junho 30, 2004

Mencionar a humanidade a propósito da civilização, fará sentido?

A civilização, ou antes, o modo de vida civilizado, produziu sociedades cujo desenvolvimento pode ser considerado anómalo, em diversos aspectos do seu funcionamento e da sua constituição. O desenvolvimento das sociedades civilizadas deveu-se ao aparecimento da agricultura e consequente sedentarização das populações. A civilização aparece e floresce em consequência da genial capacidade de adaptação do ser humano, que conseguiu (entre outras coisas) domesticar grãos de cereais selvagens. Doravante, a evolução da humanidade passou a estar ligada à manipulação do meio ambiente e mesmo nas sociedades que praticaram durante séculos uma agricultura de subsistência, muito pouco agressiva para o meio ambiente, mesmo nesses casos, a natureza acabava por ser condicionada, devido ao pastoreio e à introdução de espécies agrícolas exóticas.
As sociedades desenvolveram-se à revelia de preocupações de carácter humanitário; as necessidades de mão de obra, para realizar as tarefas de construção de edifícios públicos e privados, e de camponeses que aumentassem a produção agricola, foram resolvidas recorrendo à escravização dos prisioneiros de guerra, e pouco a pouco, as classes socias foram tomando forma; a hierarquia social começou a tomar forma, começaram a erguer-se as primeiras barreiras sociais, a separar castas, a estigmatizar cidadãos, por condição de nascimento, os oportunistas de antanho tinham o terreno livre para agir, bastava-lhes montar as armadilhas e levar os concidadãos a cair nas mesmas, por outro lado, começou a desenhar-se uma sistema rudimentar d facções antagónicas, que trataram de exgir obediência pela força. Introduzem-se dogmas e mitologias, inventam-se pitonisas e delfos, aos deuses e demiurgos presta-se vassalagem terrestre, cresce o número dos espoliados da sorte, essa casta de cidadãos, as primeiras vitímas da civilização.A família desde o princípio que serviu os interesses da segragação social, os interesses de algumas famílias confundiam-se com os interesses do colectivo social, tradição que parece ser difícil de erradicar? continua a ser normal e continua a causar profundas assimetrias na distribuição de recursos, funções e cargos a desempenhar pelos cidadãos nas mais diversas actividades.
As injustiças sociais foram e continuam a ser justificadas por uma organização pouco preocupada em melhorar as condições de vida do cidadão comum e muito interessada em defender os privilégios das famílias influentes (tradicionais, políticas, corporativistas, etc...).
Mesmo não conhecendo bem todas as civilizações que floresceram nos locais mais díspares do globo, creio que não estou a mentir, se disser, que não venero qualquer uma delas em particular, todas me fornecem elementos que uso para aprofundar os conhecimentos sobre a génese, ascensão, declínio e extinção de uma dada civilização, faço-o por desejar compreender melhor o mundo que me rodeia, sem que me sinta particularmente impressionado pelos feitos civilizacionais, alguns são inclusivê, ridículos! (raramente me esqueço, das mortes precoces, da violência, do sofrimento atroz, da submissão involuntária, em suma, de todo o mal causado em gente indefesa, para que os caprichos megalómanos de imperadores, tiranos e democratas desavergonhados (todos eles traidores da humanidada) pudessem imortalizar o seu nome!
Enquanto as civilizações singrarem à custa da escravização das massas humanas, estrangeiras ou domêsticas, pouco importa, o estrangeiro pode ser uma ferramenta mais barata, ou peça mais descartável da máquina devoradora, que nunca está satisfeita, apesar de consumir vidas humanas a um ritmo alucinante! Enquanto isso acontecer, não contem comigo para enaltecer, qualquer civilização! continuo a reafirmar que acredito no Homem, e espero que a humanidade não desperdice o conhecimento proporcionado pelo avanço científico, e que use as tecnologias disponíveis, e desperte para uma nova era! É provável, que a humanidade esteja no limiar do que pode vir a ser uma genuína era aquariana (uma era de desenvolvimento espiritual), acontece que a oportunidade pode ser descurada, e se isso acontecer, a humanidade corre o risco de avançar irreversivelmente para o abismo. A catástrofe planetária, pode eventualmente suceder, mas também pode acontecer que um agonizar lento, atroz, à medida que as condições ambientais de degradarem e os recursos se esgotarem, não é possível prever o que vai acontecer, mas tudo leva a crer que será mais devastador e terrível, do que qualquer tragédia conhecida.

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junho 29, 2004

A enorme sepultura

Milhões de operários cavam a enorme sepultura
sob um sol escaldante, ou siberianos ventos gelados
nenhum contratempo, trava o avanço da obra
em movimentos cadenciados, os operários mecanizados
por anos de deformação, cavam a bom ritmo
a enorme sepultura, emprendimento global
onde serão depositados os restos mortais
da civilização da insanidade mental.

Imensa cratera cultural, formada pelo impacto
do meteorito civilizacional, que em dada altura
entrou em rota de colisão, com a natureza, a mãe da razão
desde então, uma era de obscuridade
como nuvem de mau agoiro, paira sobre a humanidade
era glaciar, negada, por brilhantes mentes alcantiladas
em direitos internacionais, detendtores dos saberes conjunturais
defendem interesses, que não confessam, nem aos pais!
era glaciar, que ainda não terminou
apesar dos riscos actuais, indiciarem o oposto
a humanidade encontra-se em plena época de hibernação
espiritual, e não demonstra, qualquer interesse em acordar
para uma era de discernimento, a vida, fez de nós, humanos
animais conscientes, e não bestas inumanas, que proclamando
defender os valores da vida, declaram, no mesmo instante
guerra ao seu semelhante, e predam, sem vergonha nem escrúpulos,
espécies à beira da extinção, animais que consagram à ambição
a razão de ser das suas existências, deve-se isso, aofacto de ainda viverem
numa época pré-humana, apesar de se considerarem muito evoluídos
por ter desenvolvido uma sociedade tecnológica complexa
que teve, o prêstimo de adensar a obscuridade
e aumentar as dependências, a muitos semelhantes
por todo o planeta, viver, assemelha-se cada vez mais uma tortura
tal a inclemente loucura, que em nome do progresso
causa destruição por onde passa, afirmando que o faz em nome da civilização?!
O que são então sinais de barbárie?

As paradas militares, são manifestações
de força e poderio militar, ritual macabro do agrado
de ditadores, imperadores e democratas de cartel
que fazem do mundo, um palco inquinado por pompa e circunstância
com o fito de profanar os cérebros incautos, moldáveis
de cidadãos respeitáveis, injectando o soro da imbecilização
que torna mais fácil a mecanização da vontade colectiva
para cavar a enorme sepultura multinacional, o prodígio
da engenharia genética e estética, um punhado de alquimistas modernos
pegam em cadinhos virtuais, suportes electrónicos e células estaminais
o seu objectivo é fazer germinar uma nova era
o homem comum, nem imagina o que o espera
imbecilizar é uma prioridade real, o estandarte
da nova ordem mundial, produzida in vitro.

Nas praças públicas, serão instaladas fontes, bem iluminadas
e nos quintais privados, chafarizes adornados, a todos será distribuida
a dose preventiva, da droga que suprime a ansiedade subversiva
e elimina a necessidade de desobedecer à voz de comando
os operários continuam a cavar, o buraco orçamental
sem compreederem, que estão a aumentar o défice espiritual?!
a rotina é cavar, não questionar o buraco?! a vala comum
onde cada um, cava para si, a indigna sepultura
de ser escravo, e submeter-se à tortura quotidiana
recebe em troca as senhas, que mal garentem o sustento
e um buraco bafiento, onde pernoitar!

Paulatinamente, a humanidade escorrega
com direito a escolher, o unguento adequado
o acto invasivo, será menos penoso, mais intenso
o prazer, e longo, o gozo da penetração
mas nem todos, contudo, seguem a multidão
mesmo quando catalogados, de inadaptados
dão por si a violar as regras perversas do jogo
que é jugo abominável de inumanas conjecturas
que levam muitos, a temíveis loucuras
enquanto, alguns, resistem como podem
às convenções, aos acordos e maquinações
que levam a humanidade, a cavar com mais determinação
a enorme sepultura, um nome diferente
que identifica, no momento actual, a civilização?!

Cavamos a sepultura comunal
actividade que se tornou trivial
pés descalços, e pés enluvados pelas marcas
mais distintas, do leque mundial
pisam a amálgama mais comum
lama, puz e sangue, lágrimas, suor e ranho
o cheiro é sempre nauseabundo
o martelar das enxadas, ensurdecedor
apatia e alienação, a fazer de conta:
imperceptível e inexcedível podridão!

