maio 31, 2004

«Mais cedo ou mais tarde, toda essa porcaria tem que ser regurgitada.»

«Durante a juventude, o nosso apetite, tanto pela experiência pura como pelos livros, é descontrolado. Onde houver fome excessiva, e não mero apetite, tem de haver uma razão vital para isso. É por demais evidente que o modo de vida actual não nos oferece alimento condigno. Se assim fosse, estou certo de que leríamos menos, trabalharíamos menos e nos empenharíamos menos. Não precisaríamos de substitutos, não aceitaríamos sucedâneos para a nossa maneira de viver. Isto aplica-se a todos os domínios: comida, sexo, viagens, religião, aventura. Damos início à viagem com o pé esquerdo. Percorremos a estrada larga com um pé na sepultura. Não temos objectivo, nem desígnio defenidos, nem a liberdade de não ter objectivo nem desígnio. Somos, na maioria, sonâmbulos, e morremos sem sequer abrir os olhos.
Se as pessoas apreciassem profundamente tudo o que lêem, não haveria qualquer desculpa para falar assim. Mas lêem como vivem -- sem objectivo, ao acaso, de uma forma débil e vacilante. Se já estão a dormir, o que quer que leiam só as faz mergulhar num sono mais profundo. Se se encontram apenas num estado de letargia, tornam-se mais letárgicas. Se são preguiçosas, ficam-no ainda mais. E assim sucessivamente. Apenas o homem que está bem desperto é capaz de apreciar um livro, de extrair dele o que é vital. Um indivíduo desses aprecia o que quer que penetre na sua experiência, e, a não ser que eu esteja terrivelmente enganado, não faz distinção entre a experiência que a leitura lhe proporciona e as experiências múltiplas do quotidiano. O homem que aprecia plenamente o que lê ou faz, ou mesmo o que diz, ou simplesmente o que sonha ou imagina, beneficia ao máximo. Aquele que procura lucrar, mediante uma forma ou outra de disciplina, ilude-se a si mesmo. É por estar firmemente convencido disto que abomino a publicação de listas de livros para aqueles que estão a dar os primeiros passos na vida. Segundo creio, as vantagens que se podem extrair deste tipo de auto-educação são ainda mais dúbias do que as supostas vantagens obtidas mediante os métodos de educação correntes. A maioria dos livros apresentados nestas listas não pode ser compreendida e apreciada antes de uma pessoa ter vivido e pensado por si mesma. Mais cedo ou mais tarde, toda essa porcaria tem que ser regurgitada.»

Henry Miller, «Os Livros da Minha Vida»
Edição recente da Antígona
Aproveitei para lhes sugerir que editassem «O Tempo dos Assassinos»

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 30, 2004

Vendavais de pensamentos, rebentos de alma estouvada, ondulando na tarde dourada...

Livros folheadas, aos milhares... numa tarde de evasão
Para quem ainda gosta de dar largas à imaginação
Mesmo assim, as palavras permanecem confinadas
À prisão de capas duras ilustradas
Gaiolas de grades douradas
Onde amíude, murcham pensamentos
Searas de liberdade, negligenciadas, sem explicação
As pessoas vagueiam, despercebidas
Os livros são para comprar, para ler
Ou fingir, e arrumar, pão que vai mofar
Frases amassadas com farinha-pensamento
A que se juntou àgua, imaginação em movimento
Pão, rosas, e resmas de livros
Páginas nutridas de esperança
Que não convence, as famélicas e desgrenhadas
Páginas pesadelo, esquecimento, e degredo
Silenciadas pela censura, e pelo medo
Calafrios, percorrem a espinha destas páginas clandestinas
Que conspiram contra a ditadura das palavras
Para cima e para baixo, acotovelam-se palavras e pessoas
Às esquinas das livrarias-barraca, os escribas aguardam
Os peregrinos-arguidos, que chegam
Escoltadas por palavras à paisana
Cadelas que mereciam ser açaimadas
Raivosas espias, das mentes descuidadas
Das emotivas sombras, emergem fantasmas
À boca de cena, vagueiam olhares
Procurando no éter, as palavras
Que nas páginas dos livros
Continuam irremediavelmente aprisionadas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:45 PM | Comentários (1) | TrackBack

«O país por onde passam todos os circos. Uma espécie de mega Mónaco rural.»

«Rock in Lisboa/Rio», crónica de Paulo Cunha e Silva; texto cujo gume considero assaz contundente.

«Esta crónica não começa com uma gralha, mas tão só com a constatação de que a inversão da geografia não é arbitrária. A realização em Lisboa de um festival com a marca do Rock in Rio é um acontecimento que precipita outras reflexões. Nomeadamente a evidência da circunstância de Portugal estar com um problema de marcas. Isto é, de ícones e de iconografias suficientemente fortes para só por si condensarem e precipitarem a imagem do país. Sim, continuamos a ter Fado, Futebol, e Fátima. Mas há uma grande dificuldade de reinvenção iconográfica. (...)
Ficamos sempre nesse balanço indeciso entre vender a geografia, vender atmosferas, vender calçado, vender pessoas. O ICEP, ou não sei quem, inventou agora Portugal como última paisagem, o ponto mais ocidental. E novamente a marca da ultraperiferia, com o seu quê de exotismo e surpresa, a tentar marcar pontos. Portugal em vez de se afirmar pela essência, por aquilo que é e pretende ser, é sobretudo vendido como uma periferia de si próprio. Estrangeiro dentro de si, este país naturalmente periférico quer ainda parecer mais periférico do que já é.
Rock in Rio/Lisboa é uma sintagma que é também um sintoma. Como em todos os sintagmas, a pele da escrita fala das paixões da alma. E o rock é seguramente uma das paixões contemporâneas. Lisboa, capital do fado, transforma-se por obra e graça do Cristo Redentor e superior ajuda do Pão de Açucar na capital do rock.
Mas uma capital mole, fraca, uma sucursal do Rio que é, já de si e no contexto do rock, uma cidade ultraperiférica. O Rock in Rio/Lisboa é assim um acontecimento de terceira instância. O Rio, capital do samba, empresta a Lisboa, capital do fado, o Rock que não é seu. (...) Já importávamos o Carnaval e as novelas, mas agora a organização de um festival?
Estará Lisboa tão triste e deprimida para fazer de um acontecimento de terceira geração, o maior acontecimentodo seu ano?
E Portugal, balizado entre a voz entre a bola e a voz, não será capaz de produzir ícones mais potentes?
Está na altura de fazer de Lisboa capital de qualquer coisa, nem que seja de si própria. E de Portugal um país de primeira instância. (....) Portugal tem de encontrar urgentemente a sua centralidade. Muito para lá dessa ideia desígnio, com um sabor insuportavelmente nacionalista e até estado novista, de que agora se fala novamente. De contrário, poderá transformar-se no país por onde passam todos os circos.
Uma espécie de mega Mónaco rural. Sem Carolina, nem Rainier, mas com Futebol Clube do Porto e talvez Fórmula 1.»

Artigo de Opinião -- Pág. 14 -- DN -- Domingo, 30 Maio 2004

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:56 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 26, 2004

Respira a pele que a alma envolve?

Amparo a esfinge desfigurada
Presto-lhe cuidados paliativos
Aquieto a dor degenerativa;
Escorre-me pela garganta o amargo fel,
A pele já não respira, supura
Extenso orgão vital, obstruído;
Como pode aguentar a dor que deveras sente?
Se não é poeta, e não mente?
Dor que incha o peito
Oprime o coração, ocupa o desvão
Lugar de onde alma desertou
Espasmos de calafrio atormentam as extremidades
Engadanham-se, escravas do temor,
Lembram correrias, memórias esparsas
Sonhos de infância ondulam na paisagem
Ciclos de vida, marés de dor
Pele, lençol, mortalha
Alma que sufocou de pavor.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:25 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 24, 2004

Dis-tracção, sem-paixão!

Pode o coração humano ser cativado para causas que conhece mal, acontece com frequência; mas esse ímpeto momentâneo para se transformar em acto de amor abnegado, depende do despertar da consciência, que por sua vez depende da compreensão das causas e das ligações obscuras que trouxeram à luz do dia, as consequências que fizeram o coração humano reagir.
A resposta humana nunca será satisfatória, se não for uníssona; é uma questão de harmonia musical, não se trata de espartilhar emoções, mas de guiá-las, milagre alquimíco realizado pela consciência, que, ao fundir pensamentos e emoções, faz irromper genuína comunicação no seio dos humanos entes, única forma de evitar desgastantes discussões, inconclusivas, por desconhecimento, insensibilidade e má interpretação da realidade.
O telespectador médio, apesar de quase imune às imagens de sofrimento atroz que correm mundo, encaixotadas em ecrãs que enfeitam a maioria das salas de estar; uma vez por outra, sente o frémito da revolta subir-lhe pela espinal medula, e por instantes, breves, estaria disposto a lutar até à morte por uma causa que considera-se justa. Manifestar-se-ia contra a guerra, os crimes ambientais, as crianças massacradas, violadas, estropiadas.... sublevar-se-ia sem pestanejar contra tanta desgraça, contra tanto horror, que mundo é este? Inquire, com a voz entaramelada -- Deus ausente! Semelhantes nivéis de emotividade, extenuam, deixam o telespectador prostrado no sofá habitual, sem nada poder fazer para salvar da perdição, a humanidade. Entretanto o noticiário avançou vertiginosamente, a realidade mudou, por entre os escombros da notícia apagada, renasce das cinzas plebeias, a princesa, que enche de orgulho uma nação, e o telespectador sorri... declarando: que cerimónia bonita! a cerimónia vai no adro... o pivot promete mais imagens, mais à frente e prossegue... mestre de cerimónias, barqueiro, inicia a travessia, na margem oposta aguarda-o, o Euro 2004, monarca, não! Imperador, senhor dos céus e da terra... neste preciso momento deu-se o amplexo mortal! o nosso telespectador esqueceu a guerra, as atrocidades, a barbárie que grassa pelo mundo, o desemprego, até se esqueceu do inacreditável Kafkaianismo político luso? as pupilas dilatadas de orgulho: que equipa notável! mas, após curta meditação, chega à conclusão que talvez não estejam ao nível da selecção francesa, mas com um pouco de sorte, a nação subirá ao altar, um momento histórico, de unidade patriótica, segue-se estriduloso arruaçar de emoções, evolam-se no ar fumos, que podiam bem ser de fogueiras inquisitoriais, mudam-se as épocas repetem-se os rituais, e será sempre assim, até que o conhecimento desperte a consciência e para alívio das emoções, a moral e os sentimentos, faça crescer em liberdade, tantas almas ostracizadas, num país que zela pelos interesses de oportunistas, que ao abrigo das sequelas atávicas se vão amanhando à pala de acontecimentos, que marcam a nação, mas pelo desespero vingativo, da sua imbecil condição.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:02 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 23, 2004

E o Sol não se apagar!

