Assim que deitamos a cabeça de fora, inalamos o odor fétido
dos sedimentos culturais provenientes da lixeira da humana
em permanente decomposição; os perigos espreitam
e são letais, vamos ser embrulhados em folhas amarelecidas
de jornais, embutir a mente, dar-lhe a forma
de uma boca negra de canhão, competir é o lema
deturpar a essência da vida a razão
poder-se-ia que começa assim, o degredo humano
escorraçado do paraíso, o recém-nascido
é enfiado numa camisa de forças cultural
acabará vencido, a partir do âmago, acalentará
o desejo de ser um competidor empedernido
afogado numa atmosfera carregada de mitos
assombrosos, onde predominam correntes de eleição
à medida dos elevados desígnios da imbecilização
mas de pequeno se torce o pepino
ilustra-se a realidade com distorções irreversíveis
jogos e brncadeiras que impõe uma ordem
um jugo, um só modelo de afirmação
supostamente benigno, e por isso mesmo, não é temido
a tragédia vai perdurando impune
a mente infantil, vai ser sistematicamente abusada
corrompida e ultrajada, objecto de exploração desenfreada
a mãe, que o envolve em faixas de amor imaculado
acaba por cair na tentação, de exibir o filho
como se ele fosse um troféu, um ornamento de classe, uma ilusão!
aquele ser delicado, criado a partir do seu sangue e dos seus genes
terá, obviamente que ser preparado, para competir com sucesso
dentro das regras da insanidade vigente, com o seu semelhante
será um vencedor, para orgulho da mãe que o ensinou a navegar
na insalubre atmosfera de uma sociedade
que humilha os mais desajeitados, culpados sem direito a recurso
agrilhoados ao infortúnio de serem não-competitivos
carregam o estigma de serem um fardo
uma maldição devoradora de recursos
uma epidemia de parasitas tinhosos...
Carinhosamente, a mãe aperta o seu rebento contra o peito
como esclarecida criatura, que é, empenhar-se-á em colocar
o filho, num pedestal de tortura, portal da cultura
da imbecilidade elevada à categoria de sucesso individual!
As instituições não se compadecem
da vergonha e embaraço, que sentem as humanas criaturas
impotentes para chegar aos ramos
mais altos da árvore da (a)ventura social
forma-se-lhes na garganta um nó temido
uma rede emarenhada de múltiplos complexos de inferioridade
será Deus a escrever por linhas tortas?
será a humilhação, uma oportunidade de não-viver?
uma porta de comunicação entreaberta, através da qual
os deuses segredam aos humanos formas convenientes
de mergulhar nas fossas abissais das humanas ambições
deuses em formação, a que não repugma vexar
o semelhante incauto que no caminho se lhes atravessar
Os tempos mudam, as entranhas da vida são revolvidas e
das cinzas voltam a crescer montanhas, imponentes e sagradas
nos seus pináculos percorridos por ventos ciclónicos
está escrita uma mensagem simples
escrita pelo fogo da vida em gestação
o ser humano, antes de ser animal de alta competição
foi, é, e será... fonte de mútua inspiração...
talvez a maior blasfémia que o ser humano possa cometer contra a Vida,
seja negar esta verdade imanente à natureza humana
pode ter a falsa educação conseguido o prodigioso «milagre»
da morte da consciência, e nesse caso
todos os dias passam por nós, moribundos!
que não tendo desenvolvido, a partir da infância, os anticorpos
debeladores das infecções culturais, tornam-se doentes crónicos
vítimas das toxinas produzidas por um modo de pensar afectado
pela imposibilidade de viver plenamente a liberdade de criar
e difundir a arte suprema de comunicar
sucumbiu à sedução de competir para vingar!
Vingar, pergunto eu, o quê?! A Vida, não a sinto eu
como uma vingança, mas uma necessidade
de permutar a esperança na liberdade de poder expressar
o que, de melhor a alma consegue criar
e para que isso aconteça, inspiro-me nos meus semelhantes
infelizmente, nem todos são inspiração, que se cheire!
a vida não deixará de ser uma oportunidades de partilhar
actos de expiação, mesmo num ambiente cultural em que predomina
a incompreensão, o desatino, a alienação, e o pesado fardo da resignação
a Vida não pede vingança, nem competição
e mesmo que alguns cientistas (sabe-se lá a defender que interesses!)
teimem em «provar», que a capacidade de adaptação das espécies
depende do seu potencial competitivo, tenho fortes razões
para não dar abrigo a qualquer forma de tirania da liberdade
e da consciência, acredito, e muito, no saber intuitivo
que não pode ser confundido com ruminações pseudo-intelectuais
sem sentido, a intuição é uma forma de comunicação primordial
em simbiose comunicativa com o universo espiritual.
Crianças e adultos mereciam aceder a genuínas alternativas culturais
essenciais ao desenvolvimento da imaginação criativa
ainda há espaço, para acreditar que a vida é permuta interactiva
na qual todos têm lugar, mesmo que não esteja reservado
no clube dos que se deixaram contanimar pelo desejo de controlar
o destino da humanidade, nem todos se podem deixar amodorrar
pelo medo de reconhecer a memória desse cheiro infecto
que levanta uma barreira contra o ensejo de liberdade.
A evolução da cultura ocidental, apesar de, em muitos aspectos ter conseguido dar ênfase à questão humana, e ao colocar o Homem em lugar de destaque, acedeu em garantir algumas das regalias (enquanto as classes sociais abastadas e ociosas esbanjavam a esmo recursos que podiam ser empregues no desenvolvimento social e desse modo aliviar a canga que os mais desfavorecidos tinham que carregar) sociais e direitos individuais que até então eram um privilégio das classes dominantes. No entanto, a igualdade (de oportunidades) nunca foi uma realidade; a alfabetização massiva, os direitos cívicos garantidos, e todas as mudanças favoráveis que proporcionaram uma notável melhoria das condições de vida aos cidadãos do Velho Continente (que não se estendeu a todos os países, como os portugueses bem sabem), não conseguiram abolir certas barreiras que acabam por quase ser dadas como extintas, continuando no entanto a existir quase clandestinamente, a fabricar diferênças e a dificultar o acesso (em certas circunstâncias é mesmo vedado) a certas esferas de poder e influência, onde realmente se decide o destino de milhões de cidadãos, que continuam a ter direito ao seu voto, e acesso aos mais diversos bens de consumo, sem se aperceberem que nas suas costas alguém está a decidir por si um modelo de sociedade em formação (que a sociedade não é uma realidade estática, todos percebemos, mas quanto a tentarmos compreender para que lado está em crescimento (ou se preferirem,a tombar!), e quem são os agentes da mudança e quem lhes concedeu a procuração do destino a dar à sociedade e de caminho à civilização?!
Esta forma de exclusão, que começa a ser praticada a céu aberto, e aceite como uma das inevitabilidades dos tempos que correm, é uma forma de violência, o cidadão não só não tem acesso a informação fidedigna, das decisões que são tomadas nas suas costas, nos círculos restritos, decide-se (literalmente) a vida milhões de indivíduos constituídos da mesma argamassa dos seus executores democráticos.
Os cidadãos são instigados a defender os seus interesses mesquinhos sem tréguas, mas em contrapartida, devem resignar-se ao jugo das leis, mesmo quando as mesmas são injustas e ultrapassadas pela voracidade das mudanças radicais que vão acontecendo um pouco por todo o lado. Leis essas, que deviam garantir uma adaptação saudável às mutações que vão ocorrendo na sociedade, tornam-se afinal de contas, um desastroso catalizador de muitas desgraças irreversíveis. Os valores e os conceitos são vulneráveis às modas, quando o cidadão não está devidamente atento, eles (os valores e os conceitos passam-lhe a perna, ou seja, geram conflito interior, que para ser saudavelmente sanado tem que contar com uma consciência desperta e amadurecida, a letargia anímica favorece a infiltração de agentes manipuladores da vontade e do discernimento, com consequências degenerativas (formas evidentes de violência) na fornação da identidade individual (um processo dinâmico de adaptação, do qual depende a evolução da consciência de ser). A ignorância, assume sempre o papel principal (sempre favorável aos manipuladores, que levam a vantagem de serem eles, os criadores da «(a)normalidade» submetida aos interesses do modelo desenvolvimento, que pretende manter a hegemonia «(r)evolucionária», o cidadão continua a ser convencido que desempenha um papel «importante», desde que lute ferozmente para atingir o sucesso, claro, que não percebe, ou precebe muito superficialmente o alcance da intrujice, e a violência da sabujice, socialmente aceite, politicamente estimulada e economicamente viabilizada.
Para muita gente (o mais provável, e pensarem que eu «vejo» violência em todo o lado!), e exacerbo estas questões (para que conste, estas elucubrações são produzidas após longas horas de trabalho extenuante, o que em abono da verdade, não ajuda nada, mas acredito que também não distorce nada, quanto muito impede-me de conseguir ser tão claro, como gostaria. Quanto a ser mais conciso, não me parece que o deseje; um texto pode enfastiar, mas alguma experiência de leitura, indica-me que os fundamentos da empatia po um determinado texto, não se devem ao seu tamanho, mas ao poder de comunicação que despertam no leitor, sendo a honestidade «essencial» do seu autor, o ingredinte fundamental, e eu acredito que é possível detectar a presença desse elemento num texto, que representa o fluir da própria vida, tal como a água encontra a fissura na rocha e forma uma fonte.
A Não-Violência não pressupõe veneração cega, nem seguidismo de líderes carismáticos. Acontece que os cidadãos comuns estão mal habituados, preferm seguir a voz de um chefe, mesmo quando os ensinamentos históricos aconselham o povo a não seguir chefes que exploram o lado emocional das questões, de modo a atear a plateia que lhes der ouvidos. O povo ainda não prescindiu de adorar líderes dogmáticos, influenciado pela tradição que sempre soube promover manipuladores da vontade alheia, dar-lhes protagonismo e elevá-los à categoria de deuses, segui-los e bajulá-los sem criticar e sem levantar obstruções aos abusos e à mentira que se torna evidente com o passar do tempo.
Os líderes políticos, religiosos, são fruto da sociedade em que vingam, eu diria que muitas vezes são declaradamente o tumor (o primeiro prognóstico é sempre benigno, para ver se o povo não se assusta, com o tempo, alguns revelam uma malignidade trágica, insuspeitável!), que devia ser atentamente observado, por resultar do funcionamente disfuncional do organismo complexo que são as sociedades humanas, no entanto, um tumor que devia ser excisado (ou pelo menos devia ser sujeito a uma biopsia com caráter preventivo), é aceite como saudavelmente normal.
Portanto, não é difícil enganar o povo, ontem como hoje os processos são idênticos, forjar umas quantas ideias pouco claras, camuflar as verdadeiras intenções, é sempre bom arranjar um inimigo de estimação, uma «causa» amparada numa demagogia atraente, uns discursos inflamados, e por aí fora.
A eloquência também se fabrica, só não se «investe» num sistema educativo ao serviço do homem e da vida. Os direitos humanos são sitematicamente violados, quase se podia dizer que A Carta Universal dos Direitos do Homem é letra morta; a recessão económica é uma brincadeira de crianças se a compararmos com a regressão civilizacional que atinge a humanidade. A educação humana baseia-se em métodos pedagógicos e didácticos orientados para a «guerra»; uma afirmação destas pode parecer absurda, mas quando se tenta justificar o exacerbamento imoral que a competição atingiu entre os humanos, tentando encontrar paralelismo no comportamento de alguns animais selvagens, na quotidiana luta pela sobrevivência. Pretender que a competição (esta forma mórbida de embargar formas de comunicação sadias, implementar a desconfiança e promover a competição como a única via de desenvimento humano possível, porque até os animais competem pelo alimento, os fracos são excluídos, e por aí fora...! Eu chamo a isto má fé, mesmo que apoiada em argumentos «científicos» não deixa de ser uma afronta aos valores mais nobres que a humanidade necessira defender, caso ainda esteja interessada em sobreviver?!) é o resultado natural da evolução (o que importa não é tanto se a premissa é falsa ou verdadeira, o que está em causa é pretender-se justificar comportamentos perniciosos que raiam o absurdo, tentando desviar a atenção do cidadão anónimo do que realmente importa, os constantes atentados à liberdade de pensamento, ou não será palpável, o atrofiamento mental, que vai corroendo a capacidade de resistir aos atentados à vida perpetrados pelos que defendem a «naturalidade» e a «normalidade» da competição desenfreada com que armamos ratoeiras uns aos outros, enquanto nos divertimos, é o máximo! da espiral evolutiva que há-de culminar numa imbecilização sem paralelo no mundo natural!
Os defensores intransigentes da competição, não a praticam, sabem como se por a salvo, não estão interessados em desperdiçar energias e recursos que podem ser empregues mais judiciosamente em empreendimentos mais lucrativos, mas sabem que só tem a ganhar em incitar a raia miúda (e outros que, julgando não o ser, são tratados como tal) a entrar no jogo e a brigar (literalmente para conseguir obter umas migalhas do precioso sucesso, que lhes há-de fazer sorrir a vida!) com o seu semelhante (até que a sorte, ou a morte os separe!), entretanto, os que os incitaram, ficam de fora, de modo a poderem juntar e recolher os despojos das guerras alheias, por eles instigadas.
Cada um cuida das aparências, que melhor servem a imagem que quer dar de si próprio, esconder, camuflar, enganar, vale tudo, mesmo tudo! desde que, se saiba como evitar escândalos, que possam comprometer a imagem, ou seja, que possam dissipar o sucesso legitimamente alcançado?!
As fundações da sociedade onde é «normal» educar os cidadãos para a «guerra», fazer de cada cidadão um «soldado da produção», capaz de se bater até à morte (até aniquilar irreversivelmente o direito à dignidade de ser gente), todos são vencidos, todos são devorados pela competição, todos tiveram que adapar-se à desilusão de serem vencidos, sem term direito a reclamação. Como em todas as guerras, a violência faz parte do jogo, e todos os meios para a divulgar, tornar petisco apetecível, e adorno do «diálogo» quotidiano entre cidadãos.
A educação é fundamental, mas o modelo proposto pelo poder vigente é sempre um modelo retrógrado, que indirectamente defende os interesses das classes dominantes (as que mais necessitam de recorrer à violência de modo a defender as injustiças que argumentam ser direitos), por isso, se tem apostado sempre em modelos educativos que não servem o desenvolvimento humano, não estimulam o senso crítico, não despertam a importância da descoberta da identidade, não se vai à escola para tomar consciência da importância que tem o desenvolvimento da liberdade de pensar, criar e comunicar, sem constrangimentos e sem ter que se cingir a postulados determinados previamente por um colégio de eleitos.
Para conseguir editar alguma coisa, os textos perdem qualidade, pelo facto peço compreensão a quem lê estas elucubrações, pelo facto de tentar exprimir o que sinto, poderei talvez pedir um pouco de tolerância pelos erros ortográficos e por algumas ideias menos claras. O mesmo se passa com os blogues que visito, para ler os textos com a tenção que merecem, escasseiam os comentários, no entanto vou tentando «dar um ar da minha graça» e dentro da medida que me vá sendo possível responderei às interpelações que me forem colocadas. O texto publicado esta noite, não pretende ser uma resposta, mas foi inspirado numa série de comentários, a propósito do post «Uma Reinação» publicado no blog: ounoeomultiplo.blogspot, muito fica ainda por dizer, aguardemos...
Saúdo todos sem excepção!
II) Instalação de um protectorado dos EUA na África Central (19)
Desde o ínicio da guerra civil do Ruanda, em 1990, era objectivo oculto de Washington estabelecer uma esfera de influência americana numa região historicamente dominada pela França e pela Bélgica. O plano dos EUA consistia em desalojar a França. apoiando a Frente Patriótica Ruandesa (FPR) e armando e equipando o seu braço militar, o Exército Patriótico Ruandês (EPR).
A partir de meados da década de 80, o governo de Kampala, sob a presidência de Yoweri Musaveni, tornara-se o exemplo africano de «democracia» apresentado por Washington. O Uganda transformara-se igualmente numa espécie de rampa de lançamento para as incursões no Sudão, Ruanda e Congo de movimentos de guerrilha apoiados pelos EUA. O major-general Paul Kagame tinha sido chefe dos serviços de informação militar das Forças Armadas do Uganda; recebera formação no Army Command and Staff College (CGSC) em Lavenworth, no Kansas, cuja especialidade é o estudo da guerra e da estratégia militar. Kagame regressou de Leavenworth para chefiar o EPR, pouco após a invasão de 1990.
Anteriormente à eclosão da guerra civil no Ruanda, o EPR fazia parte das Forças Armadas do Uganda. Pouco antes da invasão do Ruanda, em Outubro de 1990, os rótulos militares foram alterados. De um dia para o outro, um grande número de soldados do Uganda alistou-se no Exército Patriótico Ruandês (EPR).
Durante toda a guerra, o EPR foi abastecido a partir das bases militares das Forças de Defesa Populares Unidas (FDPU) no interior do Uganda. Os oficiais tutsis do exército do Uganda assumiram postos no EPR. A invasão de Outubro de 1990 pelas forças do Uganda foi apresentada à opinião pública como uma guerra de libertação de um exército de guerrilha liderado por tutsis.
(19) A parte I deste capítulo foi escrita em 1994 para a primeira edição de A Globalização da Pobreza. A parte II baseia-se parcialmente num estudo conduzido pelo autor e pelo economista belga Pierre Galand sobre a utilização da dívida externa do Ruanda entre 1990 e 1994 para financiar as forças militares e paramilitares.
Michel Chossudovsky; A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
Intervenção do FMI-Banco Mundial
Ao todo, desde o ínicio das hostilidades (que coincidiu cronologicamente com a desvalorização e o «jorro inicial de dinheiro fresco» em Outubro de 1990), fora aprovado um pacote total de 260 milhões de dólares (com contribuições bilaterais consideráveis da França, Alemanha, Bélgica, Comunidade Europeia e dos EUA). Embora os novos empréstimos tenham contribuído para libertar fundos para o pagamento do serviço da dívida, bem como para equipar as forças armadas, os factos sugerem que esta assistência dos doadores não foi utilizada produtivamente nem canalizada para providenciar auxílio às zonas afectadas pela fome.
É também de assinalar que o Banco Mundial (através da sua filial de empréstimos em condições favoráveis, a Associação Internacional para o Desenvolvimento (International Development Association --- IDA) ordenara em 1992 a privatização da empresa estatal Electrogaz. Os proventos da privatização deviam ser canalizadas para o serviço da dívida. Num acordo de empréstimo co-financiado pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) (European Investment Bank --- EIB) e pela Caisse Française de Développement (CFD), as autoridades do Ruanda receberiam em troca (após o cumprimento das «condicionalidades») a modesta quantia de 30 milhões de dólares, que podia ser livremente gasta na importação de mercadorias (17). A privatização, levada a cabo no auge da guerra civil, passava igualmente pelo despedimento de pessoal e uma subida imediata do preço da electricidade, o que contribuiu para a paralização dos serviços públicos urbanos. A privatização em moldes semelhantes da Rwandatel, a companhia de telecomunicações estatal dependente do Ministério dos Transportes e Comunicações, foi implementada em Setembro de 1993 (18).
O Banco Mundial tinha passado cuidadosamente em revista o programa de investimento público do Ruanda. Depois de examinar as fiches de project, o Banco Mundial recomendou a suspensão de mais de metade dos projectos de investimento do país. Na agricultura, o Banco Mundial exigiu igualmente um corte substancial do investimento estatal, incluindo o abandono do programa de drenagem de pântanos no interior do país, que o governo iniciara em resposta à escassez de terra arável (e que o Banco Mundial considerava «não lucrativo»). Nos sectores sociais, o Banco Mundial propunha um «programa prioritário» (ao abrigo da «rede de segurança social») baseado na maximização da eficiência e na «redução dos encargos financeiros do governo» através da cobrança de taxas de utilização, do despedimento de professores e trabalhadores do sector da saúde e da privatização parcial da saúde e da educação.
O Banco Mundial argumentaria sem dúvida que a situação seria muito pior se o Cenário II não tivesse sido adoptado. Este é o chamado «argumento contrafactual» (ver capítulo 3). No entanto, tal raciocínio parece especialmente absurdo no caso do Ruanda. Não foi expressa qualquer sensibilidade ou preocupação quanto às prováveis repercussões políticas e sociais resultantes da aplicação da terapia de choque económico a um país à beira da guerra civil. A equipa do Banco Mundial excluiu conscienciosamente as «variáveis não económicas» das suas «simulações»...
(17) Ver Marchés tropicaux, 26 de Fevereiro de 1992, p. 569.