A obra é descomunal, mas quem não se habitou já
à descomunal fragmentação da realidade?
quando até a indiferença, se tornou descomunal!
continua a humanidade a cavar a enorme sepultura
de olhos cegos, da cegueira comum
encontrar um El Dourado, personalizado!
esgota-se tudo, os pesadelos, e até as desilusões
vence sempre, ao que parece, a resignação!

À beira do abismo, a vertigem domina a tentação
transforma em audácia, a ténue vibração da alma individual
que resiste agora a pisar de novo
a lama, o puz, a seiva da vida
abrigou na mente a ideia de uma nova era
prestes a emergir, da consciência tranquila
um banho de verdade e não-violência
que outra alternativa há?
continuar a cavar a enorme sepultura
em busca do filão, até descobrir um veio de morte e violência
irreversível destruição da humanidade que ainda atravessa
o adro da sua condição de ser humana com H cintilante?!


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junho 28, 2004

um deserto enorme, sem oásis!

Aproximamo-nos do oásis, lembra-me o regaço maternal
a sombra fresca do palmeiral, exala o aroma do paraíso
e os lábios gretados dos homens, sorriem de alívio
o descanso merecido, de pessoas e animais
esvanecem-se as agruras da viagem
arrumam-se as peripécias da travessia.

Alcancei o paraiso! à sombra do palmeiral
vou descansar; entretanto alguém diz
que vamos poder pernoitar
aos primeiros sinais da aurora
abrem-se involuntárias as pálpebras
como se fossem pétalas perfumadas
um sorriso único na madrugada
acordo leve, livre e desembaraçado
correm-me pela face, pérolas
de límpido orvalho... até dar conta
que estou embrulhado
num cobertor de sonhos rasgados
pela ferocidade do real! tenho o deserto dentro do quarto!
enterro-me, mais e mais
nas areias escaldantes...
sem vislumbrar o oásis prometido
começo a pensar que os oásis do mundo
estão bem guardados, são condomínios fechados?!

Planta carnívora de lábios carmim
cálice tentador, para incautos insectos voadores
e curiosos humanos, predadores
de beijos e gritos abafados
de todas as bocas famintas
de todos os lábios crispados
de todos os sonhos degolados
que terminam no fundo, do cálice da vida.

A fome de todas as bocas do mundo
a erosão de todos os desertos humanos
grãos de areia... um só grão de areia
num deserto imenso... um só grão de areia
tenta adaptar-se às malhas do deserto
muitos grãos de areia, divertem-se
procriando, para dominar o mundo
e que nenhum grão de areia diferente
se intrometa!... um só grão de areia
tem que aprender a suportar
tempestades impiedosas
tem que assistir a calamidades
desastrosas, provocadas por muitos
grãos de areia... os incautos grãos humanos
serão arrastados sem dó, para longe
das dunas conhecidas e solitários
definharão, sedentos de humanização?

Um só grão de areia, um minúculo coração
de colibri, a pulsar no peito de silica
um só grão de areia, que sonha voar
para qualquer lugar, onde descubra companheiros
com corações de colibri, e néctar no olhar

um só grão de areia, que luta para não ser soterrado
por milhões de grãos de areia, com corações de pedra
a bater ao ritmo de estranhas certezas
bomba infernal, que não descansa
tal a ânsia de transformar o mundo
num deserto lucrativo para alguns grãos de areia
grãos de inveja, com coraçãos de pedra
grãos de vida seca
ávidos por drenar, os oásis deste mundo.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 27, 2004

O desporto em detrimento da cultura, porque a cultura é um desporto, chato!

Tenho sérias dúvidas que o desporto contribua para unir as nações! Aliás, os governos (de países com regimes totalitários, a países com regimes, ditos, democráticos) de muitas nações aproveitam os eventos desportivos mais emblemáticos (como os jogos olímpicos, por exemplo) para fazerem demonstrações de força (metáfora do poder político, económico e até militar), ao fazer desfilar a panóplia de vigorosos atletas participantes, perante o olhar atónito da humanidade, transformada em espectador, ajoelhando submissa, em sinal de reverência e incontestável admiração.
Oa atletas, que aspiram a ser medalhados, o que é perfeitamente legítimo e compreensível, tem supostamente a obrigação suplementar de defender a bandeira do seu país, o que faz deles, uma élite de embaixadores da sua pátria, com o dever de honrar a nação. Os atletas, tem que se submeter a treinos, que raiam o absurdo, para poderem mostar ao mundo a superioridade desportiva do seu país, com estoicismo e orgulho indomáveis; os treinos de preparação, imitam a instrução militar de corpos especiais individualizados.
As antigas arenas, ou os actuais recintos desportivos, são anfiteatros onde desportivamente ocorrem, verdadeiras batalhas campais; no desporto, com na guerra, os fins, justificam e legitimam os meios empregues, a inevitabilidade de abater ou ser abatido, faz com que as garras do antagonismo irreconciliável, fiquem prontas a rasgar a carne inimiga, e se na guerra, o inimigo deve ser morto, no desporto, não escapa à humilhação, aos adeptos só a vitória interessa, a derrota fere o orgulho de morte, que veneno poderoso, capaz de intoxicar o discernimento, e ferir de morte qualquer armistício previamente assinado por dirigentes deportivos, ou serão, políticos, é cada vez mas ténue a membrana que separa os dois estados, no caso do futebol, e no caso, português, existem dois estados, o estado-ignorância, e o estado-promiscuidade!
A apetência crónica pelo sórdido e pelo mórbido, pode inserir-se na normalidade, mas está longe de ser natural, se o cidadão é induzido a desprezar a condição humana, as consequência da deturpação dos valores éticos e espirituais, pilares humanos da educação são substítuidos pela subjugação ao consumo, o culto do individualismo exacerbado torna-se a tónica dominante, a procura ansiosa de sucesso e protagonismo, reduzem a ser humano a uma máquina que responde a impulsos, cada vez mais estereótipados, quando o espiríto crítico vacila, o poder aproveita, a propaganda dogmática atinge os seus propósitos, e a vida decorre, dentro da normalidade?
Assim, esta tarde, e porque a arte me ajuda a descobrir dimensões de sensibilidade, que o desporto-negócio me nega; vou até ao CCB, e digo-vos, que me agrada pouco ter que conduzir com este calor, mas como: "quem corre por gosto não se cansa", e :«A Canção da Terra», de Gustav Mahler, é uma das minhas obras preferidas, vou até à capital do império! Do concerto desta tarde (uma parceria entre o CCB e o TNSC), consta do programa: «O Hino à Noite», de Robert Schumann.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:53 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 26, 2004

O busílis da evolução!

Finalmente, começo a perceber a mensagem veiculada na campanha a favor da Evolução. A actual situação da democracia à portuguesa, encontrar-se-ia em fase de incubação, na altura em que foi lançada a campanha da Evolução; portanto, a população não pode negar, que não foi informada, tivessem lido nas entrelinhas! A indigitação do candidato a candidato, Santana Flopes, como primeiro ministro de Portugal, vai marcar o ínicio da retoma; o homem é ou não, um ícone de virilidade! Portugal, deve ser o país das (in)felizes coincidências! Tinha, que acontecer um terramoto político, desta envergadura, precisamente, no momento em que país renasce das cinzas, por intervenção miraculosa da selecção, não de uma selecção qualquer (de azeites, ou vinhos, queijos, presuntos, ou artefactos diversos), a nação renasce das cinzas, graças ao sopro místico da iliteracia futebolística, que obviamente vale o que pesa, em ouro!
Acredito piamente, que a (R)Evolução, está entregue em boas mãos, e Portugal fica sempre a ganhar! ganham alguns, a maioria fica a ougar; é a vida!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:17 PM | Comentários (1) | TrackBack

Sombras inquisitoriais

Percorro as ruas da aldeia
como se teme-se ser apanhado
por língua de fogo sibilina
atravesso temeroso, a densa hostilidade
numa aldeia, engolida pela modernidade
sinto-me terrivelmente inquieto
até arribar às colinas solitárias
onde posso, enfim, respirar a liberdade
rústica, da paisagem.

Atravesso a aldeia em passo apressado
como se fosse perseguido, por cão açulado
obra de algum semelhante intrigado
com inclinações antropofágicas
sinto o bafo predador, estugo o passo
quero passar ao largo, discretamente
tenho que preservar, a seiva
vital, que alimenta o meu cismar.

Ausento-me... em deambulações
pelos cerros e fragas solitárias
que o vento envolve em lamentos
e por vezes, irado, abre chagas
no rosto deste degredo imaginário.

