mudança social, as tensões antagónicas são um permanente manancial de conflitos entre os grupos instalados, estáveis e os indivíduos agregados em grupos ou isolados, em busca da estabilidade imprescindível ao seu bem estar intímo, quer esteja consciente disso ou não.
Aderir a uma causa é uma forma de socialização, o «instinto» gregário que permite ao indivíduo sentir que está entre os seus, e quanto mais se sentir encurralado maior será o indíce de resistência que está disposto a opor às forças «inimigas», sejam elas, um exército de ocupação, o sistema económico vigente, a nova ordem mundial, o vizinho abusador, etc...
Estamos culturalmente condicionados a aderir a causas quer o façamos de moto próprio, ou como acontece mais frequentemente, influenciados por circunstâncias que não controlamos, e que por isso mesmo, uma espécie de feixe constituído por partículas de informação que facilmente atravessa as defesas orgânicas e culturais e se aloja no âmago do indivíduo e dá ínicio à contaminação progressiva, da qual surgirá a «opção» que nos parece sempre a escolha prioritária, a nossa causa, que pode ser vitalícia ou passageira de acordo com a reacção às permutas que fazemos com o meio e a forma como manipulados pela complexa teia de propaganda que forma a atmosfera quotidiana.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 20, 2004

"Os perigos da «ONGização»"

"A globalização económica aumentou a distância entre os que tomam as decisões e os que têm que suportar os efeitos que delas decorrem. Encontros como o Fórum Social Mundial permitem aos movimentos locais de resistência reduzir essa distância e associar-se aos seus homólogos dos países ricos. Por exemplo, quando foi construída a primeira barragem privada, a de Maheshawar, as ligações entre o Narmada Bachao Andolan (NBA), a organização alemã Urgewald, a Declaração de Berna, da Suíça, e a Rede Internacional dos Rios, de Berkeley, tornaram possível que uma série de bancos e empresas internacionais saíssem do projecto. Isso não teria sido possível se não tivesse havido uma sólida resistência no terreno e uma amplificação da voz desse movimento local através de apoios na cena mundial, pondo os investidores em dificuldades e obrigando-os a retirar-se. (...)

Entre os riscos que os movimentos de massas têm pela frente, temos de falar do de uma «ONGização» da resistência. Será fácil transformar o que vou dizer numa acusação contra todas as organizações não governamentais (ONG), mas isso seria uma mentira. No pântano das falsas criações de ONG há quem procure sacar subsídios ou defraudar o fisco, mas há muitas ONG que levam a cabo um trabalho válido. Convém todavia encararmos este fenómeno num contexto político mais amplo.

Na Índia, por exemplo, o grande aumento das ONG subvencionadas começou no fim da década de 1980 e na década de 1990. Isso coincidiu com a abertura dos mercados indianos ao neoliberalismo. Nessa altura, o Estado, conformando-se com as exigências do ajustamento estrutural, restringiu os subsídios destinados ao desenvolvimento rural, à agricultura, à energia, aos transportes e à saúde pública. E como o Estado abandonou o seu papel tradicional, as ONG começaram a trabalhar nesses âmbitos. A diferença, naturalmente, é que os fundos postos à disposição destas últimas constituiam apenas uma minúscula fracção dos cortes aplicados nas despesas públicas. A maior parte das ONG são financiadas e patrocinadas pelas agências de ajuda ao desenvolvimento, que por seu turno são financiadas pelos governos ocidentais, o Banco Mundial, as Nações Unidas e algumas empresas multinacionais. Embora não sejam idênticas, estas agências fazem parte dum conjunto político de contornos imprecisos que supervisiona o projecto neoliberal e cujas exigências prioritárias consistem em obter cortes drásticos nas despesas governamentais.

Que motivos levam estas agências a financiar as ONG? Um zelo missionário fora de moda? A culpabilidade? Será sem dúvida um pouco mais que isso. As ONG dão a impressão de preencher o vazio criado por um Estado em plena retirada. É isso de facto que elas fazem, mas fazem-no de forma inconsequente. A sua contribuição efectiva consiste em evitar um perigoso desenvolvimento dos protestos, distribuindo a conta-gotas, sob forma de ajuda ou contribuição voluntária, aquilo a que as pessoas deveriam normalmente ter direito.

As ONG alteram a psique pública. Transformam as pessoas em vítimas dependentes e embotam os ângulos da resistência política. Constituem uma espécie de amortecedor entre o sarkar (em hindi, distingue-se o sarkar, o governo, do público, ou seja, em sentido rigoroso, da população.)e o público, entre o Império e os seus súbditos. E foram-se tornando árbitras, intérpretes, medianeiras.

A longo prazo, as ONG prestam contas aos seus doadores, não às pessoas entre as quais trabalham. São aquilo a que os botânicos chamariam um indicador de espécie. Quanto mais importante for a devastação causada pelo neoliberalismo, mais elas hão-de proliferar. Nada o ilustra de forma mais lancinante do que os Estados Unidos preparando-se para invadir um país e preparando simultaneamente ONG destinadas a esse país, com vista a limparem os estragos.

Para terem a certeza que o seu financiamento não corre perigo e que os governos dos países (de acolhimento, acrescento eu...) onde operam lhes permitiram agir no terreno, as ONG têm de apresentar o seu trabalho numa estrutura superficial mais ou menos desligada dum contexto histórico ou político inoportuno.

Os relatórios de desgraças apolíticos -- e por isso, na realidade, eminentemente políticos -- provenientes dos países pobres e das zonas em guerra acabam por apresentar as (sombrias) pessoas desses (sombrios) países como vítimas patológicas. Mais um indiano em estado de subnutrição, mais um etíope a morrer de fome, mais um campo de refugiados afegãos, mais um sudanês mutilado -- e todos eles com grande necessidade da ajuda do homem branco. Involuntariamente, as ONG reforçam os estereótipos racistas, sublinhando os êxitos, as vantagens e a compaixão (terna e severa) da civilização ocidental. São missionários seculares do mundo moderno.

No fim de contas -- em menor escala mas de forma mais insidiosa --, o capital posto à disposição das ONG desempenha o mesmo papel nas políticas alternativas que os capitais especulativos que entram e saem das economias dos países pobres. Esse capital começa por ditar a ordem do dia, transformando depois o confronto em negociação. Despolitiza a resistência e interfere nos movimentos populares locais, tradicionalmente independentes. As ONG manejam orçamentos que lhes permitem empregar pessoas nativas, as quais, de outro modo, teriam sido militantes nos movimentos de resistência, mas que agora podem sentir que praticam o bem de maneira imediata e criativa (e tudo isso auferindo um salário). Uma efectiva resistência política não apresenta este género de atalhos."

Por ARUNDHATI ROY, Escritora, autora, entre outras obras, de «O Deus das pequenas Coisas», Asa, Porto, 1998.
(Tradução de Júlio Henriques da versão francesa)

Texto extraído duma conferência proferida pela autora em São Francisco, na Califórnia, a 16 de Agosto de 2004.

Texto integral publicado no Le Monde Diplomatique, Outubro 2004
(Versão portuguesa disponível numa banca perto de si.)

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

Do glória do consumo ao consumo inglório... da vida e da verdade!

À medida que os agentes económicos e os respectivos aliados estratégicos, (incluíndo muitos dos monstros políticos consagrados, cientistas de renome e uma panóplia de artistas de tijela e meia...) se aperceberam das potencialidades da sociedade de consumo, como ferramenta de deformação ética, estética e alienação cultural, trataram de armadilhar a sociedade civil com tal arte e manha, minúcia e patranha, cidadãos ávidos de consumo... após uma longa história de privações e abstinência forçada; tal comportamento é normal, no entanto... as campanhas de desinformação e a intenção de formar exércitos de dependentes, as campanhas publicitárias foram e continuam a ser campanhas de intoxicação, com o objectivo de fidelizar clientes tanto a comportar-se como ratos hipnotizados pelo balançar cadenciado do isco dentro das ratoeiras, e ao invés de desconfiar de tão garrida fartura, e tão fácil ventura, começaram a fazer fila, aguardando pacientemente a vez de entrar na armadilha (personalizada), a vacuidade existencial tinha sido abolida dos escaparates mundanos, a felicidade estava agora ao alcance até das bolsas mais modestas, o mundo estava pronto para um longo reinado de futilidade, finalmente, a após, repetidas lutas contra o obscurantismo social, cultural e religioso, começou a formar-se na linha do horizonte uma densa nuvem de poeira, a marcha triunfal da imbecilidade institucionalizada estava em movimento, as populações como acontece sempre saem à rua para aplaudir os novos donos da «bola», o povo sonha com reinos de fadas boas e dinheiro fácil e pantagruélicas festanças, ritos iniciáticos e danças, as misérias e demónios passados vão a enterrar nas páginas seladas de histórias mal contadas, relaxado numa esplanada de encantos burgueses. O povo finalmente podia imitar os hábitos burgueses, imitar! A maioria da população continuaria arredada da alta roda social e cultural, o planeamento da sociedade de consumo não previa educar o gosto e refinar os sentidos da plebe, esses continuariam a gravitar em torno da chamada cultura popular, as posibilidades de criarem laços inusitados com áreas culturais restritas eram escassas. O desenvolvimento da poderosa insdústria de entretenimento em larga escala modelou a existência do cidadão comum e ditou o arquétipo cultural que devia ser seguido pelas multidões, obedecendo a uma lógica de hábitos de consumo «mais ao gosto popular», a chamada cultura erudita continuaria a ser para consumo restrito das elites educadas, e das gentes endinheiras (por vezes de sensibilidade muito duvidosa), uma espécie de feudo cultural privado, mantido com o apoio das instituições públicas.
A inacessibilidade da cultura dita erudita deve-se em parte ao não-interesse em divulgar uma cultura que em certa medida significa uma ameaça real à cultura dominante, ou seja, a uma cultura, que se diz popular, mas que na verdade, não o é, porque a verdadeira cultura popular, exige um certo grau de educação do gosto e da sensibilidade, a cultura popular é frequentemente confundida com a cultura de «intervenção» populista, que instrumentaliza o consumidor e transforma num leal servidor dos produtos culturais de alto rendimento, a ferramenta mais comum de alienação colectivizada, com evidentes objectivos manipulação ética e estética, o triunfo da indiferênça sobre o necessidade de independência individual e do desenvolvimento do gosto e do refinamento da sensibilidade cultural e artística que devia ser o arauto de uma sociedade dita democrática, mas que já nem formalmente o chega a ser, o caixote do lixo do cidadão serve de indicador da postura cultural, moral e espiritual individual, os factos consumados e os «crimes» ocultos, quotidianamente atirados para o caixote do lixo privado, denunciam a pública ignomínia da sociedade de consumo, o alastramento dos problemas banais e a banalização dos problemas reais, ao serviço da cultura do lixo, e do lixo transformado em cultura, um sistema a funcionar em circuito fechado para que não haja fuga de informação, e a menor suspeita de traição é imediatamente descoberta e punida, a ordem tem que ser mantida a qualquer custo, humano e ambiental, o triunfo da imbecilidade sobre a resistência da criatividade, ressoa na mente do cidadão como inefável inevitabilidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:39 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 19, 2004

Insaciedade insustentável...