(18) Ver Marchés tropicaux, 8 de Outubro de 1993, p. 2492.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
A chamada deslocalização da produção para os países de mão de obra barata, e benefícios fiscais ilimitados e acordos secretos com governantes (que não estão em condições de negociar o que quer que seja; mas estão em condições de aceitar servir os interesses das transnacionais que desejam instalar-se no país, a troco de benefícios pessoais, segredo de estado, que não pode ser divulgado!), o FMI e o Banco Mundial apoiam sem reservas este género de projectos altamente rentáveis para os países de acolhimento. A nova ordem mundial, ao serviço da OMC, ajuda os países em vias de desenvolvimento a preparam no terreno as condições minímas de acolhimento da economia de mercado «livre» e sem espinhas. A maioria dos países não está em condições de negociar, e muito menos resistir à invasão neocolonialista, que pretensamente, avança por razões humanitárias, e de estabilidade política (forjada e já agora favorável), além do mais, «a comunidade internacional» raramente se opõe(de qualquer forma, a maioria está-se nas tintas para esse formalismo), e mesmo quando se opõe, por razões de estratégia, mas o destino de milhres de vidas anónimas já foi traçado a régua e esquadro (o cenário é montado com antecedência, para que o espectáculo tenha o sucesso que merece). Os palcos são estrategicamente montados, são feitos estudos de mercado prévios, marcam-se as coordenadas que decididamente determinarão a evolução favorável da economia mundial.
A deslocalização da produção para os países em vias de desenvolvimento favorece os detentores das marcas que exploram sem qualquer compaixão os empresários seus subsidiários, que tem que se contentar com as migalhas que sobram do banquete dos poderosos, e por sua vez, espezinham os seus compatriotas, para do seu suor tirar o lucro que os exploradores estrangeiros lhes negam, esta é a estratégia, este é o segredo do sucesso das marcas que podem pagar fortunas a ídolos desportivos e estrelas de cinema (entre outras profissões «nobres» para júbilo das claques anónimas, e a farsa continua, mas, se para uns, comprar um par de ténis novos, ou outro material de marca conceituada é um gesto simples de consumo, que se limita ao estender do cartão ao empregado da loja, para outros (nem dinheiro chegam a ganhar para comprar roupa em segunda-mão, importada à tonelada dos países ricos!), o pesadelo de acordar diarimente no meio da imundície, sem meios para ter um lar condigno, nem acesso a serviços de saúde gratuitos, e com uma longa jornada de trabalho à sua espera, as fantasias do consumismo ocidental, transformaram as esperanças de uma vida melhor, num pesadelo real.
Então, porque razão a maioria dos países faz o que pode para atrair investimento estrangeiro? Porque são pressionados pelo FMI, pela OMC e pelo Banco Mundial para o fazerem; porque existem créditos mal parados; empréstimos congelados (a aguadar que os governos tomem as medidas impostas pelas instituições internacionais, que na verdade governam o país, ou pelo menos ditam a política macroeconómica do país visado), acordos secretos e outras manigâncias que o cidadão comum nunca chegará a saber. É claro que nem todo o investimento estrangeiro é tão sombrio, ainda que, mesmo nos casos em que tudo parece claro, quando menos se espera, apresentam de choufre a decisão já tomada: a unidade vai ser encerrada, motivo deslocalização para outro país, com mão de obra mais barata. E parece que não há nada a fazer (as multinacionais tem a faca e o queijo na mão, ou seja o dinheiro, e os políticos, que pouco a pouco cederam aos interesses, deixaram-se corromper, os luxos e as manias das grandezas dão a volta à cabeça de qualquer um, e agora é o que se vê, nenhum governo em nenhum país parce ser capaz de travar a nova ordem mundial de ultrajar a dignidade humana, da forma que quizer, por dispor dos meios e dos recursos para o fazer, a oposição é débil, a consternação pública pouco significativa, com a comunicação social controlada e a imbecilização das massas em boa progressão, melhores dias...
Mas a maioria dos países está cada vez mais integrada no mercado livre, e em todo o lado cada vez mais gente tem acesso aos produtos correntes de consumo? É verdade! No entanto, este dinamismo económico é enganador, na maioria dos países em vias desenvolvimento, só alguns grupos sociais restritos tem verdadeiro acesso ao consumo, e as fronteiras dessa abundância terminam abruptamente, precisamente onde começa o país real (uma região maioritária, habita por gente humilde, eventualmente feia e grosseira, e em muitos casos faminta, ora, mal se entra no país real, a abundância torna-se imediatamente uma miragem, e as pessoas, vão sobrevivendo agarradas à esperança (porventura vã!) de esperar que os filhos tenham melhor sorte.
A deslocalização da produção, é uma das causas da insegurança sentida por muitos trabalhadores e famílias nos países ricos ( mas pelos vistos em vias de empobrecer, paradoxalmente, as grandes fortunas não param de aumentar!); cada vez mais gente vive com o pressentimento de estar a escorregar para um abismo, de consequências ainda impresisíveis, entretanto os membros da assembleia da seita económica: A Nova Ordem Mundial, vão juntando e repartindo a riqueza produzida pelos anónimos de todo o planeta, e ao que parece pouco preocupados com o futuro da humanidade e da própria vida que durante milhões tem florescido e evoluido neste belo planeta, nesta Terra Abençoada por uns, e pelos vistos amaldiçoada por aqueles que mais graças deviam dar ao colo que só esta Mãe sabe dar.
Outro aspecto, terrivelmente negativo da deslocalização da produção está relacionado com o aumento do tráfego de mercadorias, alguns armadores esfregam as mãos de contentes, o mesmo pode suceder com algumas companhias aéreas, ou transportes terrestres, é só mais um contributo para o aumento do efeito de estufa, que podia ser evitado se a produção estivesse mais perto dos locais de consumo, e um outro modelo de ajuda aos países em vias de desenvolvimento fosse implementado. A racionalização dos meios e dos recursos não parece ser uma preocupação dos novos donos do mundo, enquanto, pelo contrário a optimização dos custos, é exacerbada ao ponto de não se importarem de asfixiar as débeis economias locais, vocacionadas para a produção de bens para consumo interno, para poderem ter controle absoluto do mercado «livre», desde o princípio ao final do processo. Vinga a hegemonia económica em detrimento do direito à auto-determinação dos povos. O jugo económico tende a perpetuar privilégios e a impedir o desenvolvimento gradual e sustentável de populações, que deviam ter tempo e espaço para escolherem em liberdade um caminho, uma política, em suma, o direito a terem uma identidade como povo, como nação, como país independente. A irracionalidade tecnocrata paira sobre a vida das pessoas,, estragula qualquer projecto de vida que tenha veleidade de emergir à luz do dia, pela simples razão, de poder ir contra os «legítimos» interesses dos novos donos do mundo.
Perante o cenário descrito (por não ter possibilidades de provar o que quer que seja, será que o assunto perde a pertinência?), em que ficamos, apáticos, atónitos ou com vontade de organizar uma rede local, regional, nacional e mundial, motivada a bater-se pelas causas da vida, ou seja, o que necessita de ser sustentável é a vida, não a ideologia megalómana de de ter um punhado de energúmenos a dominar os destinos da humanidade e da própria vida. A vida tal como a conhecemos neste planeta, terá que ser o agente aglutinador e simultaneamente catalizador da vontade de resistir à sua destruição; a diversidade cultural, os fossos religiosos, que tem sido ao longo dos tempos, repletos de monstros, que exigem sangue inocente em nome da divina ordem; só o genuíno amor pela vida, que qualquer ser humano é capaz de desenvolver, estabelece verdadeiros laços de comunicação entre os humanos, quando tudo o resto falha!
O industrial francês da Aeronáutica e dos chorudos contratos de venda de avões militares, é o novo patrão do histórico quotidiano Le Figaro, do Semanário L`Express e de mais setenta jornais regionais. Os aviões já não se vendem tão bem como no passado e a Comunicação é o novo Eldorado. O pai, Marcel Dassault, já falecido, tinha-se praticamente contentado com "Jours de France", o "emblema da Coroa". Quanto a Serge, não esteve com meias medidas, com esta operação de compra de 82% da Socpresse, um império mediático, por qualquer coisa como 1 bilião de dólares, a contar por baixo. Comunicação e informação passam, com efeito, cada vez mais, a obedecer prioritariamente, às leis empresariais de mercado. O patrão-Presidente acaba de dar o tom, ao anunciar que Le Figaro deve começar a partir de agora a "a difundir ideias sãs"!...Preocupante. Onde é que eu já ouvi isto? Considerações que pressupõem que o quotidiano conservador da imprensa francesa tem, apesar de tudo, continuado a difundir ideias doentias, pouco rentáveis. O novo patrão deu ainda instruções para "reduzir os défices... ou então que se vendam os jornais que perdem dinheiro". A resposta irónica de um delegado sindical não se fez esperar: "Se vendermos tudo o que não é rentável, então não vai sobrar grande coisa". Mais ainda: Serge Dussault quer que nas colunas do quotidiano se fale mais de coisas que correm bem no país, o que leva a crer que os temas da guerra e da política não sejam dos mais aconselháveis. Já o seu pai, o falecido Marcel Dassault afirmava em tempos: "Quando era deputado, queria ter um pequeno jornal. Comecei a fazer um jornal político. E dei-me conta que, para um jornal político ter influência, era necessário que fosse lido mas, para que fosse lido, não havia que falar de política". Voltemos ao filho do papá. Que se acabe portanto com o cinzentismo e os eternos choradinhos e que sejam embargados os temas tristes... Que diabo, nem tudo é desemprego e drama. Tudo indica que vamos passar a ter um Le Figaro mais animado, com menos opinião, outra em todo o caso, artigos mais curtos e compactos, uma reflexão mais ligeira e menos cansativa. Isto não obstante as interrogações que assaltam o cidadão à escala do planeta serem cada vez mais prementes e maiores os desafios. Esta nova estratégia de Serge Dassault, para além de eticamente suspeita, leva a pensar que é também economicamente errada, a curto-médio prazo. A perda de uma boa fatia de leitores não tem somente a que ver com a concorrência agressiva que o audiovisual impõe aos media em geral. Muito será para creditar na conta da banalização das competências e da submissão à lei do mercado pura e dura.
O novo patrão indicou ainda: "a apresentação de Le Figaro não me agrada muito. Gosto das coisas bem feitas e fáceis de ler..."Ficamos até com a ideia que a Informação se vende melhor se aparecer paredes meias com o entretenimento e a animação."... Desejava que na primeira página seja indicada praticamente uma grande parte da lista dos artigos que estão no interior", acrescenta ainda. Obviamente, perante este novo cenário jornalístico-empresarial, os "recursos humanos" de Le Figaro como do Express, estão com poucos recursos e preocupados E não há razão para menos. Está bem presente a memória do famoso Rupert Murdoch, que em Inglaterra conseguiu, ao tempo da dama de ferro Thatcher, desmantelar os sindicatos dos trabalhadores do livro ligados ao velho Partido Trabalhista. O que agora se processa na imprensa francesa espelha bem a política de fusões e de concentração na nova sociedade de desinformação global.
O Ribatejo Edição online em www.oribatejo.pt
Artigo de opinião: António Branquinho Pequeno
A intervenção do FMI-Banco Mundial
Em Julho de 1992, o FMI ordenou uma segunda desvalorização, que resultou -- no auge da guerra civil -- em nova subida de preços dos combustíveis e de bens essenciais de consumo. A produção de café desceu mais 5% num só ano (13). Devido à plantação intensiva de cafeeiros, existia cada vez menos terra disponível para a produção de alimentos, e os camponeses não podiam facilmente voltar-se de novo para uma agricultura de produção de alimentos. Desapareceram as parcas receitas provenientes do café e não se apresentavam outras soluções. As receitas da venda do café eram insuficientes para comprar comida e os custos da exploração agrícola tinham aumentado vertiginosamente. A crise da economia do café repercutiu-se na produção de produtos alimentares tradicionais, resultando numa queda substancial das colheitas de mandioca, feijão e sorgo. O sistema de cooperativas de aforro e empréstimos, que forneciam crédito aos pequenos agricultores, desintegrara-se. A acrescentar a esta situação, com a liberalização do comércio externo e a desregulação dos mercados de cereais recomendadas pelas instituições de Bretton Woods, as importações (altamente subsidiadas) de alimentos baratos e a assintência alimentar proveniente dos países ricos estavam a entrar no Ruanda e a exercer um efeito desestabilizador sobre os marcados locais.
Com o sistema de «mercado livre» imposto ao Ruanda, tanto a agricultura comercial como a de produção de alimentos deixaram de ser economicamente viáveis. A totalidade do sistema agrícola foi empurrada para uma crise. O aparelho administrativo estatal encontrava-se numa situação de caos, a qual não era somente devida à guerra civil mas também às medidas de austeridade e à queda dos salários dos funcionários públicos; a situação contribuía inevitavelmente para exacerbar o generalizado clima de insegurança que se verificava em 1992.
A gravidade da crise agrícola fora amplamente documentada pela FAO, que alertara para existência de uma muito vasta situação de fome nas províncias do Sul do país(14). Um relatório divulgado np ínicio de 1994, apontava igualmente para o colapso total da produção de café, em consequência da guerra e da incapacidade de resposta do sistema estatal de comercialização, que estava a ser desmantelado com o apoio do Banco Mundial. A Rwandex, a empresa mista responsável pelo tratamento e exportação do café, estava praticamente inoperacional.
A decisão de proceder à desvalorização da moeda (com a aprovação do FMI) fora já tomada em 17 de Setembro de 1990, antes da eclosão das hostilidades, em encontros a alto nível realizados em Washington entre o FMI e uma missão encabeçada pelo ministro das Finanças do Ruanda, Ntigurirwa. Foi dada «luz verde» ao empréstimo: no ínicio de Outubro, no preciso momento em que se iniciou a guerra, milhões de dólares da chamada «assistência à balança de pagamentos» (de fontes multilaterais e bilaterais) entraram nos cofres do Banco Central. Embora estes fundos administrados pelo Banco Central fossem destinados (pelos doadores) à importação de mercadorais, é provável que uma porção considerável deste «empréstimos rápidos» tenha sido desviada pelo regime (e as suas várias facções políticas) para a aquisição de material militar pesado (à África do Sul, ao Egipto e à Europa de Leste) (15). As aquisições de armas Kalashnikov,artilharia pesada e morteiros vieram juntar-se ao pacote de auxílio militar bilateral fornecido pela França, que incluía, entre outros, mísseis Milan e Apila (para além de um jacto Mystère Falcon destinado ao uso pessoal do presidente Habyarimama) (16). Acrescente-se que, desde Outubro de 1990, as forças armadas se tinham expandido, de uma dia para o outro, de 5000 para 40 000 homens, o que inevitavelmente requeria (em condições de austeridade orçamental) um influxo considerável de fundos do exterior. Os novos recrutas provinham principalmente das fileiras de desempregados urbanos, cujos números tinham aumentado de forma dramática desde o colapso do mercado de café, em 1989. Milhares de jovens delinquentes e desocupados, provenientes de uma população móvel, foram igualmente recrutados para a mílicia civil responsável pelos massacres. E uma parte do armamento adquirido permitiu às forças armadas organizar e equipar os elementos das mílicias.
(13) Em 1993, o Banco Mundial recomendou uma terceira desvalorização da ordem dos 30% como forma de eliminar as dívidas dos Fonds d`égalization.
(14) O Comité Internacional da Cruz Vermelha calculou em 1993 que mais de um milhão de pessoas foi afectado pela fome. Marchés tropicaux, 2 de Abril de 1993, p. 898. Um comunicado da FAO emitido em Março de 1994 apontava para um declínio de 33% na produção de alimentos em 1993. Ver Marchés tropicaux, 25 de Março de 1994, p. 594.
(15) Não foi emitido qualquer comunicado oficial ou de imprensa a confirmar ou desmentir o desvio para despesas militares de fundos de assistência destinados à balança de pagamentos. Segundo a organização Human Rigths Watch, com sede em washington, o fornecimento de equipamento militar no valor de 6 milhões de dólares por parte do Egipto foi acordado por este país com kIgali. As transacções com a África do Sul ascendiam a 5,9 milhões de dólares. Ver Marchés tropicaux, 28 de Janeiro de 1994, p. 173.
(16) Ver New African, Junho de 1994, p. 15. Ver também a entrevista com Colette Braeckman sobre o auxílio militar da França em Archipel, nº9, Junho de 1994, p.1.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
De cada vez que que um cidadão do primeiro mundo entra numa catedral do consumo (o local de veraneio das massas de parcos recursos financeiros! Diz o povo: «que os olhos também comem!»; empanturre-se pois o olhar, enquanto a mente se entretem a sonhar com horas de sorte que nunca chegam, e oportunidades adiadas.), se porventura esse cidadão tem filhos, ou crianças a seu cargo, será assediado pelo desejo de comprar algo para enfeitar o seu pimpolho (a questão que se coloca não é tanto, torná-lo mais feliz, é mais torná-lo mais atraente, acrescentar-lhe valor e de certa superioridade social, creio que os adultos agem compulsavamente, por indução causada pela pressão publicitária, mas adiante!), e enquanto vai deambulando vai espreitando as montras, por vezes decide entrar dentro das lojas e remexer os produtos expostos, a fim de testar a «qualidade intrínseca» dos mesmos, ou seja, se os produtos estão dentro dos padrões estilísticos que o consumidor considera dentro da validade imposta pelas modas.
Este preâmbulo tem por finalidade levar a pensar no seguinte assunto:
1- As crianças do mundo ocidental são hiperprotegidas e hiperadornadas e hiperidolatradas e hiperenfeitadas (que chegam a parecer fantoches, o que revela em primeira mão, a insegurança psicológica paternal, e eventualmente, instabilidade emocional, e muito haveria a dizer a esse respeito.), no entanto esta onda hiperbolizada de consumismo, que nos faz acarretar para casa as mais incríveis quinquilharias, paradoxalmente, aumenta a negligência educativa, os desequílibrios sociais, os medos, as crises afectivas e aumenta a depressão infanto-juvenil, o remédio que acalma a insegurança natural que assalta o coração humano, jovem ou menos jovem, é o amor, é o fluir ilimitado da mútua confiança, uma reserva de segurança que acode, nos momemtos em que estala uma crise de identidade, ou de auto-estima, uma ajuda preciosa que ajuda a recuperar a estabilidade emocional e a saúde espiritiual, imprescindível para que o ser humano funcione harmoniosamente, ou pelo menos, que consiga evitar que se instale a confusão interna, e no seu âmago estale a confusão existencial. Os remédios materiais servem de paliativo temporário, um calmente de circunstância, uma droga aditiva, uma implacável expansão de perniciosas dependências que fabricam escravos, ao invés de abrirem horizontes de liberdade criativa e inspiração comunicativa.