Os semelhantes, muito ocupados
carregam um lastro emarenhado
de pensamentos, formando um labirinto
entediante, de labores, e favores
partidos e repartidos, até que, da realidade
nem migalha de sonho, só amálgama
de tristeza e desilusão, teia, tecida pela
aranha diligente, da obrigação.

Como são poderosas as patorras
da ignorância, espezinham a esmo!
como são nodosas e viris as manápulas
do egoismo! sufocam as consciências
da intimidade deste convívio
nasce vigorosa, a violência
que pela dignidade humana
não revela, qualquer indulgência.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 24, 2004

Tradição e Civilização

A espécie humana por mais que se esforce, nuca conseguirá evoluir em uníssomo, nem partilhar o mesmo patamar, ou dimensão de consciência espiritual. As razões porque isto acontece, não me parece que estejam relacionadas com a lei do karma, segundo a qual o ser humano reencarna tantas vezes quantas necessitar, até conseguir atingir o nirvana, altura em que se liberta da necessidade de voltar à terra. As causas do desequíbrio terão que ser mais prosaicas, como por exemplo, os factores congénitos são determinantes, nem mesmo, os gêmeos monozigóticos evoluem de maneira igual, quando submetidos aos mesmos estímulos; o mais insignificante detalhe, dá a cada indivíduo um toque de originalidade, que o identifica. Logo a seguir, em grau de importância, vêem as circunstâncias, as que expoem, as que segregam, as que menosprezam, as que matam à nascença, podia também lembrar, as que realmente ajudam o indivíduo a desenvolver as melhores aptidões humanas que possui, e corro o risco de aventar, que na maioria dos casos, nem os pais, nem os educadores, nem o paradigma de educação predominante, contribui para que haja abertura suficiente, nem sequer disponibilidade, para compreender as necessidades daqueles que estão à nossa guarda para educar e ajudar a formar, e isto porque, para nós nunca foi prioritário perceber as linhas com que cosemos a fala à alma, e como pode um leigo como eu, que nem vidente sou, pensar que percebe da alma e das suas necessidades, eu responderei como o poeta: as horas amargas, podem ser má companhia, mas dão execlentes lições de filosofia. E não só!
É incrível como tenho à minha frente, cinco págunas de rascunho, e ainda não passei do primeiro parágrafo da primeira página! Que frustração, mas também comoção!
A igualdade de oportunidades não existe, podemos dar como exemplo, um lar normal pode ter as melhores condições ambientais, humanas e culturais, para alguns elementos da família, podem ser excelentes, mas pode provocar distúbios de personalidade a outros! Quanto às necessidades básicas é possível chegar a consenso, no que concerne às necessidades intímas, o caso já é diferente; para que o desenvolvimento emocional, intelectual, sensorial, estético, ético e espiritual, evolua harmoniosamente, é necessário cultivar uma atitude diferente, na forma como encaramos o ser humano, e na maneira como perspectivamos a sua evolução individual, tendo em conta, que o mesmo deve funcionar bem individualmente, mas não destrutivo para a comunidade, acredito que os interesses do indivíduo, podem ser defendidos sem prejuízo para a sociedade, um tal equilíbrio é imprescindível se quisermos criar gerações sãs, o que, em meu entender, não está a acontecer. Não por carência de meios materiais e logísticos, nem tão pouco de recursos humanos. Quanto a obter formação adequada, eu diria, que a formação profissional está acessível mas complementá-la com a adequada formação humana, é muito mais difícil, parece não haver interesse, mas talvez seja mais, defender interesses, pouco dignos, do que por outro motivo qualquer. E continuamos a prestar atenção deficiente ao único milagre, que merece desvelos permanentes: A Vida.
A humanidade continua a ser conduzida pela batuta do passado, agarrada ao pior legado, que chegou até nós, na forma de exaltação bacoca de epopeias rançosas, de tradições que deviam ser revistas, não por estarem caducas em idade mas em influência perniciosa; a história deve ser encarada como uma lição e estudada, para nos a prevenir as tragédias: da guerra às erupções vulcânicas, a terramotos, maremotos, etc... caso a história não preste cabalmente o serviço prenventivo, que lhe cabe em dever, mais valia ser abolida; todo o conhecimento e experiência humana, que não contribui para o desenvolvimento da consciência humana, está sempre ao serviço da desunião e da guerra, seja ela dentro das quatro linhas de alguma arena futebolística, ou teatro de guerra, ou palco de vaidades quotidiano onde se aposta forte o destino da humanidade, brincadeira sonsa, entretenimento, devaneio e horror.

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junho 23, 2004

Disponibilidade para merecer viver!

Supura a chaga quotidiana
puz, e lama sanguinolenta
esgoto a céu aberto
vala comum, por onde correm
escórias e humanos despojos
passa à tua porta, a amálgama
humana, que despreza a vida
afastas o olhar nauseanbundo
das criaturas flutuantes
em tudo, semelhantes a ti!

Ao serão, escondo-me em casa
mastigo migalhas e sobejos
do banquete-folhetim quotidiano
dou a alma à palmatória
tal como dei o corpo à fadiga inglória
exausto adormeço
não sem primeiro, me ajoelhar
e deixar-me conduzir como animal
a caminho da ara sacrificial.

Enquanto folheava as páginas do sono
abrandei as defesas, e dei por mim
num pântano, de fétidos eflúvios
ouvi soldados a marchar
e, moscas aos milhões
a pousar, nas insones glórias
e acordar agitado, a tremer
num glacial suor, formando bagas
de medo, e os destroços apáticos
deslizando, ao sabor da corrente.

Pensei em evadir-me
mas não era soldado
nem estava alistado
e não tinha para onde ir
senti-me ferido por estilhaços
depois do primeiro impacto
decobri que eram pedaços
de pensamentos desertores.

Pela manhã, boiavam cadáveres
na corrente, que passa à tua porta
mas, o incomodo é um luxo
acessível a poucos, e tu
há muito, que afogas-te o desespero
na corrente quotidiana
por não teres, para onde o enviar
para terminar, vou ainda denunciar
que falta no presente, disponibilidade
para merecer viver!


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 22, 2004

Escrever deitado, sonhar acordado

Acontece-me com frequência
sentar-me, para escrever!
acontece, que também o faço deitado!
quando a meio da noite
ao sono reparador sou arrancado
por insones vagas, desmesuradas
é seu desejo, resgatar mundos
outrora afundados.

Estreito contra o peito
um braçado de palavras
segredos da serena alba
estreito contra o peito
a dor que lateja, a finados
na torre da igreja
dobram os sinos
pela morte dos sonhos
as almas rezam por clemência
amaina a aurora, o delírio
os galos cantam ao desafio
enterro no catre devaneios
na porta, um punho bate
pelo soar da pancada
são flocos de alvorada
mas podem igualmente ser
sabres de realidade apunhalada
à procura do sangue ingénuo
estremunhado, no carinhoso
remanso da brandura matinal, o leiteiro
deixa a garrafa, o ardina, o jornal
espreguiço-me uma última vez
e ergo do catre a voragem matinal

Sento-me, para escrever
mas o pensamento esperneia
não quer colaborar; quer descansar
e desafia-me a explicar-lhe
onde almejo aportar?
tal a ânsia de escrevinhar!
tento descrever-lhe o processo:
macerar palavras, macerar ideias, macerar emoções
extrair princípios activos
e desvendar visões!
plantas selvagens, e ruminações
é tempo de colher uvas bravias
espremer-lhe os sucos vitais
proceder à devida fermentação
e guardar na ânfora, o néctar
e beber a luz da manhã
embriagar o coração
de ternura pelas palavras
descobertas no porão da alma
depois do naufrágio, depois da morte
mas sempre antes que vida esmoreça
volto a adormecer, no catre humilde
e navego entre palavras e sargaços
e recifes de coral, e feixes de luz
e sonho-me, a recitar a poesia
que escrever não sei
escárnio e mal-dizer
e bem querer...


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:50 PM | Comentários (2) | TrackBack

junho 21, 2004

Civilização, rotas de devastação!