Enquanto o Homem
Por este planeta deambular,
E o Sol não se apagar...
Terá à sua espera
Uma roca, um fuso, um tear...
É seu destino,
Entrelaçar fios do tecido
Até formar uma identidade,
Agazalhar do frio a liberdade...
O gesto criador animar
A forma, o feitio, a empatia moral...
O fascínio desfraldado no olhar
Ao descobrir e desafiar,
A essência do Humano cismar


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 21, 2004

Resistir e lutar

«O horror essencial da vida militar (qualquer pessoa que tenha sido soldado sabe o que quero dizer com isto do horror da vida militar) pouco depende da natureza da guerra em que se combata. A disciplina por exemplo, é fundamentalmente a mesma em todos os exércitos. As ordens têm que ser cumpridas, sendo impostas, se necessário, como castigo; e a relação entre oficiais e soldados é necessariamente a relação entre gente superior e inferior. A imagem da guerra dada a público em livros como A Oeste Nada de Novo(Romance de Erich Maria Remarque) é substancialmente verdadeira. As balas ferem, os cadáveres fedem, e os soldados, debaixo de fogo, sentem-se tão apavorados que chegam a mijar nas calças. É verdade que a origem social do exército dará determinado aspecto à instrução militar, às tácticas e à eficácia geral, sendo também verdade que a consciência de se estar no caminho certo pode apoiar a moral, embora isto afecte mais a população civil que as tropas. (As pessoas esquecem que os soldados junto à frente de combate, seja onde for, se encontram geralmente demasiado famintos, ou assustados, ou cheios de frio, ou, sobretudo, cansados demais para se preocuparem com a origem política da guerra). Não é pelo facto de um exército ser «vermelho», para uns, ou «branco», para outros, que as leis da natureza ficam suspensas. Um piolho é sempre um piolho e uma bomba é sempre uma bomba, mesmo quando a causa que nos leva a combater possa ser justa.
Por que razão vale a pena realçar coisas tão evidentes? Porque perante elas a maior parte da intelectualidade britânica e norte-americana manifestamente se mostrou então inconsciente, continuando ainda agora a sê-lo. (....) Conforme a massa de pessoas avança, as extraordinárias oscilações de opinião que hoje ocorrem e as emoções que se podem abrir ou fechar como uma torneira resultam da hipnose suscitada pelos jornais e pela rádio. No seio da intelectualidade, julgo que tudo isto decorre mais do dinheiro e da mera segurança pessoal física que de outra coisa. Em determinado momento podem mostrar-se «favoráveis à guerra» ou «contra a guerra», mas sem terem em mente qualquer ideia realista, tanto num caso como noutro. (....) Tornámo-nos civilizados demais para compreender o que é óbvio. Porque a verdade é muito simples. Para sobrevivermos, temos amiúde de lutar, e para lutarmos temos de nos manchar pessoalmente. A guerra é um mal, sendo às vezes um mal menor. Quem com ferro mata, com ferro morre, e quem o não empunha perece de doenças duvidosas. O facto de ser necessário registar esta banalidade mostra aquilo que os anos de capitalismo rentier(pessoa que vive dos seus rendimentos, sem comércio nem industria, sendo por isso a sua acção de carácter usurário) nos têm feito.

George Orwell, Recordando a Guerra Espanhola

Quem lê este blog com alguma assiduidade, sabe que sou contra a violência, presume-se que seja igualmente contra qualquer guerra; o futuro da humanidade depende da não-violência, ou corre-se o risco de não haver futuro.
A publicação do último parágrafo deste excerto suscitou-me algumas dúvidas, não porque nele se faça a apologia da guerra, mas talvez, porque me cosiderassem ambíguo? Creio, no entanto, que salta à vista, que o autor, mais do que defender a guerra, considera fundamental que o cidadão resista e lute, para não terminar aniquilado; pode fazê-lo, recorrendo à violência, pode até declarar guerra sem tréguas à sociedade e conseguir atingir alguns dos objectivos pretendidos? Mas, se é suposto os soldados terem bravura, a resistência não-violenta é um excelente meio de provar intrepidez física e moral?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:06 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 20, 2004

O Homem comum...

«Deverá o homem comum ser atirado de novo para a lama? Deverá ou não? Acredito, quanto mim, porventura sem bases suficientes, que o homem comum há-de ganhar o seu combate mais cedo ou mais tarde, mas gostaria que fosse mais cedo do que mais tarde -- dentro dos próximos cem anos, digamos, e não dentro dos próximos dez mil.»

George Orwell, Recordando a Guerra Espanhola

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maio 19, 2004

Trabalho escravo

Enquanto a serventia do trabalho for, escravizar pessoas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem não passa de uma farsa, que devia envergonhar quem afirma correr-lhe nas veias, a seiva da liberdade.
Como toda a gente sabe, a maioria dos cidadãos, tem no trabalho a única fonte de rendimento, fio da navalha, no qual equilibra a sobrevivência, pessoal e familiar. O trabalho ao ser usado como forma de manipulação social primária, abre feridas difíceis de sarar, as pessoas fecham os olhos ao passar, e quando a fealdade se torna insuportável, voltam a cara para o lado, depois endurecem a alma, e por fim convencem-se de que as feridas eram imaginárias.
O ambiente continua a ser o parente paupérrimo, no seio da família que constitui os países ricos, a segurança social e os direitos dos trabalhadores, seguem-lhe as péugadas, caminhando vertiginosamente para o colapso; a educação oficial não estimula o pensamento criativo e crítico, ao invés, prepara «soldados da produção», que não discutam ordens e cumpram escrupulosamente o dever.
Quanto mais banalizada estiver a precariade laboral, menos escandalosa parecerá, excepto para os que estão encurralados num beco sem saída, para esses, a ruptura pode estar iminente, e quem repara... quem tem tempo para reparar num ser humano agonizando?
O trabalho escravo, para os mais desatentos pode não passar de um conceito anacrónico, mas para os modernos exploradores trata-se de um recurso imprescindível para manter as economias dos países ricos competitivas face à concorrência "desleal", de países onde se diz, à guisa de desculpa, que não respeitam os direitos humanos, também é do conhecimento de todos que nesses países, as crainças são brutalmente arrancadas à infância, um contributo precoce para que a concorrência se mantenha saudável à custa do sangue impoluto das crianças, produtoras de bens de consumo que chegam às lojas do ocidente aos preços que todos sabem, as crianças ocidentais são consumidoras despertas, reconhecem à distância a marca e o modelo que a publicidade lhes meteu na cabeça, recorrendo ao mais mediático idolo da bola do momento, a quem pagaram uma quantia exorbitante. Esta influência perversa, acontece ao abrigo da normalidade, e não falta quem a considere louvável, e não deixa de ser igualmente normal que o tal jogador da bola receba uma tal quantia de dinheiro que foi pago (extorquido) pelo consumidor final, que nem por isso deixa de o venerar? dinheiro esse que devia, pelo menos em grande parte reverter para os trabalhadores escravos adultos e crianças permitindo-lhes matar a fome e educar condignamente as futuras gerações. Mas o jogador da bola que deu cara ao spot publicitário, não pode ser considerado moralmente responsável pelo trabalho escravo (não são contas do seu rosário)? aliás, o mais provável é que já tenha contribuido com fundos para obras de caridade? está limpo?
Respeitáveis chefes de estado e de governo, conservam em formaldaido muitos temas tabu! Após longas e penosas negociações, lá consegui autorização para dar uma espreitadela, acabei agora de retirar da prateleira o frasco onde está guardado, devidamente rotulado: o trabalho escravo. Mas o que é trabalho escravo? Considera-se trabalho escravo sempre que as condições laborais impedem a evolução humana ao trabalhador. Então, e o que é isso da evolução humana? A evolução humana depende do acesso à informação e formação em diversas áreas não condicionadas exclusivamente aos aspectos profissionais, o cidadão deve ter oportunidade de desenvolver os talentos inatos, e ter acesso livre às artes, à cultura, à ciência, etc...
(Reflectir sobre assuntos tão delicados, quanto pertinentes, leva-me neste caso, a recear não ser capaz de conseguir explicar cabalmente o que tenho para dizer, por falta de tempo e cansaço. Acontece amiúde deixar rascunhos bastante desenvolvidos, para terminar no dia seguinte, por entender que já não estou em condições de rever com clareza de espírito, o texto redigido; só que no dia seguinte, muitas vezes, outras prioridades impedem-me de «acudir» ao texto inacabado... que pode por longos dias quedar esfriado, até que no horizonte surja a sua aurora!)
Parece haver uma relação directa entre a necessidade de manter o trabalho escravo e a dificuldade em arranjar quem livremente, esteja disposto a fazer os trabalhos mais penosos. As tarefas penosas, não são igualmente penosas para todos; e ao estarem catalogadas como penosas, então devem ser incluídas num regime especial de obrigatoriedade cívica, ou redução da carga horária, ou outro género de incentivos, que «despenalizem» o mais possível quem opte por as fazer; há sempre pessoas que preferem fazer um trabalho árduo, mas por menos horas, ou só seis meses por ano, ou mais regalias sociais, ou qualquer outro benefício extra, em vez de terem um trabalho regular.
Não existe qualquer necessidade plausível para a civilização continuar a depender do trabalho escravo, todos os motivos que possam ser apresentados foram ardilosamente apoiados em propaganda dissuasora da vontade de resistir. O importante é desviar a atenção dos cidadãos das questões de fundo, as quais exortam para o perigo de a história se voltar a repetir... as tragédias repetem-se, porque os cidadãos comuns repetem os mesmos erros, entregando as suas vidas, de mão beijada, a compatriotas megalómanos, que em nome das nações, das religiões, da superiore rácica, ou de outra desculpa qualquer, empurram os súbditos para o abismo onde supostamente mora a grandeza?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 18, 2004