Volto ao ínicio deste texto, a fim de seguir a vereda que desejava seguir. Quando passeamos numa catedral de consumo, com os bolsos mais ou menos recheados do «vil metal», e nos propomos comprar alguma prenda, brinquedo ou peça de roupa, para satisfazer a vontade aos filhos, ou para oferecer a algum sobrinho, ou afilhado, etc..., raramente nos lembramos, por desconhecimento, por incúria, por negligência, ou seja porque motivo for, do percurso que aquele fez até nos chegar às mãos, será que para satisfazer os caprichos dos nossos amados rebentos, o mundo pode rebentar, sem que sintamos responsabilidade no evoluir da situação? A hipocrisia consegue operar milagres, como podemos nós, cidadãos anónimos e indefesos, ter alguma culpa no cartório? Nós que somos explorados por patrões gananciosos, nós que estamos endividados até aos cabelos, nós que passamos, em média 2 horas por dia com os nossos filhos, não temos certamente, culpa alguma do que se passa do outro lado do mundo, se nem sequer, nos diz respeito o passa no quintal do nosso vizinho?! Então, estamos todos satisfeitos com o mundo que temos? Preocupam-se os homens (e provavelmente as mulheres?) com a impotência sexual masculina; preocupam-se as mulheres (e provavelmente os homens?) com a frigidez feminina, porque o sexo é importante para todos nós, por isso temos obrigação de combater essas disfunções e zelar pelo nosso bem estar psicológico e sexual. Nada disto me parece mal, antes pelo contrário (apesar de considerar absurdo o exacerbamento, que não é inocente!, da sexualidade humana, mas adiante.), mas quando se trata de combater as outras formas de impotência que assaltam o nosso quotidiano, preferimos aderir à frigidez emocional e à aptia moral, hipocritamente, olhamos para o lado e seguimos caminho, um caminho sem encanto, mas isso é só um pormenor, desde que possamos satisfazer os desejos carnais de que nos tornamos fervorosos dependentes. Subjugação absoluta à ditadura do corpo, esse é o equívoco, deixamos subjugar pela ideologia dominante que não nos quer dar um momento de sossego para pensar, manté-los ocupados, é este o lema dos que desejam manter inexpugnável o reduto de poder, do qual dirigem o teatro de guerra quotidiano, esta aé a ideologia anexa ao consumismo compulsivo, a comunicação social, aliada natural da indústria do entretenimento controlada a partir do mesmo reduto faz o «trabalho sujo», mantém os níveis de alienação estáveis, servindo a dose diária de intoxicação informativa e agentes disseminadores da epidemia global de imbecilização. Parece mentira, pela simplicidade com que os dados são jogados, e as vidas humanas humilhadas e destroçadas, mas a realidade prova sempre ser mais cruel que a ficção. Portanto, não nos ocorre, no momento em que uma empregada(o)sorrindente corta o último elo de resistência à tentação consumista, que nos mantinha presos a um fio de lucidez consciente, quanto sofrimento humano pode estar agregado aquele produto, de valor tão relativo, por mais apelativo que seja, e por mais que nos tentem fazer crer, o quanto a nossa felicidade, ou neste caso a felicidade de um filho nosso, pode depender da aquisição deste bem! Não nos lembramos, que crianças da idade dos nossos filhos, que vivem na mais abjecta miséria, são exploradas pelos caciques locais (as subsidiárias das marcas) das multinacionais que controlam o mercado «livre», desde a produção até ao consumidor final, a miséria de uns, que as instituições internacionais de apoio ao desenvolvimento apelidam de medidas necessárias à modernização das economias dos países em vias de desenvolvimento, ams que servem para que as empresas detentoras das marcas registadas obtenham lucros obscenos, mas que, pelo desprezo demonstrado pala dignidade de seres humanos (entre os quais crianças em tudo iguais aos nossos filhos) envolvidos no processo produtivo, me lava a considerá-las criminosas, porque segundo os canónes ocidentais, a exploração praticada nessas linhas de produção é simplesmente bárbara! E, caso queiram confirmar vejam documentários feitos por pessoas como Jonh Pilger (jornalista e realizador de documentários australiano, que deu a conhecer à opinião pública mundial, o massacre do cemitério da Santa Cruz, em Timor.
Uma longa jornada de milénios de adaptação e esforço humano fizeram da agricultura a actividade da qual dependia a sobrevivência da humanidade. O homem aprendeu a domesticar sementes e com os tempos algumas espécies tornaram-se a base da alimentação humana.
As comunidades locais «apuravam» as sementes de maneira a torná-las mais resistentes às condições ambientais e climáticas endémicas; o conceito de sementes tradicionais bem adaptadas deve-se a esta simbiose criativa mantida ao longo de milénios entre a agricultura (actividade humana) e meio ambiente. A chamada biodiversidade não foi afectada de forma irreversível, até que, no dealbar do século XX, com o avento da descodificação do ADN, um novo ramo de engenharia começou a despontar da vontade humana de suplantar a vida: a engenharia genética. Como acontece sempre, os que estão envolvidos no projecto, quer seja por curiosidade científica, e protagonismo pessoal, ou em defesa de interesses corporativos oportunistas, que imediatamente cercam a presa, logo que se apercebem de poderem tirar dividendos económicos e políticos do novo filão descoberto, então preparam o cenário de acordo com as suas conveniências e só depois de estarem seguros do terreno que pisam, e eventualmente de terem estabelecido acordos secretos com governos, instituições públicas e/ou privadas, e terem já uma rede montada capaz de os defender de qualquer ataque surpresa (é humanamente impossível mesmo quando se possui meios e recursos quase infinitos, conseguir prever todos os encadeamentos que podem vir a formar-se, e quais as reacções que podem desencadear) por parte de cidadãos individuais e/ou organizações hostis, ou simplesmente cépticas. O espectáculo só vai para o ar depois de devidamente encenado, o personagem principal será altruísta, não exageradamente, terá que ser contudo capaz de derramar o bálsamo sentimental, de modo a quebrar a resistência intuitiva do público mais céptico.
Entretanto, no segredo dos deuses, ou envolvido no ocultismo iniciático, o processo não para, o interesse atrai investidores, o que começa a fazer salivar muita gente, só de imaginarem que ali está mais uma tremenda oportunidade de negócio acessível a um número restrito de organizações que sabem como defender os seus feudos económicos (os direitos da propriedade intelectual e a criação de produtos patenteados); sem que a maioria dos agricultores mundiais se apercebe-se estava em curso a maior e mais devastadora revolução ocorrida desde o aparecimento da agricultura, as sementes transgénicas estavam a ser desenvolvidas por poderosíssimas companhais privadas (que não investem dinheiro em investigação por motivos altruístas, por mais bem camufladas que as suas verdadeiras intenções estejam, o seu fito, nem sequer são os fabulosos lucros que vão obter, isso é a consequência, as reais motivações que os responsáveis destas companhias tentam manter ocultas, são no entanto, mais que evidentes, pretendem impor ao mundo novas formas de ditadura económica, entre as quais se destaque o domínio hegemónico de produção de sementes transgénicas, que pouco a pouco, tornará a maioria dos agricultores dependentes desta tirania, como aumentará a já vulnerável situação da maioria dos aparelhos de estado de muitos países do mundo.
As sementes transgénicas não são um elemento estranho à natureza, argumentam os defensores desta tecnologia, consideram-na inócua e em muitos aspectos amiga da natureza (melhora a natureza, uma coisa que a natureza precisa é dos melhoramentos humanos, não é o ser humano que depende da natureza, a partir de agora passa a ser o oposto, não é difícil imaginar os benefícios evidentes para a natureza decorrentes da manipulação genética em geral e da sua apilcação em larga escala à agricultura mundial?!); estamos perante, uma situação preocupante, e que ninguém creia que estas companhais interromperão o processo mesmo que sejam reunidas provas da falta de segurança alimentar e ambiental decorrentes do uso deste tipo de sementes; será abundante e bem documentada a contra-argumentação certificada cientificamente (os cientistas não são todos os excentrícos desinteressados que muita gente imagina, muitos transformam-se nos tentáculos regionais e locais destes gigantescos e dantescos polvos transnacionais que tem por missão manter limpa a imagem de marca da entidade patronal. Publicamente estes novos «produtos» são apresentados como mais resistentes às epidemias, mais produtivas, mais resistentes ao transporte e com o evoluir da tecnologia, será possível satisfazer os «capricho» dos consumidores, cada vez mais «exigentes»!
A evidente ânsia fillantrópica em franca expansão das empresas bio-tech é um contributo sem paralelo na história da humanidade para erradicar a fome da face da terra; todas as organizações que manifestam publicamente repúdio por este tipo de tecnologias e têm dúvidas quanto à absoluta segurança dos OGM, são acusadas pelos agentes deste sector de actividade de económica de fazerem oposição política, sem qualquer base científica. Esta argumentação é falsa, e ainda que, muita gente seja contra a implementação do comércio de OGM, por motivos éticos e políticos, são as empresas que tem explicações dar (a manipulação genética não é uma brincadeira de crianças, nem como tal pode ser tratada, só porque, supostamente, estas empresas podem ter ao seu serviço os melhores profissionais, e possuirem as mais avançadas tecnologias, que isso não faz com que sejam detentoras da verdade absoluta, nem pode servir para que as suas actividades não sejam vigiadas, o problema é saber que instituições ou organismos estão hoje em qualquer parte do mundo em condições de independência para fazer fiscalização isenta, o poder destas empresas é tal, funcionam em rede, e o poder político, tornou-se um poder subsidiário, ou se preferirem decorativo, que tem obrigação de defender publicamente os exemplos de sucesso, mesmo que à custa da bio-diversidade.
Esta nova geração de sementes geneticamente modificadas, tem sucesso assegurado, ao abrigo de convenções internacionais dominadas pelos interesses estratégicos dos monopólios económicos (um covil demasiado selecto, os interesses da plebe ficam à porta, o ambiente discute-se mais tarde), entretanto as nações dedicam-se a um novo comércio: importam e exportam emissões poluentes, a contento de todos, como habitualmente acontece, ninguém perde, talvez a vida fique a perder, mas como não consta que tenha conta bancária, quando entrar em ruptura, ou em processo de falência, já a alta finança internacional estará a salvo na primeira colónia humana fundada em Marte!
A fome continuará a grassar no mundo, porque a fome, tal como acontece com o desemprego e outras formas de exclusão e segregação, incluíndo a repressão social, funcionam como um meio eficaz de amedrontar as populações, um freio social que leva muita gente rastejar às ordens arbitrárias do seu semelhante (os tais pequenos tiranos, que por terem um emprego relativamente seguro, ou um cargo intermédio (digamos um quadro médio), em algum departamento, quer seja numa instituição pública ou empresa privada se consideram donos do mundo!). As fomes endémicas que ciclicamente devastam certas regiões seriam relativamente fáceis de resolver, não existe vontade política para que isso aconteça, e a situação tenderá a agudizar-se com a introdução dos OGM, apesar da propaganda oficial tentar convencer a opinião pública internacional do contrário. Os factos são ocultados, da realidade mostra-se as imagens convincentes (os espectadores não vão lá confirmar!) a demagogia política faz o resto, é canja, o cidadão médio europeu e americano engole o contrapectivo retórico e os famintos deste mundo que vão para o diabo!
Os interesses das comunidades de camponeses pobres de variadíssimos paises, tem sido menosprezados, devido às políticas macroeconómicas impostas pelo FMI e Banco Mundial, que prevém a abertura das fronteiras à importação de produtos agrícolas excedentários oriundos da EC, e dos EUA. O FMI e o Banco Mundial desbravam o caminho às companhias produtoras dos OGM, a destruição da agricultura tradicional favorece o desaparecimento das sementes tradicionais, os produtores agrícolas de média ou grande dimensão que tem de se abastecer de sementes, acabam por ter que recorrer a sementes híbridas ou transgénicas, por não conseguirem arranjar sementes tradicionais e por questões de rentabilidade, mais aparente que real (aumenta a quantidade, baixa drasticamente a qualidade, quem ganha o quê?!), a maioria dos agricultores é empurrada para um beco sem saída, escasseiam as alternativas, são obrigados a aceitar num único pacote, uma nova ordem económica e subjugar-se à ditadura dos OGM, uma dupla humilhação, uma forma de coacção económica da qual se conseguem tirar igualmente dividendos geoestratégicos e impedir a auto-determinação dos povos (tudo de uma penada!).
Os preços (tal como acontece com a indústria farmacéutica) serão elevados, porque estas companhias fazem valer o argumento dos custos de investigação e desenvolvimento de OGM, que em breve, veremos a seguir modas (os produtos agrícolas vão passar a ser artigos de moda, e cada nova estação encherá as prateleiras dos supermercados de vegetais e frutas, com formas, tons e cores que os criadores ditarem para essa época, os agricultores terão que adpatar-se a esse novo flagêlo, tal como acontece com a indústria ligada aos artigos de moda.
A intervenção do FMI- Banco Mundial
A desvalorização destinava-se a fazer aumentar as exportações do café. Foi apresentada à opinião pública como um emio de reabilitar uma economia destryída pela guerra. Como seria de prever, os resultados atingidos foram diametralmente opostos, exacerbando-se os problemas resultantes da guerra civil. Partindo de uma situação de relativa estabilidada de preços, a queda do franco ruandês contribuiu para desencadear a inflação e a descida acentuada dos salários reais. Poucos dias após a desvalorização, foram anunciados aumentos significativos dos preços dos combustíveis e dos bens essenciais de consumo. O índice de preços ao consumidor subiu de 1% em 1989 para 19,2% em 1991. A situação da balança de pagamentos deteriorou-se de forma dramática e a dívida externa, que já duplicara desde 1985, aumentou em 34% entre 1989 e 1992. O aparelho administrativo do Estado estava numa situação de caos, as empresas estatais foram empurradas para a falência e os serviços públicos entraram em colapso (10). Os sectores da saúde e da educação desintegraram-se sob o impacto das medidas de austeridade impostas pelo FMI: apesar do estabelecimento de uma «rede de segurança social» (destinada pelos doadores para programas nos sectores sociais), a incidência de casos de grave subnutrição infatil aumentou de forma dramática; o número de casos de malária registados aumentou 21% no ano que se seguiu à adopção do programa do FMI, em resultado da ausência de medicamentos antimalária nos centros de saúde públicos; e a imposição de propinas escolares ao nível do ensino primário conduziu a um declínio maciço do número de alunos matriculados (11).
A crise económica atingiu o seu auge em 1992, quando os agricultores do Ruanda, em desespero. arrancaram cerca de 300 000 cafeeiros (12). Apesar do aumento vertiginoso dos preços no mercado interno, o governo congelara o preço do café ao produtor aos níveis de 1989 (125 francos ruandeses por quilograma), em cumprimento dos termos do acordo com as instituições de Bretton Woods. No âmbito do empréstimo do Banco Mundial, o governo não podia transferir recursos para os Fonds d`égalization.É também de referir que os comerciantes locais de café e os intermediários se apropriaram de lucros significativos, o que serviu para execer ainda maior pressão sobre os camponeses.
(10) World Bank, World Debt Tables, 1993-94, Washington DC, P. 383.
(A dívida existente aumentara amis de 400% desde 1980 (de 150,3 milhões de dólares em 1980 para 804,3 milhões em 1992)).
(11) Ver Myriam Gervais, «Etude de la pratique des ajustements au Niger et au Rwanda», Labor, Capital and Society, vol. 26, nº 1, 1993, p. 36.
(12) Este número é uma estimativa conservadora. Economist Intelligence Unit, Country Profile, Rwanda/Burundy 1993/1994, Londres, 1994, p. 10.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
sou um ilhéu em deriva melancólica
sou um ilhéu em deriva inquieta
sou um ilhéu de imaginação alerta
sou um ilhéu de olhos postos no horizonte
sou um ilhéu, que gostaria de ser farol
com alma dentro e reflectir a melhor luz
desencadeada pelo espelho do pensamento
sou um ilhéu deserto, uma concha fechada
um céu aberto, uma voz desmesurada
uma mão estendida a outro ilhéu à deriva
nas águas turvas do mundo
navega um irmão solitário, um amigo por descobrir
um companheiro desconhecido que abraça causas comuns
sulcos abertos em rostos humanos.
ilhéus humanos formados, a partir de conglomerados de emoções
ilhéus humanos solitários, marcados por tempestades impiedosas
ilhéus humanos em desenvolvimento, ramos instáveis da vida em formação
basta ler nos anéis de crescimento do tronco da árvore da vida
para interpretar o sentido de ser ilhéu humano à deriva
basta decifrar as experiências soterradas nas camadas de vida extinta
se um ilhéu humano aparenta ser de formação recente
há que ir com jeito, descobrir nas camadas subcutâneas
sinais de interferência subconsciente.
sinto-me um ilhéu humano intoxicado
por venenos anquilosantes
sinto-me um ilhéu humano imerso em viscosa poluição
camadas e camadas de informação
em avançado estado de putrefacção
criptíca linguagem, escorrendo para o subconsciente
humilho a inteligência e confundo a imaginação.
sinto-me um ilhéu desterrado
que teve que atravessar o vasto oceano
minado de vaidade e orgulho, de ganância e inveja
sem saber ao que ia, nem a quem recorrer
avançar para não morrer!
tive que sentar a consciência no banco dos réus
e estremeci de medo, quando percebi que não é possível
escapar com vida e, muito menos evitá-la!
sobre mim, desabou uma enorme muralha de indiferênça
uma estranha coragem apossou-se de mim
e os estigmas e os medos, os preconceitos e as supertições
esfumaram-se....
terras fertéis, paraísos sonhados, um imenso mar tranquilo
o lugar ideal para instalar uma colónia de ilhéus livres
com sorriso humano...
ilhéus de praias feridas, uni-vos!
os «donos da vida» estão prontos a perseguir e afundar
todos os ilhéus humanos que manifestem abertamente
o desejo de viver em liberdade para criar e comunicar
os «donos do mundo» sofrem da mania das limpezas:
«a limpeza étnica», os genocídios colectivos, as perseguições individuais...
são maus vizinhos; não é possível saber o que estão a congeminar
ou quantos ilhéus humanos pretendem afundar por dia?
nos mares que dominam pela força e pela mentira
«os donos da vida» fundam colónias de predação
sem regra e sem excepção, e em regime de exclusividade
são «donos da razão»! brilhantes estrategas da dissimulação
levam demasiados ilhéus humanos a acreditar na liberdade
que lhes vão tirar! lembram-se das mitícas sereias?
usam-nas como armas de sedução e encantamento
causa de loucura pernamente, nos ilhéus humanos desatentos
estamos perante uma campanha de irracionalidade
levada a cabo pelos «donos da vida», que querem
afastar os ilhéus humanos, da vida e da verdade.
A intervenção do FMI-Banco Mundial
Em Novembro de 1988, o Banco Mundial enviou uma missão ao Ruanda com o objectivo de rever o programa de despesa pública do país. Estabelecera-se uma série de recomendações com vista a reencaminhar o Ruanda no sentido de um crescimento económico sustentado. A missão do Banco Mundial apresentou ao governo as opções de políticas económicas do país, consistindo em dois «cenários». O Cenário I, intitulado «Sem Mudança de Estratégia», contemplava a opção de reter o «antigo sistema de planeamento estatal», enquanto o Cenário II, cujo título era «Com Mudança de Estratégia», consistia na reforma macroeconómica e na «transição para o mercado livre». Após cuidadosas «simulações» económicas dos resultados prováveis destas políticas, o Banco Mundial concluiu, com uma ponta de optimismo, que, se o Ruanda adoptasse o Cenário II, os níveis de consumo sofreriam um aumento acentuado no período de 1989-1993, acompanhados por uma recuperação do investimento e uma melhoria da balança comercial. As «simulações» apontavam igualmente para um melhor «desempenho» da exportação e uma redução substancial dos níveis do endividamento externo (8). A obtenção destes resultados estava dependente da receita habitual de liberalização do comércio e desvalorização da moeda, a acrescentar à suspensão de todos os subsídios à agricultura, à progressiva eliminação dos Fonds d`égalization (o Fundo Estatal de Estabilização do café), a privatização das empresas do Estado e ao despedimento de funcionários públicos.
Foi adoptado o Cenário II, «Com Mudança de Estratégia». O governo não tinha escolha (9). Procedeu-se a uma desvalorização de 50% do franco ruandês em Novembro de 1990, menos de seis semanas após a incursão do exército rebelde da Frente Patriótica Ruandesa, proveniente do Uganda.
(8) No âmbito do Cenário II, esperava-se um crescimento de 5% nas exportações contra 2,5% no Cenário I.
(9) A dívida perdoada, no montante de 46 milhões de dólares, foi concedida em 1989.
Michel Chossudavsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
Quando a madrugada acorda em mim a necessidade de plantar
um canteiro de palavras sem idade, levanto-me de imediato
e dirijo-me ao quintal, quero abrir sulcos na terra mãe
esse dicionário onde pretendo desvendar a linguagem da vida
e nela encontrar as sementes, em forma de palavras.
No quintal, as velhas oliveiras espreguiçam os braços
espreitando os primeiros raios da manhã, as laranjeiras acusam o estio
apresentam um aspecto murcho, sonolento, piedoso
a frondosa latada de parreiras americanas está plena de vitalidade
Gotas de orvalho, gotas efémeras de esperança matinal
atravesso a relva molhada do jardim, descalço
tenho como destino a horta, um espaço onde a vida irrompe
da terra, da vontade e da imaginação humana
acalento a ideia de encontrar um cantinho discreto
onde possa fazer o meu canteiro de palavras
pode ser ao lado do canteiro das cenouras
talvez entre o canteiro dos rabanetes, e porque não
o canteiro das cebolas, também podia ser ali, naquele espaço vazio
entre as covas dos pepinos e o rego dos pimentos
já ali, junto à fiada dos tomateiros, o meu canteiro de palavras
ficaria desabrigado, aqui, junto aos morangueiros -- que aroma!