Os nossos antepassados movidos pela ganância e pela ignorância deram cabo de meio mundo; portaram-se mal, muito mal. No entanto, o génio do povo ocidental encontrou o caminho para desenvolver uma sociedade pragmática, um prodígio louvável, que deu espaço à ciência para evoluir e encontrar o lugar que merecia na sociedade; os conhecimentos adquiridos foram aplicados ao desenvolvimento tecnológico, no intuito de resolver problemas concretos, no domínio militar, mas também na vida civil. A humanidade sem o saber, dava ínicio à era tecnológica, longe de perceber, a responsabilidade que estava a assumir, ao mudar definitivamente as regras da sobrevivência, a vida no planeta, perderia o direito ao sono dos justos, rodeada de perigos, podia ser vitíma da loucura de um único homem, ou do conjunto de interesses, por vezes antagónicos, que opõem os países, podendo resultar, na destruição do planeta.
Entretanto, as gerações nascidas sob a êgide da sociedade tecnológica davam sinais de manter os níveis de concentração de ganância e de ignorância, que os seus antepassados costumavam acusar, um sinal inequívoco do muito que havia para mudar, numa sociedade que sem custo, movia montanhas, alterava a face do planeta, mas que do ponto de vista humano, continuava a beber na sarjeta, a saga destrutiva ainda não tinha terminado, o pretexto, garantem: levar o desenvolvimento às mais remotas áreas do planeta. Tanto zelo, deve-se à vontade de continuar a missão evangelizadora dos nossos antepassados, que carregando a civilização às costas, do seu tempo, a levaram como puderam, de choupana em choupana, aos povos primitivos; a missão foi um sucesso, por isso os meios foram largamente justificados, o recurso à violência, o abuso da hospitalidade, a mentira astuciosa, o roubo sem escrupúlos, a escravização indigna, o dever cumprido.
Todos sabemos, quão cruel foi a saga ocidental pelo mundo fora, mas apraz-nos tapar o sol com a peneira da hipocrisia, e continuarmos a imortalizar os feitos dos nossos antepassados, procedendo de modo idêntico, sem que se vislumbre uma saída digna, de tão pernicioso círculo vicioso. Em África, os povos autóctones foram dizimados pela ocidental invasão; as raízes culturais arrancadas, os costumes ocidentais introduzidos arbitrariamente, a obrigatoriedade do trabalho escravo aniquilou a dignidade destes povos caçadores recolectores, que praticavam uma agricultura rudimentar, e pastoreavam alguns animais. O primitivismo altivo, era argumento para retaliações, motivo: inveja! Aquela gente, era de longe menos miseráveis que eles! comentavam estupefactos, os europeus, habituados a comer o pão que o diabo amassou. Conviria assinalar que viver assim, era blasfémia, viver sem esforço! Era chegada altura de serem castigados por Deus! o que na prática significava, serem vitímas do sadismo acumulado por meses de tormentos e abstinências involuntárias, por parte dos bárbaros invasores, prontos a demonstrarem com que argumentos de descrevia uma civilização à guarda de corações empedernidos, e como foram bem sucedidos!
As fronteiras talhadas a esquadro, pelos interesses ocidentais, fazem parte do legado envenenado, que continua a devastar vidas a esmo, as vidas dos incivilizados e confusos primitivos, da civilização conhecem a devastação dos recursos, a brutalidade dos capatazes a mando dos ocidentais, perdidas as referências culturais, que no passado garantiam identidade tribal, e que, após séculos de conspurcação e distorção, alimentam quanto muito uma vaga alucinação, quem vai agora ajudar o presente a reconciliar-se com o passado? O continente africano, continuará a ser terra queimada, a mando dos interesses europeus e americanos, os capatazes locais, corrompidos até à medula, pela ganância ocidental, traidores dos interesses dos povos, que dizem governar, esbanjam o futuro, numa orgia de iniquidade. Os descendentes dos antigos ocupantes, que negociaram a carne negra, nos mercados brancos, que predaram a terra e os homens, as feras e as jazidas, as madeiras e os sorrisos das crianças, a morrer de inanição, enquanto os ocidentais descansam à sombra dos feitos heróicos dos seus antepassados, que moveram céus e terras em busca de EL DOURADOS! Continuam mentirosos e mesquinhos como antes o foram os antepassados, a miséria e a morte chega sempre aos seus destinatários, por rotas diferentes, e meios insidiosos, os fins unidos na mesma perversidade, a ganância e a ignorância continuam a ocupar o lugar da consciência, a miséria espiritual mina a saúde mental e moral da sociedade tecnocrata, o que ajuda a manter em alta, a sedução por ninharias e patifarias, que vamos juntando e praticando, com a displicência de quem não assume as responsabilidades civícas e civilizacionais que correspondem às actuais necessidades da humanidade, talvez acabemos dizimados, devido à negligência que aniquila a vontade de resistir ao entorpecimento mental e espiritual, decretado pelo poder vigente num mundo cada vez mais incongruente, cada vez mais ansioso, por matar a galinha dos ovos de ouro, A Terra, o nosso comum e (e)terno tesouro.

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junho 20, 2004

Escolher entre competir e cooperar, pode determinar a sobrevivência da humanidade!

As correrias da civilização! Alta, média e baixa competição! Alta finança, altas esferas políticas, altas decisões estrábicas, altas anomalias discursivas, alta costura, o mundo está cheio de altos, o corpo humilhado da humanidade está coberto de altos e nódoas negras, altos relevos que escondem as baixas intenções, dos altos dignatários que governam as nações! Altas tropelias, defendem a alta hipocrisia, dos ataques da «alta-queda», e do alto de tanta cagada, estiolam milhões de miseráveis, que do mundo não levam saudades! A alta demagogia, servida por oradores da alta hipocrisia, que apadrinham falsos defensores da liberdade, e escodem nos bastidores alguns dos piores inimigos da humanidade, e vão permitindo que grassem pelo mundo horrores, e o mundo, torna-se progressivamente um lugar altamente intragável, enquanto as altas vaidades saem à rua, festejando a alta falcatrua, em banhos de multidão.
Da incursão ao inóspito mundo da competição, alta, média e baixa; fui arrebatado pela insurrecta e sádica imaginação, que só pensa em evadir-se dos grilhões da normalidade, mesmo contra a minha vontade.
Temos que ser competitivos, temos que aumentar a produtividade, e porquê? Muitos dos economistas e gestores de renome, pretendem que só a livre concorrência e o aumento da produtividade, podem resolver os problemas da economia mundial, esse mecanismo regularia a economia mundial sem necessidade de intervenção dos estados; esta falsa questão, faz com que o cerco se aperte em torno dos trabalhadores, e no caso dos países com economias mais débeis, com o torniquete das divídas ao FMI, e ao Banco Mundial a estrangular o desenvolvimento dos países, que regra geral, estão reféns de ditadores sanguinários, que os governos de países, ditos democráticos apoiam, porque estão empenhados em defender interesses estratégicos de multinacionais, o que significa que estejam a defender os interesses do seu país!
Dizer que o desenvolvimento económico depende da livre concorrência e do aumento da produtividade, é um logro em que a humanidade não pode cair, por várias razões: humanas, ambientais e de sobrevivência dos próprios estados. o que mata a economia é um parasita, perfeitamente identificado, a especulação financeira, e quanto maior for a dependência desse jogo perverso, mais os economistas e gestores de serviço, virão manifestar a sua apreensão, mais apelarão aos trabalhaores e às empresas produtivas, que se tornem mais produtivas, ou deixarão de ser concorrenciais, num mercado globalizado, e que os governos nada podem fazer, que é o mercado. É claro que é o mercado, mas seríamos mais sérios, se acrescentássemos que o mercado está seriamente pervertido, e quem está a pagar a factura, são os trabalhadores em geral, e como já foi dito, os de certas zonas do globo em particular, mas como o mercado não se pode ajustar às necessidades dos povos e do ambiente, a miséria pode grassar, que é normal, desde que não venha bater à porta destes economistas de alma realista, quem lhes paga o salário, pergunto eu? A sobrevivência da economia de mercado, depende então da livre concorrência (que nem é livre, nem chega a ser concorrência!) não passa de um falso axioma, que lançou a humanidade num frenesim competitivo, que eu considero demencial, da economia ao desporto, do ensino ao sexo, as pessoas estão em guerra com a natureza e com a vida, porque estão em guerra consigo próprias, com o seu íntimo, que lhes pede uma coisa e seguem outra; estimular a competição, aumenta a insegurança, torna o ser humano mais agitado, mais ansioso e menos propenso a partilhar com os outros o que nos vai na alma, as conversas evocam lugares comuns, e fait divers, como se nada houvesse para comunicar.
Aliás, é corrente as pessoas afirmarem, que têm que eliminar a concorrência, e neste âmbito, os europeus infestaram mundo com a sua cultura bárbara, recorreram a métodos violentos, em certos casos de violência extrema, para conquistar e ocupar novos territórios em todos os continentes, onde quer que aportassem, tratavam de eliminar a concorrência (e ainda o fazem hoje, a Amazónia continua a ser castigada, por representar um dos últimos baluartes de resistência, a concorrer com a civilização, o seu destino é perder... e essa perda poderá ditar o futuro da humanidade?!); a ambição material, induz à competição, e quanto mais ambiciosos, mais competitivos; quanto mais competitivos, mas vulneráveis à corrupção, quanto mais corrompidos, menos disponíveis para cooperar.
A competição não tem como meta qualquer forma de harmonia, mas de posse, e pouco se importa com a devastação que deixa pelo caminho, quem vive em estado de competição, vai até às últimas consequências, para conseguir realizar os seus objectivos.
Creio, que faz parte da vivência de uma cidadania consciente, conhecer os acontecimentos e épocas históricas que determinaram a progresso e a decadência das principais civilizações, não como, quem lê um catálogo de feitos heróicos, que apelam ao falso patriotismo, porque como já disse, o que importa é a verdade, neste caso, a verdade histórica, porque a história é um documento vivo, onde é possível descobrir as causas de muitas das perversões do presente, quem não se interessa por estudar os erros cometidos no passado, movimenta-se no terreno pantanoso do presente, sem referências que ajudem a reflectir sobre a situação que está a viver.
Eliminar a concorrência, já assumiu proporções catastróficas no passado, e quanto ao presente, acrescentem o que vos parecer mais razoável! No passado, o homem branco, ávido de riquezas, devastou e aniquilou até à extinção, as minorias étnicas, que tinham evoluido em harmonia com a natureza, a simplicidade das sua vidas deve ter provocado, uma inveja insuportável aos europeus, habituados ao chicote, e à culpa, sabotando qualquer remota possiblidade de viver em e para a liberdade de criar e comunicar.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:39 PM | Comentários (2) | TrackBack