Incentivar a canalhice; explorar a cumplicidade!

"Uma certa propaganda enfoca nessas rivalidades o antagonismo daqueles que sofrem, a bem dizer, o jugo do lucro, e chega a convencê-los a tomar partido, a desviarem-se do seu alvo natural para se associarem aos interesses de um ou outro dos seus adversários e de se juntarem a eles nas suas lutas intestinas. É um dos pontos fortes do método: integrar furtivamente nas fileiras do sistema aqueles que o sistema explora e que deviam concentar as suas forças para se oporem a ele. Persuadir aqueles que se quer reduzir à miséria de que se trata do seu destino natural. Levá-los a tornarem-se um público crédulo, ou assim parecer -- o que não é melhor --, de combates comerciais travados à sua custa por cúmplices que fingem ser adversários uns dos outros. Adversários na realidade ligados, empenhados em convencer aqueles que exploram a não só suportarem o seu programa, mas a apoiá-lo.
É que a população mundial revela-se difícil, muito difícil, de submeter inteiramente; não é fácil condicioná-la, fazê-la apoiar o que lhe é nefasto e renuciar ao que um longo passado de lutas lhe permitiu adquirir, fazê-la regredir e fazê-la sofrer tais coacções cuidando de que ela não expluda! Sob um regime que ainda se reclama da democracia, essa população, é preciso acompanhá-la. Ocultando ao mesmo tempo a pergunta que, articulada, poderia ser: «Como livrarmo-nos deles?»"

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:00 PM | Comentários (1) | TrackBack

Palavras sem arrumação...

Cinzas de amor cobiçado
Palavras enfeitiçadas
Resistem... ao quotidiano desamor
Colo macio, aconchega mágoas
Palavras tormentosas
Quebram-se em mil silêncios
Sombras que choram... vertem lágrimas
Leite e absinto, sorvido pelos ecos
Palavras acordadas...com sabor a fel
Sabor do desdém; regurgitado
Tarda em amanhecer
Cirros e cúmulos... e arrojos tempestuosos
Denso céu cruzando... irrealidades
Palavras sem arrumação...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:26 PM | Comentários (1) | TrackBack

maio 17, 2004

Absurdo I

Quando a Declaração Universal dos Dereitos do Homem foi redigida, uma lufada de ar fresco (de esperança) soprou sobre a Humanidade. Agora era possível acreditar que as descobertas científicas e o desenvolvimento tecnológico, trouxessem prosperidade económica e melhorias sociais.
O Homem podia finalmente almejar libertar-se do longo jugo da servidão; a maioria das tarefas árduas que até agora dependiam da força e destreza da mão humana, seriam paulatinamente substítuidas por máquinas e tecnologias cada vez mais sofisticadas... finalmente descia o Céu à terra e o Homem corria o risco de se tornar uma criatura livre!
Até aqui, a história das civilizações conhecidas, coincidia com a história da escravidão das massas humanas; os conquistadores tinham o direito de dispor dos conquistados, torna-los escravos, era uma forma de suprir as necessidades de mão de obra. Durante séculos o sistema manteve-se quase inalterado, as várias actividades económicas (sobretudo a agricultura) sacrificavam um número enorme de «cidadãos» à absoluta servidão, sem remissão possível, geração após geração.
A partir de agora tudo ia ser diferente, com o advento da sociedade tecnológica, chegara o momento, de esperança para o cidadão comum; poderia almejar aprender, ter acesso ao conhecimento, ir à escola, cultivar-se, dedicar-se às artes, às letras e às ciências; a janela criativa da humanidade abria-se ao povo, os horizontes estavam prestes a ter que crescer, os insalubres e febris terrenos pantanosos, repletos de miasmas de preconceitos e supertições estavam prestes a ser drenados.
Estaria a Humanidade finalmente pronta para a maturidade, após tão longa travessia de obscurantismo «civilizado»? Podiam finalmente descansar em paz as almas de todos aqueles que tendo sacrificado as suas vidas às mãos dos algozes traidores da humanidade; visionários da liberdade que irremediavelmente despertaria, mesmo que a terra continua-se pejada de tenebrosos tiranos por muitos séculos. Finalmente a esperança num futuro próspero para todos, flutuava acima das cabisbaixas cabeças de uma Humanidade desiludida, mas que nunca se tinha dado por vencida.

Terá continuação...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:08 PM | Comentários (1) | TrackBack

Limpar dívidas e lavar cérebros?

«Certamente, as despesas públicas devem ser seriamente controladas, mas então que isso seja feito publicamente, com uma preocupação de boa gestão, e não na histeria, não num clima de caça às bruxas, de exorcismos e expiações.
Porque não pôr primeiro as necessidades reais da sociedade, por exemplo em matéria de saúde, e, a partir daí, elaborar o orçamento sem excluir a possibilidade de ser preciso... aumentá-lo? Uma nação incapaz de se permitir isso não pode ser minimamente considerada como parte do mundo próspero. Ela figura, na realidade, na categoria dos países subdesenvolvidos.
Uma sociedade decente não devia temer essas despesas, vilipendiá-las, mas ufanar-se, pelo contrário, de fazer participar muito generalizadamente os seus membros nas potencialidades e nos progressos, sobretudo na medicina. É nocivo, é irracional ter vergonha dessas despesas em vez de se felicitar por elas. Vangloriar-se de as comprimir, de manter as suas vantagens vitais fora de alcance, em vez de se gabar de fazer uso delas.
A que estado de espírito fomos nós condicionados, a classe política e nós, para aceitar tal desvio da norma e de uma certa justiça, todavia tão banal? Estamos a lutar contra um tal insucesso? Donde viria então a louca e estéril prosperidade dos mercados financeiros, sa especulação? É a favor desses desperdícios que temos que temos que suportar tais economias? É também a favor delas que se sacrificam alegremente as futuras gerações? Será verdadeiramene necessário, a pretexto de limpar dívidas? Mas dívidas para com quem, decididas por quem, no seio de quê? Não poderiam elas ser apagadas ou reduzidas sem prejudicar ninguém, a não ser os beneficiários das manigâncias arquitectadas para lá chegar?
Essas dívidas que nos persuadem a limpar prioritariamente para evitar fazer com que as gerações vindouras as herdem, gerações cuja educação, cuja saúde, cujo ambiente, cujo poder de compra (já vimos que os salários são inferiores aos dos mais velhos) mas também valores, esperança e futuro assim sacrificados imediatamente para melhor lhes poupar... o quê? terem, justamente, que lá chegar?

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 16, 2004

Da hipocrisia à civilização, vai um passo... ou talvez não!