Sim aqui, parece-me fantástico, o espaço livre é suficiente
deixo-me cativar pelo sossego deste pequeno oásis
o tempo ganha uma dimensão diferente, ali ao fundo junto ao poço
fica a barraca, onde estão guardados os utensílios que vou necessitar:
o ancinho, a enxada, o regador, o carro de mão, o balde e a imaginação
uma horta é um lugar encantado, tão encantado
como qualquer jardim carinhosamente tratado
uma horta bem cuidada, é um lugar mágico
sinto as forças da natureza prodigalizarem o milagre da criação
num ambiente humilde, numa atmosfera onde se respira simplicidade
num jardim, enaltece-se a vaidade e o exotismo das plantas
o perfume e a elegância das flores, a exuberância das copas...
na horta crescem legumes, frutos e vegetais, que enchem de alegria
a mesa dos homens e a de fartura as majedouras dos animais
sento-me a observar o despertar das plantas e dos pássaros
as forças vivas do campo espreguiçam-se
dissolvo-me na paisagem, evado-me da condição humana
os pés descalços enterrem-se no chão húmido
dir-se-ia, que desejam criar raízes?... e sonho...
o poço de pedra antigo, a picota e gerações de camponeses pobres
a passar de mão em mão courelas de terra e querelas familiares
e com o suor regar, as hortas de subsistência
nas hortas corria a seiva vital, que alimentava a vida comunitária
a mente continua a divagar, ou será que sem que dê por isso
vai ajeitando o canteiro de palavras?!
a cama de terra fofa e estrume está preparada
e as sementes escolhidas começam a ser cuidadosamente espalhadas
para logo de seguida serem cobertas por uma fina camada de terra
a mão segura do semeador agarra com firmeza o regador
é sua intenção deitar a quantidade excata de água
necessária à germinação destas sementes tão especiais
o hortelão abriu um sistema simples de canais, muito comum
e bastante eficaz, que encaminha a água até onde a mesma
é essencial, as raízes das plantas que estão em crescimento
uma simples enxada serve para abrir e fechar os diques
para canalizar a água até onde o hortelão deseja
a picota range madrugada fora, algumas vezes
outras vezes, o seu ranger cadenciado vai noite dentro
o balde de zinco vai abaixo e vem acima para encher
o tanque cinzelado num bloco de pedra unitário
as rãs coaxam escondidas no meio dos caniços
junto ribeira que passa ali ao fundo
um gato pardo, que mais parece uma estátua imóvel
espreita um descuido da toupeira cega, ou mesmo
algum rato em busca de alimento
a noite vai vindo, e com ela chegam os pirilampos
os melros já regressaram definitivamente aos ninhos
e o pastor regressa a casa com o rebanho
tudo aparenta estar no seu lugar, não falta nada
nem estrelas no céu, nem gente humilde na terra
as crianças conseguiram autorização dos pais
para apanhar e comer morangos, é bom partilhar a alegria
com que os degustam, ao fundo encostada ao muro de pedra
a meixoeira está carregada, as ameixas douradas
pendem dos ramos dobrados, não escapam ao olhar arguto
e guloso das crianças, que trepam o tronco com agilidade
as crianças ainda vão ter que esperar pelas melancias e melões
estão em meia-criação, já se consegue encontrar algumas maçarocas
de milho capazes de assar na brasa, são uma delícia!
caminhei descalço, de consciência tranquila
recorri ao húmus da vida e da verdade
poalha de estrelas intemporais
e semeei um canteiro de palavras
A fragilidade do Estado
Os alicerces económicos do Estado ruandês np período após a independência continuavam a ser extremamente frágeis. Uma parcela substancial das receitas do governo dependia do café, com o risco de um colapso no preço da mercadoria poder precipitar uma crise nas finanças públicas. A economia rural constituía a principal fonte de receitas do Estado. Com o agravamento da crise da dívida, uma grande parte das receitas do café e do chá foi reservada para o serviço da dívida, exercendo ainda mais pressão sobre os pequenos agricultores.
Entre 1987 e 1991, as receitas provenientes das exportações sofreram um declínio de 50%. Em consequência, assistiu-se ao desmonoramento das instituições estatais. Quando os preços do café desceram em flecha, irromperam situações de fome em todas as zonas rurais do Ruanda. Segundo dados do Banco Mundial, o crescimento do PIB per capita desceu de 0,4% em 1981-1986 para -5,5% no período que se seguiu à quebra do mercado do café (1987-1991).
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
2 Horas por dia! Os pais portugueses dedicam em média 2 horas por dia aos filhos. O país é civilizado, tem orgulho no seu passado, até já integrou o poletão da frente numa Europa supostamente unida, e não se envergonha de albergar cidadãos (que são simultaneamente pais!) que só dispendem 2 horas por dia a cuidar das crianças portuguesas!
2 Horas por dia! Como todos sabemos, os hábitos são invasivos; a facilidade com que adoptamos novos hábitos sem erguer um dedo em protesto, é incrível, é desta forma que novos canônes de normalidade se impõem sem esforço e passam a fazer parte das nossas vidas como se sempre tivessem existido, e se em alguns casosn nenhum mal vem ao mundo devido a esse comportamento negligente, outras vezes podemos tornar-nos cúmplices de novas formas de barbárie, e, apesar de conseguirmos justificar a nossa conduta, e torná-la plausível, as consequências desmentem a hipocrisia que nos habituamos a usar como panaceia para todos os males, até que chega o dia em que a casa vem abaixo, e depois toda a gente lamenta o sucedido e mais, parece não compreender as causas das catástrofes de origem humana.
2 Horas por dia! Efectivamente, os laços afectivos estarão mais condicionados à qualidade da interacção relacional entre pais e filhos, do que à exiguidade do espartilho temporal, pode-se estabelecer uma boa empatia emocional mesmo quando o tempo disponível é escasso. Tudo isto é verdade, pelo menos, eu acredito que sim, mas, isso não explica porque terão que ser os pais o elo mais fraco, na cadeia de interesses que envolve o crescimento das crianças!
Já agora, a talho de foice, as crianças deixaram de ser o pitéu preferido do pequeno almoço dos comunistas, para nestes tempos de voragem sem fronteiras passarem a ser consideradas pelos agentes económicos como um manancial ( um dos pratos mais apetecidos) quase ilimitado de tragar recursos financeiros aos pais; as despesas com as crianças (ainda que a maior parte seja consítuída por bens supérfluos e vaidade bacoca dos progenitores) decerto são hoje a par com os automóveis, a desvastação das finanças familiares. Os pais, pressentindo que falham com os filhos (por não lhes dedicarem o tempo que deviam, entre outros motivos) são acometidos por sentimentos de culpa (a intensidade com que esse sentimento é experimentado, é pessoal, subjectiva e creio que intransmissível, ou talvez não, a mente é capaz de artimanhas, que nem ao diabo lembram!), gastam somas exorbitantes em produtos de luxo e brinquedos carissímos e roupas de marca, que obviamente não fazem a criança feliz, quanto muito, satisfazem a curiuosidade e são entretenimento de pouca dura, e quando assim não é, não significa que o brinquedo inócuo, pode até pertencer ao grupo dos brinquedos ou jogos que são tendencialmente viciantes, dando ínicio a uma longa e penosa aquisição de hábitos que paulatinamente se transformam em dependências, que podem ser extremamente perniciosas para o desenvolvimento da criança. Como vemos, a emenda pode ser pior que o soneto, terrivelmente pior! Portanto, é bom ter muita atenção, quanto às compras que se fazem, no intuito de compensar a criança, quando o adulto supõe ser negligente com os seus filhos, pode estar a dar-lhes presentes envenenados, e isso, é bem mais pernicioso, do que a eventual negligência que deseja colmatar.
A educação é um processo dinâmico, que dura toda uma vida (e mais que viessem!), e os pais são os primeiros modelos culturais em quem a criança confia (é bom não esquecermos, quanto é essencial à criança poder confiar nos pais; a inocência só termina, quando somos confrontados com a impossibilidade de poder confiar no nosso semelhante, é assim que começa a descida individual aos infernos, e descrer no ser humano! Quando os pais são uma fonte inesgotável de confiança, o desenvolvimento emocional da criança evoliu saudavelmente. É bom que a criança não se sinta confusa, no que concerne a esta vertente essencial do seu crescimento.
Investir nos filhos centenas de euros (em muitos casos milhares!), não significa que se estejam a servir os interesses da criança, nem que o dinheiro esteja a ser gasto num verdadeiro projecto educativo! Um filho, não é uma árvore de Natal! Infelizmente, muitos pais, fazem dos filhos um prolongamento da dura batalha que travam, na guerra insana (como todas as guerras!) da gestão das aparências, numa sociedade que mata e morre, sempre a fingir que vive. Para além do desgaste que envolve, esta batalha pode causar disfunção paranóica na forma como a criança percepciona a realidade.
A economia desde a independência
«A evolução do sistema económico pós-colonial desempenhou um papel decisivo no desenrolar da crise do Ruanda. Embora se registassem progressos na diversificação da economia nacional desde a independência, manteve-se na genaralidade a economia de exportação ao estilo colonial assente no café (les cultures obligatoires), estabelecida durante a administração belga, fonecendo ao Ruanda mais de 80% das suas receitas em divisas estrangeiras. Desenvolvera-se uma classe de rendeiros com interesses no comércio do café e laços estreitos com o poder político. Embora os níveis de pobreza se mantivessem elevados, durante os anos 70 e a primeira parte da década seguinte verificaram-se progressos ao nível económico e social: o crescimento real do PIB era da ordem dos 4,9% ao ano (1065 - 1989), as matrículas nos estabelecimentos de ensino subiram marcadamente e a inflação registada encontrava-se entre as mais baixas da África subsariana, menos de 4% ao ano (5).
Emnbora a economia rural do Ruanda permanecesse frágil, marcada por pressões demográficas agudas (um crescimento populacional de 3,2 por ano), fragmentação da propriedade agrícola e erosão dos solos, a auto-suficiência alimentar a nível local fora, até certo ponto, atingida, em paralelo com o desenvolvimento da economia de exportação. O café era cultivado por aproximadamente 70% das famílias rurais, embora constituísse apenas uma fracção do rendimento monetário total. Desenvolvera-se uma série de actividades comerciais, entre as quais se contava a venda de alimentos tradicionais e de cerveja de banana em mercados regionais e urbanos (6). Até finais da década de 80, a importação de cereais, incluindo a assistência alimentar, era mínima se comparada com os padrões observados em outros países da região. A situação alimentar começou a detiorar-se no ínicio dos anos 80, assistindo-se a um marcado declínio da disponibilidade de aliementos per capita. Em contradição aberta com as reformas do comércio habitualmente adoptadas sob os auspícios do Banco Mundial, até àquele momento fora proporcionada protecção aos produtores locais, através da imposição de restrições foram levantadas com a adopção do programa de ajustamento estrutural em 1990.
(5) Ver United Nations Conference on the Least Developed Countries, Country Presentation by the Government of Rwanda, Genebra, 1990, p. 5. Ver também République Rwandaise, Ministère des Finances et de l`Economie, L`Economie rwandaise, 25 ans d`efforts (1962 - 87), Kigali, 1987.
(6) Ver o estudo de A. Guichaoua, Les paysants et l`investissement-travail du Burundi et au Rwanda, Bureau International du Travail, Genebra, 1987.
(7) United Nations Conference on the Least Developed Countries, op. cit., p. 2.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
De torrões sagrados são constituídos os esgalhos
das expedições que empreendo às origens
dos torpores e cadafalsos, misérias impertinentes
e cansaços de antepassados desalinhados
do orgulho esbugalhado, e do assédio prepotente
sentados à soleira da vida comesinha, escutamos histórias
modificas por mor da unidade de estado
apaga-se a verdade, para defender o interesse da nação
o estado tem o direito e o dever
de açular a multidão contra dissidentes e desertores
vaga de calor patrioteiro, apadrinhada pelo árbitro da nação
comovido e logo catapultado para a ribalta da consternação
povo que lavas no rio, as fanfarronices dos espertalhões
povo que perdes, uma e outra vez, a oportunidade
de sair das catacumbas da mediocridade endémica
povo que és nação patrioteira, e conheces a história mal contada
enalteces as tradições e bajulas valorosos cidadãos
povo peregrino, que em Fátima procura milagres
povo vergado aos caprichosos desígnios dos paladinos da nação
povo que nunca perde a fé, Deus não abandona os seus cordeiros
pastor, cão, credor(es), legislador(es), carrasco(s) orador(es)
e demais demónios, que erguem bem alto, o estandarte
da unidade nacional, falsos como judas, inventam inimigos
e mandam erguer barreiras, materiais e culturais
e cavar trincheiras, ecos de batalhas perdidas
pela emancipação merecida, dos indivíduos
que formam as fileiras da nação, que saiu debaixo das saias so padre
para os portais virtuais da alienação
e assim deve ser mantida, por conveniência dos espoliadores
que omitem a verdade e promovem a nacional imbecilidade
que não deixam de enaltecer as capacidades críticas do povo
como se a consciência crítica pudesse ser apreendida espontâneamente
num qualquer folheto informativo que acompanha o comum telemóvel
da última geração!
povo que é soberano e está consciente das maquinações do poder
povo que é esclarecido pela evidência da alternância democrática
povo que é livre pensador e presume que pensar dá cabo da saúde
povo que tem acesso a uma base de dados vasta, fidedigna e elucidativa
povo que mergulha confiante nas verdades surgidas não ao acaso, mas aprovadas por dignas convencções internacionais
povo que não consome, nem digere o caldo infecto
de informação forjada, acompanhada de pedaços de realidade ficcionada
povo que é imune à comunicação anómala que entorpece a mente
povo endividado, agradece às misericordiosas instituições
a disponibildade que demonstram em apertar o garrote
ao mínimo sinal de patriótica prevaricação material e cultural
povo que ainda não atingiu a maturidade política, cívica e cultural
por isso frequenta bares e discotecas da moda, locais in
povo que repara, no que o povo veste, povo invejoso, povo vaidoso
povo que lê pouco; as estatísticas garantem que a maioria dos cidadãos
não consegue interpretar correctamente um texto mais denso e complexo
povo que gosta do fast food televisivo
povo que não se importa que o seu metabolismo cultural
seja inquinado por toxinas degenerativas
povo que não considera necessário separar o trigo do joio
povo que desconfia vagamente da honestidade dos discursos políticos
povo que pressente que a política é a arte de representar
povo que não quer admitir que as decisões políticas
são tomadas à revelia dos interesses dos países e das nações
mas não se importa, porque nada pode fazer!
povo que assiste impávido aos atentados contra os direitos humanos
e não quer acreditar que os direitos sociais estão ameaçados
povo que se diverte com a política-espectáculo e eleitoralista
os protagonistas juram por tudo quanto é profano
que o sua divisa é servir o país e amar a nação
acima de todas as coisas, menos os seus mesquinhos interesses
o povo gostaria que os políticos não mentissem, mas paciência
que é boa para a vista, («vistas largas e grandes filosofias»)
Toda a gente sabe isto, ou desconfia, mas dedicar algum tempo e já agora, discernimento, a tentar compreender porque raio o povo, e a pessoa humana (isto é, cada um de nós), cidadãos de parcos recursos, mantidos durante gerações longe da vida cultural, política, artística, etc. do país; presume-se que tenha sido devido ao paternalismo altruísta, apanágio das classes dominantes deste país, que sempre entenderam ser seu dever e direito, proteger o povo das más influências culturais, que podiam perverter os valores tradicionais, a classe culturalmente dominante alimentou o capricho de passar atestados de imaturidade intelectaul ao povo, com efeitos devastadores para o desenvolvimento sócio-cultural desse povo, que ainda hoje são sentidos, o que de melhor se faz, no campo da criação artística e da produção cultural ainda é hoje não é para o povo, os entendidos gostam de nos convencer que o povo não gosta e por isso não procura, não frequenta, em suma, não quer!
o povo quer é futebol, o povo quer é festivais de música «popular», (populista) patrocinados pelas câmaras municipais, porque será?
o povo sabe o que quer, teve adequada formação ética e estética
para avaliar o que lhe convém, não é facilmente manipulado
o povo não precisa de alargar os horizontes culturais
o povo sabe bem o que lhe interessa
e não está para aturar as manias intelectuais
o povo sai à rua derrotado (quotidianamente) por políticas que o mantém subjugado
o povo não admite, é ser humilhado por um golo helénico
o melhor da cultura política vai parar à mesa do povo
ilustre e soberba nação, quantos séculos mais continuarás
a perfilar este cacarejar insano?
Infelizmente, não conheço a História de Portugal como deveria, contudo, sempre que surge alguma oportunidade de acrescentar um pouco de conhecimento e esclarecimento, procuro aproveitá-la; foi o que sucedeu hoje quando resolvi dar a devida atenção ao programa «A Alma e a Gente» (João III -- O Rei e a Universidade)Apresentação de José Hermano Saraiva, do qual vou aqui deixar um breve resumo.
No século XVI, aportavam em Lisboa muitos navios comerciais vindos da Flandres, até aqui tudo bem; só que estes navios transportavam igualmente uma carga clandestina, as ideias luteranas, o risco da heresia começar a contaminar a população estudantil da universidade de Lisboa, atormentou sua Alteza Real, D. João III (monarca profundamente católico).
Em 1537, a Universidade foi transferida para Coimbra, decisão que provavelmente foi tomada como meio de prevenir a propagação da heresia, uma preocupação que o rei D. João III levava muito a sério, tanto que no ano de 1536 (um ano antes da transferência da universidade) o monarca pediu autorização ao Vaticano para instalar o Tribunal da Santa Inquisição em Portugal. Em 1540 foi acesa a primeira fogueira, e os ecos obscurantistas do excesso de zelo religioso do Rei D. João III, ainda hoje se repercutem negativamente na sociedade portuguesa.
Um dia destes o mundo vem abaixo
um dia destes tropeço em mim
um dia destes, ou daqueles devio-me de ti
um dia destes, passando por mim a correr
um vulto esquálido, parecido comigo
esquadrinhou-me o olhar, vomitou-me aos pés
o escárnio azedo de quem já perdeu o medo
e entregou a carcaça para abate misericordioso
um dia destes, agarra-se ao fundo do tacho a ironia
um dia destes, a luz há-de surpreender-me desgastado
ao fundo do túnel escavado na louca esperança
de alcançar a liberdade, que não mexe um dedo!
um dia destes, faço das palavras um baraço
estico a corda, aperto o garrote, mergulho
em nitrogénio liquído, e adormeço para o meu tempo
um dia destes, quando a propaganda amainar
e a humanidade possa enfim, acordar do longo pesadelo
de viver numa civilização modelo, de violência e frustração
um dia destes, o silêncio recolherá as palavras invertebradas
fartas de rastejar, como vermes nojentos.
Encalham objectos, nos picos submersos
da insatisfação, venenos dissimulados
acabam por corromper, os vestígios de ilusões
e matar os corais, local de abrigo
para a esperança.
Encalham algumas pérolas
nas lembraças do entendimento primordial
contemplo intensamente a sua beleza sem rival.
A realidade cultural, o caminho para interpretar a realidade natural, onde se desenrola o drama existencial de todas as espécies que constituem a diversidade da vida nesta planeta, onde cada uma se adapta e evolui de modo a satisfazer as necessidades básicas à sobrevivência da espécie, num sistema de trocas recíprocas, onde não tem lugar a perversidade cultural humana (a natureza não funciona segundo o paradigma sentimental e cultural humano, a natureza funciona segundo um paradigma de adaptação pura, isto é, não defende interesses específicos, sujeita-se à inexorabilidade das leis universais, de outra maneira já há muito que teria sucumbido.
Aplicar à natureza os conceitos da realidade cultural humana, como acontece tantas vezes, tentado justificar erros humanos, á carregar a mente humana de preconceitos e ferramentas enganosas e extremamente perigosas. Humanizar a natureza aplicando conceitos que distorcem as regras interactivas entre as espécies, é prestar um mau serviço à difusão do conhecimento científico e um péssimo exemplo de compreesão de dois fenómenos distintos, o fenómeno cultural humano e o fenómeno natural, completamente não-cultural.
Considerar a competição económica, como um fenómeno natural evolucionário de adaptação às regras de mercado, e justificá-lo com exemplos comparativos que supostamente ocorrem no mundo natural, onde as bestas se degladeiam e matam por um pedaço de alimento, noção falsa e perniciosa para a comprensão dos dois fenómenos, o cultural, criação da mente humana, uma mistura de imaginação criativa e desejo de controlo sobre a natureza, um fenómeno iminentemente artificial, enquanto que o fenómeno natural, o paradigma de evolução civilizacional, é um fenómeno que está ao serviço da eliminação, da exclusão, da deturpação da verdade e consequentemente da vida, esta estratégia foi desenvolvida de modo que alguns indivíduos conseguissem consolidar uma posição cimeira de superioridade que impunham às massas, este fenómeno é cultural, completamente cultural, pretender justificá-lo com exemplos retirados da vida natural é no minímo blasfémia contra a própria vida.