Acorrentados por falsos axiomas, desde que nascemos, resistimos como podemos!

«Tudo o que nos ensinam é falso.» Sim, mas isto não é tudo. Por não acreditarmos nas «suas» falsidades, somos incessantemente punidos, sem dó nem piedade; por não aceitarmos os «seus» vis delegados, somos humilhados, insultados e injuriados; por lutarmos para nos libertarmos das «suas» garras, que nos estrangulam, somos algemados e agrilhoados. Oh, as tragédias que todos os dias têm lugar em todos os lares! Pedimos para voar, e eles dizem-nos que só os anjos têm asas. Suplicamos que nos permitam oferecermo-nos no altar da verdade, e dizem-nos que Cristo é a verdade, o caminho e a vida. E se, ao aceitá-Lo, pretendemos segui-Lo literalmente até ao amargo fim, tornamo-nos alvo de escárnio e de chacota. A todo o momento, a confusão avoluma-se sobre nós. Não sabemos que terrenos pisamos nem porque razão havemos de agir de um modo, e não de outro. Para nós a pergunta porquê nunca obtém uma resposta directa. Cabe-nos obedecer, e não perguntar porque motivo. Agrilhoados começamos e acabamos. Recebemos pedras em vez de pão, logaritmos em vez de respostas. Desesperados, voltamo-nos para os livros, confiamos nos autores, refugiamo-nos nos sonhos.»

Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 19, 2004

A vida e arte, uma só travessia do firmamento criativo...

Artista: pessoa que possui sensibiidade estética, e se dedica à actividade de criação estética; que revela génio criador, sensibilidade estética ou amor pela arte. Esta definição de artista é muito redutora, digamos que serve de mote introdutório ao texto que segue.
De habilidosos dedicados às mais diversas artes, está o inferno cheio, porque nos céus só entram os eleitos! Entretanto, na terra desenvolve-se intensivamente a arte de imbecilizar, triste evidência da arte de engodar a arraia miúda, com as artes do entorpecimento da liberdade de pensamento.
O sociedade nunca foi tão pródiga em dar há luz tantos e tão conceituados artistas, promovidos e reconhecidos, por artes e manhas, (e)ventos de feição, que guiam a arte para o terreno do lucro e da especulação, corolário da promiscuidade entre artista e o poder vigente, que faz dele, artista, boneco de animação, interpreta a arte de subir aos contrafortes da alienação e desenvolve o ruído ofuscante da artescravização.
Os protagonistas da arte do mimetismo prosaico, protegem-se dos raios da luz criativa, usando óculos escuros, desta forma encobrem a cegueira da alma ressequida, e a opacidade do olhar, impenetrável obscuridade que impede o desenvolvimento da liberdade criativa, até os passos da irreverência, essa dança que escamoteia a revolta do coração e desata os nós da frustração, com passos ritualizados, que inibem o desejo de desobediência... segue os passos coreagrafados da vaidade oca, bebe uns copos, pula e grita animalescamente, segue o que sentes , o ribombar de emoções, o ar empestado do cheiro a pólvora, e vida queimada, em nome da diversão e alienação colectivas, quando quem se diverte e ri a bandeiras despregadas, instalados na primeira linha dos interesses globalizados, estão os artistas que governam o submundo das emoções, sim! as emoções são exploradas, como mais uma forma de prostituição da humanidade, enquanto comentam à boca pequena:«isto são favas contadas».

O Artista, que o é, tem que aguentar as erupções, que do âmago liquefeito das suas limitações, exprimem as necessidades vitais, que lhe queimam o peito, é a seiva da vida, à procura da saída, por não aguentar mais, ficar confinada a um só sujeito, a uma só interpretação, quer tornar-se voz e vida e sonho e arte, feita comunicação. É o pulsar do intemporal devir, que O Artista tenta discernir, é a fome de infinito, que deseja fundir-se com a essência da vida, enquanto vai penetrando na gruta onde sabe estar recolhida a identidade, ermo solitário, aí pode pernoitar em paz. Depara-se, O Artista, com as portas dos corações humanos, cerradas à necessidade que sente de comunicar, de tão deliciados se sentirem com as artes da aparência, obsecados pela formas, matam de inanição a essência da vida, que é feita da experiência, e da meditação, a que nem as sombras esquivas, as ilusões persistentes, as mentiras insidiosas, escapam.
O Artista aprende em cosnciência, a nada desejar, nem protagonismo, nem reconhecimento, e quando a ocasião chegar, emprestará a voz às palavras, o coração às emoções, a alegria à alma... que o mais importante é não olhar a vida de soslaio, por mais cativantes que as aparências se apresentem, e as modas ofusquem e obstruam o caminho, e o medo hipertrofie a consciência... o fio de vida, a lágrima de luz, é confiada a cada ser humano e é enaltecida pelo Artista digno da sua condição.
Os Artistas funcionam como antenas receptoras, em certos casos hipersensivéis; chega a ser atroz, com frequência acontece, em simultâneo serem invadidos por sinais vitais, que viajaram dos primórdios da criação e se entrosaram na experiência imediata, fragmentos da humana condição arrebatam o poder da razão, O Artista é «vítima» do desejo de abraçar a intemporal fraternidade, e comunicá-la ao mundo em permanente mutação, sem mutilar a essência da criação, faz uso da liberdade de expressão, e interpretação do momento histórico a que vive agregado, sabendo que é seu dever, suplantá-lo. Quanto não pesa o fardo de querer ser vida, e não deixar definhar o ímpeto criativo, nem macular a necessidade de comunicar, e ter que atrevessar o campo de batalha, onde se degladeiam as diferentes facções dos artistas, seus contemporâneos, movidos pela ambição de se tornarem ricos e famosos.
O Artista, mesmo involuntariamente, é marcado por cicatrizes indeléveis, o seu atrevimento intelectual, criativo e ético, leva-o a penetrar em territórios infestados, impérios e civilizações, pestes e invasões, e ainda que desgastado por esta amálgama sórdida, sustentada por esteios de patriotismo arrogante, inflexível e bacoco, consegue ter lucidez para sobre as àguas da discórdia e da desordem, caminhar. Ao seu encontro vão armadas poderosas, com pretensões dissuasoras, tem por missão, levar O Artista a desistir, a redimir-se, a retractar-se, como pode ser tão estúpido, ao ponto de correr riscos desnecessários num mar traiçoeiro e cruel, pode até, afogar-se no anonimato, o maior inimigo do artista espectáculo, sem ter conhecido o compensador estrelato.
O Artista continuará a caminhar, nem pedestal , nem altar, só a vida, o pode amparar, numa mão a verdade (não confundir com qualquer livro sagrado, porque tal não é do meu agrado, sagrada é a consciência, quando se aprende a ler os seus ensinamentos, passamos a viver em verdade, e a verdade é a vida.); na outra mão, a não-violência (e não a espada, que simboliza a violência e não a liberdade, quanto mais a vontade de comunicar?) que mais pode O Ser Humano desejar?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 17, 2004

A linguagem deriva da vida...