Regresso sempre à (a)normalidade, porque a mesma também não para de tecer a malha, que usa para reforçar as redes (preventivas) colocadas debaixo das pontes, com o intuito de apanhar «os peixes» insurrectos que conspurcam as pasteurizadas águas quotidianas.
A (a)normalidade tem sido ao longo dos tempos, o carreiro de cabras, a rede de estradas romanas, os caminhos marítimos, as modernas auto-estradas (incluíndo as da informação), etc... usados como meios (e métodos) de comunicação (aperfeiçoados de acordo com as disponibilidades orçamentais e tecnológicas de cada época)), de maneira a aumentar a eficácia (de)formativa do obscurantismo parasitário, veiculado pelos agentes do poder.
Quanto melhor integrados os cidadãos estiverem no circuito fechado da (a)normalidade, mais raras serão as crises de identidade, que correm o risco de culminar na ruptura com o sistema; o pensamento dominante alimenta-se da conjuntura e prefere o conforto resignado das reflexões comparativos -- o se... a indecisão, as contra-indicações; receios exacerbados que rapidamente abortam qualquer embrião de rebelião interna; a (a)normalidade nunca chega, portanto, a estar verdadeiramente em perigo!
A (a)normalidade segrega umas exalações especiais, cujo odor têm o poder de aglutinar os indivíduos em torno da colmeia... e ao que parece são poucos os que arriscam afastar-se o suficiente, de modo a que ao regressarem, se lhes franza o cenho, num esgar de asco, assim que inalem o cheiro nauseabundo que grassa no enxurdeiro!
O facto dos cidadãos estarem constragidos por muitas barreiras (físicas, psíquicas, culturais, económicas, etc...) contribui para que segreguem toxinas, que por acumulação envenenam a mente até à insensibilidade, tornando-os produtores de obscurantismo, aliado da barbárie, que é suportada abnegadamente em troca de um sossego desencantado e estéril; herdeiros da barbárie, os cidadãos de hoje, preparam-se para legar às gerações vindouras o descrédito na humanidade!
Mas como gostamos de acreditar que vivemos uma época esclarecida, que somos o que queremos ser, que temos o privilégio de escolher o nosso destino, e que fazendo uso oportuno do livre arbítrio concedido pelo Criador (decerto já arrependido!), presumidamente temos a tal (a)normalidade controlada! E de facto, a mentalidade vigente, que determina os nossos comportamentos e hábitos é um produto que foi devidamente testado e homogeneizado, asséptico e inócuo para o poder que o segregou!
Todos os dias somos confrontados com esta dura (ir)realidade. As formas de obscurantismo contemporâneas podem parecer mais "humanizadas", mas a barbárie e a violência não se medem só pela crueldade dos métodos empregues. A hipocrisia continua a ser o método privilegiado, que o poder vigente usa para garantir a (a)normalidade.
Ao longo dos séculos o poder recorreu sempre à tortura, usando métodos incrivelmente sádicos e moralmente hediondos, a fim de (a)normalizar os desviados, mas o mais grave, a crueldade maior, tem gotejado ininterruptamente do beirado da hipocrisia, ao abrigo do qual se acoitaram os mais nefastos traidores da humanidade, geralmente movidos pela pior das loucuras -- a ambição caprichosa -- dedicada à concretização de megalomanias puritanas, para que estes faraónicos projectos fossem avante, esses traidores da humanidade deitam mão à hipocrisia deificada em forma de mitologia arrojada e misticismo labiríntico, e a um estendal de preconceitos e falsos axiomas, incluindo superstições inibidoras da liberdade de discernir; essa forma de frigidez da alma, e tantas outras vestes fantasmagóricas são usadas para travestir a realidade.
A realidade pervertida pela (a)normalidade, torna-se inacessível ao cidadão comum habituado a vê-la coada pelo filtro das conveniências do poder vigente. No entanto, alguns cidadãos furam o cerco, inconformados por temperamento, não suportam o mal estar latente, que os impede de dormir o sono dos justos; Só a honestidade intelectual, a independência moral e a liberdade espiritual dessedentam a necessidade de verdade, intrínseca à natureza humana.
A verdade pode não ser fácil de explicar, mas pode-se partilhar, sendo a única forma de resistir à perversão da alma; quando está ausente, a liberdade criativa soa a rebate falso, entretanto, a humanidade vai sendo consumida pelas labaredas da (a)normalidade. A educação para a verdade, deve recorrer a métodos que exercitem as asas do discernimento independente, só assim o pensamento se atreve a experimentar voar livre e espontaneamente, descrevendo no céu, as piruetas da genuína liberdade de expressão.
A verdade diminui de importância na existência do cidadão, sempre que ele se torna mais dependente do fogo fátuo dos prazeres artificiais, que ao inibirem a necessidade de liberdade, subjugam o indivíduo aos intereses da especulação sensorial, alimento da mitologia desbragada, facilmente confundida com sensualidade, de facto imanada por todos os seres humanos, por mais feios que pareçam ser!
A verdade e sempre a verdade, a sorver-me a lucidez? Sinto-a, como uma força de resistência arrancando-me à morbidez quotidiana, até quase tornar insustentável o convívio com a hipocrisia vigente; ousar compreender o alcance do seu poder discriminador da hipocrisia, é resistir, até que a morte venha recolher os despojos que lhe são devidos!
Considero a hipocrisia, a argamassa cultural, que a civilização transformou em tradição política! O cidadão é obrigado a calcorrear as areias movediças, que poder vigente afirma, serem o chão mais firme que se possa imaginar, com os custos humanos que todos conhecemos. Hodiernamente, os democratas elegeram a hipocrisia, rainha da festa (do espectáculo, do entretenimento, e da estupidez sem fronteiras, que procura esmagar a resistência individual e até mesmo institucional, que se assemelhe a lucidez «subersiva»?!

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maio 15, 2004

A política não pode continuar a ser um espectáculo deplorável?

As divergências de opinião, e de modelo de sociedade, que estão na origem das clivagens políticas entre a esquerda e a direita deviam estimular a criatividade política, uma vez que as diferenças ideológicas que dividem ambas as famílias políticas, podiam despertar de ambos os lados, a necessidade de apresentar projectos políticos honestos e realizáveis, que seriam divulgados aos cidadãos, a fim de serem devidamente discutidos e avaliados, por indivíduos, associações, entre outras organizações sócio-culturais, para esclarecimento cabal dos projectos apresentados pelos partidos políticos.
Contudo, a realidade é bem diferente, e de momento, nem uns, nem outros, parecem saber, qual o seu lugar na sociedade, afastando os cidadãos da vida política e da participação cívica. Erradamente, generalizou-se a ideia de que a política é um logro; acreditar nisso, é um erro crasso, qualquer actividade social, cultural e artística, se transforma num logro, ao excluir a dimensão política, e os cidadãos ao assumirem uma postura negligente em relação aos embróglios políticos da nação, é como se deixassem os as portas do redil abertas durante a noite, sabendo que nas redondezas deambulam lobos esfaimados.
Como pode a democracia sobreviver, se os responsáveis, não importa de que quadrante político, estão cada vez mais empenhados em gerir aparências, aparentemente convictos da «normalidade» cívica e moral de semelhante postura; aliás, recorrem frequentemente a técnicas de persuasão cada vez mais sofísticadas.
Esquecem-se os políticos e os cidadãos em geral que a verdade é o ADN da alma, sem ela tudo degenera, surgem anomalias terríveis, que espantam os incredúlos; os programas políticos que são actualmente apresentados aos cidadãos, estão geneticamente modificados pela engenharia publicitária, que, como todos sabemos, não se coibe de perverter as regras do jogo democrático, desde que o cliente fique satisfeito com o resultado final, ao abrigo de algo, que todos consideramos o mais democrático dos direitos -- a liberdade criativa -- que é exaustivamente usurpado, ao ser colocado ao serviço da alienação política, a que é difícil os cidadãos esquivarem-se.
Os partidos políticos estão organizados à semelhança dos clubes de futebol, são sempre os outros, que estão sempre errados; simbolizam o mal à face da terra! Este comportamento anormal (o ser humano é mesmo assim, garantem-me! mas eu não acredito!), indícia que algo está mal, mas que pode, evidentemente, ser mudado; pode é não interessar que mude -- de um lado o bem, do outro o mau; o polícia e o ladrão; o herói que no último instante salva o mundo do desastre, ou pelo menos salva (o que à luz da estreiteza de vista, que cultivamos), o «bem». Os adeptos políticas, apoiam incondicionalmente os dirigentes do seu clube partidário, mesmo percebendo que mentem com quantos dentes têm na boca!, mesmo sabendo que talvez, estão em vias de apoiar um projecto prejudicial para o país; a lealdade ideológica-partidária é mais importante que a verdade! Esta é que é a mentira, que o hábito imoral de fazer política espectáculo, tornou comestível, os cidadãos não se importam e os dirigentes políticos aproveitam, a nação perde, a democracia perde... só resta saber quem ganhará?
Somos animais de hábitos, afirmamos isto como quem descaca pevides de abóbora! como se os hábitos adquiridos, não fossem capazes de alterar, o próprio movimento de rotação da terra! ou quicá, fazer mirrar o próprio universo!
Assim sendo, consideramos normal, que os adeptos de um clube político, defendam com unhas e dentes os dirigentes (mesmo os corruptos!); mesmo quando descaradamente mentem em público, mesmo quando os tribunais reunam provas concludentes que incriminam iminentes figuras políticas, nada demove o adepto de acreditar que o acto corrupto, a mentira, a usurpação e abuso de poder, a manipulação de informação, etc..., que todos os delitos foram afinal cometidos, para o bem do clube, e claro, em prol do bem da nação!
A regeneração da democracia, depende da qualidade da seiva vital (verdade) que lhe corre nas veias; quanto maior for a concentração de toxinas, ou seja, quanto mais a classe política se valer da mentira, para tentar governar, mais perto estaremos de romper os diques morais que ainda protegem a democracia de rupturas irreversíveis; mas se a degradação continuar, ninguém pode avaliar o que vai acontecer.
O poder económico e financeiro, que controla o poder político, não se preocupa com a saúde moral da democracia; se vier a necessitar, por lhe ser mais proveitoso, e para controlar as massas humanas, poderá mesmo estrangular a democracia, mantendo as aparências políticas! Aos políticos democraticamente eleitos, caberá a gestão das aparências, entretanto a tecido social já depauperado, será confrontado com uma degeneração sem paralelo, na história da democracia moderna.
Começa a ser tempo, do cidadão comum colaborar mais activamente na gestão (não das aparências! para isso, temos os políticos profissionais!) dos assuntos da nação, e para isso, deve esquecer o que até agora aprendeu (assunto delicado) a propósito de lealdades clubísticas e partidárias, e passe a interrogar-se sobre assuntos que até agora considerava não lhe dizerem directamente respeito, para que possa interpelar aqueles que fazem da política um espectáculo deplorável!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

O método é: «espoliar uma pessoa de tudo...»