As adapatções que ocorrem no seio da natureza, não acontecem segundo uma intenção, ou de acordo com um projcto prévio, do qual é suposto sairem vencedores e vencidos, a extinção de espécies devido a causas naturais, acontecem por motivos que estão relacionados com a rápida detioração das condições ambientais que eram imprescindíveis à sobrevivência de uma dada espécie, sem que a mesma tivesse tempo para conseguir adaptar-se às novas condições. O limiar das capacidades de adaptação não é linear, por exemplo, o tamanho do animal, um animal grande é muitas vezes uma desvantagem, quando surgem alterações significativas no meio ambiente que lhe serve de suporte vital, ou seja, as vantagens aparentes em situação de estabilidade podem revelar-se desvantagens dramáticas em situação de crise ou mudança drástica do meio ambiente, com alterações dos recursos alimentares disponíveis. Não é a lei da selva que funciona na natureza, é a lei da vida, e quem não comprender isto, nunca há-de compreender, independentemente do grau académico atingido e dos conhecimentos livrescos que possua, deturpará a sabedoria que só a simplicidade e a humildade de quem consegue devagar aproximar-se ao fenómeno que é a vida, com o único desejo de interpretar o sentido da vida que em si próprio sente fluir, o desenvolvimento da consciência não depende do grau académico, o que devia ser uma vantagem por vezes, infelizmente, muitas vezes transforma-se numa barreira, por onde não entra o fio de luz revitalizador, ou a necessidade de sentir o explendor da aurora libertar a verdade algemada a (pre)conceitos culturais, quu com o tempo se transformam em obscuras masmorras existenciais. A liberdade criativa não suporta este estado de empedernimento moral, por isso os artistas, os poetas, e outras cabeças menos convencionais entram em ruptura com os códigos vigentes, com as mentiras dormetes, com a propaganda, essa medonha hidra que consome todo o honesto esforço humano, de ter oportunidade para interpretar o fenómeno cultural humano e desenvolver as ferramentas adequadas para se aproximar do fenómeno natural, cada vez sinto mais nitidamente a necessidade que a espécie humana tem de compreender que a realidade cultural (múltipla e em muitos casos pouco lúcida) em que abastecemos a nossa dispensa de conhecimentos e paradigmas descodificadores, é extraordinariamente deficiente e deturpada, e a causa artificial das desastrosas incursões que temos feito junto dessa outra realidade, a natural, que serve se suporte à nossa realidade cultural, é tão maltratrada.
Qualquer mudança de atitude, só acontece quando a respectiva mudança de consciência revela ao mundo outros mundos, ou seja, quando o ser humano, individualmente desdobra as folhas de um livro onde estão inscritas diferentes dimensões e mensagens, que se tornam admiravelmente distintas na paisagem mental, logo que corremos as cortinas espessas da ignorância, esse bafio atávico, que persegue a humanidade civilizada, pelo simples facto de a mesma se julgar culturalmente superior, e sendo a cultura uma realidade inexpugnável, de que algumas élites não abrem mão, a realidade natural, naturalmente, é desprezada por essas doutas sapiências, entre as quais se encontra uma sapiência perticularmente inacessível: a propaganda da economia de mercado.
labaredas de vento, incendeiam remoinhos de sonhos
lugares e paisagens povoadas por monstros antedilúvianos
crisálidas adormecidas em casulos
memórias nostálgicas, esvoaçam delicadas borboletas
nas paisagens interiores, mirador onde debruças o olhar perdido
um fio de luz traça no vale o leito, por onde rolam e rebolam pensamentos
nesse rio banham-se risos e sentimentos, crianças brincando
alheias ao perigo, que espreita a inocência
No universo imenso e profundo as estrelas produzem labaredas
onde lavo o olhar enfermiço E observo as serenas crateras nuas
despojos de sonhos que não conquistei
escombros de batalhas que perdi, na labuta quotidiana
as crinças ainda mergulham na água fresca da vida
a esperança de serem um dia alguém
não confinado ao orgulho e desdém pelo companheiro
que partilha o deleite das tardes quentes, amizades ingénuas
que a vaidade fará murchar, quando à cabeça de alguns subirem
o calor das importâncias, e os suores frios da indiferênça
queimam-se os vestígios da crisálida adormecida
cede-se à ganância, para se manter a tradição
e acrescentar mais um tijolo à ignominiosa obra
que a muitos faz jeito, designar por civilização!?
O legado do colonialismo
(...) Aos historiadores coloniais foi confiada a tarefa de «transcrever» e distorcer a História oral do Ruanda-Urundi. O registo histórico foi falsificado: identificou-se a monarquia mwami exclusivamente com a disnastia aristocrática tutsi. Os hutus eram representados como uma casta dominada (3). Emitiram-se bilhetes e identidade com a indicação da «origem étnica». Esta fora abitrariamente definida com base na posse de cabeças de gado, sendo os tutsi «donos do gado» e os hutus «agricultores».
A partir das divisões socioétnicas impostas, os colonizadores belgas desenvolveram uma nova classe social, os chamados «nègres évolués», recrutados na aristocracia tutsi; o sistema de ensino foi organizado de forma a educar os filhos dos chefes e assim providenciar o pessoal africano necessário aos Belgas. Por sua vez, durante o período colonial belga as várias missões apostólicas e paróquias recebiam mandatos quase políticos. O clero, por exemplo, era frequentemente utilizado para obrigar os camponeses a integrarem-se na economia de agricultura comercial. Estas divisões socioétnicas --- que se consolidaram a partir dos anos 20 --- deixaram marcas profundas na sociedade contemporânea do Ruanda.
Desde a independência, em 1962, as relações com as antigas potências coloniais e com os doadores tornaram-se extraordinariamente complexas. Contudo, este mesmo objectivo de voltar um grupo étnico contra o outro («dividir para reinar»), herdado do período colonial belga, prevaleceu em grande medida nas várias intervenções «militares», de «direitos humanos» e «macroeconómicas» empreendidas desde o eclodir da guerra civil em 1990. A crise do Ruanda reduziu-se a uma ronda contínua de mesas-redondas dos doadores (realizadas em Paris), acordos de cessar-fogo e conversações de paz. Estas várias iniciativas eram observadas de perto e coordenadas pela comunidade doadora num circuito emarenhado de «condicionalidades» (e contracondicionalidades). Desde o eclodir da guerra civil, a libertação de fundos de emprêstimo multilaterais e bilaterais foi condicionada à implementação de um processo de «democratização» sob a vigilância atenta da comunidade doadora. Por seu turno, a assistência do Ocidente como forma de apoio à instauração de uma democracia multipartidária ficava condicionada (numa relação quase simbiótica) à assinatura de um acordo com o FMI. Estas tentativas tornavam-se tanto mais enganadoras quanto, desde o colapso do mercado do café em 1989, o poder político real no Ruanda se encontrava, em larga medida, nas mãos dos doadores. Um comunicado do Departamento de Estado dos EUA emitido no início de 1993 ilustra esta situação de forma clara: para o prosseguimento da assistência bilateral dos EUA estabeleciam-se como condições o bom comportamento nas reformas de políticas económicas e o progresso em direcção à democracia.
A «democratização» baseada num modelo abstracto de solidariedade entre as etnias, tal como definida pelo acordo de paz de Arusha assinado em Agosto de 1993, era desde o início uma impossibilidade, e os doadores sabiam-no. O empobrecimento brutal da população, tanto em consequência da guerra como das reformas do FMI, constituía um entrave a um processo genuíno de democratização. O objectivo era cumprir as condições de «boa governação» (um novo termo no glossário dos doadores) e supervisionar a instalação de um governo fantoche de coligação multipartidária sob a tutela dos credores externos do Ruanda. Na realidade, o multipartidarismo, tal como concebido pelos doadores, contribuiu para exacerbar as várias facções políticas do regime. Não surpreende que, logo que as negociações de paz entraram num período de impasse, o Banco Mundial tenha anunciado que ia suspender a libertação de fundos ao abrigo do acordo de empréstimo (4).
(3) Ver Ferdinand Nahimana, Le Rwanda, Emergence d`un Etat, L`Harmattan, Paris, 1993.
(4) New African, Junho de 1994, p. 16
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
O legado do colonialismo
«Que responsabilidade cabe ao Ocidente nesta tragédia? Em primeiro lugar, importa sublinhar que o conflito entre os hutus e os tutsis é, em grande medida, um produto do sistema colonial, do qual ainda prevalecem muitas características nos nossos dias. A partir dos finais do século XIX, a ocupação colonial alemã inicial servira-se do mwami (Rei) da nyiginya(monarquia) instalada em Nyanza como um meio de estabelecer os seus postos militares. Contudo, foram em grande medida as reformas administrativas iniciadas pelos Belgas em 1926 que se revelaram decisivas na definição das relações socioétnicas. Os Belgas utilizaram os conflitos dinásticos de forma explícita para reforçar o seu controlo territorial. Os chefes tradicionais em cada colina (colline) eram utilizados pela administração colonial para requisitar trabalho forçado. Ministravam rotineiramente espancamentos e castigos corporais a mando dos patrões coloniais. Estes chefes encontravam-se sob a supervisão directa de um administrador colonial belga responsável por uma parcela específica de território. Instalou-se um clima de medo e desconfiança, a solidariedade comunitária desfez-se e as relações tradicionais sofreram uma transformação destinada a servir os interesses dos colonizadores. O objectivo consistia em incentivar a rivalidade entre as etnias como forma de adquirir controlo político e de impedir o desenvolvimento de solidariedade entre os dois grupos étnicos, que se teriam inevitavelmente voltado contra o regime colonial. A aristocracia dinástica tutsi recebeu também a responsabilidade da cobrança de impostos e da administração da justiça. A economia comunitária foi minada e os trabalhadores rurais viram-se forçados a passar de uma agricultura de produção de alimentos para uma agricultura comercial. As terras comunitárias transformaram-se em lotes individuais exclusivamente vocacionados para o cultivo de produtos para o mercado externo (as chamadas cultures obligatoires) (2).
(2) Ver Jean Rumiya, Le Rwanda sous le régime du mandat belge (1916-1931), L`Harmattan, Paris, 1992, pp. 220-26; Andre Guichaoua, Destins paysans et politiques agraires en Afrique centrale, L`Harmattan, Paris, 1989.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
1) O FMI e o Banco Mundial preparam a cena
A crise do Ruanda que conduziu aos massacres étnicos de 1994 tem sido apresentada nos meios de comunicação ocidentais sob a forma de uma narrativa de sofrimento humano, enquanto as causas económicas e sociais subjacentes são cuidadosamente ignoradas pelos jornalistas. Como em outros «países em transição», os conflitos étnicos e o desencadear da guerra civil são cada vez mais frequentemente descritos como algo que é quase «inevitável» e «inato nestas sociedades», constituindo um «estádio doloroso na sua evolução de um Estado unipartidário para a democracia e o mercado livre». A brutalidade dos massacres chocou a comunidade mundial, mas o que os meios de comunicação internacionais não mencionaram é que a eclosão da guerra civil foi antecedida pelo recrudescimento de uma crise económica com raízes fundas. Foi a reestruturação do sistema agrícola, sob a supervisão do FMI-Banco Mundial, que precipitou a população do Ruanda para uma situação de pobreza abjecta e de miséria.
Esta detioração da situação económica, verificada imediatamente após o colapso do mercado internacional do café e a imposição de reformas macroeconómicas abrangentes palas instituições de Bretton Woods, exacebou as tensões étnicas latentes e acelarou o processo de colapso político. Em 1987, o sistema de quotas estabelecido ao abrigo do Acordo Internacional do Café (International Coffee Agreement --- ICA) começou a desmoronar-se, os preços mundiais desceram em flecha e os Fonds d`égalisation (os fundos estatais de estabilização do preço do café), que adquiriam café aos agricultores do Ruanda a preços fixos, começaram a acumular uma dívida considerável. Em Junho de 1989, a economia do Ruanda sofreu um golpe mortal, quando o ICA entrou num impasse, em consequência das pressões políticas exercidas por Washington em nome dos grandes importadores americanos de café. Após um encontro histórico de produtores realizado na Florida, os preços desceram em questão de meses, mais de 50% (1). Para o Ruanda e para vários outros países africanos, a queda dos preços foi causa de devastação. O preço ao produtor caíra para menos de 5% do preço a retalho do café nos EUA. Em consequência da importação do café a preços internacionais baixos, os países ricos estavam a apropriar-se de uma quantidade tremenda de riqueza à custa dos produtores directos (ver capítulo 5).»
(1) O sistema de quotas de exportação da Organização Internacional do Café (International Coffee Organization --- ICO) foi abandonado na sequência dos encontros da Florida em Julho de 1989. O preço FOB em Mombaça desceu de 2,62 dólares por quilo em Maio de 1989 para 1,20 dólares em Dezembro. Marchés tropicaux, 18 de Maio de 1990, p. 1369, 29 Junho de 1990, p. 1860.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
As intervenções restritivas que o Banco Mundial e o FMI impõem aos países em vias de desenvolvimento têm consequências sociais devastadoras, devido ao desmantelamento das estruturas económicas tradicionais, e à obrigatoriedade de abrir as fronteiras à importação de produtos agrícolas excendentários oriundos dos países desenvolvimentos. Nos países desenvolvidos, as camadas sociais mais desfavorecidas e os trabalhadores menos qualificados (mas também e cada vez mais, recém licenciados, e elementos das mais diversas profissões liberais, até há bem pouco tempo, poupadas a este tipo de afronta) são seriamente feridos pelos estilhaços (efeitos colaterais) dos bombardeamentos cirúrgicos (económicos), ordenados pelo FMI e o Banco Mundial, que pretendem impor (sem admitir oposição, nem alternativa!)o modelo de globalização ao gosto da alta finança internacional e dos grandes grupos económicos; modelo, que serve igualmente, os interesses do submundo do crime organizado e globalizado; alguém poderá garantir com o mínimo de rigor até onde se estendem os tentáculos destas orgamizações?, e que meios possuem para se infiltrarem em instituições consideradas credíveis pelo cidadão comum?! O crime organizado não tem rosto, vive na sombra, adquiriu o estatuto da omnipresença; compra facilmente, imunidade, impunidade e respeitabilidade, desde que tenha dinheiro para pagar o título que deseja adquirir (os tunéis da economia subterrânea estão a abarrotar de recursos financeiros prontos a ser injectados em investimentos na débil economia ao ar livre).
Ora, o aumento do desemprego, o trabalho precário, o desenraízamento cultural, etc. fazem a vida negra a muitos cidadãos, cuja existência está a funcionar em módulo de suspensão (uma forma de hibernação sócio-profissional, que atinje em cheio a dignidade do cidadão e lhe embarga os movimentos individualizados e diminui drásticamente o fluxo financeiro, que restringe drasticamente o acesso a bens e serviços, de primeira necessidade), a qualidade de vida, quaisquer que sejam os parâmetros usados para a medir, vai ladeira abaixo desgovernada, enquanto o espectro do desemprego sacode as entranhas do subconsciente; esboroa-se a esperança, perde-se a alegria de viver, aumenta o medo inibidor, o suícidio começa a ser encarado como alternativa, o que torna, ainda mais precária a situação individual e familiar, dramas destes são comuns, não podem ser exacerbados! Claro, pelos que ainda se julgam de raízes bem presas ao solo estéril da economia de mercado!
«O aumento da concentração de rendimentos e da riqueza nas mãos de uma minoria social (tanto nos países avançados como em pequenas bolsas de riqueza no Terceiro Mundo e na Europa do Leste) conduziu ao crescimento dinâmico da economia de bens de luxo: viagens e tempos livres, automóveis, a revolução electrónica e das telecomunicações, etc. As culturas do drive-in e do duty-free, centradas nos eixos do automóvel e dos tarnsportes aéreos, são os pontos focais da moderna economia dos tempos livres e do consumo de «alto rendimento», para a qual são canalizados recursos financeiros astronómicos.
Enquanto a gama de bens de consumo disponíveis para a manutenção de um estilo de vida de alto rendimento se expandiu para além de quaisquer limites, desde a crise da dívida do início da década de 80 que se verifica uma contracção correspondente nos níveis de consumo da grande maioria da população mundial. Em contraste com a grande diversidade de bens acessíveis a uma minoria social, o consumo básico de cerca de 85% da população mundial limita-se a um pequeno número de bens alimentares e produtos essenciais.
Este crescimento dinâmico do consumo de bens de luxo proporciona, no entanto, uma «aberta» temporária para uma economia global acossada pela recessão(3). O rápido crescimento do consumo de bens de luxo, porém, contrasta cada vez mais com a estagnação dos sectores produtores de bens e serviços de primeira necessidade. No Terceiro Mundo e na Europa de Leste, a estagnação da produção de alimentos, da habitação e dos serviços sociais básicos está em contraste marcado com as pequenas bolsas de privilégio social e de consumo de bens de luxo. As elites dos países endividados, entre as quais se contam os antigos apparatchiks e os novos magantas da Europa do Leste e da ex-União Soviética, são simultaneamente protagonistas e beneficiárias deste processo. As disparidades sociais e de rendimento na Hungria e na Polónia são agora comparáveis às existentes na América Latina. (Para dar um exemplo, um Porsche Carrera pode ser adquirido num stand da Porsche-Hungria, no centro de Budapeste, pela modesta soma de 9 720 000 forints, mais do que um trabalhador húngaro ganha numa vida inteira -- ou seja, 70 anos de salários médios industriais.) (4)
A estrutura de salários baixos no Terceiro Mundo, combinada com os efeitos de reestruturação económica e da recessão nos países avançados, não favorece o desenvolvimento do consumo de massas e o aumento geral do poder de compra. O sistema produtivo global está, pois, cada vez mais vocacionado para o abastecimento de mercados limitados -- ouseja, os mercados de consumidores de rendimentos elevados nos países do Norte, aos quais se juntam pequenas bolsas de consumo de bens de luxo no Sul e no Leste.
No contexto descrito, os salários e os custos de produção baixos resultam num poder de compra reduzido e numa procura deficiente. Esta relação contraditória é uma característica essencial da economia global baseada na mão-de-obra barata: os que produzem não são os que consomem.»
(3) Em face dos baixos gastos civis, as despesas militares desempenham um papel importante na reactivação da procura.
(4) «In zwei Jahren uber den Berg, Der Spiegel, nº 19, 1991, p. 194
Michel Chossudovsky; A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
«Já durante o período Reagan-Thatcher, as duras medidas de austeridade implementadas tinham resultado na gradual desintegração do Estado social. As medidas de «estabilização económica» (em princípio adoptadas para «atenuar os males da inflação») contribuíram para a queda do vencimento dos trabalhadores e para o enfraquecimento do papel do Estado. Desde os anos 90, a terapia económica aplicada nos países desenvolvidos contém muitos dos ingredientes essenciais dos programas de ajustamento estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial ao Terceiro Mundo e à Europa de Leste.
No entanto, em contraste com os países em vias de desenvolvimento, as medidas políticas de reforma na Europa e na América do Norte são impostas sem a mediação do FMI. A acumulação de grandes dívidas públicas nos países ocidentais tem proporcionado às elites financeiras uma alavanca política, bem como o poder de ditar as políticas económicas e sociais aos governos. Sob a capa do neoliberalismo, as despesas públicas são reduzidas e os programas de assistência social abandonados. As políticas estatais promovem a desregulação do mercado de trabalho: desindexação dos salários, emprego a tempo parcial, reforma antecipada e imposição de cortes salariais «voluntários».
Por sua vez, a prática de desgaste -- que transfere o fardo social do desemprego para os grupos etários mais jovens -- contribuiu para impedir a entrada no mercado de trabalho a toda uma geração (8). As regras da gestão de recursos humanos nos Estados Unidos são:«"dar cabo" dos sindicatos, voltar os trabalhadores mais velhos contra os mais novos, chamar os fura-greves, baixar os salários e acabar com o seguro médico pago pelas empresas»(9).
Desde os anos 80, uma grande parte da mão-de-obra nos Estados Unidos tem vindo a ser desviada de postos de trabalho bem remunerados e sindicalizados para empregos de salário mínimo. «Terceiro-mundismos» de cidades ocidentais: a pobreza nos guetos e zonas desfavorecidas da América é a vários títulos comparável com verificada no Terceiro Mundo. Embora a taxa de desemprego «oficial» dos Estados Unidos tenha descido nos anos 90, o número de pessoas com empregos a tempo parcial e mal remuneradas subiu em flecha. Em consequência do declínio nos postos de trabalho com salário mínimo, grandes sectores da população vêem-se completamente afastados do mercado de trabalho: «O gume verdadeiramente selvático da recessão fre o âmago das comunidades e dos novos imigrantes em Los Angeles, onde as taxas de desemprego triplicaram e não existe uma rede de segurança social. As pessoas estão em queda livre e as suas vidas desintegram-se, com o desaparecimento de empregos de salário mínimo.»(10)
Por outro lado, a reestruturação económica criou divisões profundas entre classes sociais e grupos étnicos. O ambiente das grandes zonas metropolitanas caracteriza-se pelo «apartheid social»: a paisagem urbana encontra-se compartimentada segundo linhas sociais e étnicas. O Estado, por sua vez, é cada vez mais repressivo na forma como gere os conflitos sociais e procura controlar as manifestações de descontentamento da sociedade civil.