A questão da sociedade de consumo como qualquer outra, consiste num sistema complexo de engrenagens montadas numa estrutura flexível concebida para se adaptar às alterações e inovações constantes, lançadas no mercado com o apoio de uma enorme panóplia de manobras de diversão, estratégia que permite manter um elevado nível de falso (mas altamente rentável!) dinamismo, uma espécie de contorcionismo convulsivo, o cidadão está possuído pelo «demónio», o ritual exorcista que lhe alivia a angústia pessoal, obriga-o a dirigir-se às catedrais de consumo, joelhar-se aos pés dos ícones preferidos, e pedir ao exorcista de serviço que o socorra, já não pode mais viver naquele estado de ansiedade existencial, o trabalho é feito em moldes profissionais, o tempo é de dura competição, já não há espaço para amadorismos de vão de escada.
A sociedade de consumo começou por ser um modelo de sociedade cujo obejctivo principal passaria por escoar os produtos que a era industrial conseguia produzir em massa, e por conseguinte criar riqueza e oportunidade de negócios, a única forma de implementar este novo modelo de sociedade passava por açular o apetite dos cidadãos pela multiplicidade de bens e serviços disponíveis no mercado.
Na fase incial do desenvolvimento da sociedade de consumo o radiante optimismo de políticos e agentes económicos seria genuíno, e muita gente acreditou piamente que estava em construção uma sociedade de abundância acessível a todas as bolsas. O estado de graça foi sol de pouca dura, e os mentores do sistema passaram ao ataque (os especialistas garantem que continua a ser melhor estratégia de defesa), não era possível impingir um novo modelo de sociedade, com base em campanhas de promoção de óleo de fígado de bacalhau para tomar à colher, uma por dia contra o raquistismo moral... os produtos tinham que ser apelativos, de fácil manuseamento, e utilitários, o pragmatismo o conforto, e o prazer imediato forneceram a base ideológica para o novo ideário económico de índole capitalista, o sonho estava em marcha e a «terra prometida» provou ser um imenso jardim de oportunidades prontas a ser colhidas por quem melhor as soube-se empacotar e publicitar, o mercado tinha capacidade para as obsorver, e o cidadão tinha dinheiro (ou em alternativa, endividar-se...) para as comprar e claro consumir, o que não significa dar-lhe o devido uso, pode acontecer estar mais próximo de significar estragar, desperdiçar, etc... usufruir plenamente de um determinado bem ou serviço requer da parte do consumidor uma atitude de respeito para com o objecto de consumo, que está fora de moda, obviamente que isso não preocupa quem produz, desde que a seu sucesso empresarial esteja em crescimento e a sua riqueza pessoal a aumentar, o seu estado mental é de completo inebriamento, é dentro dessa campânula que monta o cenário adequado a desempenhar o papel de protagonista principal na novela tragicómica que julga dirigir.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:51 AM | Comentários (1)

outubro 18, 2004

Retalhos de verdade tal como a sinto...

A existência humana torna-se insuportavelmente aborrecida quando limitida à satisfação das necessidades básicas. Isto à primeira vista parece verdade, mas avancemos mais para o interior da selva e observemos o seguinte: Um grupo de primatas percorre a floresta em busca de alimentos, a experiência permite-lhes reconhecer a época de maturação dos frutos produzidos por diferentes árvores, colher nozes, apanhar formigas com uma palha, colher moluscos, etc... todas estas actividades recolectoras são levadas a cabo para satisfazer as necessidades básicas do grupo e de cada indivíduo, no entanto, dificilmente podem ser classificadas de aborrecidas; agora, vamos visitar um grupo idêntico instalado num jardim zoológico, instalações e tratamento de luxo, as necessidades básicas estão asseguradas, os animais cuidam mutuamente da pelagem como fazem no seu habitat natural, apesar de todo o conforto são detectáveis sinais de tédio, irritação e até ansiedade que não são explicadas no âmbito das relações normais dentro do grupo, dir-se-ia, que o relógio biológico dos animais é perturbado e o organismo desenvolve reacções alérgicas, num ímpeto de rebeldia contra a imposição de regras artificiais, que estão a por em causa a harmonia estrutural e funcional do indivíduo? A expedição ainda não terminou, vamos agora visitar as masmorras de um (à vossa escolha...) laboratório de investigação farmacéutica, é probido filmar, não fossem as camâras ocultas, o manto de escuridão ainda seria mais espesso... um corredor central ladeado de jaulas minúsculas, repentinamente lembrei-me das linhas de produção de ovos, será que aqui também é sempre de dia, como acontece às pobres galinhas, submetidas à tortura de viverem sem chegar a saber o que é ser noite, o que importa é aumentar a postura de ovos, ou seja, rentabilizar o empreendimento; os animais não tem aspecto de passar fome, no entanto o seu olhar é perturbador, uma densa atmosfera de hipocrisia humana mesclada de agitação animal, o ambiente para quem vem de fora causa arrepios de pavor, alguns dos nossos primos mais chegados mostram sinais de instabilidade nervosa grave, dir-se-ia que estavam a enlouquecer? O ambiente claustrofóbico e ruidoso, a iluminação artificial, a cárcere individual, a privação de contacto social e fisíco, e outros pormenores que certamente nos estavam a escapar estavam a dar com os animais em loucos, aniquilando a identidade individual e de grupo, nada havia a esperar, mas como bem sabiamos aqueles animais estavam condenados desde o momento em que alguém os apanhou na floresta e entregou nas mãos da investigação científica a qualquer preço. Estes animais, por sinal tinham as suas necessidades básicas satisfeitas.
A satisfação das necessidades básicas não pode dissociar-se da envolvência ambiental e no caso humano, cultural, desenvolve-se um complexo sistema de trocas entre o indivíduo e o meio social, que pode ser gratificante, ou como acontece no caso humano, e com bastante frequência, levá-lo a sentir frustração, a satisfação das necessidades básicas ao invés de trazer alegria a bem estar pode ter o efeito oposto, ser motivo de angústia e infelicidade, uma violência cometida contra a integridade essencial do indivíduo, de consequências cumulativas que pouco a pouco quebram e desintegram a identidade individual, e não raras vezes irreversivelmente.
A economia de subsistência permite que produtor e consumidor monitorizem in loco a evolução económica de forma integrada e sustentável, avaliando a situação favorável ou desfavorável de variáveis não manipuláveis, como o clima. A satisfação das necessidades básicas deve ser um factor de integração social, e não a satisfação de um conjunto de necessidades que culminam numa sensação de vazio existencial, o que se ganha em obesidade corporal, perde-se em estima pessoal, a leitura pode e deve ser feita em sentido literal ascendente e orientação transversal figurada, e mais, recomenda-se o uso incondicional da liberdade de interpretação...
O desenvolvimento da sociedade de consumo, mudou a modo de encarar a satisfação das necessidades básicas, os hábitos mudaram, a diversidade de bens disponíveis aumentou vertiginosamente, o quotidiano adquiriu cor e som, os costumes e tradições que durante séculos formaram uma cadeia intransponível, as toupeiras mecânicas começaram a devorar as entranhas dessa cadeia e os novos hábitos paulatinamente depuseram os antigos, a sociedade de consumo chegara para vencer e satisfazer as necessidades básicas, a insipidez estava prestes a ser abolida das práticas quotidianas do cidadão comum, o ar citadino estava encharcado de optimismo, a sociedade de consumo satisfazia gregos e causava inveja a troianos.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:29 AM | Comentários (1) | TrackBack

Uma mancha na paisagem...

Esgoto a céu aberto
canal de ignomínias a descoberto
aguardando as invernais enxurradas
na esperança de lavar
a humana promiscuidade
ruínas e despojos industriais
a lembrar uma cidade vandalizada
mas trata-se dos escombros
a longo prazo, do sucesso prometido
por investidores sem rosto
e generais sem pátria
garimpeiros da sorte alheia
em busca de novos filões
cobrem o caminho de escórias
enganam o povo com falsas glórias.

No leito do rio continuam a desaguar
contaminantes químicos e venenos letais
abundância e diversidade abolidas
do vocabulário local
a vida à muito que faliu
a alegria das populações ribeirinhas adoeceu
há doenças resistentes aos subsídios
e rostos humanos que sucumbem à amargura
terminaram as migrações anuais
as aves demandam outras regiões
a paisagem está imersa em silêncio de mau presságio
num lugar, que foi outrora santuário
ambiental, moral e espiritual
agora é nação de almas soturnas
que sobrevivem nesta reserva infestada
prisioneiras da tristeza
sofrem as dores da paisagem
onde os ciclos de vida foram interrompidos
os traumas existenciais acumulados
almas destruídas pela corrosão
excessiva do progresso
o passado foi selado
o leito do rio está morto
as lamas acumuladas no fundo
estão pejadas de metais pesados
e crimes silenciados, e penas leves
desmembraram a paisagem
e o leito do rio continua refém
da obscura realidade
pesadelo que alagou
as margens do rio
depois do estupro, a fuga impune...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:07 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 17, 2004

Uma verdade parcial...