«A linguagem deriva da vida, das necessidades e experiências que esta suscita. De início, a mente da minha pequena pupila estava tudo menos vazia. Vivera num mundo que não podia entender. A linguagem e o conhecimento estão indissoluvelmente ligados; são interdependentes. Um bom trabalho no domínio da primeira pressupõe e depende de um real conhecimento das coisas. Mal Helen captou a ideia de que tudo tinha um nome, e que, por meio do alfabeto gestual, esses nomes podiam ser transmitidos de umas pessoas para as outras, consegui despertar o seu interesse pelos objectos cujos nomes ela aprendia a escrever com uma alevgria tão manifesta. Nunca lhe ensinei a linguagem por ensinar, mas usei-a invariavelmente como um meio de comunicação do pensamento; deste modo, a sua aprendizagem coincidiu com a aquisição do conhecimento. Para usar a linguagem de uma forma inteligente, uma pessoa tem que ter algo sobre que falar, e ter qualquer coisa de que falar resulta de ter tido experiências; não há ensinamento da linguagem, por muito intensivo que seja, que permita às nossas crianças utilizarem-na com facilidade e fluência, a menos que tenham algo na mente que desejem comunicar, ou a menos que consigamos despertar nelas o desejo de saberem o que existe na mente dos outros.»

Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:49 PM | Comentários (1) | TrackBack

A democracia ainda não entrou em cena!

«Tenho a mesma sensação em relação a Whitman. Para mim, ele é uam centena, um milhar de vezes mais América do que a própria América. Foi precisamente este grande democrata que escreveu sobre a nossa tão apregoada democracia:
«Foi com frequência que imprimimos a palavra DEMOCRACIA. No entanto, nunca é demasiado repetir que se trata de um termo cuja essência real ainda se encontra mergulhada no sono, adormecida, não obstante a ressonância e as muitas tempestades desenfreadas das quais as suas sílabas saíram, produzidas pela pena ou pela língua. É uma palavra grandiosa, cuja história, suponho eu, permanece por escrever, pois essa história ainda tem que ser posta em cena.»
Não, um homem como Jean Giono nunca poderia ser um traidor; nem sequer se cruzasse os braços e permitisse que o inimigo invadisse o seu país. Em Maurizius Foverer, onde dediquei algumas páginas à sua obra Refusal to Obey, afirmei e repito-o com uma veemência ainda maior: «Disse haver qualquer coisa de errado numa sociedade que, por estar em contradição com as perspectivas de um homem, pode condená-lo como sendo o seu inimigo supremo. Giono não é um traidor. É a sociedade que trai os seus belos princípios, os seus princípios vazios. A sociedade está constantemente à procura de vítimas, e encontra-as entre os gloriosos de espírito.»

Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 16, 2004

Na esteira da liberdade...

«Pessoalmente, e espero que o leitor compreenda o que vou dizer, não tenho nenhuma crença e não me encontro inserido em nenhuma tradição. Sempre foi esta a minha atitude para com a vida. Dado ser um facto que a vida varia de dia para dia, não só considero inúteis as crenças e as tradições, mas, se me deixasse enredar por elas, isso impedir-me-ia de compreender a vida... É possível atingirmos a libertação, independentemente do sítio onde nos encontramos e das circunstâncias que nos rodeiam, mas isto implica termos a força do génio. Porque o génio é, afinal, a capacidade de um indivíduo se libertar das circunstâncias em que está enredado, a capacidade de sair do círculo vicioso... Podem dizer-me que não possuem esse tipo de coragem. É esse exactamente o meu ponto de vista. A fim de descobrirem a vossa própria força, o poder que está dentro de vós, têm de estar prontos e dispostos a aceitar todos os tipos de experiência. E é isso precisamente o que vocês recusam fazer!»

Henry Miller, Os Livros da Minha Vida

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 15, 2004

Ser ou não-ser patriota?

Patriota: pessoa que revela muito apego, amor, devoção à pátria; pessoa que se prontifica a agir em defesa do enaltecimento da pátria. Patrioteiro: pessoa que faz alarde ostensivo da sua dedicação à pátria; pessoa que se vangloria ufanamente do seu patriotismo.
Esta euforia despropositada, que varre o país de lés a lés, está longe de ser uma manifestação espontânea de patriotismo imparcial, muito pelo contrário, estamos a assistir às consequências de uma longa e orquestrada propaganda patrioteira, apoiada por instituições que deviam no mínimo, abster-se; desporto é desporto; política é política. Seria bom, que o futebol fosse encarado como um desporto, e nada mais. O problema é que o futebol é um negócio, e nada mais. Em muitos casos, envolve interesses pouco transparentes.
O futebol não é uma actividade transcendental, e parece-me pouco digno que pessoas com responsabilidades políticas e funções públicas, alimentem esse tipo de ilusão, e sejam fornecedores de meios e equipamentos que favorecem e catalizam a alienação colectiva, por motivos eleitoralistas, entre outros!
As quantidades de dinheiro envolvidas no mundo do futebol, torna-o apetecível a empresários honestos, mas também oa todo o tipo de oportunistas; o bairrismo e o clubismo, são para os adeptos, porque são eles que enchem (de vez em quando) os estádios, e mais regularmente, ficam especados a olhar para o televisor; os que dirigem os clubes, são movidos por outros interesses, quanto aos jogadores e treinadores, são profissinais, estão mais interessados em contratos chorudos, e ser estrelas nos spots publicitários! A ambição não tem limites, o protagonismo e a vaidade cumprem e bem, a sua parte do contrato; estas pessoas, exploram ao máximo, o facciosismo clubístico, e se tivermos em conta, o poder manipulador da propaganda, chegamos à terrível conclusão, que é fácil levar as pessoas a sentir obrigação de aderir à chamada, e alinhrem na parada em defesa do «interesse nacional», mas afinal, qual é o interesse nacional está em jogo? Será, que os interesses dum país, se defedem dentro das quatro linhas de um campo de futebol? O «estádio» de alma deste país é preocupante!
Sim! Claro que o turismo fica a ganhar, os hóteis estão a transbordar, a imagem do país projecta-se no mundo, benesses e mais benesses, ou seja, divisas e mais divisas, muitas divisas, para os bolsos de quem?
Num país, onde está tudo por fazer?! Sim, porque o país da evolução, não pode continuar a vangloriar-se de ter tanta gente, que vai ao futebol, mas que não questiona o alimento (político, cultural, social, ético...), que lhe servem à mesa quotidiana.
Conheço pessoas que trabalham arduamente, para manterem um nível de vida pouco acima da linha de flutuação, e que vivem afastadas de tudo, quanto não lhes é entregue ao domicílio, via televisão em horário nobre, uma nobreza infecta, que fecha o ciclo de iniquidade social, ética e cultural que grassa na sociedade portuguesa, estas coisas acontecem ao povo, em nome de quem, tudo é feito, mas que, no dia a dia, é mantido ao largo, de quarentena; na saúde, como na doença, as ruas onde mora o povo, terminam sempre num abismo de imundície, na vala comum, onde não falta, quem ao largo lhes venha pedir que colquem uma bandeira, no varadim do seu chalé de duas assolhadas, hipotecado ao banco, a casa e as raízes do cabelo, muito para além do que a força física e a resistência moral, aconselhariam.
Os marroquinos vendem as bandeiras, que os chineses fizeram de propósito, para alimentar o orgulho de ser português? O surrealismo está de volta, o país está de parabéns, a organização, o povo dá o seu melhor, avança de olhos vendados, joga à cabra cega!
Permitam-me que divague um pouco, que fale do país, que fale da falta de consciência cívica. As crianças deste país não recebem educação musical condigna, quem se importa com isso? Lamentavelmente, as prioridades vão todas parar aos estádios de futebol; as salas de concerto, não são uma prioridade, o povo não se interessa por esses hábitos burgueses, nem vale a pena perder tempo a educar as novas gerações, abrir-lhes outras portas, para quê? Desperdício de recursos!
Acontece que colectivamente, nos demitimos das responsabilidades cívicas e culturais, num país que afasta do horizonte as artes, para que a sua influência nefasta, afecte o menor número possível de cidadãos, mal por mal que contineum a ser os mesmos a ficar afectados, o custo é menor para o país!
Os que incentivam o povo a entregar-se às delícias do futebol (não descuram na educação da sua descendência), fazem-no por conveniência, se durante séculos o povo foi mantido afastado das lides culturais e artísticas, para quê, agora, turvar-lhes a cabeça!
Falta vontade política de mudar os parâmetros educacionais deste país, neste momento, a aposta vai no sentido de fomar técnicos, e esses, sejam de que área forem, não necessitam para o exercício da sua profissão, de ter formação artística e cultural, também não s epode dizer que seja essencial, estarem sensibilizados para as questões sociais, ambientais, políticas, culturais, científicas e outras! Cada técnico, no seu galho, e assim é que está bem, menos no que diz respeito ao futebol, que se querem todos agarrados às saias da mãe pátria.
As crianças deviam de contacto directo frequente com a natureza, munidos de manuais botânicos, acompanhados por adultos interessados, capazes de motivar as crianças, com jogos e brincadeiras, que os ajudassem a perceber a diversidade de vida do mundo natural, a identificar espécies, em diversas fases de maturação, etc... sem faltar um bom piquenique, que o corpo e a alma não são de ferro! Com os conhecimentos adquiridos, por exemplo, incentivar as crinaças a escrever peças teatrais relacionadas com o tema, deixando-as libertar a imaginação criativa, e aproveitar para comprender como evolui o processo de educação ambiental, que deve ser incluído numa espécie de projecto vida, um investimento seguro, no que concerne à mudança de mentalidade, que é fundamental, pelo menos para quem, em vez de acreditar, na transferência de armas e bagagens para Marte, quando o planeta começar a feder, compreende e sente, que o berço da humanidade, este lugar maravilhoso, A Terra, este organismo vivo, belo, fascinante, onde a vida se desenvolveu, numa diversidade vibrante, devíamos corar de vergonha, só de pensar, que o estamos a destruir irreversivelmente, tudo o que se possa fazer para consciencializar os mais novos, não para os amedrontar, mas para os tornar homens e mulheres mais livres e mais patrióticos, no sentido em que eu, que almejo vir a ser um cidadão livre, que amo a vida, sinto a pátria, a minha, mas também a alheia.
Um jogo de futebol, deve ser isso, um jogo de futebol? Enquanto for outra coisa, e enquanto, interesses mais altos, se erguerem das catacumbas do infortúnio nacional, a miséria cultural continuará a grassar, o ambiente continuará a definhar, e o galo de Barcelos (feito na China) continuará a cantar hinos patrioteiros.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:53 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 07, 2004