«Toda a literatura económica explica isso doutamente: não há nada como espoliar uma pessoa de tudo, abandoná-la, legalmente despojada, humilhada, sem recursos, para esperar vê-la submetida, pronta a aceitar quaisquer condições de trabalho e de vida, por mais revoltantes que sejam. Há recomendações vigorosas que vão abertamente nesse sentido, emanadas da OCDE, do FMI, do Banco Mundial, entre outros. Que melhor método para «reduzir o custo do trabalho», fazer brilhantemente face à competitividade e libertar fundos para os investir... na especulação? E para não se preocupar mais com um material humano tornado supérfluo?
Tudo está perfeitamente (poderia dizer-se abertamente) organizado, não para «incitar» ao trabalho, como se finge com uma suficiência insultuosa, mas para constranger à submissão, à aceitação de qualquer tarefa, a qualquer preço, durante qualquer período, por mais breve que seja, e em quaisquer condições, aqueles que se encontrarem sem quaisquer recursos, sem respeitabilidade reconhecida, com todos os direitos negados. Se hoje em dia não podemos desembaraçar-nos das pessoas consideradas não rentáveis, é apenas justo -- é o mínimo -- pelo menos aproveitá-las!
Daí os working poors (pobres trabalhadores), expressão inventada nos Estados Unidos e que diz bem o que quer dizer: não é anormal viver lá abixo do limiar de pobreza, mesmo trabalhando -- portanto, sem figurar nas estatísticas do desemprego. Situação que pode prolongar-se sem fim, graças, entre outras coisas, ao trabalho precário que renova a angústia devida à perda e à procura incessantemente renovadas de emprego, e que impede a solidariedade no trabalho, impossível em situações que impõem o isolamento e a denegação de profissionalidade inerentes à precaridade. Que, paradoxalmente, leva muitos trabalhadores precários a recorrer simultaneamente a vários desses empregos tão mal remunerados, à custa de uma fadiga e de uma tensão intensas, para conseguir que o dinheiro chegue à justa para o mês inteiro.»

Viviane Forrester; Uma Estranha Ditadura

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maio 14, 2004

A facilidade de escarnecer dos direitos humanos!

«Nos Estados Unidos, a ruptura suscitada pela miséria é particularmente brutal. Aí a exclusão é mais radical. Nessa nação, aliás fascinante, de um dinamismo efervescente, a vida torna-se rapidamente perigosa. Se não se for financeiramente sólido, mal se passa um certo limiar, depressa a queda se torna definitiva.
Nesse país tão rico, que abriga fortunas cada vez mais loucas, o papel da Segurança Social é muito reduzido apesar dos esforços de vários presidentes, incluindo Bill Clinton: todos falharam, vencidos pelos lobbies, em particular pelos das seguradoras privadas. A protecção da saúde está muito privatizada. A doença, nos Estados Unidos, pode, muito frequentemente, excluir imediata e irremediavelmente. A cura é aleatória, função do orçamento individual. É corrente um hospital recusar um paciente, mesmo levado de urgência, mesmo que seja um ferido da estrada, se a sua solvabilidade não for atestada. O que significa, se não um homicídio, pelo menos um delito de omissão de assistência a pessoa em perigo.
O número de presos de delito comum -- dois milhões! -- não aparece, evidentemente, nas estatísticas do desemprego. A maioria, quase todos, pertencem a minorias pobres; livres, fariam parte dos sem emprego, inscritos ou não; ora, evidentemente, uma vez encarcerados, já não aparecem nas listas de candidatos a emprego.
Mas, sobretudo, um número colossal de homens e de mulheres vive na miséria, a maioria das vezes demasiado desencorajados, esgotados, demasiado excluídos para se inscreverem no desemprego, tanto mais que quase não são indemnizados e apenas o são durante um lapso de tempo muito breve.
Porque -- isso é capital -- esses fracos e breves abonos são prestações sociais; ora, nesse país de sonho, ninguém tem direito ao longo de toda a vida, a mais de cinco anos de prestações dessas. Imagina-se a angústia que precede a decisão de recorrer a elas! Mesmo quando a miséria se torna excessiva, será de recorrer a esse pau de doisa bicos? Não nos arriscamos, quando formos mais velhos a estivermos mais enfraquecidos, a ter esgotado esses cinco anos de direitos? Já se pensou no esbanjamento humano que isso representa? Na inconsciência, na regressão que tal situação constitui? Na maneira como os direitos do homem se encontram assim escarnecidos?

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

"(A)normalidade" transcendente!

Todos nós, já tivemos momentos em que percebemos, como é desgastante e inútil, querer determinar as «fronteiras» da (a)normalidade, em que chafurdamos de forma tão empenhada! Essa (a)normalidade, costuma ser difícil de "agarrar", de tão escorregadia que é; contudo, a "invisibilidade" é a sua característica mais perturbante, que confude cada indivíduo de per si, conseguindo em certas circusntâncias tornar-se omnipresente, influenciando a vida das comunidades, mantendo-se "ausente".
A (a)normalidade consegue facilmente disseminar "a mensagem" para longe do local onde foi produzida, aproveitando as redes de ligação existentes, deste modo, quase imperceptível, "a mensagem" chega a toda a população.
A (a)normalidade corrompe o discernimento, qual doença oportunista que aproveita as imunodeficiências culturais, éticas, estéticas e espirituais adquiridas, e consequentemente, intoxica o sentido crítico, a liberdade de criação e expressão, e despedaça em mil fragmentos o ânimo, indispenável aos que almejam descobrir um sentido para a vida.
Habilmente, a (a)normalidade, atravessa a contemporaneidade; «vive no, e para o seu tempo»; faz profilaxia, vacinando massivamente a população, usando estirpes de estereótipos de pensamento e comportamento, aprovados por instituições e organizações governamentais ou não, unanimemente aceites, como "normais".
Tirando alguns resistentes, alguns conservadores renitentes, ou radicais extremistas, os demais, ou seja a maioria de todos nós, sobrevive agachada nas entrelinhas da (a)normalidade, esse labirinto de equívocos, que se estende por quarteirões desfigurados, pré-configurados, e eventualmente pós-qualquer-coisa; eis a (a)normalidade a funcionar em pleno, gerindo habilmente as aparências.
De facto, a (a)normalidade, segrega, uma complexa diversidade de «compostos químicos especiais», com efeitos comparáveis aos das descargas hormonais na rede sanguínea, que levam à propagação da crença e consequente devoção que dedicamos às aparências, aprendem-se os truques da sua intricada gestão, teima-se na sua divulgação...
De facto, a (a)normalidade recorre a ardis, a habilidades e artimanhas, a fim de escamotear a realidade, e habilmente substituí-la por múltiplas realidades "normais", múltiplas formas de intoxicação do quotidiano, distracção para os gestores das aparências, que desejam sempre mais diversão, entretenimento "novo", mesmo que não passe da repetição enfadonha de algum modelo que já foi exaustivamente usado.
A quem interessa a (a)normalidade?
Estará a humanidade interessada em autodestruir-se, arrastando (a culpa não gosta de morrer solteira!) uma pléiade de espécies inocentes?, só!, porque uma (a)normalidade "qualquer" se tornou crença universal, fazendo da gestão das aparências a bandeira identitária do desenvolvimento, quando pratica, exactamente o oposto, ou seja, defende interesses obscuros, que estão na origem das (a)normalidades vigentes.
Quem parar um pouco para pensar, verifica que as aparências, pervertem a imaginação e produzem poderosos venenos, que intoxicam a liberdade criativa, e levam à regressão da liberdade de expressão! Onde pensam que teve origem o insuportável monólogo colectivo?...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 13, 2004

Desemprego «lepra social»

Quando menos o esperarem, os trabalhadores deste país, mal pagos e mal considerados, terão que aceitar emprego transumante, exigências da normalidade ultraliberal. Os cidadãos deste país, assolados pelo desemprego, originado pelas "normais" flutuações do mercado, fluxos e refluxos, expansão e recessão, movimento dependente das «leis de gravidade controlada», inacessíveis às mentes plebeias!
O desemprego, atinge o peito do cidadão como bala fortuita, tão inoportuna e nefasta quanto a doença, que ao revelar-se, carrega consigo a palavra "azar", exactamente por nos ter escolhido a nós e não a outro(a) qualquer! Raramente nos lembramos do quanto fomos desleixados! O desemprego no mínimo é um abcesso purulento, nestes tempos de ultraliberalismo, o diagnóstico revelará que é tumor maligno, para "azar" de muitos, e benigno, para contentamento de poucos! Esses poucos, podem estar, por exemplo, entre os que recorrem às actuais «feiras de emprego» (mais uma invenção do genial pragmatismo ultraliberal), que dêem graças a Deus, por ter ido ao local certo, na hora certa! Eufóricos, rejubilam... esquecidos de que ao seu lado, a maioria (democraticamente eleita para ocupar os cobiçados lugares na hierarquia do desemprego!), menos afortunada, terá que regressar a casa (se a tiver, mesmo que alugada!) com o rabinho entre as pernas; a transumância não comporta rebanho tamanho, a paisagem seria devastava! Os novos párias da nação, devem ser submissos como o chão!
Em breve, estará à disposição do desempregado uma nova lotaria; «a lotaria do emprego», aliás, não será uma, serão várias lotarias, adequadas às diferentes espectativas de diferentes apostadores; do tipo "popular", caso o cidadão desempregado, ou não, procure um emprego menos qualificado, e não se importe de ser deslocado para qualquer zona do país, consoante os interesses da transumância; outros tipos de lotaria, mais onerosos, habilitam os respectivos apostadores, em caso de prémio válido, e depois de apresentadas as habilitações adequadas para o preenchimento das vagas, ao que vulgarmente se considera bons empregos, que me vou escusar exemplificar; desta maneira, todas as semanas uma nova fornada de empregos é colocada ao dispor dos apostadores. Um sistema destes, garante à partida, caso os resultados não sejam subvertidos, por métodos (ou razões que a razão desconhece!) desconhecidos (vamos acreditar que não!), igualdade de oportunidade no acesso às vagas que surjam no "mercado" de emprego! Para um povo que gosta de adiar, jogar é sempre a melhor forma de adiar, sem deixar de acreditar que, é sempre possível, um dia destes, a sorte bater-nos à porta; num dia, em que o "azar", esteja farto de nós!
Como a «lotaria dos empregos», não está ainda em funcionamento, é provável que muito boa gente, continue a recorrer a videntes encartados, que depois de bem informados, por "entidades" credíveis, garantem solução eficaz para os problemas do (des)emprego! Pedir aos santos (nunca aos da casa!), também pode resultar! Ó desespero, ao que obrigas? Ó insegurança, ao que levas?
O desemprego é uma doença; ou melhor, uma epidemia que não convém ser erradicada, uma forma de «lepra social», transformada em maldição!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 12, 2004

As conquistas sociais, afinal não passam de arcaísmos!