Vamos começar por uma verdade parcial, ou melhor, pelo tabu mais bem protegido, a irrefutabilidade estratégica da sociedade de consumo como estrutura de escoamento da produção de bens e serviços, restritiva da liberdade de acção, de pensamento e de consciência.
A sociedade de consumo é a antítese de qualquer forma de sustentabilidade, económica, política, social, e completamente adversa à humanização da civilização, por outras palavras, a sociedade de consumo faz a apologia da barbárie, e nem sequer o faz de maneira discreta ou camuflada, a doutrina neoliberal montou um sistema de válvulas reguladoras da vontade pessoal, que ajusta o gosto e a atitude individual às necessidades do mercado, ou seja, da manutenção da ordem social e do modelo cultural, que roda em torno de um eixo central da emgrenagem de valores ideológicos e culturais que se articulam entre si, sob a «leveza» estética das formas, reflexos e aparências, a arquitectura social fascinada com as potencialidades das biotecnologias, resolveu dedicar-se ao experimentalismo transgénico e desenhar modelos sociais, culturais e artísticos de elevado rendimento, tal onda (tsumani) «criativa» inundou (entenda-se conspurcou) transversalmente a sociedade de mentalidades convenientes, a monotorização do solo social tornou-se uma prática corrente, envolvendo vários ramos da ciência que estão obrigados a avançar com propostas credíveis, que serão avaliadas pelas equipas rsponsáveis, que vão decidir quais as necessárias correcções a introduzir que permitam controlar a ocorrência de infestações graves, algumas pragas socais poderiam fazer cair a confiança dos investidores, o mercado de trabalho ressentir-se-ia negativamente, a qualidade dos serviços de propaganda estaria em causa, o risco de abaixamento das taxas de concentração de estímulos cerebrais do factor alienação podiam ter consequências apocalípticas, quiçá irreversíveis.
A mensagem oficial é como sempre optimista, a crença no sistema é inabalável, promovem-se campanhas bem-intencionadas de separação dos vários tipos de lixo, para que possam ser reciclados e reutilizados, poupa-se energia, poupam-se recursos, e num piscar de olhos tornamo-nos amigos do ambiente, mesmo sabendo que consumo de energia per capita continua a aumentar, lembramo-nos que isso é sinónimo de desenvolvimento económico, portanto é normal, inevitável e desejável, qual contradição qual carapuça! O paradigma sócio-cultural que nos serve de chapéu de chuva cósmico (o seguro morreu de velho), fornece uma excelente protecção contra a queda de poeiras e miasmas cósmicos, no prato da sopa cultural e outras iguarias igualmente suculentas de inquestionável qualidade nutritiva.
Separar o lixo doméstico, não deitar lixo para o chão, não é a mesma coisa que defender o ambiente, podemos separar o lixo, evitar deitar papéis, ou beatas para o chão, etc... prioritariamente por razões de civismo, e se assim for, já é de louvar, numa sociedade em que a atitude individual se pauta em grande medida pela total falta de respeito pelos direitos do outro (se não está bem, mude-se! uma resposta frequente, como são igualmente frequentes as situações em que o «agressor» é aplaudido por humilhar um concidadão, que discorde dos muitos rituais «bárbaros» em voga, a intolerância é a marca registada do modelo de progresso que corrói os direitos individuais), quanto mais pelos direitos do ambiente!
O despertar da consciência ambiental está indelevelmente ligado ao amadurecimento da identidade individual, o ambiente faz parte da realidade natural que deve ser o «objecto» mais querido e mais fascinante de todo o amor que possamos desenvolver pelo conhecimento e pela compreensão do fenómeno que é a Vida, o qual em simultâneo é a Verdade. A Realidade Natural será sempre a mais genuína fonte de inspiração, na era da alta tecnologia, e da ditadura da desinformação, a realidade cultural parece ter suplantado a Realidade Natural, será o mais terrível equívoco, o dogma mais pernicioso, até agora adoptado pela humanidade desde os alvores da civilização (barbárie organizada) comuns procura em consciência menos possível o bem estar alheio, quase de certeza estará mais certamente não consideram desejável baixar a fasquia do conceito algo vago e sem dúvida subjectivo da qualidade de vida quotidiana, mesmo quando essa qualidade depende de tecnologias devoradoras de energia, a vista panorâmica das grandes urbes parece-me elucidativa(árvores de Natal gigantes, permanentemente enfeitadas! Afinal, na cidade é natal todos os dias, ou pelo menos, quando a carteira o permite!) as quais continuam a ser abastecidas por hordas de migrantes em busca do El Dourado citadino.
O aquecimento global não é uma questão menor, mas está a ser tratada como se o fosse, as florestas tropicais continuam a ser devastadas, os oceanos são uma imensa fossa global, os locais mais remotos estão a ser devassados em busca de hidrocarbonetos e outras matérias primas usadas para satisfazer o nosso apetite por novidades, inato! Uma ova! O ser humano vem equipado com uma ferramenta natural incrivelmente sensível: a curiosidade, este talento natural ao ser exposta a determinado tipo de radiações culturais, pode originar que o interesse pelo entretenimento suplante o desejo intímo de esclarecimento, esta «opção» rapidamente torna o indivíduo escravo dos sentidos, apóstolo da superficialidade e consumidor compulsivo de bens e serviços supérfluos, uma vez que este comportamento é mais comum do que seria recomendável, votamos ao ambiente uma amizade muito pouco sincera, intrinsecamente hipócrita, na fogueira das vaidades lanço eu a seguinte questão: até quando poderá o planeta suportar a nossa hipocrisia?!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:21 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 16, 2004

Desprezar a Verdade é desprezar a natureza intíma da condição humana.

«Os evangelhos não devem transcender a razão e a verdade. São significações que devem purificar a razão e iluminar a verdade.»

«Não pode o erro reivindicar isenção mesmo que possa ser apoiado por todos os evangelhos do mundo.»

«Um erro não se converte em verdade em razão da sua propagação se multiplicar, nem a verdade se converte em erro só porque ninguém a vê.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:57 PM | Comentários (3) | TrackBack

O obscurantismo vigente...

Creio que se confunde desenvolvimento tecnológico e relativa abundância material com progresso humano e desintegração do obscurantismo cultural, moral e espiritual que vinha sendo transmitido geração após geração, com o inequívica interferência transversal das instituições religiosas, que apesar de albergarem no seu seio Homens que defendem os valores da vida, da liberdade de pensar e comunicar, por norma, e com receio de perder poder e influência junto das populações, guardam o melhor da iluminação divina para consumo próprio, o gosto popular é pouco refinado, e como tal, as pérolas devem ser preservadas... o obscurantismo, a nadar em abundância material, ou imerso na mais pútrida situação de miséria existencial, está sempre ligado a alguma forma de servidão, de modo a garantir que uma dada ordem social, modelo cultural, económico, etc... injusta, seja mantida artificialmente, ao menor custo possível, o obscurantismo foi sempre o método mais empregue, e ainda não passou de moda, aliás, apresenta uma vitalidade incrível na era da mundialização da informação.
Às mil faces do obscurantismo, correspondem os muitos tipos e classes de obscurantistas, a sociedade é o espelho que reflecte, a buliçosa realidade obscurantista, renovada pelo dinamismo irreverente dos mais toscos aos mais refinados obscurantistas, que vestem a pele rebelde sedutor, de artista profanador dos ícones, de político-actor...
O desenvolvimento da ciência, trouxe à luz do dia conhecimentos que permitiram desmascarar muitos dos mitos e dogmas obscurantistas ultrajantes da condição humana, diminuir o ser humano, reduzi-lo à condição de servo de Deus ou do Estado, ou pior, a escravização moral e espiritual do indivíduo consegue submeter esse indivíduo a um sistema de valores, regras e medos que o impedem de amadurecer, de atingie o estatuto de ser humano plenamente desenvolvido, e não só de cidadão crescido, capaz de se reproduzir e assumir responsabilidades familiares, socias e profissionais, o ser humano só atinge a verdadeira maturidade quando consegue libertar-se de jugos culturais que o impedem de ver a vida com os olhos da simplicidade e da humildade, e não como uma realidade hóstil. gerações e gerações de cidad
Parece haver uma estirpe de seres humanos diseminada por todo o globo resistente à contaminação obscurantista, em qualquer época e/ou lugar, enquanto outra casta de cidadãos, geralmente ligados à elite dominante, ou que à mesma pretendem, por qualquer meio aceder, usa dos meios que estão ao seu alcance para manter, desenvolver e intruduzir novas formas de obscurantismo adaptadas às necessidades da realidade sócio-cultural vigente.
A ciência descobre leis universais, mas as cartilhas obscutantistas continuam a prevalecer, numa lógica cultural de preservação e perpetuação de modelos de pensar, sentir e ser, sujeitos à concepção da vida e da existência humana segundo uma ordem universal de servidão perante um deus, um dogma, uma rede complexa de mitos, preconceitos, superstições, etc... investem-se recursos inimagináveis nessa rede de influências a que é muito difícil escapar, digamso sair d elá com vida, ou pelo, de saúde mental intacta, a ciência está, directa ou indirecatmente ao serviço do obscurantismo, as descobertas científicas são imediatamente empregues para desenvolver tecnologias de manipulação do cidadão comum, a ciência acaba por contribuir para o reforço dos meios que suportam a realidade obscurantista quando teoricamente devia acontecer o oposto, esse é actualmente o dilema humano, numa sociedade globalizada, dominada por interesses obscurantistas e clãs que perfilham doutrinas terroristas, quer dizer alimentadas pelo terror obscurantista que não para de crescer, qual árvore de malignidade irreversível, imposta... pelo formato de obscurantismo vigente.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:53 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 15, 2004

"As Farpas"

Desta feita recomendo a leitura da posta «As Farpas» publicada ontem, quinta-feira, 14 de Outubro de 2004, no blogue Planície Heróica pelo amigo Francisco Nunes, um documento precioso e caprichosamente actual.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:13 AM | Comentários (1) | TrackBack

"O Rosto das Novas Censuras"

Na passada quarta-feira, 13 de Outubro 2004, O Uno e o Múltiplo publicou um magnífico artigo "O Rosto das Novas Censuras" (....)Num extraordinário artigo intitulado “Quando as Palavras Obscurecem a História”, publicado na última edição do Le Monde Diplomatic (Outubro, 2004), John Pilger analisa a questão da novas censuras com uma enorme lucidez. Não resisto a transcrever aqui alguns excertos. A sua leitura integral é, no entanto, imprescindível. (....), cuja leitura não podia deixar de recomendar, apesar de já terem decorrido dois dias, após a sua publicação.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:32 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 14, 2004

Não é sensato incomodarmo-nos a pensar pela nossa cabeça...