A folia continua...

Atravesso campos minados
antes de mim, outros antepassados
atravessaram campos minados
estendem-se a perder de vista
os campos semeados com cargas
legais autorizadas, acontece
como convém, para a causa ser
reconhecida, intoxicar a mente
e sufocar a razão, a loucura comum
é confundir soldados iguais,
que lutam nas margens impostas
pelo dever de não interrogar
ou pretender compreender
o que ali fazem, opondo
uma linguagem surda
e mecânica, macabra e intencional
o profetismo patriótico
receita paliativa que afasta
o terror, a desolação
do inimigo combater, os motivos
para matar e morrer
soldado-escravo da ilusão
defende a pátria, ou melhor a avidez sem limites
nem fronteiras de agiotas manipuladores
da vontade das multidões
que atrevessam campos minados
obrigados a pisar, mentiras e ardis
e todos os soldados sem distinção
de lado, raça, bandeira ou religião
serão mentalmente afectados
e emocionalmente perturbados
quem para a guerra envia soldados
a fim de defender a causa conveniente
casou extensas lesões morais, previamente
nos cidadãos iguais, que vão combater
inimigos iguais, até
na solidão, as almas enlameadas
sofrem da mesma doença
logro cultural, lavagem cerebral
epidemia de hostilidades
cruzada propagandística
os usos, os costumes, as tradições
os rituais, os hábitos, podem ser distintos
o sangue, as lágrimas, o desespero
de nunca mais ver, quem ao longe sente
a dor, que mata e morre
nos campos minados, o cárcere comum
vulnerabilidade explorada, desalento
o cheiro da morte, espalha-se
entranha-se na pele, e no cerébro
o sangue empapa o solo comum
uma batalha desigual decorre
nas mentes individuais, que mais
não desejavam, que o terminar
do horror, e voltar para casa
para os braços de quem se ama
tumor que rebenta no âmago apodrecido
a consciência ajoelha , pedindo clemência
já não aguenta o terror, a violência
guerrear?! guerrear?! guerrear?!
como quem vai participar
num campeonato, onde se vai bater
por um lugar no pódio
mas há sempre quem tudo faça
por mostrar quem dirige o baile
das nações, sem pestanejar
a guerra é um desporto caro
para gaúdio dos ricos
com heróis, idólos, fantoches e mascotes
energúmenos destemidos vociferam
no teatro de guerra, como nas arenas
do desporto, corrompem as regras
do jogo, ficam de fora os culpados
e lançam-se aos ferozes dentes
das balas anónimas, os inocentes
ou, na falta dos mesmos, os ignorantes
gente malfadada, penitentes
brincar às guerras, apostar
em quem vai ganhar, ou banhar-se
na fossa séptica diplomática
protectorado das alarvidades
para pedantes autistas de renome internacional
habituados a dar o feito, por não dito
metabolismo caprichoso, venenos paralizantes
da vontade dos povos e da cultura das gentes
transmutar cidadãos livres
em vermes rastejantes, a paz
defende-se com cegueira involuntária
os inimigos saltam da cartola
do mágico de serviço, e, o soldado
antes de ter tido tempo para pensar
já atravessa o campo minado
divisando o inimigo, o suplício liberta
a crença, a verdade, a desavença
a condecoração pôstuma alivia
a desordem e a agonia
as searas maduras ardem, em lugar do grão
as cápsulas das balas lembram que ali
é campo de batalha, não de pão
como podem os soldados acreditar
que têm um inimigo comum -- holocausto cultural?!
ensaio após ensaio, no palco da intolerância
quando menos o suspeitar
a humanidade estárá a morrer ao vivo
e em directo, o cenário é trágico
a encenação perfeita, estamos todos
de parabéns, da guerra somos reféns
a idade do ferro, a corrida ao ouro
perderam-se mais oportunidades
que civilizações, a era do aquário
e dos místicos favores e providenciais serviços
não perece saber como tratar as doenças
morais e espirituais da humanidade
à beira de entar na idade do horror?!
e a folia continua...


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:02 PM | Comentários (2) | TrackBack

Momento

A suave graça-movimento
O olhar meigo debruçado
Em chamamento
À varanda luminescente
Da manhã... estende a mão-afeição
A cativar o amor sonhado
Beijar os lábios encantados
Da criança-pensamento
Espreguiçar o sorriso
Doce enlevar
Em maternal-sentimento.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:35 AM | Comentários (0) | TrackBack

junho 06, 2004

Estreme(ser)?

escondes nas barbas do medo
convulsivo, o terror que sentes
de descrer, das linhas temáticas
do augusto espartilho, o sumo saber
cadinho priveligiado, em que foste criado
ocidental incubido de tecer
a madrugada tenebrosa
da pós-mistificação
do tédio de ser herdeiro
da imensa colecção de horrores
e tristes memórias, macabro carregar
o caldo da civilização, que ainda teima
em acabar com a diversidade cultural
e implantar uma paisagem humana e ambiental
que a engenharia genética optimizou
para tornar mais rentável, a exploração intensiva
da extensiva ausência de diversidade
épico e pragmático aluimento
ético e moral, humor transcontinental
desígnio divino, esse esteio sem rival
preferência de qualquer hospedeiro mortal
o planeta quiz a tolerância, aconselhou
o caminho da adaptação
germinaram as sementes da diversidade
cultural, ambiental e universal
carpete tecida com os fios
da imaginação humana, que muitos
ainda pisam com orgulho ignóbil
insatisfeitos com o legado histórico
pretendem continuar a decapitar culturas
para júbilo da pátria hilariante
longa esteira de incontinente ignorância
exprime a anemia moral, que grassa
pelo mundo, espelho onde as imagens
em convulsão, estigmas de um passado
repleto de crimes, e glórias à senilidade
de homens corruptores das cartas
do lúcido e consciente navegar
no mar da humana, e da terrena
mágica, e fascinante diversidade
onde tão poluídos desaguam
os fluídos vitais da liberdade.


leite de amêndoas
amacia a pele do luar
rosto estudioso
calvaga ventos inusitados
que anunciam, aos deuses na terra
mensagens de estrabaria, coices e novelas
da terra prometida, do céu obnubilado
e os dias decorrem céleres
ocultando as nódoas, do passado
em lixeiras dementadas
escondem-se as tristezas, das vistas
despojos desdenhosos, do coração
insuficiente, chovem humilhações
de todos os quadrantes, masturbar
de mentes intrigantes e fúrias possessivas
tristezas, condenadas à deportação,
memórias incorruptíveis, esquecidas
no vazadouro comum, as partículas
dos sentimentos, por lixiviação
lentamente, transformam-se em ideias subversivas
infiltradas no humano lençol comum
sem tratamento eficaz, as partículas de tristeza
entram clandestinamente, na cadeia do saber
filão, de quem parte à descoberta
dos limites e das fronteiras
do medo alojado, nas mangas dobradas
das carreiras do empedernimento
urbano-dependente, humano-decadente
consumir os dejectos subliminares
do engano maciço, porte enfermiço
daqueles que da lei da vida se libertam
calcorreando os corredores da morte
em jeito de louvor, pavor de viver
alegria de arriscar sem temer
e sem desejar mais, do que pode ter
entenda-se ser...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:28 PM | Comentários (2) | TrackBack

O amor, que a vida amadurece

Quero o nascer do Sol
A espreitar o meu acordar
Chilreio inebriante da passarada
Estimulando-me o cismar.