Com a onda de fusões corporativas, downsizing e encerramento de fábricas, todas as categorias da força laboral são afectadas. A recessão atinge a classe média e os escalões superiores da força laboral. Os orçamentos destinados à investigação são reduzidos, cientistas, engenheiros e outros profissionais vão para o desemprego e funcionários públicos superiores e gestores são forçados a pedir a reforma antecipada...
Entretanto, as realizações do período inicial do pós-guerra têm vindo a ser anuladas através da suspensão dos plenos de seguro de desemprego e da privatização dos fundos de pensões. Escolas e hospitais facham as suas portas, criando-se assim as condições necessárias para a privatização total dos serviços sociais.
(8) Nos Estados Unidos, a maioria dos postos de trabalho criados nos anos 80 era a tempo parcial e/ou de contrato temporário. Ver Serge Hamili, «Mais qui donc finance la création de millions d`emplois aux Etats-Unis», Le Monde Diplomatique, Março de 1989.
(9) Ver Earl Silber e Steven Ashby, «UAW and the "Cat Defeat», Against the Current, Julho/Agosto de 1992.
(10) Mike Davis, «Realities of the Rebellion», Against the Current, Julho/Agosto de 1991, p. 17
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
A Humanidade do século XXI, terá que perceber (caso esteja interessada em sobreviver?) que existe vida política fora dos carris da esquerda e das estações de caminhos de ferro da direita, a política deste século (XXI), terá que partir da voz dos cidadãos, a democracia precisa de dar esse passo antes que seja demasiado tarde.
Os partidos políticos funcionam em moldes que esbarram com a defesa de interesses corporativos e e clientelares opostos à defesa da democracia.
Defender a democracia não é fazer oposição aguerrida, ou mesmo ofensiva, defender a democracia é estar empenhado em defender ideias, ideais e causas prementes: o ambiente, a pobreza, a miséria generalizada, a educação, a saúde, a comunicação social (será que deve continuar a ser a extensão tentacular do modelo de sociedade baseado na hegemonia económica imposta por meia dúzia instituições financeiras e outra meia dúzia de multinacionais, que estão interessadas em manipular mais eficazmente a vontade dos povos, de modo a poderem continuar a expandir o seu poder, sem oposição.), a liberdade de expressão individual e de comunicação entre diferentes povos e culturas
O cidadão não pode continuar a delegar na pandilha política as responsabilidades que são de todos nós, ou somos tão papalvos que preferimos acreditar que algumas vez, os políticos (a política é a arte de representar, já ouvo isto em algum lado) representam bem e mentem melhor, já são horas de o cidadão comum pensar em ser mais interventivo, o comodismo paga-se caro, a promiscuidade também, tratar da vidinha, recorrer a uns malabarismos de ocasião, somos peritos nisso, desde que escapemos não há mal nenhum, as migalhas são cad vez menos, e muitos a querer apanhá-las e muitos mais a ficar à míngua.
O século XXI, terá que conhecer essa revolução, se não nos empenharmos (os cidadãos comuns) em exigir que sejam construídas as pontes que permitam o acesso fácil ao poder (que continua a estar num pedestal demasiado inacessível), de maneira a que os que são eleitos, não continuem a sentir-se imunes à vontade popular, não podem os políticos continuar a ser prevaricadores e conseguirem escapar às malhas da lei, qual casta acima das humanas obrigações para com os seus concidadãos e deveres constitucionais para com a pátria.
Por isso faz mais sentido que pensemos no que para nós cidadãos é importante (não estou a pensar nos mesquinhos interesses que ocupam os ramos nus do nosso descontentamento), pode ser o ambiente, o ruído incomodativodas nossas cidades onde vivemos, pode ser a falta de qualidade do ensino que é ministrado aos nossos filhos, pode ser tudo o que vos passar pela cabeça, desde que sejam movidos pela boa fé, e pelo interesse num debate construtivo, o nosso medo é que as nossas luminosas ideiazinhas não sejam tidas em conta, mesmo que sejam estapafúrdias! Mas que importa a nossa opinião sair vencedora, desde que tenhamos tido oportunidade de nos fazermos ouvir, não podemos ter a veleidade de querer tenha que ser tida em conta, se outras houve com maior poder de aglutinar apoio.
A humanidade não pode continuar a descurar a ética, a educação, a saúde não pode estar à mercê de profissionais que não tenham sido eticamente bem formados (porventura é mais fácil o sistema querer que sejam tecnicamente bem formatados, que a ética não é chamada ao caso!); a política, a economia, a cultura, e até a arte e a poesia, a filosofia, e mesmo a música, também não podem ficar de fora, qualquer actividade exercida pelo homem, tem sempre uma carga ética (boa ou má) que cativa ou repele. Ficamos reduzidos há barbárie, mesmo quando a mesma é mitigada pela mais esmerada educação, se a nossa existência decorrer à revelia da ética, que nunca devia andar separada da sua irmã gêmea, a estética. Podemos ser educados nos melhores colégios, frequentar as mais afamadas universidades, mas não podemos escapar às regras perversas do jogo que nos leva a entrar em guerra com o outro, em cada esquina espreita-nos um adversário, ou quiçá, um inimigo, um atirador furtivo, um bombista, ou alguém disposto a libertar no ar que vamos respirar algum gás letal, ou alguma droga alucinogénia, as fantasias e os medos não ficam por aqui, descem aos abismos mais absurdos, às desconfianças mais perversas e por aí fora...
Ora vivemos num tempo, que exige respostas, o cidadão comum terá que enfrentar uma dura prova e fogo, ou aprende a enfrentar em pé de igualdade os que ocupam as cadeiras do poder (político, económico, ou outro qualquer...), pode refugiar-se na cobardia interesseira (mas afinal, que tem o cidadão comum a perder?), e tornar-se cúmplice das catástrofes humanitárias e ambientais, que inevitavelmente vão ocorrer, caso prefiramos continuar a delegar nos actuais arautos da política, da economia e da comunicação social a tutela das nossas vidas presentes, e das vidas das futuras gerações.
No leste da Ásia, a crise financeira de 1997 -- marcada por ataques especulativos contra divisas nacionais -- contribuiu em grande medida para o fim dos chamados «tigres asiáticos» (Indonésia, Tailândia e Coreia). Os acordos de assistência do FMI, impostos logo após o colapso financeiro, tiveram como consequência imediata o declínio abrupto do nível de vida das populações. Na Coreia, na sequência da «mediação» do FMI -- decidida após consultas a alto nível com os maiores bancos comerciais e financeiros do mundo -- «uma média de mais de 200 companhias por dia fecharam as suas portas (...). Por dia, cerca de 4000 trabalhadores ficavam desempregados» (4). Entretanto, na Indonésia, num cenário de violentos confrontos nas ruas, os salários praticados pelas fábricas ilegais nas zonas de exportação, que empregavam mão de obra barata, desceram de 40 para 20 dólares por mês; e o FMI insistiu na desindexação dos salários como forma de mitigar as pressões inflacionárias.
Na China, com a privatização ou falência obrigatória de milhares de empresas estatais, 35 milhões de trabalhadores estão sob a ameaça de desemprego (5). Segundo uma estimativa recente, existem cerca de 130 milhões de trabalhadores excedentários nas zonas rurais da China (6). Por ironia, o Banco Mundial tinha previsto que, com a adopção de reformas do «mercado livre», a pobreza na China desceria para 2,7% no ano 2000(7).
(4) Federação Coreana de Sindicatos, «Unbridled Freedom to Sack Workers is No Solution At All», Comunicado, Seúl, 13 de Janeiro de 1998.
(5) Eric Ekholm, «On the Road to Capitalism, China Hits a Nasty Curve: Joblessness», New York Times, 20 de Janeiro de 1998.
(6) Ibid
(7) Ver World Bank, 1990 World Development Report, Washington, 1990.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial
A saúde, a educação, a assistência social
à terceira-idade (a terceira quê?!!!?)
o trabalho precário, a miséria cultural, moral e espiritual
retalhada e escondida, por muros de vergonha empedernida
a política de sarjeta, a cloaca televisiva
o incomensurável alarvidade desportiva
as férias de uns, as divídas insustentáveis de outros
o passar de testemunhos, a corrida de estafetas
o país vai a banhos, o povo vai à merda, com todas as letras
o crime patrioteiro (de lesa pátria) não compensa
a praia dos tomates está reservada
para políticos retirados de funções
em ocasiões de optimismos falhados
a nação está retalhada em reservas e coutos privados
em academias de ..., e fundações de fachada
em irmandades corporativas, e comadres de ocasião...
em sonhos adiados, há cidadãos orfãos
de olhar vendado, enredado no pesadelo
de não ter esperança num país
que regurgita ignorância e atavismo seculares
doença larvar, que ressuma dos dogmas tumulares
os patrioteiros merecem ir a banhos
depois da euforia, o merecido descanso
as férias parlamentares, a discórdia nacional arrumada
aos políticos que vão de férias
recomenda-se a salutar estância balnear (pedagógica)
em tempos conhecida por Limoeiro.
O mundo é um lugar onde todos os intervenintes dependem da interacção adaptativa que os liga ao meio natural e lhes permite evoluir e sobreviver, o ser humano compreende estas regras, mas deturpa-as e corrompe-as. Como vive numa realidade cultural, criada por si e para seu próprio consumo, considera-se um caso à parte, um ser superior, em suma, um cretino que adora representar o papel de anjo da guarda (da fealdade, da injustiça, da violência e da destruição em massa dos seus semelhantes e de todas as criaturas que se lhe atravessem no caminho) da criação supostamente divina!Será o homem é "naturalmente" negligente? Acredito mais, que o homem seja culturalmente negligente; a cada época, corresponde uma dada forma de negligência dominante, que dimana directamente do modelo civilizacional reinante. A cultura dominante nunca é inocente, serve a quem está no poder (as várias formas de poder possíveis excretam uma realidade cultural que visa defender os interesses das elites dominantes) e tem por função distrair o cidadão comum, uma panóplia de multíplas formas de coacção social e cultural é desenvolvida e usada sem restrições, de modo a surtir o efeito desejado, que no momento presente passa por fazer do ser humano, consumidor infantilizado, hipnotizado por bugingagas tecnológicas que absorvem a curiosidade natural e ocupam a imaginação; este modelo cultural dominante faz uso exacerbado e obscurantista dos meios de propaganda que possui, revestindo a mensagem de um colorido fulgurante e folclórico.
O ser humano civilizado estrebucha numa realidade iminentemente cultural, mas convém não esquecer que a cultura é uma criação arbitrária, na qual intervêem muitos factores e influências que não são fáceis de controlar; a realidade cultural, que forma uma dada paisagem social e humana, é consequência de distintos fluxos imaginativos, que representam simbologias conceptuais de realidades ficcionadas por tendências interpretativas, que dependem de múltiplas modelos existenciais. Face a esta realidade ficcionada, em que os diferentes agentes culturais (consoante os interesses que defendem) arrogam-se o direito a cortar e/ou colar a película de acordo com os ditâmes do modelo cultural vigente. Os conhecimentos adquiridos, as experiências vividas, as trocas que os agentes culturais realizam com o meio social e natural (por um lado, traumáticas, por outro, por vezes despertam a consciência dialéctica para a relação de comprimisso entre a humanidade, imbuída numa realidade de cariz cultural, e a realidade natural que obedece às leis da vida (tanto quanto sei!). Interpretar a universalidade intemporal destas leis, ajuda a humanidade a criar uma cultura de aproximação ao meio natural (sem paternalismos pueris, ridículos.), isto é senso comum, e caso o ser humano não estivesse tão obstruído por lixo "cultural" (actualmente o ser humano civilizado está tecno-infantilizado; adorador incondicional das inovações tecnológicas, deposita nas mesmas uma confiança desmesurada!), seria relativamente fácil estabelecer uma ligação intuitiva com o meio natural; o ser humano necessita (até para manter o equilíbrio psico-emocional) de comunicar com o meio ambiente, e contemplar com regozijo estético e ético a terra mãe, à qual está culturalmente (des)ligado.
Desconfiemos das nossa certezas culturais, que não passam de fragmentos fraudulentos da realidade natural (a unidade fundamental) de iníqua vaidade, não há razão para ter medo de percorrer os caminhos estreitos, as bermas nuas, e atrevermo-nos a enfrentar avalanches culturais, e desmoronamentos existenciais, e despertar para a Verdade, que é a Vida.
O negócio de animais selvagens movimenta 2 biliões de dólares por ano. Fiquei na dúvida se o valor apresentado, não correspondia exclusivamente ao tráfico de aves, incluíndo espécies ameaçadas de extinção!
A beleza da fauna tropical caíu na alçada do "mercado", é certo e sabido que os consumidores deste tipo de produtos e objectos de desejo, são devidamente informados por fplheto incluso e video pedagógico dos riscos que as espécies correm, para que os civilizados cidadãos dos países desenvolvidos possam ter na sala de estar um bicho exótico, atraídos pela necessidade de colorir a qualquer preço o cinzentismo cromástico das suas existências.
O planeta agoniza lentamente (à escala humana!), e como não faltam por aí optimistas acreditando que a ciência um dia destes substituirá (com melhores e exclusivos resultados!) os membros da flora e da fauna que entretanto vão sendo eliminados.
O homem deixou-se dominar pela cultura da cobiça, a civilização é um processo de aprendizagem que leva o homem a adquirir hábitos baseados na negligência sistemática das leis da vida e das regras da natureza e das necessidades vitais ao desenvolvimento da espécie humana, das quais depende a evolução individual, com o passar do tempo, o desleixo torna as doenças da civilização crónicas, que condicionam a resposta do indivíduo às demandas da consciência, submetida a décadas de tirania por questões de conveniência e até de sobrevivência em meio social hostil. A insensibilidade deve-se ao facto do homem ser vulnerável à cultura dominante e almejar ser importante aos olhos da comunidade onde se insere, o mundo natural (animal, vegetal, mineral..) é visto como um manancial de riqueza fácil, olhado com desdém e indiferênça pelo sofrimento e destruição irreversível que possa ser causada, eticamente sente-se imune, e como tal não sente qualquer constrangimento em agir.
O tráfico de aves tropicais pode ser classificado como uma actividade bio-terrorista, paradigma do absurdo que envolve os crimes ambientais; por cada ave que chega viva ao seu destino, morrem nove! Fica-se sem palavras, como é possível!? É, porque basta alguns exemplares valiosos chegarem aos seus destinos, para o crime ser economicamente rentável, a lei da oferta e da procura funciona nesta actividade como em qualquer outra, e como é ilegal, muito melhor.
Os turistas de ocasião, que não se interessam, ou não estão despertos para as questões ambientais, olham para aqueles seres vivos, como objectos decorativos, que podem ser adquiridos pelo dinheiro e levados para casa, poderão orgulhar-se de possuir uma criatura oriunda da mítica Amazónia na sala de estar, quanto mais ignorante for a criatura humana, mais acredita no bem estar que proporciona à criatura animal, o cinzentismo quotidiano destes cidadãos da urbes civilizadas não imaginam que são cúmplices da morte de nove criaturas, o êxito da sua ave de estimação, não pode deixar de ser relacionada com a morte inglória das outras nove, se isto não é um crime horrendo, se isto, não representa o paradigma da civilização em que vivemos, orgulhosa de tanta realização, esquecendo-se intencionalmente da destruição que causa, ainda não teve coragem para inventar uma balança que pese o teor de ignorância letal, responsável pela destruição colateral do avanço (leia-se retrocesso) civilizacional, que vai consumindo vida e esperança a um ritmo que é impossível de repor, enquanto os criminosos são condecorados com titúlos e louvores, por acções destrutivas por muitos enaltecidas.
12 milhões de animais são retirados do seu habitat natural (não nos esqueçamos que nove décimos vão terminar mortos antes de chegar ao seu destino!) para satisfação de coleccionadores privados, laboratórios de investigação científica e farmacéutica e lojas de animais de "estimação" ao redor do globo.
O tráfico de animais, vive paredes meias com outros tráficos, armas e drogas, o que torna o combate a esta actividade ilícita muito perigoso, polícia federal, jornalistas de investigação, activistas ambientais são alvos preferenciais, visados pelas armas dos traficantes.
O desconhecimento, a forma deficiente como são divulgadas as causas dos problemas ambientais (porque não interessa, vive-se bem à custa da predação ambiental, o crime compensa, o mercado funciona, e quem vier atrás que feche a porta!) facilitam o negócio sujo, não é difícil perceber que muitos dos potenciais clientes anónimos (os laboratórios e os coleccionadores deviam ser exemplarmente penalizados, pela justiça dos seus próprios países! Os animais podem ser criados em cativeiro para as experiências laboratoriais, melhor seria abolir essa tipo de experiências, mas admitamos que são necessárias ao avanço da medicina; os coleccionadores deviam tornar-se uma espécie em extinção, os animais sao para ser admirados no seu meio natural e de preferência deixá-los em paz, temos os documentários que partilham com o cidadão a riqueza deste maravilhoso planeta, tão mal amado pelo homem civilizado.) caso estivessem sensibilizados para estas questões, detestariam ter um dessas criaturas a ornamentar a sala de estar, não acredito que sentissem o menor desejo de serem cumplíces de semelhente barbaridade, de maneira a satisfazerem um capricho muito pouco respeitável.
Não há mercado sem consumidores! Os animais são perseguidos porque pagam fortunas pelos mesmos. Arranjar licenças não é de modo algum um impedimento para evitar que as mais diversas espécies (incluíno as ameaçadas de extinção) saiam do país (Brazil), os agentes da autoridade são subornáveis, as fronteiras permeáveis, e mesmo os aeroportos deixam passar sem dificuldade as malas, onde vão dissimulados os animais (na sua maioria aves).
A bela arara azul de tão cobiçada, já só restam alguns casais. Os papagaios de peito cinzento da Argentina, tornaram-se comuns na Europa (custam à volta de trinta euros numa loja) e muitas famílias compram-nos, por acharem "engraçado", mais tarde, começam a não achar graça nenhuma ao animal que não para de palrar, muitos acabam soltos, entregues a si próprios no ambiente poluído das cidades.
Mato Grosso, na bela região do Pantanal corre o rio Cuíba (creio que percebi bem) no qual vivem vinte espécies de piranhas, algumas das quais são capturadas pelos habitantes ribeirinhos para fazer sopa e pales supostas propriedades afrodisíacas que garantem ter. Para a maioria dos turistas a sopa de piranha não é gastronomicamente atractiva, mas sentem-se fascinados pela reputação das piranhas e compram nas lojas de recordações, os animais dissecados e envernizados, com os dentes arreganhados (os especímenes minúsculos são usados para fazer porta-chaves, o que coloca cada vez mais em perigo a sobrevivência futura da espécie, o mercado funciona, não funciona mesmo, costuma-se dizer que até ao lavar dos cestos, ainda é vindima, pois o mercado funciona de tal modo, que pretende vindimar tudo, literalmente.)
Last, but not least! O jornalista teve a ideia de experimentar encher uma mala com aves, insectos e reptéis de plástico e embarcar no aeroporto de São Paulo com destino a Madrid, não foi interpelado na operação de embarque, o que equivale a dizer que as bagagens não são verificadas devidamente, independentemente do seu conteúdo (a fauna brasileira sai impunemente do país) e chega sem problemas a outro continente.
Poder-se-á inferir que é demasiado fácil traficar o que resta da diversidade viva deste planeta, em nome do lucro fácil, porque o mercado funciona demasiado bem, sem restrições, legal e ilegal, serão gêmeos monozigóticos?
« A união poderia fazer muita força...», este é o título de uma posta que o Dito Cujo editou esta madrugada, 10 de julho de 2004, às 5h37m, onde alude a um artigo publicado na BBC News: Africa "should not pay its debts"
A special adviser (Jeffrey Sachs) to the United Nations secretary general Kofi Annan has said African countries should refuse to repay their foreign debts.
"The time has come to end this charade," he said.
Faço questão de deixar aqui duas sugestões:
1 - Leiam o artigo publicado na BBC News, reflictam um pouco no assunto e sintam como todos (mesmo os "privilegiados" cidadãos ocidentais estão, mesmo que ainda se sintam seguros, cada vez mais vulneráveis à falta de escrúpulos de instituições como o Banco Mundial e o FMI, e organizações como a OMC.)
2 - Um dos livros (os fiéis companheiros das noites de insónias) de mesa de
cabeceira que estou a ler é:«A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial» escrito por: Michel Chossudovky, que aconselho veementemente a quem se preocupa com as novas circunstâncias do recrudescimento da tirania económica que grassa pelo mundo e que vai paulatinamente forjar um modelo de sociedade imbecilizada e criar as condições para que os escravos modernos sejam mais docéis que carneiros pastando nas bucólicas paisagens da Grã-Bretanha.