Num mundo inundado por mensagens audiovisuais, o cidadão deve manter uma distância de segurança se quizer evitar ser capturado pelas nefastas radiações da esquizofrenia colectivizada, uma espécie de chuva de picaretes, o melhor é optar por construir um dique à maneira dos castores, entrelaçando pensamentos colhidos na intimidade da floresta onde resistem e crescem os valores intemporais, e instalar-se na confortável toca iluminado pela lucidez mental auto-sustentável, digamos que nesta ilha independente (não significa isolada) o indivíduo pode instituir o ritmo de reflexão individual que melhor satisfaz as suas necessidades de esclarecimento moral e espiritual, sem o qual o esforço de compreensão nunca passará de fogo fátuo, que me parece estar na moda.
A realidade criada pelos poderosos meios audiovisuais, é o fachada visível de uma poderosa rede de produção e distribuição, com objectivos políticos, culturais, sociais e económicos bem definidos, o cidadão para além de consumidor (ou seja, de comprador, investidor indirecto que mantém a máquina a funcionar, apesar de pouco ou nada beneficiar com isso!) de fatias de uma realidade, fabricada e distribuída pela indústria do entretenimento e desinformação global, torna-se um potencial agente de disseminação voluntária da epidemia generalizada, de pensar com a cabeça alheia, e quando o pensar é seguido, pelo sentir a partir dos estímulos exteriores, começa a delinear-se um auspicioso futuro de colaboração individual no projecto global de imbecilização colectiva.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:26 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 13, 2004

A realização pessoal não pode dissociar-se da aspiração individual por seguir uma conduta não-violenta

"A vida é uma aspiração. A sua missão é o esforçar-se por chegar à perfeição, que é auto-realização. O ideal nunca deve ser rebaixado por causa das nossas fraquezas e imperfeições... Aquele que amarra o seu destino à ahimsã, a lei do amor, encurta diariamente o círculo de destruição, e amplia a vida e o amor; aquele que jura pela himsã, a lei do ódio, alarga diariamente o círculo de destruição, e amplia a morte e o ódio.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:07 AM | Comentários (1) | TrackBack

Infoexcluir vs infoesterilizar!

Ensinar burros a permanecerem quietos, enquanto os carregam de informação (nos tempos que correm já não se distingue bem entre carregar e descarregar), carrega aqui, descarrega ali, torna a carregar e descarregar, ininterruptamente... sem pausas intercalares para refelexão e/ou relaxamento, este é o modelo de conduta social do momento, qualquer outro modelo está fora de contexto, quanto mais não seja por uma questão de optimização de recursos; os circuitos de produção e consumo de informação e entretenimento possuem uma dada capacidade de escoamento que não deve ser desperdiçada; a máxima juvenil "há que aproveitar ao máximo", faz todo o sentido, segue o sentido obrigatório dos sinais do tempo, sem tempo a perder, que a vida é para aproveitar... a expontaneidade com que os jovens exibem a necessidade de meter as mãos na massa, afinal pode exprimir a ansiedade que sentem e que se deve a factores exteriores à sua vontade que obviamente não controlam!
Porque carga de água, um jovem saudável sente necessidade de se exibir, ou esconder atràs de hábitos que manifestamente caracterizam comportamentos e atitudes auto-destrutivas?
Estarão demasiado bem informados, ou estão promtos a infoimplodir? Qual a razão de não dominarem as competências necessárias para lidar com os sentimentos e emoções que lhes devoram as entranhas? As indumentárias de marca e outros artefactos de consumo não servem para encobrir a incapacidade de exprimir e comunicar de forma sã e expontânea as perturbações anímicas e emocionais... aliás, o excesso de adornos inibe o interesse por actividades que desenvolvem a criatividade e o talento individual, servem de bengala existencial, e mostram até que ponto a síndrome da infodependência corrompe a intimidade individual, interferindo com amadurecimento moral, mental e emocional do jovem em crescimento.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 12, 2004

A vida talvez possa almejar transformar-se num nicho de mercado!

No princípio era a vida
depois veio o Homem
por fim as rotas comerciais
ao mar foram lançadas
imponentes armadas
de alvas velas enfunadas
naus e caravelas debandaram
horizontes desconhecidos e atravessaram
oceanos guardados por monstros antediluvianos
dobraram cabos e venceram medos
do sofrimento humano
muito ficou por dizer
o número de marinheiros mortos por saber
piratas e corsários
mercadores e aventureiros
cruzaram os mares em busca de riqueza
sedas e especiarias Oriente
africanos, no continente negro
enganados com garridos panos
e convencidos a chicote
a maioria acabava por morrer
durante a travessia
o silêncio sepulcral
da abissal escuridão...
transformou-se em lar
de escravos e senhores
ao lado, as riquezas cobiçadas
tiveram que aguardar a epopeia espacial
para aos olhos do mundo serem desvendadas....

Outras rotas ficaram conhecidas
rastos da cultura mercantil
atravessou desertos e desfiladeiros
e chegou aos tempos modernos
mas uma nova era emergiu
da linha de produção
do passado fez tábua raza
do futuro massificação
foi imprimido um novo catecismo
aplicado aos programas escolares
fazer a apologia ao consumo
crescer e chorar po mais
as crianças aprenderam a ler
pela cartilha da publicidade
o mercado começou a funcionar
e veio para ficar
algumas décadas volvidas
e muitas aldeias despovoadas
o mercado conseguiu atravessar uma meta
insuspeitada, suplantar a própria vida
os políticos manifestam em coro
que nada podem fazer
é o mercado a mexer-se
pode até ameaçar entrar em convulsão
quem sabe provocar uma erupção
sofre de insónias, tem mau dormir
disfunções normais do livre mercado
É a vida -- suspiram uns
É o mercado a funcionar, impossível intervir -- afirmam outros
o mercado suplantou a vida, em direitos
a vida carrega, por defeito, os deveres
o comércio de escravos veio para ficar
a vida pode continuar a definhar
o mercado, apesar de tudo
continua a prosperar
e a elite a lutar
para manter a rédea curta aos camelos
que perpetuam a servidão humana...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

De tanto correr, o Homem escorrega e cai, nas malhas do seu tempo!

Fulano de tal morre, e logo alguém lembra enternecidamente, que a criatura fora um Homem do seu tempo; uma espécie de título póstumo, um selo de aprovação do instante temporal em que existiu e da energia volátil consumida à consignação em prol da sociadade do seu tempo; o Homem do seu tempo pode ter sido carrasco, ou vítima, ou mais comummente levado enxurrada de mitos e ícones culturais do seu tempo.
As causas do aquecimento global e das consequentes alterações climáticas, motivo de preocupação crescente para especialistas e cidadãos comuns, afinal devem-se a um fenómeno cultural que afecta o clima à escala planetária: a propaganda, desencadeia reacções que estando previstas, extrapolam a capacidade de controlo exercida a partir das unidades de produção «industrial» instaladas nos locais mais insuspeitos, a complexa rede de distribuição é regulada e fiscalizada por organizações e instituições de comprovada confiança, nenhuma outra forma de poluição está tão bem monotorizada, quanto a propaganda que consome a vitalidade e causa graves disfunções psico-emociaonais no consumidor alvo que atinge, nestte âmbito a propaganda abata-se sobre o indivíduo como uma terrível catástrofe cultural, por vezes causa danos irreversíveis.
Este tipo de poluição afecta o clima à escala global e causa terríveis catástrofes sociais atribuídas de modo leviano e maldoso a outros factores, que obviamente servem de bode expiatório, as enxurradas aumentam de intensidade, as verdadeiras causas permanecem por estudar, e não param de se agravar, à medida que a sofisficação dos sistemas de produção e distribuição de propaganda vão dominando a vontade individual e empurrando o Homem do seu tempo para um beco sem saída cultural, moral e claro, existencial, entretanto investe-se em válvulas de escape, que «evoluem» a par e passo com a sofisticação da propaganda, os sucedâneos das liberdades fundamentais vão enchendo as prateleiras dos supermercados culturais.
A degradação ambiental, os devastadores furacões culturais, as catástrofes ambientais são uma mera réplica das catástrofes culturais, o modelo de civilização imposto por uma elite política, económica e cultural nunca teve em conta o interesse do cidadão, muito menos a preservação ambiental, a hegemonia cultural, o desenvolvimento de múltiplas formas de manipulação da mente e da vontade individual tem sido o móbil predominante da barbárie civilizada, a propaganda uma das armas de destrução maciça das capacidades de resistência e associação do cidadão comum, a violência física e a tortura psicológica e moral e a chantagem emocional, uam estratégia de consolidação do poder, a propaganda desafia os princípios da liberdade de pensamento porque consegue penetrar subrepticiamente no âmago do indivíduo, e causar danos irreparáveis na forma como o indivíduo percepciona a realidade que o rodeia, passa a confiar na imagem alterada, o exercício da cidadania levado ao extremo, é puro reflexo condicionado, na assercção pavloviana, e não é preciso sair do local de trabalho, ou das nossas relações pessoais para dar conta disso, e de como é difícil combater esse flagêlo social e cultural que resulta da infestação global da liberdade de produção dos agentes tóxicos e patogénicos que nos encurralam num beco sem saída. A humanidade entendida como o conjunto dos indivíduos vivos que habitam o planeta, confronta-se quer colectivamente quer individualmente com a mais nefasta humilhação que pode pender sobre a cabeça de cada um de nós, as terríveis alterações climático-culturais, causadas pelo fluxo ininterrupto da propaganda usada como meio para perpetuar no poder a elite que do mesmo se apoderou e que parece pouco preocupada com as consequências dos seus actos, os custos humanos dos seus empreendimentos globais, são os inevitáveis efeitos colaterais que infelizmente não podem ser completamente eliminados, reza a hipocrisia oficial.
A cada cidadão do seu tempo, caberia eforçar-se por perceber o seu tempo, para que de algum modo, compreende-se e senti-se que existe um tempo, intemporal, e um tempo, que é permanente temporal, que se abate em cima daqueles que à força de engolir as mulcoloridas pílulas culturais, lhes sobe à cabeça os efeitos colaterais de serem Homens dos seu tempo, sem tempo para viver e se aperceber, de que nem são, nem resistem à máquina que produz tempos sem tempo, aniquilando o tempo de viver, criar e ser ao indivíduo comum, escravos dos sentidos, presa fácil da comjuntura, sofre as consequências de não despertar a tempo de sentir, que é um activo colaborador da catástrofe do porvir, um servo da seu tempo às ordens da propaganda, ficou preso nas malhas do medo e da ignorância.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:50 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 11, 2004

Quando a economia devora a ética, a miséria devora o senso comum!