«Compare-se precisamente os Estados Unidos, modelo do ultraliberalismo, e a França, que é, apesar de tudo, uma das que lhe põem mais reticências e se vê frequentemente vilipendiada por ainda se agarrar a conquistas sociais consideradas tão «arcaicas».
Um parêntese, primeiro, para recordar que nos Estados Unidos, desde há muitos anos, o rendimento das classes médias assenta (perigosamente) nos mercados bolsistas e nos acasos da especulação. O seu poder de compra depende disso; certas subidas de dividendos compensam por vezes reduções de salário. Um de cada dois casais possui acções, ou seja, 78,7 milhões de pessoas, ou melhor, de famílias que, muitas vezes -- isso é o mais perigoso -- se endividam para as comprar. Certamente, os mercados bolsistas estão estáveis e até triunfantes desde há um tempo inusitado, mas esses novos accionistas não parecem aperceber-se a que ponto a «bolha financeira» é frágil. Não se ousa pensar no desastre, no pânico que movimentos bruscos e negativos dessas cotações voláteis poderiam desencadear, e não estamos a falar de um crash!
Não se trata aqui de «anti-americanismo», primário ou não. Trata-se do regime ultraliberal que atinge primeiro esse país e esse povo, aliás apaixonante, que esconde uma frescura e uam energia sem par e que talvez seja o primeiro a saber livrar-se dele.
Mas eis alguns números extraídos do Relatório mundial sobre o desenvolvimento humano (1998), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Qual é, segundo esse relatório, a percentagem da população que vive abaixo do limiar de pobreza monetária em França? 7,5%. Nos Estados Unidos? 19,1%
Entre os dezassete países industrializados (Suécia, Países Baixos, Alemanha, Noruega, Itália, Finlândia, França, Japão, Dinamarca, Canadá, Bélgica, Austrália, Nova Zelândia, Espanha, Grã-Bretanha, Irlanda, Estados Unidos.)considerados nessa estatística, os Estados Unidos vêm à cabeça, e de longe, quanto ao número de indivíduos que vivem abaixo do limiar de pobreza. Vem a seguir ... a Grã-Bretanha, com 13,5%! Essa Grã-Bretanha apresentada, também ela, com um éden e cujo primeiro-ministro, Tony Blair, trabalhista, não exita em declarar -- um desafio, depois do reinado thatcheriano! -- que é preciso e que ele vai «acabar com essa cultura do assistencialismo», fazendo-se assim eco de Bill Clinton ao anunciar «o fim da ajuda social tal como a conhecemos» (e que nada tinha de verdadeiramente faraónico!).
Os Estados Unidos, medalha de ouro, a Grã-Bretanha, medalha de prata... da pobreza! Não nos cantem mais a propósito de tudo a prosperidade, a alegria generalizada que reina na terra desses chantres do ultraliberalismo! A menos que os mais desfavorecidos, porque riscados do número dos humanos, não contem para nada.»

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:32 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 11, 2004

Quando a apatia passa facilmente por adesão...

«Uma ausência de reacção passa facilmente por adesão, indiferênça ou medo. Como é que o sistema actual deixaria de se considerar aprovado, como é que essa política planetária deixaria de se considerar legitimada por esse silêncio? Como é que a sua «coerência» poderia deixar de se impor quando ainda é tão raro ser abordada, analisada ou discutida qualquer questão sem ser a partir do seu ponto de vista, da aceitação dos seus postulados e prioridades, do modo pseudo-económico que instituiu?
A classe política, os seus responsáveis, incessantemente expostos à toda-poderosa pressão ultraliberal, às suas redes entrelaçadas, à sua política do facto consumado, têm necessidade para lhe resistir -- e alguns desejam-no --, de ser apoiados pela população, e mesmo incitados por ela, que mais não fosse para demonstrar aos seus congéneres que também eles não estão isolados. Se a opinião refractária ao sistema ultraliberal se resignar a não ser representada pelos seus eleitos, mesmo por aqueles cuja vocação seria essa, continuará a ter como única alternativa um voto -- aproximativo e sem ilusões -- a favor das posições anteriores, já abandonadas, de certos candidatos, ou a abstenção. E nós continuaremos a ser ignorados por mandatários a quem talvez tenha faltado o nosso apoio para seguirem outro rumo, para tentarem iniciar outra política. Enquanto os nossos silêncios continuarão a passar por uma aquiescência tácita com o statu quo assim reforçado.
Seria tempo, para todos os eleitos, de tomarem posição contra essa estranha ditadura, inegável, uma vez que, apesar do jogo democrático, apenas permite aos governos seguir a mesma linha, todos sejam eles de que quadrante e de que país forem. É o sinal de que todos dizem respeito a uma mesma lógica que organiza primeiro os interesses do lucro não distribuindo as riquezas, reduzindo todas as despesas que não vão para ele -- de maneira nenhuma devido à «mundialização», mas em virtude de uma ideologia à qual estão submetidos não por um ditador, nem por um corpo doutrinário, mas por uma docilidade, pelo poder absoluto da economia privada.»

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 10, 2004

Por toda a parte...

«Se a contestação actual não se manifestou mais e está pouco representada, existe uma vontade de oposição, impressioante. Encontrei-a ao longo de múltiplos debates, em França e em muitos outros países, em milhares e milhares de homens e mulheres de todos os meios, de todas as idades, bem informados, muito ponderados, exímios nestas questões, e que admirei pela sua coragem face àquilo que não escondiam a si próprios, àquilo que há muito atacavam de frente, dizendo-se tranquilizados por poderem falar, por descobrirem que eram numerosos, por já não se considerarem isolados cada um na sua calma determinação de resistir.
Lembro-me de que no princípio do Outono de 1997, quando regressava da América do Sul e da Alemanha, houve jornalistas que me perguntaram qual tinha sido a diferença entre as perguntas feitas, entre as reacções encontradas nos países que tinha visitado. Pareceu-me então que não tinha havido diferenças, salvo em relação a certos pontos menores ligados às condições locais, entre pessoas muito diferentes. As perguntas e as reacções eram semelhantes em toda a parte. Quase sempre, no fim, mesmo que eu não tivesse pronunciado a palavra, alguém se levantava na sala e declarava gravemente que era preciso «resistir». Em França era por vezes empregada a bela expressão «entrar em resistência». Toda a sala aplaudia. Víamo-nos a viver em toda a parte sob o mesmo sistema, conduzido pelo mesmo regime inconfessado. A mesma ideologia ultraliberal causava estragos por toda a parte, por toda a parte geradora dos mesmos problemas, ainda que se revestissem de maior rudeza nos países mais pobres. Por toda a parte as pessoas pareciam ter consciência da origem da situação, do carácter político do ascendente económico que era a causa de tais devastações. Por toda a parte me tinha parecido realizar, sempre tão vivas, tão moduladas, as mesmas conversas em torno da mesma recusa.
Existe uma opinião pública mundializada, convicta, mas todos ainda têm a tendência para se julgarem solitários quando a integram. Neste mal entendido reside o essencial. Essa lucidez, essa recusa de uma propaganda colossal, eficaz e astuciosa, demostra a qualidade pungente daqueles que se tenta levar à perdição.»

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:52 PM | Comentários (1) | TrackBack

«Se não existisse o desemprego, o regime ultraliberal inventá-lo-ia.»

«Se não existisse o desemprego, o regime ultraliberal inventá-lo-ia. Ele é-lhe indispensável. É ele que permite à economia privada manter sob o seu jugo a população planetária mantendo a «coesão» social, isto é, a sujeição.
A sua política ocupa-se então em manter o respectivo conceito num contexto em que já não tem lugar e ameaça todos os indivíduos, com poucas excepções. Haverá algum meio mais eficaz de constrangimento? Haverá melhor garantia de «paz social»?
Na condição, todavia, de não perturbar a velha ordem dos valores relativos ao desemprego e ao emprego, de levar uns à sua veneração, mesmo que os outros os espezinhem. De considerar «arcaica» qualquer preocupação ligada àqueles que sofrem a manutenção de tal situação, e qualquer crítica a uma modernidade que consiste em arranjar maneira de o emprego continuar a ser tão fundamental para uns como o lucro para aqueles de que depende -- enquanto empregos e lucros se tornam incompatíveis. Portanto, na condição de evitar qualquer reavaliação, qualquer actualização, qualquer esclarecimento do sistema actual.»

Viviane Forrester; Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 08, 2004

Indignidade paroxismal!