3 - Por mais interessante e preocupante que a charada em que a política nacional se transformou, ainda não somos o umbigo do mundo, mesmo que os senhores da futebolização teimem em inculcar esse dogma na cabeça de muito boa gente. Somos um país de sortudos, o país em que podia sempre acontecer algo pior, como por exemplo, um meteorito abrir uma cratera no lugar em que hoje se ergue alguma das emblemáticas catedrais, que os patrioteiros eleitos pela nação tanto veneram, ou querem levar o povo a acreditar nisso.
4 - Continuo a pensar (mesmo que seja o único, o que não acredito), que a nação mostrou, pelo menos aos que gostam de ler nas entrelinhas dos manifestos da comunicação social, o quanto a informação é dominada pela ânsia comercial em detrimento do interesse nacional.
5 - Tenham mais atenção aos que vos vão comendo por parvos, de políticos a dirigentes desportivos, de nacionalistas encapotados a democratas enluvados, porque todos prestam vassalagem às organizações supra mencionadas, e a outras que podiam ser igualmenete citadas, a troco de títulos e migalhas, vão covertendo as democracias em bonecos de palha, onde experimentam as
baionetas da nova ordem mundial, vão medindo a insensibilidade das populações, de maneira a saberem como onde escalonar os gaseamentos
colectivos, que estão entregues aos principais meios de comunicação, por serem os que mais facilmente penetram nos domícilos plebeus, quem considera a apatia um comportamento natural, está à mercé do monstro conjuntural.
Objectos, atraentes e abjectos rodopiam ao alacance
da percepção, dirigimos os sentidos na tentativa da sua apreensão
Simbolos do esvaziamento do sentir da criação
como se tudo fosse fruto de espontânea inanição
Abjecto é a forma da nossa intervenção num mundo
em ebulição, objectos e aparelhos que funcionam mal
esquecem o ser vivo que encarna o animal, a besta humana
em quezília com a vida, voraz devorador de objectos sem conteúdo
por não fazer caso, de que é constituído os seixos rolados do conhecimento
lavados pela água do discernimento, tudo se tranforma em ser
como podemos então, apreender os fragmentos de vida, em forma de cultura
ou laivos de loucura sem dar atenção, que em seiva viva vão circular dentro dos canais da nossa percepão, partículas de conhecimento que se alojando dentro de nós, mas como todos sabemos podem ser partículas de metais pesados ou outros venenos acumuláveis por não ser excretáveis, que vão debilitando o sistema, e detiorando o discernimento, até que o próprio ser se torna infértil, impedidos de germinar os genes da criação são os escombros do ser em delírio, afogado na iniquidade dos objectos que deformam apercepção da vida, dentro e fora do ser vivo, onde palpita um coração em busca da razão para tanta mágoa abafar a necessidade genuína que lateja no peito de cada ser humano, chispa de via em evolução, como pode ser tratado como objecto inerte, como pedra da calçada, como desilusão...
As organizações internacionais que regulam a saúde dos mercados mundiais, consagram tempo, e disponibilizam meios humanos e recursos económicos em prol do progresso das débeis economias dos países em vias de desenvolvimento. A humanidade está em boas mãos, não tem razão para se preocupar, o Banco Mundial, o FMI, podem ser tudo, menos instituições agiotas, podem pressionar os governos de nações pseudo-soberanas (o seu número sobe em flecha!) a restringir investimentos em áreas fundamentais como: a saúde, a educação, os serviços de assistência social e apoio aos cidadãos mais vulneráveis, que não deixam de ser ornanizações benfeitoras (altruístas) a que a humanidade deve agradecer o seu esforço em prol do desenvolvimento sustentável? A miséria alastra, os parcos recursos económicos dos países são destruídos, os mercados nacionais invadidos com produtos excedentários provenientes dos países com estruturas de produção bem organizadas e subsidiadas, mas as excelsas intenções dessas organizações continuam intocáveis? Os preços são fixados de acordo com as conveniências das multinacionais e dos investidores que brincam às negócios, e jogam com a vida de milhões de seres humanos, mas a intenção é boa, regular o mercado, manter a economia saudável e preservar o futuro, ou seja conservar a hegemonia actual, não há alternativa, garantem os entendidos? Os programas de reestruturação económica implementados nos mais diversos países obedecem a regras que não tem em conta as necessidades reais das populações, sendo impostos modelos económicos desadequados, que sufocam a produção e inviabilizam a manufactura dos mais diversos bens, que passam a ser importados, aumenta a pobreza e a miséria em nome estabilidade dos mercados e da livre concorrência, as melhorias chegarão, prometem? Os povos deixarão de ter direito à auto-determinação, não podem escolher o medelo económico que mais lhes convenha, sem terem que enfrentar barreiras intransponíveis erguidas pelas organizações que era suposto derrubarem barreiras e promover o progresso económico; fora dos canônes impostos por instituições como o FMI, e o Banco Mundial ao serviço da OMC, não existe vida (direito dos povos discernirem em consciência e optarem em liberdade pelo modelo de desenvolvimento mais adequado às suas necessidades e até à sua matriz cultural) nem direito a semeá-la?
As decisões são tomadas uniteralmente, os programas de ajuda económica subordinados às ditâmes arbitrários dos tiranos globais, que exigem subserviência ao jugo que nem discreto chega a ser, da vontade omisciente das multinacionais e dos grupos financeiros globalizados que controlam os recursos financeiros e manipulam os mercados de acordo com o interesse dos seus associados?
O desenvolvimento é um bode espiatório perfeito, em nome do qual se pode exercer um poder hegemónico (económico) globalizado que não respeita as diferenças e as necessiades específicas de cada nação ou região, e implementa medidas económicas coercivas, que criam dependência financeira, em consequência os paises arrastam-se numa lastimável penúria económica (desestruturada), o subdesenvolvimento permanece, as dívidas à banca internacional crescem desmesuradamente e a miséria humana é gritante, aterradora e alastra a franjas da população que ainda há uns anos viviam comodamente.
O desenvolvimento afinal, mais parece uma vingança que paira sobre a humanidade, e não o genuíno direito dos povos ao progresso económico sustentável!
Nos países desenvolvidos, considerados ricos, a situação não é muito melhor, digamos que as populações andam a consumir as reservas guardadas na arca comunitária, pelas gerações anteriores, em contexto sócio-económico diferente do actual. A subsistir à custa dos louros, que não conquistaram as gerações actuais navegam num mar alienação, submetidas à ditadura hegemónica das novas tecnologias, frequentam as rotas do entretenimento, num frenesim que leva ao esgotamento.
A partir dos bastidores as organizações ditam o destino das nações, impondo às populações a nova ordem mundial, de forma a que não é possível escapar. Os cidadãos têm que seguir as regras de um jogo perverso, em que está em causa a própria sobrevivência, instigados a ser mais agressivos, a competir com o amigo, o vizinho, o irmão, mesmo que saiba que lhe está a roubar o pão das mãos e a esperança do olhar, como é a sua sobrevivência que está em causa, endurece a pela da alma, e esconde-se dentro da carapaça que lhe impingiram. A consciência é obrigada a hibernar, tem que tornar-se rico a qualquer custo, obter sucesso, mesmo à custa da prática de gritantes injustiças e hediondos crimes. Os outros que por inaptidão, resistência, escrúpulos, ou qualquer incapacidade ou inibição, vão parar à valeta, por terem resistido a trocar vida por patacas envenenadas e ensanguentadas. Desperdiça-se a vida e os recursos económicos, destroi-se o ambiente, hipoteca-se o futuro, para que um bando de agiotas mantenham o jugo sobre as populações, prisioneiras de modelos de desenvolvimento que são aberrações ignominiosas, que negam a subsistência a milhões de almas a quem só resta pedir clemência aos deuses.
A evidente resignação perante as inevitabilidades adquiridas e os dogmas indiscutíveis deve-se em parte ao espectáculo multimédia que é servido ininterruptamente, como parte integrante da sociedade que se quer afirmar como recreativa, pelo menos agrada-lhe difundir essa ilusão, quando na verdade restringe cada vez mais as liberdades individuais de opção, enquanto a propaganda tenta fazer passar a mensagem oposta. o cidadão tem medo de agir e até de pensar, a época não está de feição para os dissidentes, esse estigma é demasiado pesado para ser carregado por um qualquer.
A população dos países desenvolvidos estão cada vez mais vulneráveis, assustados, confusos, inibidos e submissos ao regras dimanadas dos centros de decisão arbitrária (FMI, Banco Mundial, OMC), e custa-lhes acreditar que é possível construir outros mundos e realizar outros sonhos, à parte da tirania ultraliberal. Será imprescindível despertar as consciências que de momento são distríadas pelos muitos meios que o sistema desenvolveu para o efeito.
A sociedade actual lavra na crença ilusória da humanidade conseguir vencer certas dificuldades e problemas, recorrendo às tecnologias de ponta e mola que vão tomando conta do quotidiano do cidadão anónimo. Creio que a sociedade está a criar demasiadas expectativas nas tecnologias da comunicação e nas inovações científicas que por momentos parecem ter o poder de romper o véu de ignorância que envolve a humanidade.
Difunde-se o dogma falso, que convence o cidadão a depositar demasiadas esperanças, sem ter que, ele próprio empenhar-se pessoalmente na busca de soluções para os problemas que afectam a comunidade de que faz parte, mas também que deve ser interventivo nos traumas causados pela globalização, a que ele não escapa. O cidadão comum não deve aceitar de ânimo leve o falso axioma de que as tecnologias vão resolver os problemas da humanidade, quando o única forma de o fazer passa por mudar a mentalidade dominante, generalizada de predador sem escrúpulos. O modelo económico vigente quer fazer passar a mensagem que a liberalização do mercado, resolve os problemas económicos dos países em vias desenvolvimento, como única solução para o crescimento e prosperidade económica. A OMC defende a liberaização do mercado, porque é uma organização constituída pelas cúpulas económicas e financeiras com interesses geoestratégicos, e são eles que ditam a política internacional, com poderes para manipular governos e corromper instituições democráticas, e de maneira directa ou indirecta interferem em todas as áreas da actividade humana e usurpam a soberania dos países e fazem letra morta dos direitos humanos em nome da regularização e recuperação económica dos países. E quando os seus objectivos não são atingidos, vão apertando o torniquete económico em torno do pescoço indefeso das populações, se mesmo assim resistirem, mexem os cordelinhos das marionetas políticas, e passam à fase das intervenções cirúrgicas, fazendo uso da tecnologia adequada:«Para grandes males, grandes remédios.».
Terminada a segunda guerra mundial, o mundo ocidental conheceu um período de crescimento económico e desenvolvimento social sem precedentes, a era tecnológica estava lançada, representava pleno emprego, planos de saúde modernos com hospitais bem equipados, etc... à educação também não faltaram recursos para que os cidadãos tivessem acesso a um ensino de qualidade. A investigação científica e tecnológica era vista como uma prioridade numa sociedade em rápido desenvolvimento.
As mazelas deixadas pela guerra, estavam a sarar bem, havia o problema do bloco de leste e ameaça nuclear pairava, mas ninguém acreditava que viesse a concretizar-se, era um risco demasiado elevado para que, mesmo numa crise mais grave, alguém ousa-se usá-lo, quer as potências ocidentais, quer o bloco de leste.
A euforia económica, a abundância de bens de consumo e serviços diversos, tomou conta das pessoas, as carências económicas estavam ultrapassadas e as pessoas queriam divertir-se; adquiriram-se novos hábitos e mudaram-se costumes e tradições, a época era de esperança e muitos tabus simplesmente ruiram, com mais ou menos estrondo, mas irreversivelmente.
O automóvel trouxe uma mobilidade que veio transformar a vida das pessoas que podiam agora deslocar-se sem dificuldades e confortavelmente, a rede rodoviária foi melhorada, e a paisagem urbana transformou-se radicalmente. A modernização da aviação comercial, por sua vez veio aumentar o gosto pelas viagens, e mesmo os locais mais distantes começavam a ficar perto e acessíveis ao comum dos mortais.
As tecnologias revelam-se fascinantes, os feitos eram cada vez mais extraordinários e nada parecia poder mudar o rumo da sociedade, uma verdadeira época de ouro e esclarecimento. Mas como não há bela sem senão, a tecnologia não era inócua, pelo menos para o meio ambiente, os abusos começaram a fazer-se sentir em zonas mais sensíveis, o ambiente em certas zonas apresenta sinais de estar doente, mas o optimismo económico, científico e tecnológico é cego, e nem admite discussões, a elienação prossegue de vento em popa. Ora, uma tecnologia fiável e promissora leva o cidadão a acreditar que a mesma trará mudanças benignas ao quotidiano das pessoas, mas acontece que uma dada tecnologia é um utensílio, uma ferramenta, no fundo um mero instrumento à disposição do ser humano, que o pode usar bem, assim-assim, ou mal. Os oportunistas sem escrúpulos procuram imediatamente tirar proveito da nova tecnologia para manipular a vontade alheia, ou seja, aproveutam a apatia espectante da maioria, para tirar proventos e criar condições de superioridade em relação aos outros. Enquanto os desconfiados aguardam, os mais afoitos e aptos marcam o território, e montam mangas para onde encaminham o "gado" desatento e dócil, que desembocam em algum recinto, arena, ou palco, ou tudo em simultâneo, onde previamente foi montado o cenário conveniente à mensagem que desejem veicular, a intenção é proporcionar o êxtase colectivo e exorcizar os fantasmas individuais.
A maioria das tecnologias são inofensivas, o uso que o homem lhe dá, nunca o é! E o impacto nefasto que muitas tecnologias têm na sociedade é proporcional à inércia moral e espiritual que grassa numa dada sociedade, num determinado momento histórico. O desenvolvimento tecnológico implementa mudanças sociais perigosas, as empresas que desenvolvem os produtos não se preocupam com as mudanças que podem ocorrer com a introdução de novas tecnologias, a sociedade adapta-se, a sociedade responde, os cidadãos habituam-se à presença das novas ferramentas, chama-se a isto progresso e aos brinquedos, inovações, e quem não fica estarrecido com a velocidade a que as mudanças surgem, o cidadão não consegue adaptar-se, está sempre em desvantagem. O cidadão torna-se vulnerável face ao caudal ininterrupto de avanços e mudanças tecnológicas, o dogma tecnológico enraíza-se cada vez mais profundamente no seu âmago. O cidadão comum ao tornar-se cada vez mais tecno-dependente, perde cada vez mais a noção da realidade, sonâmbulo
pseudo-culto, custa-lhe aventurar-se fora do meio-ambiente tecnológico, partir à descoberta de si próprio, no que possui de genuíno, de ser vivo, criativo, atento e consciente de ser Vida; testemunha e simultaneamente arguido; Vida e Verdade, uma só realidade, dentro e fora. Então, para interpretar e comprender a Vida que acontece fora de si, o ser humano tem que adoptar uma atitude mental que lhe permita tornar-se consciente de que é um ser espiritual em evolução e não um tecno-dependente a perder identidade.
A tecnologias podem ser um excelente meio auxiliar, um recurso interessante, mas a descoberta da Vida e da Verdade são a forma de não deixar cair a existência na esterilidade, como muitos esperam que aconteça, para poderem seguir em frente e sem oposição, com os projectos humanitários enfiados na ponta da baioneta tecnológica.`
À guisa de não-conclusão, a Não-Violência é a estreita vereda dos não alinhados, mas devia ser rapidamente implementada, comom norma pedagógica na formação do comum dos mortais, desde a mais tenra idade, parece-me que o futuro da humanidade depende mais do desenvolvimento espiritual que deve descer dos altares das religiões para se misturar com o pó das nações unidas pelo cordão umbilical à Vida, símbolo de riqueza moral.
O projecto escola e o projecto vida a que cada ser humano tem direito, não pode descurar o desenvolvimento da consciência crítica, o ensino da cidadania participativa e da liberdade de expressão, sem esquecer a arte da comunicação. Quem não é desde pequeno sensibilizado para estar atento ao impacto das suas atitudes, como pode desenvolver a imprescindível auto-disciplina que o demove de participar em acções que podem causar dor e sofrimento aos outros; com as tecnologias passa-se o mesmo, quando usadas por cidadãos conscientes, são inofensivas, de contrário podem causar danos irreparáveis, ao que faz uso das mesmas e a quem apanha com os efeitos colaterais, sem ter condições para escapar ileso.
"Na ex-União Soviética, como consequência directa do «tratamento económico»
nefasto do FMI iniciado em 1992, o declínio económico ultrapassou a queda na produção verificada no auge da Segunda Guerra Mundial, após a ocupação alemã da Bielorússia e de partes da Ucrânea em 1941 e o intenso bombardeamento da infra-esrrutura industrial soviética. De uma situação de emprego total e relativa estabilidade de preços nos anos 70 e 80 passou-se para um quadro de subida em flecha da inflação, queda vertical dos salários reais e da taxa de emprego e abandono dos programas de saúde. A cólera e a tuberculose alastram a uma velocidade alarmante numa vasta área da ex-União Soviética (1).
O modelo da ex-União Soviética repete-se na Europa de leste e nos Balcãs. Umas após outras, as economias nacionais desmoronam-se. Noa estados bálticos (Lituânia, Letónia e Estónia), bem como nas repúblicas caucasianas da Arménia e do Azerbeijão, verifica-se um declínio da produção industrial que atinge os 65%. Na Bulgária, as pensões de reforma tinham descido para dois dólares por mês em 1997 (2). O Banco Mundial admitiu que 90% dos búlgaros vivem abaixo vivem abaixo do limiar da pobreza, fixado por aquela instituição em 4 dólares por mês (3). Sem meios para pagarem a luz, água e transportes, grupos populacionais por toda a Europa de Leste e os Balcãs vêem-se brutalmente arredados da era moderna."
(1) Associated Press, 14 de Agosto de 1993.
(2) «The Wind in the Balcans», The Economist, Londres, 8 de Fevereiro de 1997, p. 12.
(3) Jonathan C. Randal, «Reform Coalition Wins Bulgarian Parliament», The Washington Post, 20 de Abril de 1997, p. A21.
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
«No período do pós-guerra-fria, a humanidade atravessa uma crise económica e social de escala sem precedentes que está a conduzir ao rápido empobrecimento de castos sectores da população mundial. Assiste-se ao colapso de economias nacionais e a um alarmante aumento do desemprego. Na África subsariana, no Sul da Ásia e em partes da América Latina, têm-se verificado surtos de fomes a nível local. Esta «globalização da pobreza» -- que, em grande medida, fez retroceder as realizações alcançadas com a descolonização do pós-guerra -- teve o seu início num Terceiro Mundo marcado pela crise da dívida no princípio dos anos 80 e a consequente imposição de reformas económicas nefastas pelo Fundo Monetário Internacional.
A Nova Ordem Mundial é sustentada pela pobreza humana e a destruição do ambiente. Dá origem ao apartheid social, promove o racismo e os conflitos étnicos, mina os direitos das mulheres e, frequentemente, precipita os países para confrontos destrutivos entre nacionalidades. Desde os anos 90, tem vindo a estender o seu domínio a todas as principais regiões do Mundo, incluíndo a América do Norte, a Europa Ocidental, os países do antigo bloco soviético e os «Novos Países Industrializados» (NPI) do Sudeste Asiático e do Extremo Oriente.
Esta crise a nível mundial é mais devastadora do que a Grande Depressão dos anos 30. Tem consequências geopolíticas de grande alcance; a perturbação económica faz-se acompanhar pelo desencadear de guerras regionais, a fractura de sociedades nacionais e, nalguns casos, a total destruição de países inteiros. Esta é, indubitavelmente, a crise económica mais grave da História Moderna.»
Michel Chossudovsky, A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial
Um lar normal está impregnado de mensagens introduzidas descaradamente via televisão, que facilmente tornam instável a intimidade familiar, repetem-se quotidianamente, quando algum membro da família entra em casa, abre imediatamente, as comportas à barragem televisiva que descarrega no seio familiar uma torrente ininterrupta de (des)informação e (ir)realidade.
Adquirem-se hábitos, mudam-se costumes, despem-se valores e vestem-se ardores, defendem-se causas, domêsticas ou alheias, nobres ou plebeias, mas sempre prementes, inadiáveis. A atmosfera caseira torna-se mais densa e tóxica, as mensagens vão-se pegando às cortinas, aos reposteiros, às abas dos casos; vão libertando eflúvios e devaneios que perduram ao longo do serão.