"Devo confessar que não traço nenhuma linha de separação ou faço qualquer distinção entre economia e ética. Economias que firam o bem estar moral de um indivíduo ou de uma nação são imorais e, por conseguinte, tornam-se um pecado. Assim, as economias que permitem que um país faça de outro a sua presa são imorais."

"O fim a ser demandado é a felicidade humana combinada com um amplo desenvolvimento mental e moral. Uso o adjectivo moral como sinónimo de espiritual. Esse fim pode ser achado sob uma descentralização. A centralização como sistema é incompatível com a estrutura não violenta da sociedade."

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:18 PM | Comentários (1) | TrackBack

Terraplanagem ideológica e cultural...

Quando não existe ameaça real de invasão territorial, e as relações diplomáticas com outros estados são relativamente amistosas, as nações apostam na mobilização do exército de patriotas anónimos, a favor de causas supostamente nacionais, que mas na verdade, camuflam interesses corporativos instituídos como forças de mobilização social e alienação individual.
Nestes tempos de globalização dos interesses corporativos, torna-se cada vez mais difícil distinguir, o trigo do joio? Os cidadãos mais atentos, apercebem-se que a governação dos seus respectivos países (o fosso ideológico que dividia a esquerda e direita elegíveis está ser cheio com entulho proveniente das obras de terraplanagem ideológica e cultural) sofre de uma doença grave, ainda os eleitores andam a digerir e/ou destilar os resultados das últimas eleições, e já os políticos da sua simpatia preparam acordos e pactos de não-agressão com as forças económicas e financeiras instaladas no terreno, infelizmente, esta doença não preocupa a entidades sanitárias por aí além, apesar dos riscos cada vez mais evidentes do aumento incontrolável das chagas sociais e da consequente debilitação do tecido social que constitui as nações.
A presente geração de políticos prospera dentro do enorme útero global e é alimentada através da placenta por um constante fluxo de puz ideológico neoliberal, dirigido por uma elite poderosa e esclarecida, a qual controla os meios financeiros e os recursos económicos e não despreza o suborno político, e sabe como comprar ao valor de mercado, os recursos humanos mais cobiçados: uma elite de investigadores e técnicos de diferentes áreas do conhecimento para ter acesso a condições de trabalho dignas, tem que ceder aos interesses da elite que domina os destinos das nações. A contaminação neoliberal invadiu a investigação científica, como os interesses económicos e estratégicos é que ditam o que deve ser investigado, ou não e em que tipo de tecnologias serão empregues os avultados recursos necessários ao prossecução de um dado projecto, os cientistas são obrigados a aplicar o único poder que possuem, a inteligência, em prol do desenvolvimento de tecnologias sofisticadas de controle e vigilância dos vários ramos que formam o exército constituído pelos patriotas anónimos de todo o mundo, mais ou menos nacionalistas, um grupo muito heterogéneo ligado em rede a um sistema que sabe como aproveitar e disseminar formas de vulnerabilidade, com capacidade para fragmentar ou aglutinar o exército desarmado formado pelos patriotas anónimos.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:01 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 10, 2004

A inevitabilidade de sermos privados da verdade...

"...sob certas condições, os capitalistas privados inevitavelmente controlam, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É então extremamente difícil, e na maior parte dos casos na verdade quase impossível, para o cidadão individual chegar a conclusões objectivas".

Albert Einstein, no seu ensaio de 1949

Porquê o socialismo

O original do artigo encontra-se aqui

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

O insustentável ruído da solidão!

A densidade, intensidade e profundidade como cada um de nós sente a dor causada pelo calvário colectivo, é diferente de pessoa para pessoa e muda ao longo da vida. (Grande descoberta!) Regra geral somos cidadãos pacatos, cumpridores das nossas obrigações familiares e sociais e claro consideramo-nos pessoas de bem (e não tenho dúvidas de que o tentamos ser, apesar de não cumprirmos esse dever com isenção e imparcialidade, e não raras vezes o fazemos com alguma desonestidade, para que os nossos interesses não sejam molestados, seguimos as regras do jogo, e jogamos a nosso favor... normal.), e formamos uma imensa massa anónima de cidadãos consumidores, eleitores, trabalahdores ou desempregados, etc... integrada na normalidade cultural e social vigente (os dissidentes, os desertores, os marginalizados, os estigmatizados, os ostracizados, e os muitos obliterados da lista a qualquer pretensão se ser gente, não se inserem neste grupo hetererogéneo de cidadãos anónimos, mas activos colaboradores da normalidade, que ao fim e ao cabo acaba por ser a realidade secretada pelas suas próprais glândula, comparando a actividade humana, à produção de fio de sede, levada a cabo pela maioria das espécies de aranhas, com vista a construir e reparar teias, que formam redes, as quais funcionam como armadilhas de morte, para as presas que inadvertidamente ficam imobilizadas, numa das muitas teias e redes colocadas em locais estratégicos de tecido social).
Uma massa humana que responde a estímulos, condicionada por banais desígnios que exigem satisfação imediata, são vínculos de proximidade ao modelo de rotação periódica, trocamos de emoções como quem troca de camisa, mas é tanta a distracção, que vestimos a mesma camisa enxovalhada, uma e outra vez, e nem o cheiro repugnate a suor rançoso acorda os sentidos, estão perfeitamente adaptados a outra dimensão, viem num universo paralelo, governado pela ilusão, vestimos e despimos emoções, subimos ao palco e actuamos, recolhemos ao camarim e choramos convulsivamente a pública ingratidão, desesperadamente queremos nascer, parece contudo que a casca da vida não está disposta a ceder...
Dentro desta normalidade convivemos, trocamos opiniões, delineamos estratégias, formamos grupos de pressão e tornamo-nos adeptos de clubes e partidos, saímos à rua e festejamos ruidosamente as vitórias clubísticas e eleitorais, queimados as calorias emocionais e depois regressamos às pacatas existências banais, fizeram-se promessas, escalpelizaram-se inimigos, exconjuraram-se bruxas e demónios, levamos em ombros os heróis, e por fim acabamos a festejar debaixo dos lençóis, ou talvez não, a apoteose da solidão escondida, envergonha-se o coração de a mostrar, vamos para a rua festejar...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:11 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 09, 2004

A magia do "novo" e da "novidade"

No Programa 2010, foi apresentado um jogo que pretende ser um karaoke caseiro, para reunir à volta do computador família e amigos, recriar o ambiente dos programas televisivos do género: «Ídolos», sem ter que sair do conforto do lar...
Este jogo é só mais um entre muitos, as novidades sucedem-se (o consumidor não pode ter quebras de entusiasmo, não pode perder o fascínio pelo bens tecnológicos), especialmente nos bens electrónicos de grande consumo e na indústria do entretenimento, numa ânsia desenfreada de impedir o indivíduo de estar a sós consigo, apesar de muitas vezes estar só, até mesmo no seio da família ou com os amigos, os amigos e a família funcionam como os apêndices que permitem estabelecer conexões e ajudam o indivíduo a manter-se como uma unidade.
O amadurecimento dos indivíduos da espécie humana assenta num longo e complexo percurso de aprendizagem (passiva e activa); no princípio era o verbo, era! agora, no princípio é a inocência (há casos em que acompanha o indivíduo até ao derradeiro momento), nesta primeira fase da existência, a criança aprende por imitação, as capacidades cognitivas entretanto não param de aumentar e o consequente dinamismo intelectual vai disso mesmo dando provas, o ambiente envolvente pode ser um factor estimulante, mas também pode contribuir para uma certa estagnação da aprendizagem individual.
Entretanto, o indivíduo pode ter perdido a inocência, mas ganhou a ingenuidade, que pode, tal como a inocência, integrar esta fase de transicção no amuderimento individual, ou instalar-se para o resto da vida. A amálgama de informação, conhecimentos e experiência não para de aumentar, o indivíduo está permanentemente exposto a mensagens culturais que pretendem incutir-lhe hábitos e forjar dependências, consome lixo informativo em quantidades colossais, apesar desse facto por si só representar um problema grave, acontece que esconde algo ainda mais grave, juntamente com esse lixo cultural, social e moral, ingere pequenas quantidades de vários tipos de venenos espirituais que o metabolismo mental não consegue expelir, estes venenos degradam o sistema imunitário cerebral, interferem com a capacidade de criar, de gerar ideias independentes e sorrir quando amanhece um novo dia.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sinto o tempo a correr contra mim, sempre senti...

O tempo... poderoso dissolvente
do querer...
uma pléiade de actividades
consome o tempo e o espaço
e culmina na sensação
de embrulhar a alma individual
num manto de saturação...

O lema é fazer das tripas coração
dar sentido à existência
e não ser engolido
nas areias movediças
atraído pelo chamariz
da evidência irrefutável
oceano de apatia incomensurável...

Angariar fundos de subsistência
seguir sábia e decente postura
nem mártir, nem vida de amargura
o pior é quando o cidadão
padece de congénita incontinência
e só lhe ocorrem ideias
de embaraçosa impertinência...

O sucesso desagua na baía ao lado
e a vontade é tragada
pelas vagas da insubordinação
contudo compreende o cidadão
que faz sentido esbracejar
não pode da face do mundo
ser banido...
ainda que tenha de nadar
na crista do desespero
para não sufocar, às mãos do medo...

Não lhe ocorre desprezar
a seiva vital ameaçada
pelas trepadeiras oportunistas
propaganda e falsos argumentos
eleiam-se à árvore da liberdade
onde despontam as inflorescências
das intímas conquistas...