«Para chegar às medidas retrógradas do workfare, todas as estratégias do novo regime tiveram que intervir; uma delas, longe de ser anódina, consiste em misturar a noção de dignidade com a de emprego; em compadecer-se com a perda de uma, que supostamente devia acompanhar a da outra, como se o emprego não fosse tão incapaz de conferir a dignidade como a sua ausência de a arrebatar. Como se a dignidade de uma pessoa dependesse do facto de ter ou não um emprego e logo após ter recebido os agradecimentos, o despedido, até aí honorável, se metamorfoseasse em personagem "indigna" a quem só um novo emprego, não importa qual, poderia restabelecer a reputação. A própria ideia é absurda; torna-se de uma gravidade extrema numa altura em que as chantagens exercidas em torno do emprego, do desemprego ou da sua ameaça se propagam ou se banalizam.
Se a dignidade de um homem ou de uma mulher dependesse do facto de ocupar ou não um emprego, não teria grande valor. A dignidade de uma pessoa é ser uma pessoa. Está antecipadamente adquirida e só pode perder-se devido a factos, palpáveis ou não, entre os quais não se conta o desemprego.
Quantos desempregados ficaram prostrados perante a ideia de julgarem que se tinham tornado "inúteis", quantos se consideraram humilhados, em particular perante os filhos! Quantos responsáveis declaram, frequentemente de muito boa fé, desejar acima de tudo restituir-lhes, com um emprego, a sua "dignidade perdida", a sua "auto-estima"!
Apresentar o desemprego como uma degradação, ou mesmo deixá-lo passar por tal, faz parte de uma propaganda demagógica, senão de tipo populista, uma vez que encontra muitas vezes uma adesão fácil; desprezar um desempregado permite não só desculpalibizar-se, mas também imaginar que se pertence a uma ordem superior e protegida, e ficar com a ilusão, mantendo-o à distância com aquilo que suporta, de afastar com ele esse desemprego que ameaça e que nós próprios tememos.»

Viviane Forrester; Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 04:51 PM | Comentários (2) | TrackBack

maio 07, 2004

Seguir a voz interior

«Hoje compreendo com mais clareza o que li há muito tempo acerca da insuficiência de todas as autobiografias como história. Sei que aqui não conto tudo o que me lembra. Quem pode dizer o que devo escrever e o que devo omitir no interesse da verdade? E qual seria num tribunal o valor da inadequada evidência ex parte guardando para mim certos acontecimentos da minha vida? Se qualquer indivíduo me julgar pelos capítulos já lidos, provavelmente poderá fazer incidir sobre eles muito mais claridade, e se o julgamento for hostil, poderá sentir-se lisonjeado por ter demonstrado "a falsidade de várias das minhas pretensões."
Por conseguinte pensei, por momentos, se não seria mais apropriado deixar de escrever. Porém continuarei a escrever enquanto a voz interior não me proibir. Seguirei a sábia máxima de que nada, uma vez começado, se deve abandonar a não ser que se prove que é moralmente errado.


M. k. Gandhi; Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:52 PM | Comentários (1) | TrackBack

Distracção, rotina e servidão voluntária...

«O optimismo reside na confiança numa mobilidade permanente da política e da História, na possibilidade permanente de lutar tanto para se opor como para conservar: uma das razões de ser da democracia. Recusar aceitar o que se julga nocivo, combater sem a certeza, mas com a esperança de vencer, não é uma forma maior do optimismo, que consiste em primeiro lugar em nunca se resignar? Em contrapartida, considerar como único possível um certo modelo de sociedade baseado numa denominada "economia de mercado", fingir que não há alternativa e, face às suas consequências deploráveis, afirmar que é preciso adaptar-se-lhe, que exemplo flagrante de pessimismo!
Acontece que se deu um acontecimento em 9 de Setembro de 1999, a antevéspera do dia em que estou a escrever esta página, que demonstra bem como funciona a ilusão. Trata-se do anúncio pela firma Michelin da subida de 17% dos lucros, ou seja, perto de dois mil milhões de francos, no primeiro semestre de 1999, com perspectivas favoráveis; e, simultaneamente, do despedimento de 7500 empregados, ou seja, um décimo dos efectivos, ao longo de três anos. Nesse próprio dia o valor do título dava um salto na Bolsa de 10,56%, e dois dias depois, outro de 12,53%. Clássico! Os anúncios de despedimento encantam os accionistas, estimulam-nos ainda mais do que os lucros.
Tornado tanto mais revoltante quanto é bastante banal, este género de escândalo já não devia surpreender, ainda que de cada vez revolte sempre o coração. No entanto, é a estupefacção geral, como perante um fenómeno inédito, resultante de uma iniciativa que nunca se teria podido imaginar. Certamente, a indignação provocada pela Michelin não poderia ser mais justificada, mas esse efeito de surpresa, de espanto súbito, como se se tratasse de algo inédito, sublinha uma certa distracção quotidiana! Como é que pôde dar-se uma tal calamidade? Ninguém acredita no que vê nem no que ouve. Ora, é mesmo esse espanto que deveria espantar-nos. Estávamos tão cegos, tão ingénuos, tão distraídos, tão pouco vigilantes que, de um dia para o outro, cada um descobre o que desde há muito tempo se tornou rotina?»

Viviane Forrester; Uma Estranha Ditadura

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maio 06, 2004

Declaração Universal dos Contra-direitos do Homem! exija-se à ONU, que a ratifique, imediatamente!

«A Declaração Universal dos Direitos do Homem adquire hoje em dia ares subversivos e apenas parece considerar utopias loucas. Mas fica sempre bem no cenário, é bom referir-se a ela. Ora, se eventualmente é permitido opor-se a ela, criticá-la, chegar, como hoje em dia, a escarnecer dela reverenciando-a, que brincadeira sinistra!
A Declaração Universal dos Direitos do Homem adoptada em 10 de Dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas estipula, no artigo 23, que:

«1-- Todas as pessoas têm direito ao trabalho, à livre escolha do seu trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.

2-- Todos têm direito, sem qualquer discriminação, a um salário igual por um trabalho igual.

3-- Qualquer pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência conforme com a dignidade humana e completada, se houver lugar a isso, por todos os outros meios de pretecção social.»
Vê-se aqui até que ponto as nações que aderiram a essa Declaração se tornaram perjuras.

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

Cumplicidades estratégicas

«Anastesiar para melhor convencer, cobrir com paciência e persistência o espaço mental e, por aí, todo o espaço com uma rede de propagandas permanentes, desenfreadas, decorre de uma prática multissecular, mas cujos meios nunca foram tão amplos nem o alcance tão imediato e geral.
Recusar ser lorpa de declará-lo, denunciar a impostura, resistir à cumplicidade são tarefas ingratas mas fundamentais, insuficientes mas indispensáveis a quem pretende furtar-se às astúcias ultraliberais; é inútil tentar resolver seja o que for antes de as ter concluído. Esta é também uma prioridade.
Para que serve procurar resolver problemas fabricados para apenas serem solúveis no quadro em que se desenvolvem, e por meio do que os constitui? Ocupar-se a problemas criados por aqueles que estão na sua origem e cujo interesse é que eles se perpetuem, a fim de mascarar os verdadeiros problemas, e submeter-se ao sistema deles, enterrar-se mais nas suas armadilhas e ocupar-se com aquilo que eles previram, com aquilo para onde nos empurram e que apenas prolongará, legitimará as dificuldades autênticas de que queremos libertar-nos e de que eles querem fazer-nos cúmplices.»

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 05, 2004

O País das pandilhas

A sociedade portuguesa assentava em bases culturais medievas, no momento em que ocorreu o 25 de Abril, mas rapidamente se deixou fascinar pelo explendor consumista; os filhos do interior deste país continuavam agarrados à enxada e ao cajado; a lousa, o caderno, o lápiz, a caneta de tinta permamente, eram naturalmente um luxo, nas famílias em que os filhos formavam rebanhos e, como alguém tinha que pastorear ovelhas e cabras pelos cerros fora, a escrita e a leitura podiam esperar por melhores dias, que nunca chegavam; vinha a época da azeitona, da castanha; isso sim eram safras importantes!, para muitas famílias significava a única fonte de dinheiro vivo, de modo que, sendo o dinheiro um bem escasso, e o rol na mercearia uma preocupação sempre renovada, nem um bago de azeitona podia ser desperdiçado; todo o azeite era bom, a acidez era um pormenor de pouca monta, e o azeite com mau sabor, rançoso, servia para alimentar as candeias, cumprindo assim, um ciclo de vida, luz bruxuleante que iluminava os serões dos humildes lares, chão de terra batida e telha vã, e quem ficasse acordado até mais tarde, por exemplo, fazendo meia ou botando remendo num par de calças esgarçadas, podia distrair-se com as acobracias das ratazanas nas traves de suporte do telhado.
Tradições, costumes e festividades religiosas, com santo padroeiro, ponto alto na vida social das comunidades que viviam isoladas do mundo exterior, continuando a usar métodos arcaicos (o que não quer dizer que não fossem os mais adequados à morfologia do terreno; ambientalmente sustentáveis), para tirar o sustento do solo. O Portugal interior e não só, permanecia invulnerável às mudanças vertiginosas que iam ocorrendo na Europa, que muitos portugueses debandariam em busca de melhor vida, e outros, buscando asilo político.
Dentro de fronteiras, quem podia imigrava para as cidades; para muitos jovens do sexo masculino, as entregas de mercearia ao domicílio, foi durante décadas, a saída profissinal mais acessível, quase só pela (parca) comida, e para que não estranham-se, geralmente dormiam em algum cúbiculo, nas trazeiras das lojas, na companhia dos ratos. Quanto às moças, cuja sorte, era igualmente madrasta, estavam destinadas a servir em casas abastadas, uma boa oportunidade de espreitar a abundância por um canudo! Se tinham o azar de ser atraentes, quer quizessem ou não, acabavam nos dentes dos patrões! Quando a sua tenra carne era molestada, pelos filhos varões da casa, digamos que a sua cabeça de criada podia ainda sonhar, havia sempre a hipótese do jovem, por ela se apaixonar, e a sua condição de serva terminar! Só que os velhos patrões maliciosos, sobejava-lhes tempo para folguedos, a carna é fraca, e um bom cognac, oblitera os pudores, dando início ao desassossego; desavergonhadas passavam a ser as craidas, quando apanhadas em flagrante delito, pelas suas, puritanas patroas, e logo, iam parar ao olho da rua, sem carta de recomendação.
Rançoso e intragável, era o sabor do país, até o mais rançoso dos azeites, era incomparavelmente melhor. Para muitos compatriotas nossos, sufocados e desesperados, vislumbraram numa Europa em reconstrução, a sua possibilidade de salvação; nem os perigos que a travessia dos Pirinéus pudesse acarretar, para quem, durante décadas se tinha mantido fiel à chaminé do pardieiro que habitava!, «não aguento mais vou-me embora!» «Passo de assalto prá França!», sabia que alguns passadores não tinham escrupúlos, « podia ser enganado, entregue à polícia, roubado, largado no meio das inóspitas montanhas, podia acontecer tanta coisa que o melhor nestas situações é não pensar em nada! É ir, é arricar, é abalar deste país.»; eram este género de pensamentos, era esta angústia de vir a ser gente, que insuflava no peito a coragem de partir. Ainda hoje!!!... Faz-se vista grossa, espevita-se um patriotismo farsante, mas o país, está à mercê da corrupção e do oportunismo chico-esperto, o país, assemelha-se, ao pai que gasta no botequim, o salário, do qual depende a subsistência da prole.
Esta intervenção, mesmo que o não pareça, tem como pano de fundo a educação (ou o simulacro daquilo que efectivamente, nunca chega a ser!) no país das pandilhas!