De porto seguro, o lar passou a praça pública, de reduto privado e fortaleza inexpugnável, passou a lugar vulnerável, abolidas as barrreiras defensivas, a família está exposta aos ataques bárbaros da desinformação, e como se tal não basta-se, o exército electrónico fazendo uso da rede de tunéis virtuais previamente escavados, coloniza os lares com formas diversas de alienação; à família hodierna nem em casa são permitidas tréguas e paz, numa sociedade que devora as famílias e defaz os lares por motivos que raramente transcendem o banal!
A revolução da massificação (des)informativa marcou irreversivelmente a sociedade, e aboliu do lar, o descanso conjugal, hoje é impossível abafar o burburinho que grassa dentro de quaquer lar normal, quando algum membro da família deseja experimentar um pouco de silêncio repousante, de imediato é arrancado a esse prazer sem preço, por alguma estridência proveniente do compartimento contíguo, lamenta-se, sente a alma aprisionada pelo nefasto ruído, mas tem dificuldade em convencer as almas menos sensíveis aos tormentos auditivos, como podem ser desagradáveis e destrutivos os décibeis que usurpam o lar, que em certas ocasiões pouco tem de familiar, quer de dizer de acolhedor.
Onde estão afinal, sediados os centros de decisão?
E quem são os estrategas das campanhas que devastam os lares e mudam irreversivelmente o modo de pensar das pessoas comuns, trespassadas pelas balas sem rosto da desinformação, mesmo sem sair do reduto onde era suposto estarem protegidas de investidas malévolas, da hostilidade mundana e das guerras insanas que matam o bom senso e a liberdade de ser livre dentro do próprio lar.
Como podem as crianças ter interesse genuíno pelas matérias leccionadas nas escolas se vão para casa e são influenciadas por uma torrente de informação subliminar que lhes transmite uma cultura da permissividade: tu podes ter tudo, basta telefonares para aqui! enviares um postal para ali! vai à loja mais próxima! não te esqueças de ver este programa! os teus heróis favoritos estão hoje na tua televisão favorita! Esta panóplia de mensagens aturdem os cérebros infantis e adultos com uma abrangência deturpadora da realidade, ao mesmo tempo imbolizadora e assustadora, mas ninguém quer saber, ninguém tem vagar! Corre-se, para calar a má consciência, o medo de viver, os sentimentos de culpa e de rejeição, corre-se para não sentir as ferroadas da consciência!
As crianças não gostam de estudar, as crianças estão cada vez mais insurrectas. Quanto a debater o problema com seriedade, por forma a arranjar soluções a longo prazo, fazendo sentar à mesma mesa todos os interessados, não sem antes serem convidados a lavar as mãos! Numa nação crente e temente a Deus, deveria ser fácil juntar pessoas com boa fé, quando se trata de resolver problemas e definir caminhos e estratégias sustentáveis de desenvolvimento, que assegurem o futuro do país?
O país quer mudar ou não de rumo?
Um país, onde o cidadão comum sai à rua para defender vigaristas, e que diz entre amigos que faria o mesmo! Um modelo de democracia em que não é difícil encontrar entre a massa anónima, quem se predisponha a deixar-se corromper por dá cá aquela palha, deveria servir de modelo e referência para as democracias emergentes em países terceiro-mundistas!
No entanto, é possível corrigir esta mentalidade, mudando o modelo de ensino. Educar, é formar cidadãos para a liberdade e a plena cidadania e não escravos da produção e do consumo! A batalha mais ingrata, está em conseguir convencer os cidadãos em geral a inverter a tendência consumista? Como convencer os alunos a gostarem de estudar, quando a televisão transmite mensagens de falsa abundância e falsa acessibilidade, que a criança não consegue discernir, como pode perceber que algo tão aborrecido como estudar nada de palpável lhe dê em troca! A criança vê na televisão um supermercado de fantasia que nunca fecha, que fornece refeições pseudo-culturais ininterruptamente, num fartar de vilanagem e alienação! Depois de tal empanturramento, não é de estranhar que as crinças cheguem à escola com vontade de largar flatos e sem paciência para aturar os professores, vivem numa dimensão ficcional, que lhes corta o acesso à realidade.
A televisão não pode continuar a ser o tutor pedagógico da criança, as classes sociais mais esclarecidas (o que não significa que sejam as mais abastadas!) não o aceitam, não permitem que os seus filhos sejam mentalmente mutilados, nem são negligentes ao ponto de deixarem as suas crianças entregues à barbárie televisiva. Os filhos imaculados da maior parte dos políticos carreiristas inserem-se nessa classe culturalmente privilegiada, sabem a riqueza cultural ainda é um trunfo, e uma arma política, negada ao povo, burro por natureza (e assim se deve manter)!
A educação é o principal pilar da nação, e se Portugal continuar a ser promíscuo em matéria de educação, continuará a ser o aleijão da Europa, pode refugiar-se no fado, no destino, ou mesmo encontrar formas mais sofisticadas de apatia colectiva, a única coisa que está a fazer é dar razão aos que exigem, uma nação diferente, e que não aceitam a mórbida mediocridade vigente, como alter ego da nação!
Com a chegada das férias escolares de Verão, muitos pais ficam a braços com uma preocupação adicional: como ocupar os filhos, durante o longo período de inactividade lectiva? Muitos desconhecem o que são os OTL ; para outros, os mesmos são inacessíveis, por vários motivos, inclisivé, financeiros; uma outra razão que demove os pais de permitir aos seus filhos participar nestas actividades extra-curriculares, de ocupação de tempos livres, é a desconfiança em relação às instituições que promovem e dinamizam estas mesmas. Mas também há cada vez mais pais, conscientes que o ócio sem sentido, a deambulação pelas ruas, ou pelos centros comerciais; ou em alternativa, a televisão e o computador, essas sim, merecem que os pais desconfiem dos serviços que prestam! A negligência e o comodismo estão cada vez mais banalizados, e os pais têm cada vez menos paciência para aturar os filhos, chegam a casa saturados, após um longo dia de trabalho desgastante, o medo de perder esse trabalho, faz a pessoa sentir-se insegura, como pode deixar de andar com os nervos em franja? A sobrecarga de ansiedade e a tensão psico-emocional levam os pais à beira do desespero, nem para os filhos conseguem ter a disponibilidade anímica, a fim de prestar-lhes a atenção que merecem e obviamente necessitam, inevitavelmente a negligência vai ocupando o lugar da paciência, a resistência humana não é infinita, e muitos pais sobrevivem no limiar do esgotamento nervoso, sofrendo frequentemente de depressões e recaídas, estas situações são comuns, muito mais comuns do que se pensa e até piores do que aqui retratei, trata-se evidentemente de levantar o véu, não de esgotar a reflexão sobre o assunto, antes pelo contrário,gostaria que fosse o início.
As actividades lúdicas fora de casa, praticamente estão extintas; os jogos de rua, durante muitas gerações, proporcionaram às crianças do mesmo bairro, ou da mesma aldeia, brincadeiras que ajudavam ao crescimento conjunto, a pobreza não era um entrave à formação de amizades; mas com o advento da sociedade de consumo, essas brincadeiras foram perdendo importância social; nas cidades a rua tornou-se perigosa, os jogos sofisticados, terrivelmente atractivos, os computadores e a televisão ocupam agora a maior fatia de tempo útil do quotidiano infantil.
Um número crescente de pais, compreende que não é mais possível deixar a educação das crianças ao acaso, a educação é um processo contínuo, que exige cuidados constantes, numa sociedade cada vez mais competitiva e agressiva, em que o principal meio de comunicação social invade a privacidade dos lares, e inculca nas mentes infantis, hábitos prejudiciais ao desenvolvimento harmonioso da criança. A televisão tem uma influência demasiado importante na (de)formação da criança, para que possamos deixar uma criança entregue a tão nefasta companhia, e se pensam que estou a exagerar, observem com atenção o comportamento dos vossos filhos, e pensem nos efeitos que as cenas de violência avulsa, projectadas initerruptamente nas zonas mais profundas do cérebro infantil, que tipo de paradigma social e cultural será interiorizado pelos nossos filhos? Que tipo de ferramentas terão ao seu dispor para descortinar o mundo que os rodeia? Quando até os heróis são monstruosos! A violência banalizou-se, e como noutras matérias, o cidadão comum aceitou mais uma inevitabilidade dos tempos modernos! Absurdo!
Algumas instituições estão atentas, algumas juntas de freguesia dão os primeiros passos, algumas associações também dão uma mãozinha, até os privados, à espreita de novas oportunidades de negócio, começam a oferecer planos de OTL, que incluem actividades ao ar livre, contacto com a natureza, desportos radicais, etc... Acredito que o interesse vai aumentar, e que os pais vão eles próprios organizar programas que proporcinem aos seus filhos experiências que lhes estão vedadas ao longo do ano; este tipo de oportunidades, para além de tirar as crianças da dependência das televisões e dos jogos dos computadores, ajuda a aquirir o gosto por novas áreas do conhecimento, e pode até ajudar a descobrir talentos ocultos pela obscuridade quotidiana.
Quanto à comunicação social, o caso é outro, à uma clara intenção de aproveitar ao máximo o evento para moldar a opinião pública; a futenovela ergue bem alta a iliteracia que grassa entre muitos dos membros da classe jornalística; a futenovela, é um imenso big brother, que provocou insónias a muitos patriotas e se confundiu com os interesses da nação! O comportamento da comunicação social, afigura-se-me terceiro-mundista, e confundir a algazarra que estremece o país, com auto-estima, coloca-me algumas dúvidas!
Razões de sobra, para que a nação pense em dar às suas crianças, outras actividades, que lhes não corte as poucas oportunidades de cortar de vez os laços, aparentemente imorredoiros do atavismo nacional, para que não continuemos atados de pés e mãos por mais uns séculos a ver os navios europeus a passar, e nós marinheiros experientes, a enjoar!
Aos pais deste país, pede-se o favor de deixarem os filhos verificar por si próprios se existe vida fora das quatro linhas claustrofóbicas dos relvados, ou pelados tanto faz, e não façam dos vossos filhos figurantes de futenovelas. Se calhar, isto é pedir de mais, não devia! Eu reconheço que as estrelas de futebol, tal como as do cimena, irradiam uma luz que cega, mas não nos devemos esquecer que existem mais estrelas no firmamento, cujo brilho se pode vir a revelar bem mais interessante, que a fugaz ribalta futebolística.
Alguém tem que remar contra a maré, alguém tem que mostrar que existem mais estrelas no firmamento, que merecem ser observadas, compreendidas e acarinhadas, para isso é preciso apontar o telescópio na direcção certa (a certeza que se vai confirmar a partir das incertezas que se vão desvendando). O jovem poderá sentir-se siderado, tal o fascínio do espaço interestalar onde o ensinaram a navegar; não cavalga ondas, calvaga dimensões diferentes, que integram universos em expansão, a monotonia quotidiana assim como a euforia futebuliana, chega o dia em que sabem a sobras de banquete do qual serão mantidos afastados.
Logo que desponta a adolescência, e as hormonas despertam os mecanismos da procriação, aumentam as necessidades dos jovens (de ambos os sexos) de espaço para se afirmarem como indivíduos, os primeiros confrontos acontecem na arena familiar, antes de saltar para a rua. Apesar do jovem ainda estar cru em matéria de ideias próprias, e sentido crítico consciente, isso não o demove de aderir à guerra de guerrilha, quando o que está em causa é combater convencionalismos, que lhe condicionam a liberdade de acção, mais que a liberdade de pensamento, ou sequer a liberdade de expressão.
Rebelde sem causa, que assume o papel de vitíma, quando as circusntâncias para isso contribuem. Vai assimilando umas ideias enlatadas, umas superstições em forma de beberagem açucarada, uns complexos tipo massa de meada e alguma vaidade emplumada, todos estes produtos podem ser adquiridos em qualquer supermercado convencional, ou encomendados a partir de casa, tudo sem custos adicionais ou taxas de envio à cobrança!
Apesar dos muitos tipos de nuvens, que amiúde obscurecem o céu inconstante da adolescência, inevitavelmente cresce-se! O crescimento é constituído por uma mistura, que vai da zona espectral onde se concentram os limites por excesso, da revolta; até ao ponto oposto, onde a está concentrada a resignação mais apática que se possa imaginar! Acumulam-se conhecimentos e adquire-se experiência, a partir das vivências quotidianas, mas a necessidade de romper com os canónes da normalidade imposta, leve o jovem a arriscar confrontar-se com tudo o que represente a autoridade inamovível. De acordo com as circusntâncias que moldam a existência pessoal, assim vai prosseguindo o formação da identidade de cada um de nós, muito antes de que possamos apercebermo-nos do real impacto, quando de facto, até os menos suspeitos detalhes e influências, podem mudar o curso da existência de alguém. Por isso, a maior parte das vezes o jovem está, mesmo sem o saber a ser formatado, condicionado de acordo com as conveniências sociais e familiares, as instituições, incluíndo a familiar, não prestam atenção à diferenciação, um método pedagógico, por muito bom que seja, nunca será o mais adequado a todos quantos necessitam de iniciar a aprendizagem da vida, tendo como base, um modelo de educação apropriada às características da sua personalidade.
Não é concebível, que actualmente se eduque um jovem, sem preparar o mesmo para ser cidadão do mundo, e não cidadão de um quintal, mesquinho e obscuro, carregando uma tradição bacoca, um lodaçal cultural, que a todos, sem excepção deixa mal.
Durante um período, variável, consoante os apertos económico-financeiros familiares, e claro, não nos podemos esquecer, que alguns pais são mais permissivos que outros, e por isso mesmo, as restrições em termos de saídas, especialmente, as nocturnas, podem ir da proibição total, à promiscuidade total, a maioria, ficar-se-á pelo meio da tabela. Para muitos jovens, as saídas à noite são um ponto de honra, quanto à liberdade de movimento, porque tanto anseiam, como forma de afrontar a autoridade parental. Portanto é natural, que este seja um dos estandartes mais usados, quando se trata de mostrar a irreverência que vai ganhando terreno dentro da cabeça do jovem, que sente necessidade de evadir-se dos limites das regras, que aliás, considera arbitrárias, que os adultos tanto gostam de impor. A «arma» irreverência uma vez empunhada, acabará por ser usada, mesmo em situações completamente desadequadas.
Por outro lado, a irreverência mostra-se incapaz de filtrar o lixo deformativo, que a propaganda tentacular coloca ao dispor de jovens e menos jovens em todos os locais de encontro habituais, tais como bares, discotecas, recintos onde se efectuam festivais, etc... e claro, os meios de comunicação convencionais, mais ou menos tradicionais, são responsáveis por veicular mensagens essencialmente consumistas, para que seja assimilada facilmente e leve o jovema adoptar hábitos de consumo e comportamentos compulsivos de acordo com os interesses do momento.
Um outro aspecto interessante a ter em conta, é o facto de necessitarmos que nos prestem atenção, desde o berço, se nessa altura nos faltou carinho e dedicação e conforto espiritual, podemos mais tarde tornarmo-nos ansiosos por atenção, uma situação que pode levar a comportamentos mórbidos, que revelam o quanto pode um ser humano ser magoado pela eventual sensação de rejeição e abandono, com origem em experiências más, ou até perversas no tempo em que ainda eramos a mera esperança de vida, porque é isso que é um bébé, quanta crueldade pode ter que suportar até chegar à idade adulta e com que mazelas psicológicas, emocionais e afectivas, sem tantas vezes perceber como, quando e onde tudo começou. Dizia eu, que negar atenção e carinho a um ser humano, é condená-lo a viver o inferno em vida, tantos comportamentos violentos, são uma desesperada chamada de atenção, quanta mágoa recalcada, a carapaça fica dura, o indivíduo intratável, e por vezes, o mal atingiu tão profundamente o indivíduo, que o mesmo, em vez de desejar tratar-se, deseja vingar-se, a violência, todas as formas de violências, tornam-se legítimas e o resultado, é sempre desastroso, por vezes ternima em tragédia. Precisamos tanto de atenção, que chegamos a imaginar o mundo a tropeçar na entidade, que presumimos ser nossa, mas o que defacto desejamos, ardentemente, é que nos tratem como gente. De pouco vale possuir talentos, se os outros só reparam nas espinhas carnais do crescimento.
Pode o jovem ter dúvidas acerca das suas capacidades intelectuais e dos seus talentos artísticos e nem sequer saber rodar a tranqueta da porta que dá acesso aos meandros da vida; mas não duvida, que possui alma de rebelde, pronta para a luta, e já se imagina a derrubar os muitos muros de Berlim, que existem no mundo, desconhece que muitos mais existem, supostamente invisíveis, e como tal inofensivos, ou pelo menos, as pessoas agem como se o fossem, não os vêem, não os sentem, podem andar relativamente descansados, mas sofrem na mesma as consequências da sua existência.
Os jovens rebeldes da actualidade, reunem-se e organizam-se a partir da rede de tunéis de intercomunicação virtual, e conseguem criar uma teia de cumplicidade bastante coesa, à distância de um clique, e partilhar de forma mais fácil, o que lhes vai na alma, sem os habituais constrangimentos das deslocações fisícas. Contudo, acontece que esta rede está pejada de armadilhas, vulgarmente conhecidas por formas de entretenimento, nem a palavra levanta qualquer suspeita, mas o facto é que o entretenimento nada tem de inocente, antes pelo contrário, em muitos casos chega a ser macabro o seu poder sedutor, e degradantes as dependências que origina; quem se deixa enredar pelos seus tentáculos, não sequer se sente preso, aliás, tem a sensação contrária, sente-se mais livre, o seu quotidiano decorre ao ritmo dessa ilusão, mas o cidadão espectador, o jovem explorador, jogador está de tal modo fascinado com as descobertas, as lutas, as compras e as vendas, as corridas, os ganhos e as perdas, que nem sente que está a deperdiçar tempo útil de vida, está a ser enganado, tornou-se demasiado comum para ser censurado. O jovem apesar de facilmente cair nesses engodos, armadilhas montadas pelos adultos, muito imaginativos, quando estimulados pela ganância e pouco criativos, quando a liberdade de optar é cerceada, pelo facto das campanhas de alienação serem cada vez mais agressivas, agora até já existe um conceito de publicidade, conhecido por marketing de guerrilha; mas tudo isto é normal, tão normal, como eu beber cianeto de potássio de esperar ver o nascer do Sol na manhã seguinte!
Mas o jovem cresce, e cresce e continua a crescer, por fim chega o dia em que já se assemelha a um adulto, pelo menos começa a desejar ter os privilégios dos adultos, os bens materias, os cartões de crédito com limites generosos, e por aí fora; este momento é crucial, as organizações a que pertenceu, já não lhe dizem muito, coisas de putos ingénuos, já se sentem gente séria, capaz de arcar com o mundo dos adultos às costas, ir à luta, isto é bom sinal! comentam os familiares, contentes com a determinação do seu pimpolho. Se a irreverência pode ser considerada o baluarte da resistência juvenil, nesta altura, as fissuras já são visíveis, e por lá, sorrateiramente, escapam os dissidentes, os que ficam, acusam-nos de traição, negando que mais tarde ou mais cedo, seguirão rumo idêntico; por enquanto, agarram-se à ilusão de que possa acontecer, algo semelhante a um milagre; uma vida repleta do que gostam, mas sem terem que desistir da sua irreverência infantil; nem mesmo está excluída a hipótese de participarem num Big Brother à maneira, que a televisão é o que está a dar e já agora a vender!
Inexoravelmente, o crescimento continua e a vida também, mesmo à revelia das modas passageiras, o jovem, é agora, um jovem adulto, que persegue a esteira da maturidade, e já agora da felicidade, o que equivale a diizer, tornar-se rico e famoso, depressinha e com pouca conversinha, que a coisa não está para brincadeiras.
A oportunidade de uma vida, quando oferecida de bandeja a um jovem pode causar morte súbita; o impacto é tremendo, sair assim da vida do faz de conta, para a vida a sério, do conta que faz, e faz que não conta, abre a tampa da caixa de Pandora de rompante, para admirar as importâncias que saltam histéricas, da sua boca, enxurrada virulenta de víboras, leva-o...perdeu-se para todo o sempre o jovem irreverente, nem sombra reflectida, nem memória esculpida, o jovem rebelde sem causa de outrora morreu!
Entrou no reino em que certos ideais são tacitamente afastadas da ribalta e mantidos subnutridos, até que sucumbam de inanição, no reino da gente graúda, é suposto a culpa morrer solteira! O quotidiano está plantado de valores inquinados pela hipocrisia, a mesquinhez, a mediocridade, a qual está associada uma ambição desmedida que o jovem adulto inalou em demasia, tornou-se dependente de etílicas evasões, e sensoriais perversidades, o absurdo passou a fazer sentido, a normalidade absorveu os episódios esporádicos de rebeldia revulsiva, agora, masi não é que um cidadão banal, em busca de sucesso material e profissinal!