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:55 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 08, 2004

O exercício da cidadania terá que evoluir para algo diferente do habitual cruzar de braços e encolher de ombros; ou será que a situação política, social e económica actual é favorável ao cidadão comum?

Tribunal Mundial Sobre o Iraque
"Porque ao exercício da cidadania compete a acção, volto aqui a anunciar a iniciativa de âmbito internacional que resultou da ilegítima intervenção militar no Iraque."
Ver aqui
e aqui

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:44 PM | Comentários (1) | TrackBack

Entre o céu cor de fuligem e a terra cor de malva

Este céu cor de fuligem
enferruja-me o coração
tento enganar a vertigem
de vagar à deriva na imensidão
como quem procura a origem
das tempesdades de ilusão

A terra foi prometida
a esperança foi algemada
e eu sonhei... que a terra
tinha sido escolhida
para ser a minha morada
o lugar perfeito...

Montei-me no corcel alado
mas depressa percebi
que caminhar pelo meu pé
mais loge me levaria
quizesse eu ser monge
ou moço de estrebaria.

A brisa sopra de feição
seja eu dissidente
ou héroi da nação
valente ou rês mortal
trepo ao cimo do monte
e contemplo o quintal
admiro as plantas em crescimento
e visto-as de poesia intemporal...


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:45 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 07, 2004

A boiar em tormento...

Um rosto assombrado
uma página vazia, um olhar desgovernado
lábios cerrados, língua entumescida
do falar em demasia
um sonho destroçado, um gemido de agonia
acordar amordaçado pela heresia.

Como é belo o teu rosto inquieto
mergulhado num soluço orgulhoso
de mar interno revoltoso
uma enxurrada de lágrimas
despenha-se sem estribeiras
na praça pública
o teu olhar privado trespassa fronteiras
e tropeça em armadilhas rotineiras.

Corre seiva indiscreta no leito abandonado
flutua o coração estremunhado
nas asas da intuição
trago na palma da mão
pérolas de orvalho
e jóias de estimação
aos céus lançei papagaios de papel
pintados com as cores da imaginação

Pétalas coloridas iluminam o caminho
estrelas incandescentes, humano pergaminho
regaço delicado onde repousa o mundo
nas árvores intemporais
pendem frutos maduros
numa época de intíma agrura
a magra esperança que perdura
no calmo boiar de raiva contida
acalenta o renascer da paz adormecida.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:14 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 06, 2004

Pensar à rédea solta...

«A estrutura convencional de interpretações tem servido muito bem aos interesses daqueles que manejam as rédeas.»

Noam Chomsky

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:12 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 05, 2004

Engordados com o soro da mentira, não admira que desconfiemos da verdade! Será porque denunciar a mentira onde quer que ela esteja alojada, mesmo que seja no nosso próprio coração, é uma tarefa demasiado humana?

O mecanismo intelectual humano envolve-se em batalhas argumentativas que nem sempre resultam em esclarecimento minimamente congruente, não se pode falar de verdade e de mentira, quando de facto, o que acontece as mais das vezes, e com a maioria dos cidadãos, é haver uma deposição de equívocos, mitos, fragmentos de realidade estereotipada, superstições para todos os gostos e feitios, algum conhecimento retalivamente bem fundamentado, umas noções vitais, etc... pode-se afirmar que o substracto cultural individual é constituído por amálgama heterogénea pouco edificante, em termos morais e espirituais, contudo é nesse redemoinho nauseabundo que o pensamento individual germina, a dinâmica criativa do pensamento podia transformar o veneno letal em antídoto libertador, só que o processo de conversão não é espontâneo, tem que ser aprendido, e para ser aprendido tem que ser detectado, e para ser detectado as circunstâncias ambientais deverão ser favoráveis, ou então, extremanente adversas, a fome e o frio tem o condão de abrir caminho, nem que seja através do mais denso bréu existencial.
As consequências práticas do acto de pensar (que podem ser desastrosas) não são perceptíveis de imediato, (principalmente as que determinam as mentalidades predominantes) e quando o cidadão comum chega a saber, já é tarde, paga com uma existência desperdiçada, a desatenção, o quantidade de mal ou bem produzido, afectou-o irreversivelmente.
A amálgama cultural assimilada é transformada em ser, como base de dados ininterruptamente incorporada, no fundo esta é a matéria a partir da qual vamos compondo a obra prima, que devia representar o maior orgulho da nossa existência, a nossa própria identidade, essa é a obra em que podemos trabalhar toda a vida, e quanto mais tempo a ela dedicarmos, mais aptos estaremos para dar aos outros o que de melhor a condição pode conceber no que concerne à comunicação com o nosso semelhante.
Creio que normalmente atribuimos ao pensamento uma espécie de natureza volátil, semelhante à dança característica das chamas produzidas pelo fogo, que se transformam em fumo, e depois, sem deixar rasto (o que não corresponde à verdade, o rasto nunca desaparece completamente, transforma-se em memória, a natureza da memória é que varia, por um lado, formam-se memórias de conteúdo intoxicante, que envenena o delicado equílibrio ecológico psico-emocional, do qual depende o crescimento sustentável e harmonioso da identidadeindividual; por outro lado, formam-se memórias que representam o rasto das influências benignas de carácter intemporal, eu diria que essas memórias formam o rasto inspirador, a reserva de calor humano que conforta a alma, sempre que a dor moral atinge uma intensidade quase insuportável.) se evolam na imensidão celeste; mas os pensamentos são partículas de ser que se libertam na forma de energia criativa, paralelamente, e por vezes de forma confusa, forma-se uma teia de pensamentos obscuros apoiada numa atitude desleixada de fraca exigência ética, estética, intelectual e cultural, os resíduos tóxicos resultantes de uma linha de produção de «pensamentos» que não respeita o ambiente onde se insere, mas do qual depende para funcionar, pode pôr em risco o delicado equilíbrio do universo interior, onde afinal, está radicada a consciência, que é identidade, «matéria» e essência reconhecia como Ser.
Paulatinamente, adquirimos a forma do que pensamos, que vamos enchendo com os sedimentos do que sentimos, muita água correu sobre as pontes e muito punhado de sal foi consumido, na tentativa de tornar a existência menos insípida, antes que nos fosse possível começar o trabalho de reciclagem do lixo cultural acumulado nos locais mais recônditos da memória, em que modelo educacional fomos encaixados? que tipo de camisa de forças cultural nos enfiaram para nos impedir de resistir? Crescemos, claro! Seremos, ou estaremos sequer interessados em limpar e recuperar o ambiente contaminado por uma conbinação letal de resíduos deixados por cadeias de produção de pensamentos mal dimensionadas, disfuncionais e desestruturantes em matéria de desenvolvimento sustentável da identidade individual?!
As repercussões da poluição cultural nas opções de vida, nos comportamentos, nos hábitos, e na concepção que o indivíduo tem de si mesmo, são desastrosas e tão mais desastrosas quanto de facto, tem o poder de o influenciar a patir da penunbra existencial, onde navega completamente à deriva, não sem deixar de seguir o chamamento das muitas sereias que têm a missão de o desencaminhar, e empurrar para um abismo, onde jamais será capaz de descobrir quem é, nem o que fazer da existência, esse morrer contra as falésias da insensibilidade, empurrado pelas correntes da ignorância vigente, sem ter oportunidade de navegar num mar llimpo de monstros e demónios, como os que povoam a existência do acordar da vida, do primeiro vagido ao último suspiro, quando a morte acalma as chagas da insanidade que desabrochou contra a vontade da vida, mas que por razões culturais, a impediu de ser plenamente vivida.
A «Liberdade» de opção, não é pura ficção, de facto é real, palpável; com o passar dos tempos alguém se lembrou de a tornar intragável, um arbusto demasiado espinhoso, para servir de alimento, quanto mais opção de vida; o melhor, essa é a convicção generalizada, é seguir pelo caminho fácil, por uma questão de coerência, vamos designá-lo: a falsa via, o caminho da mentira. O caminho da mentira optou pela liberdade de aproveitar a situação vigente tal como ela se lhe apresenta sem grandes considerações morais, o caminho da mentira é o caminho do oportunismo e do saque, quem vier a seguir que limpe o lixo e arrume a casa, com o maior respeito pela legalidade e profunda deferência pela normalidade. O caminho da mentira, por uma questão de coerência é o caminho do medo, o método adequado ao desenvolvimento das competências para um impecável desempenho da servidão voluntária.
O caminho da mentira, não se distingue do opção individual de perpetuar a servidão voluntária, não me parece ser necessário recorrer a nenhum mestre de ciências ocultas, professor catedrático, iniciado ou filiado em seitas, ordens ou outras organizações secretas (infelizmente este género de organizações foi fundada para promover a mentira económica, social, política, cultural, teológica, etc... com o intuito de perpetuar a sua influência no mundo e criar condições para intervir na evolução da história da humanidade a seu favor, neste sentido podemos afirmar que a história chegou ao fim, ou corre o risco de caminhar nesse sentido, à medida que uma elite adquire poder suficiente para impor uma dada ordem à escala universal); aliás, de certa maneira, quando o cidadão opta pelo caminho da mentira, torna-se simpatizante (adepto ou militante de base) de alguma das muitas seitas (as que formam a cúpula catedral onde a elite mundial nos reza pela pele, não estão acessíveis ao cidadão comum, nem mesmo sabe que existem, e se sabe, não desconfia que passa por lá o desgoverno das suas vidas) ou mais concretamente de alguma das muitas subsidiárias instaladas em pleno solo social, com as quais as pessoas se identificam e se entregam de alma e coração, infelizmente seguindo uma lógica de mentira cuja matriz cultural, foi integrada no seu cortex cerebral, quando a criatura ainda acreditava na existência de fadas boas e bruxas más.
O caminho de mentira é o caminho da falsa veneração da vida, como podemos amar, ou sequer admirar, se optamos por viver na obscuridade, fugimos do esclarecimento como o diabo da cruz, preferimos contruir um altar de ilusões e adorar as imagens e visões e sombras fantasmagóricas emarenhadas nas redes de acabrunhamentos, nos medos e subcosncientes embaciamentos que turvam a consciência de identidade e fervem no lume brado da desigualdade, a inércia cultural que levou à perda da independência individual, assim se prepara um exército de escravos prontos a combater pelas causas forjadas por amos sem escrúpulos, que os devotos bejulam e apoiam, para que não lhe falte o soldo, o caminho de mentira semeia a discórdia aliás, necessita dela para sobreviver, as élites parasitárias precisam de explorar de forma exaustiva as múltiplas formas de violência, que o caminho de mentira pode gerar, para continuar a impor uma ordem que de maneira alguma é favorável ao cidadão comum, aliciado por falsas esperanças e contaminado por ilusões que nunca se tornarão realidade, continua inevitavelmente a servir a causa da mentira, como se não fosse possível resistir, romper laços, e arriscar desobedecer às regras de um jogo perverso, que culmina com a aniquilação da identidade individual.
Os investigadores das neurociências recorrem às mais recentes técnicas de imagiologia (IMR), esses cientistas procuram compreender o funcionamento do cérebro, e para isso precisam de estudar os biomecanismos cerebrais, as funções bioquímicas que ocorrem no seio desse maravilhoso orgão, já foram identificados neurotransmissores (como a serotonina que interfere na percepção; a dopamina, que funciona como um inibidor cerebral, e segundo alguns especialistas, a esquizofrenia pode estar relacionada com o deficiente fluxo depomina que funciona como regular do fluxo de informação que deve chegar a certas áreas do cérebro; as endorfinas, os analgésicos naturais produzidos no cérebro, etc...) e neuromodeladores, estes compostos bioquímicos tem influência no humor humano, interferem com as emoções, digamos que existem factores bioquímicos que podem considerar-se catalisadores da agressividade humana (sabe-se que um baixo nível de serotonina pode determinar um aumento de agressividade), a investigação prossegue e provavelmente num futuro não muito longuínquo, oe enigmas do cérebro humano (espero que os conhecimentos adquiridos não venham a ter uso indevido, mas...) serão revelados pela ciência, entretanto não devemos esquecer que são sociais e culturais, os principais factores que perturbam o delicado equílibrio do mecanismo cerebral.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:51 AM | Comentários (5) | TrackBack