Quero o nascer do Sol
A espreguiçar o meu acordar
Límpido murmúrio de luz
A fluir no leito do meu olhar.

Quero o zénite escaldante
A morder-me as faces nuas
E a sesta dormir
À sombra fresca dos pensamentos
Tronco rugoso, ramos, sonhos
Folhas, sussuros, devaneios
Palavras, pétalas, argumentos
Frutos, emoções, lamentos...

Quero domir sem temor e acordar
Bicho, homem, e deus indignado
Aproveitar o crepuscular tremeluzir
De ideias furtivas, intuir a premência
De prevenir, a longa noite de escravidão
Que invade transversalmente
A civilização, sem resistência!
Será a liberdade, página inconveniente?
Arrancada, à força, pela história recente
Arrumada nas prateleiras da submissão
Ao poder absorvente da imbecilização?

Quero descobrir no âmago
O Sol humano que brilha
E da argamassa poluída, que hoje sou
Esculpir, a beleza e a perfeição
Sonhada, pelo homem que é barro
Pedra, sangue, seiva, e criativa imaginação
E vontade de ser alma livre, e bicho escorreito
E partilhar, naturalmente, O Amor à Vida
Que germina no peito.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:22 AM | Comentários (0) | TrackBack

junho 05, 2004

A retoma (das elucubrações).

Labirinto ofegante, pensamentos suados
O respirar da tarde pegajosa
À sombra do silêncio ausente
Esboço indefenido, cegueira lúcida
Acorda o delírio de partir
Espreguiçar de miragens
Descobrir outras formas
De sentir, uma língua de terra
Um promontório de esperança
Um palmo de imaginação
O urgir da criação.


A corrida ambiciosa
A dança restrita ao direito
A pernoitar nos poleiros do poder
Os véus da madrugada romper
Numa cantoria desabrida
Democracia em alvoroço
Hastear na praça pública
A hipocrisia com as quinas da inveja
E a esfera armilar da vaidade
Parente pobre, empertigado
Que passa a história enrascado
E quando riquezas tem, esbanja
Em festanças, e opulências estéreis
Para gaúdio de amigos e consortes
E depois, tudo é tristeza, e fado
E Fátima, e futebol....
Laços de provincianismo
Remendos designativos da nação
Unidade bem defenida
Que a comunidade europeia
Não apanhará desprevenida!


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:06 PM | Comentários (0) | TrackBack

«Amazónia, último aviso»

"A possessa alienação, colectivamente partilhada, por quem faz da televisão, electrodoméstico de eleição"
Mas casos há, em que este meio de comunicação, transmite bons programas educativos, com cariz pedagógico, e conteúdo científico-cultural relevante. Um programa com essas características foi hoje para o ar, cerca da uma da tarde: «Amazónia, último aviso».
Ligar o televisor, significa fazer um périplo ao largo da costa e de longe, verificar o funcionamento dos quatro faróis, que orientam a navegação do fluxo informativo deste país, e, sem mais delongas, afastar-me para longe da influência do hipnótico canto das sereias que afincadamente trabalham sob os holofotes da ribalta. Todo o cuidado é pouco, uma vez que a possibilidade de ser arrastado pela corrente e embater nas falésias, é bem real. Navegar ao largo, para longe do eco dissonante, proveniente do bulício rumoroso das multidões, que insistem nas profissões de fé, em torno dos milagres gastos.
Mas hoje, a televisão cativou-me sem custo, por uma hora, embevecido por ter, outra vez, o privilégio de seguir, os interessantes episódios da série documental «Amazónia, o último aviso».
Para quem se interesse pela temática ambiental (e não só), julgo que é uma oportunidade (especialmente, para quem não tem acesso à televisão por cabo), para assistir a uma série documental de qualidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

A beleza também cresce nas bermas dos caminhos...

Passam por mim
Melancólicas colinas arredondadas
Onde jazem ervas ceifadas
Secando à luz dourada
Aguardam que a sagueza humana
As considere em condições de enfardar
Carregar e guardar
Em celeiros ou palheiros
O tesouro abençoado
Para fartar o gado
Que berra pelo seu pão, no curral
Em dias de ingrata invernia
Quando a sensatez humana
Aconselha, a solarenga lareira
E o corpo indolente, adormece
Enquanto a sonhadora alma, ronrona
Vagando em locais distantes
Gotas de orvalho que humedecem
O ressequido olhar
Passam por mim
Melancólicas colinas arredondadas...

Nas bermas da estrada, e dos caminhos
Sinto os almeirões, como pergaminhos
E as rubras papoilas, como emoções
E a silva-macha, tenaz trepadeira
De branco-rosáceas pétalas adornadas
Tornam belos, os ramos secos
Das oliveiras abandonadas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:52 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 03, 2004

Luar sem rosto

Rosto de lua cheia, perdido em sonhos
E devaneios...
Mister de, ao luar, os mórbidos
Pesadelos diurnos, apaziguar
Assombrosas rotinas aladas.


Rosto de lua cheia, perdido em sonhos
E devaneios...
Luar espelhando a luz
Dissolvente do teu olhar
Sequelas e estigmas anónimos
Véus invisíveis e dimensões ocultas
Iluminam o palco desse mesmo olhar
A trama cultural, o drama existencial
Expressão pungente da dor individual.

Rosto de lua cheia, perdido em sonhos
E devaneios...
Das cores do Verão abrasador
Se vestiu o teu olhar embaraçado
Subiu ao palco em noite amena
Para dar voz ao pranto humano.

Rosto de lua cheia, perdido em sonhos
E devaneios...
Tu que derramas, sentidas lágrimas
Tu que segregas, venenos e toxinas
Vítima incerta, de mau olhado
Exprimes, com ardor inesperado
Narcisismo bafiento, incontinente vaidade
Jorro sórdido de submissa imbecilidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 02, 2004

Criação: As tábuas da compreensão!

Espuma de ideias, desígnio criador
Fervilhando no cadinho da imaginação
Alucinado esbracejar, em mar revolto
Na esperança de encontrar
As tábuas da compreensão?

À deriva anda o coração, que
Anseia renovar a esperança
Nos ventos e correntes de feição?

Recordar histórias de sublime coragem
Salvar memórias, e paraísos
À beira da extinção, o prolongar do esquecimento
A tempestade árida, o trágico adormecimento.

Um ensejo? um refúgio, um ermo
Um penhasco, sem guarnição
Um lugar, onde porventura, ainda
Não tenha encalhado a civilização?

Areal dourado, caprichosa ilusão
Evade-se à desumana condição
Da sobrevivência inebriada
Submissa reverência à sagração
Ao actual modelo de civilização.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 01, 2004

Voa Albatroz

Voa albatroz errante
Neste oceano de vida alucinante
Voa albatroz, navegador desconcertante
Seguidor da ironia migrante
Voa albatroz, trepador das cristas
Desassossegadas, carrocel de vagas
Voa albatroz, enquanto podes, percorre
Os turbulentos, azuis, verdes, cinzentos oceanos
Em breve, tornar-se-ão, mundos estranhos
Ocaso da velha ordem conhecida
Voa albatroz, a espuma dos sonhos
Alba vivida pelos antepassados
Voa albatroz, candidamente...
Por muitos séculos, as asas da imaginação
Protegeram os homens das vagas agitadas
Criando seres monstruosos, fantasiando
Problemas assombrosos, até que a ganância
Os levou a enfrentar, o medo e o mar
A cobiça apagou a lividez das superstições
O mar passou a ser caminho
Para levar a vilania, a profanação
A sordidez de uma superior civilização
Por mares e terras, que foram pilhadas
Até à exaustão vilipendiadas...
Voa albatroz, enfrenta a cólera
Destes tempos difíceis
Brumas que não entendes
Espalham-se pelo mar imenso
Voa albatroz, na vastidão inquietante
Onde acontece a marcha inglória
Desta civilização tonitruante
Voa albatroz, não consegues evitar
Que os humanos içem as velas
Da sua portentosa imaginação
Lobrigam descobrir algo
E logo semeiam destruição
Escórias de iras súbitas
E mudanças cruéis de ânimo
Voa albatroz, a derradeira ilusão
Em breve serás apanhado
Mas malhas da civilização.


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:22 PM | Comentários (1) | TrackBack