outubro 04, 2004

Humilhação... consentida!

"A livre escolha entre uma larga quantidade de bens e serviços não significa Liberdade, quando estes bens e serviços mantêm o controlo social sobre uma vida de esforço e de medo --- ou seja, de alienação."

Herbert Marcuse, O Homem Unidimensional

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

UTOPIA

"Um mapa do mundo que não inclua a Utopia não merece nem ser olhado, pois deixa de fora o país no qual a Humanidade está sempre a desembarcar"

Oscar Wilde

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

«Arizona 3» "Questões de Moral"

Tenho curiosidade em saber se algum dos amigos que visitam este blogue porventura ouviu o «Arizona 3», transmitido ontem às 23.00h na Antena 2, o terceiro programa (não sei se último) que Joel Costa dedicou às «questões de moral» desencadeadas pelo modelo de globalização em curso, que (em meu entender) deviam preocupar qualquer cidadão que ainda acha graça à liberdade de pensar e ser...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 03, 2004

Qu'on pense et qu'on aime...

L'aurore s'allume,
L'ombre épaisse fuit;
Le rêve et la brume
Vont où va la nuit;
Paupières et roses
S'ouvrent demi-closes;
Du réveil des choses
On entend le bruit.

Tout chante et murmure,
Tout parle à la fois,
Fumée et verdure,
Les nida et les toits;
Le vent parle aux chênes,
Toutes les haleines
Deviennent des voix.

Tout reprend son âme,
L'enfant son hochet,
Le foyer sa flamme,
Le luth son archet;
Folie ou démence,
Dans le monde immense,
Chacun recommence
Ce qu'il ébauchait.

Qu'on pense et qu'on aime,
Sans cesse agité,
Vers un but suprême,
Tout vole emporté;
L'esquif cherche un môle,
L'abeille un vieux saule,
La boussole un pôle,
Moi la vérité.

Victor Hugo, Poésie (Morceaux Choisis)

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:07 PM | Comentários (2) | TrackBack

As estações fora de moda, ou a moda fora das estações!

O mais provável é que algum professor munido de um manual ilustrado, nos tenha tentado convencer que o planeta Terra (esquecemo-nos com frequência que é o lar comum da toda humanidade, não existe outro e se vier a ser descoberto um planeta no vasto universo onde seja possível fundar colónias humanas, não deixa de ser ridículo, macabro e infame, reduzir a ruínas o lar comunitário que albergou todas as gerações, de todas as culturas, de todos os credos, de todos os bárbaros e de todos os homens e mulheres de boa vontade e espírito são...) girava em torno do Sol (a estrela responsável pela existência de vida neste belo planeta azul, ao que parece, uma espécie de lugar ideal, onde se reuniram as condições ideais ao desenvolvimento de sistemas de vida tão complexos quanto diversificados), esse movimento eliptíco ficou conhecido como movimento de translacção, em resultado deste movimento o planeta desenvolveu ciclos climáticos regulares, identificados pelas diferentes estações do ano, os ciclos de vida animal e vegetal prosperaram, adaptando-se às transformações ciclícas das estações, milhões de anos passaram, até ao momento em que o ser humano desenvolveu uma ferramenta, uma espécie de bico bastante rijo que lhe permitiu quebrar a casca da dependência estritamente instintiva, desde então que a espécie humana tenta aprender a viver a liberdade que conquistou, um tarefa ingrata, para uma criatura com pés de barro, que ainda não compreendeu como conciliar a parte de si mesmo que obedece à lógica instintiva, que continua a ter um papel activo na organização do complexo sistema que faz funcionar o ser humano.
O passo de gigante que a espécie deu (sem ofensa para o Armstrong), foi ter conseguido estabelecer uma espécie de dialéctica genética de alto rendimento criativo com o ambiente envolvente, desenvolvendo extraordinárias capacidades de adaptação mental, se nos dermos ao trabalho de comparar a grande diferença entre o modelo de adaptação seguido pela maioria dos animais e do ser humano, essa grande diferença está patente na forma como cada espécie animal desenvolveu uma estratégia de especialização morfológica extremamente eficaz que permite ao animal sobreviver em circunstâncias ambientais extremas, parece que a espécie humana conseguiu quebrar esta regra ao «optar» no desenvolvimento de um único orgão, o cérebro, esta estratégia veio a permitir o desenvolvimento de ferramentas, que permitiram ao homem seguir um modelo de adaptação completamente distinto das outras espécies, que continuaram a seguir o modelo que «apostou» no desenvolvimento de invríveis capacidades de adaptação, mas que os tornou «escravos» do racionalismo genético, ou seja, a linha evolucionária seguida pela maioria dos animais e plantas foi entregue ao arquitecto paisagista mais intemporal que se conhece: A Natureza; ora a natureza sabia instintivamente, que os ciclos de vida no planeta Terra tinham que seguir uma estratégia de desenvolvimento sustentável, os recursos não podiam ser desperdiçados e desse modo, e daí a evolução das espécies «obedeceu» á lógica da distribuição igualitária, cada espécie teve que aproveitar a oportunidade que lhe era concedida para encontrar o seu lugar no mundo.
A espécie humana perdeu-se... não compreendeu que tinha feito uma opção, e que tinha de ter uma estratégia existencial de integração, não de auto-exclusão, ou de concessão de direitos exclusivos de exploração, as falsas adaptações, originaram malformações culturais e disfunções existenciais e o destino humano foi e é sucessivamente mal interpretado, por membros da espécie que pretendem subjugar a história, e até mesmo desviar da rota o planeta, para ter a ilusão de que dominam a vida, e são donos da verdade, não pode a espécie, permitir que a liberdade conquistada, seja desperdiçada de forma tão ignomoniosa, pelos elementos que optaram por desacreditar a espécie e pôr em perigo a sobreviência da mesma, enquanto se vão entretendo a dizimar tudo quanto cresce, tudo mexe, tudo quanto vive...
Ainda não me esqueci que o assunto em agenda é a moda e os modistas, preciso de tempo, o engenheiro da biogénese... a moda segue as estações, e recebe passageiros em todos os apeadeiros... é bonito viajar em carruagens animadas e conhecer pessoas divertidas e interressantes, e ir ao bar tomar uma bebida da moda, um iogurte de aloé vera, e dar largas à imaginação e à fant(asia)...
A natureza é desinteressante, monótona, monocromática, estéril... as estações são sempre iguais (infelizmente, parece que outra moda está a pegar!), séculos e séculos, de estações sincronizadas podem de facto ser aborrecidas e causar um tédio de morte, contra o qual os modistas se revoltaram, pegaram na fantasia deram largas à imaginação, almejavam dar a volta ao mundo em passerelle, passar pelas principais cidades e em todas fundar uma feira de vaidades, e implementar programas divertidos, como podiam continuar as pessoas a submeter-se à tirania dos ciclos da vida, e celebrar festas de agardecimento em honra das forças da natureza, se bem vistas as coisas todos os dias podiam ser dias de festa! As monôtonas estações do ano não estavam em condições de competir com as recém inventadas estações mundanas... a natureza expressa-se numa linguagem que não pode rivalizar com a humilhante linguagem de que a moda tanto se orgulha (note-se que estou a considerar a moda como um conceito invasivo, que penetra todos os sectores da sociedade e consegue embaraçar muita gente notável que julgaríamos imune a tais humilhações), humilhante!!! Realmente parece absurdo, inverosímil... a moda, uma actividade criativa, espectacular, promissora, divertida, jovem, dinâmica, a perfeita simbiose entre cultura e tecnologia, a moda que promove e protagoniza o uso de materiais reciclados e recicláveis, quem não viu já a moda a passear de mão dada com a ecologia nas mais famosas passerelles mundiais... o espectáculo deve prosseguir, tem que prosseguir, tem que iludir, tem que alienar, em suma, tem que escravizar ... a estratégia da moda é atrair consumidores à elaborada teia, amaciar-lhe a vontade e sugar-lhe o tutano...
Todos estamos conscientes que a marcas que produzem e vendem moda deslocalizaram a produção para áreas do globo que lhes permitem produzir a baixos custos, moda transformada em produtos de consumo (a moda antes de ser produto de consumo, passa pela fase de conceito, uma espécie de suporte ideológico capaz de convencer, comover, provocar e enfatizar o óbvio) que serão distribuídos à escala global pelas lojas das marcas e vendidos a preços exorbitantes, um duplo roubo, que não parece incomodar-nos muito, quando um filho nosso exige (porque pedir não será a palavra adequada para definir a forma enfática ou mesmo, insolente usada pelos nossos filhos quando a satisfação dos seus caprichos está acima de qualquer noção de bom senso... será que estarei a exagerar?), um determinado produto que é moda, ou moda que é produto, ou as duas coisas juntas, somos roubados às claras e calamos, quer dizer, consentimos, mas o roubo verdadeiramente ignóbil, que devia ser declarado crime contra a humanidade foi cometido a montante, as empresas instalam-se em casa alheia, devassam a vida das pessoas, destroem a economia tradicional, sem alternativa e confusas as pessoas são cruelmente submetidas a um regime de trabalho próximo da escravatura. As modas criaram estações alternativas, mas os comboios deixaram de parar nos apeadeiros mais humildes...
Mas as modas não terminam por aqui... requerem muita investigação, muito ensaio, muita contra-amostra, muito trabalho monótono, muita chatice que podia ser evitada, a qualidade dos materiais, a qualidade de fabrico, a qualidade é o aspecto mais caricato quando se fala de moda.... em alguns sectores a inovação, o design, e outros requisitos da moda não prejudicam a qualidade intrínseca do produto final, em contrapartida em alguns sectores a moda serve para encapotar a falta de qualidade da matéria prima usada no fabrico do produto, o qual só muito remotamente pode ser considerado de qualidade, mas a moda opera milagres.
A moda como meio de promoção do consumo deve ser considerada inimiga do meio ambiente, como qualquer outra actividade que estimule ao consumo de bens supérfluos, estamos metidos numa camisa de forças, a lógica predominante e conveniente garante-nos que o consumo é a formúla sagrada da prosperidade económica, da qual depende a estabilidade social, a mesma lógica garante-nos que serão encontradas soluções tecnológicas (a tempo) para os actuais problemas ambientais, essa lógica só nos convence parcialmente, no entanto tem o poder de nos dividir, o que significa, continuamos à espera de soluções políticas, tecnológicas ou outras, entretanto, abstemo-nos e vamos afogando as mágoas em consumo, saltitando de moda em moda e estação em estação, talvez um dia ainda nos arrependamos de ter entrado neste comboio.
Moda é diversidade, criatividade, alegria, cor, movimento... então porque raio temos que suportar o ambiente de opacidade homogénea pintada com as cores da iniquidade, que revestem as estações da moda, fantasmas e fantasias quotidianas... entretenimento, crime e absolvição...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:20 AM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 02, 2004

Devil's pupils...

"The Order of the Skull and Bones" By Kris Millegan

Para reflectir....

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:17 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 01, 2004

queria sair à rua, mas ainda só consegui espreitar ao postigo...

A questão fundamental da vida é saber o que se deve fazer com a mesma, deve o ser humano seguir os instintos, ao ponto de não ser capaz de controlar os desejos, ou seja o prazer deve ou não ser disciplinado? Será que é assim tão difícil despertar a necessidade de beleza sem associações libidinosas? A ascese é a via que nos dá a conhecer as deslumbrantes paisagens da simplicidade, a humildade, a auto-disciplina, são a medicina natural contra o êgoismo, quando um ser humano faz depender a sua felicidade da posse material e da obtenção de prazer e satisfação dos dsejos carnais uma das prioridades da existência, faz de si mesmo um escravo dos sentidos, quando os sentidos podiam ser educados para a ajudar a compreender a natureza da sensibilidade, e da sensualidade, que nada tem que ver com a sexualização da vida, não me parece que a vida de um ser humano possa assentar no factor sexo, por mais gratificante que as práticas sexuais sejam, a moderação não pode ser substituida pela depravação. Cada membro da espécie humana tem necessidade de harmonia interior como de pão para a boca, e não tenho duvída alguma que o indivíduo deve esforçar-se por compreender o funcionamento da sua líbido, porque raio deve ser um escravo do sexo, só para seguir o padrão de normalidade vigente?
Cada época forja padrões de comportamento, que não são inocentes, muito pelo contrário, a intenção subjacente é desviar a atenção dos cidadãos das reais necessidades que vão ficar por satisfazer, o sexo deve ser o meio mais poderoso de manipulação de massas, e estamos numa época em que, se por um lado não tenho dúvidas, que a sexualidade é vivida com muito mais naturalidade, por outro lado, está a tornar-se uma obsessão que em nada beneficia a saúde psicológica e afectiva das pessoas, que as leva a encarar o sexo como panaceia universal, uma cura milagrosa para todas as mágoas, o que não é verdade.
De que modo definimos o que é essencial do que supérfluo e superficial, que termos de comparação, e instrumentos de aferição estamos munidos, que genéro de conceitos, valores, norams e regras servem de referência e suporte existencial e de que forma são assimilados e interferem na evolução da noção que temos de nós próprios, e como nos vemos, e para onde desejamos ir, em que tipo de «animal» cultural nos desejamos transmutar? Estas questões não podem ficar se resposta, e deve ser o próprio, a espreitar para dentro do caldeirão onde fervilham os diferentes ingredientes que constituem a sua personalidade e discernir o que deve acrescentar ou excluir de manaira aque o resultado final seja satisfatório, se o não fizer, vai certamente ceder às pressões ambientais e aderir a hábitos que vão alterar comportamentos, que podem não ser os que melhor preenchem as necessidades individuais, mas são, regra geral os que servem os interesses instalados, em detrimento da liberdade pessoal.
Muito se fala de assédio sexual, e faz todo o sentido denunciar situações em que uma determinada pessoas é sujeita a esse tipo de chantagem, no entanto esquecemos que existem poderosos lobbies que fazem do assédio sexual o principal meio publicitário, contam com a conivência das autoridades e contornam todos os entraves legais para conseguir atingir os seus objectivos ou seja, «comer» o consumidor, o objecto sexual mais cobiçado, sem distinção de classe, de formação ou grupo etário.
O sexo intromete-se nos mais variados «negócios», intercede favoravelmente junto das mais distintas instâncias e deixa nódoas nos lençóis tecidos no mais puro linho conjugal. Estes pormenores podem parecer irrelevantes, ou mesmo comezinhos e irritantes... pormenores, ou esteios da personalidade?
Como faz o cidadão comum o balanço do dia? Quais foram as linhas de conduta predominante? Caso tivesse que responder a um inquérito interno, e saber que a veracidade das respostas seria submetida ao melhor detector de mentiras que existe: a consciência humana (eu sei que podem não concordar, mas estou consciente que isso não vai interferir, com a linha de pensamento que desejo desenvolver), sabendo que não havia outra saída, mas ser absolutamente honesto consigo mesmo, como descreveria de forma sintética, os princípios, valores, conceitos que formam a trama constituída pelos fios e texturas do pensamento e pela cores e matizes do sentimento, intricado simbiótico, do qual resulta a acção concreta que preenche um dia normal?!
Mas que interesse pode ter semelhante exercício moral? O tempo é demasiado caro, para ser desperdiçado de modo tão inconsequente! Isso já eu sei, é consensual, e... actual até à medula. Mas, não deixa de ser interessante, e desconcertante...
Intriga-me o tratamento que damos à memória dos dias, camada após camada submergida pelo pó do esquecimento, fragmentos da realidade exterior «sentida» à distância (há que manter a necessária atenção ao que de facto interessa, é ser bem sucedido, e isso exige entrega total) que não encaixam uns nos outros, por isso, não fazem sentido. Como conciliar então os interesses privados, a actividade profissional, a defesa do clã, com questões que de modo algum classificamos como inadiáveis: o aquecimento global, o modelo de globalização em curso, as diversas formas de degradação a que vamos assistindo,não digo que impavidamente, mas tal como salientei, a uma distância conveniente, que não nos comprometa, que não ponha em risco qualquer vantagem que entretanto acumulamos, ou ganhamos como prémio de bom comportamento, ou quiçá, de consolação! Apostamos, no único cavalo, que nos parece seguro: A HIPOCRISIA, contradição, claro que não!

Crescem nas trincheiras culturais
rebanhos de criaturas formais
tem à sua guarda estratégicos arsenais
que irão equipar os exércitos imperiais
preparados para intervir
onde mais e melhor convir
em honra dos valores ancestrais
fabricam-se armaduras culturais
distribuem-se pela população estudantil
para habituar a mente a reconhcer
o formato da verdade...
instruir e formar mílicias culturais
carregam voluntariosos, os pecados universais
aceites como fardos existenciais
são atiçados contra os adversários culturais

Nas trincheiras culturais, semelhantes a currais
pernoita o rebanho, ao longe ecoa o ressonar de caserna
são bichos senhor a sonhar com a paz eterna
até ao dia em que por sina ou condão
irão a pendurar nos ganchos dos talhos culturais
e são vendidos a retalho, a quem der mais
para cozer ou grelhar, no inferno ambulatório

crescem crianças normais
em trincheiras pedagógicas
formam turmas especiais
e recebem aulas de euforia patológica
são iniciados à demagogia ontológica
que despertam reminescências culturais
o rosto e o rasto dos antepassados mortais

Mas trincheiras culturais são trilhos e leitos
dos rios que atravessam diferentes paisagens
para ir desaguar no mar universal
que banha todas as enseadas e baías humanizadas
que evoluiram em culturas diferenciadas
algumas das quais desenvolveram tumores civilizacionais
que comeceram por ser manias culturais
até se transformarem em problemas globais

Os sonhos secam antes de florir
dentro das trincheiras culturais
onde crescem crianças esculpidas
pelo ribombar estridente
das bombas culturais a rebentar
cravam-se na tenra massa encefálica
estilhaços de pavor
causam danos descritos pelas imagens de horror
desconhecem as crianças que são guerras banais
entre grupos adultos fundamentalistas
competindo entre si, pelas melhores pastagens
pelos picos mais elevados, pelas neves eternas
por um lugar de destaque na trincheira comunal
não se importam de chafurdar em imundície existencial
e rastejar no vómito cultural
e enterrar a liberdade pessoal
por muitos considerada peçonhento animal
alguns ainda preferem resistir
à servidão cultural...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:31 AM | Comentários (4) | TrackBack