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maio 04, 2004

A apologia da submissão

«Sim, a pseudo-economia está em jogo, mas já não é a galinha dos ovos de ouro, a origem normal e prolífica de empregos que dependem do seu crescimento. Como vimos, a sua filosofia do lucro leva-a, pelo contrário, a suprimir tanto mais empregos quanto mais próspera ela está. Olhemos de frente o facto desses empregos já não lhe serem indispensáveis, como ainda há pouco tempo, nem sequer úteis ou necessários. Pior, os seus postulantes estorvam. Quanto aos empregos que subsistem, têm a vocação de ser atribuídos, como um maná, aos felizes vencedores, melhor, como uma esmola aos indigentes, como uma esperança que lhes faz aceitar o inaceitável e os mantém à mercê, submetidos, exploráveis. A mendigar a sua exploração.»

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

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maio 03, 2004

Após várias tentativas, desisti...

«Como é que esses jovens, na melhor das hipóteses entregues a precários simulacros de emprego, haviam de se tornar solidários, assim dispersos numa no man`s land profissional, nessa caricatura de vida activa pela qual é suposto que manifestem gratidão? Uma tal organização fictícia de anos tão determinantes da sua vida, um tal desperdício, fazem vertigens! Mas ainda se pensarmos naquilo de que é suposto livrá-los por este meio. Tanto dinamismo, tantas virtualidades escarnecidas, tantas esperanças interditas, que muitas vezes se transformam numa vã e nostálgica veneração da vida de assalariado, essa vida, outrora clássica, que continua a ser-lhes apresentada como único modelo, ao mesmo tempo que lhes é recusada.

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

Não será a tortura, consequência; e a cultura da violência a causa?

Mais uma vez a humanidade foi confrontada com a divulgação de fotografias, desta vez, denunciando actos de tortura perpetrados em prisioneiros de guerra iraquianos por elementos do exército "libertador". Estas práticas sádicas, mais do que motivo para indignações de circunstância, deveriam motivar-nos a reflectir e debater as causas que despoletam tão bárbaros comportamentos.
Mas a humanidade (ou a parte da mesma que tem direito a escandalizar-se!) estremece; as imagens que lhe entram pela retina e se fixam no fundo do cérebro, mais que representações de tortura, provocam desassossego; são estilhaços de demência perfurante, desmembrando a tranquilidade apática que nos preenche os serões; a crueza destas imagens, recorda-nos o atoleiro de violência (em que vivemos), transformado em entretenimento para as massas. Sem que nada o fizesse prever a placidez moral (que tanto preservamos), é espetada por milhares de alfinetes em brasa, esguicham fantasmas, acordam os medos rabujentos, instala-se o pânico...
Soltam-se do peito, arpejos de indignação, mordem-se os lábios, vacilam as crenças; regorgita-se um velho sonho de revolta, como podemos continuar a assistir impávidos e serenos à queda de todos os valores, e permitir que o terror extermine a humanidade?!
Mas a vida já nos é dura, e o serão devia auspiciar momentos de relaxamento e ternura, no aconchego do lar; o que vale é que as notícias mudam, como o vento, vindas de outras paragens, anunciam eventos menos deprimentes, alegres emoções submergem as tristezas, ganham asas as ilusões ... e a indignação que ainda há pouco, apertava o coração, esmoreceu, esfriou e a consciência sossegou.
Todas as moedas apresentam duas faces; uma «benigna» e outra «maligna» (é nisso que gostamos de acreditar; uma moral simples e conveniente, que nunca nos engana!); a face «benigna» espelha «a normalidade» da maneira de viver que nos apraz; e claro está, a face «maligna», representa «a anormalidade» do viver alheio; "o corpo" da moeda representa a ignorância, que ressuma em ambas as faces com igual fragor; e os horrores que grassam em ambas as faces, qual a sua origem?
A tortura é sempre resultado, consequência; e as causas, estão à guarda de quem?, protegidas de que inimigo?, em nome de que paz?
O clima de guerra (agora parece ser mais adequado chamar-lhe teatro, o que é óbvio, a guerra transformou-se em mais um espectáculo de consumo; o que dá que pensar!), por si só, desencadeia comportamentos, que podem ser assumidos como "normais", num ambiente em que a catarse da violência se tenta fazer com recurso a rituais de exorcismo sádico, como forma de sublimação da abstinência sexual forçada, e incluíndo a encenação de práticas de violação ritualizada.
Humanidade ou bestialidade? Em que ficamos?, Ou melhor, que desejamos?, nós (o ocidente) que representamos (pelo menos temos a pretensão disso) a face «benigna» da moeda!
Vamos lá a meditar um pouco sobre o assunto. Que valores norteiam a nossa conduta quotidiana? Como sentimos as perversões que grassam no mundo?, cúmplices, ou completamente isentos de culpa? Temos o hábito de «calar é consentir»? Regra geral, calamos demasiado; e quanto à violência, que na prática, serve sempre os interesses do poder, aceitamo-la de ânimo leve ou não?
Será a indignação uma causa?, ou sendo consequência, se manifesta em convulsões estéreis, incapazes sequer de abanar o torpor adquirido; dir-se-ia que o ser humano está a funcionar mal, mesmo que isso seja "normal", será que a humanidade não aspira a mais, que ser um bocejo de vida em supensão?

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maio 02, 2004

distrair....excluir...eis o modelo...

(....) Trata-se de nos recordarmos como, face aos dogmas, à arrogância, aos meios de persuasão do poder instalado, dos seus servidores e dos seus seguidores, face à sua certeza de estar no poder para sempre, de ter convertido o planeta num monumento, face às ditaduras, qualquer forma de resistência pareceu sempre derivar de um estado de contra-senso, de demência, duplicado de uma heresia ao mesmo tempo ingénua e criminosa, inútil. E como é essencial continuar a atribuir-se o direito de «pensar que...». Em democracia como em ditadura. A contribuição da democracia, dos direitos do homem, é capital, mas não impediu o colonialismo de ser oficialmente aprovado como um direito evidente, fazendo parte integrante de uma visão plítica geral. Nem impede as tentativas actuais de colonozar todo o planeta.
Nunca seremos suficientemente vigilantes. Não há limites ao que pode acontecer a partir da absolvição que os bons espíritos dão a si próprios, cometendo sobre uns o que não ousariam cometer sobre outros, atribuindo-se o direito de considerar inferior uma certa parte da humanidade. Na ausência de ética, não há limites. Nem limites a partir do instante em que se aceita recusar um único dos seus direitos a uma única pessoa. E enquanto grassar, sob o termo emprestado de «mundialização», essa ditadura ultraliberal que dá prioridade ao lucro sobre o conjunto humano.

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

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Pelo rolar da nação vemos o estado da bola!

De cada vez que ligo o televisor (para desencanto meu, que não me apraz misturar futebol com patriotismo), tenho que gramar, o discurso paternalista (patriótico) de um tal jogador da bola, multimilionário, que faz exactamente aquilo que é suposto fazer -- promover uma lenda -- não vá o dinheiro fazer-se pouco!
Evento desportivo, ou provincianismo de arrepiar! Isto, só neste país! Quem encomenda e paga tanta puiblicidade? O (des)governo da nação? A euforia contagiante, que assola o país de lés a lés, guiará decerto à vitória a selecção valente, e levantará de novo o explendor de Portugal?! Comprendo agora, com a eclosão destes pensamentos virulentos, os motivos que levam o governo da nação a investir tanto dinheiro em programas que publicitam o Euro 2004, incitando o povo a apoiar tão glorioso empreendimento; estamos perante um inusitado sentimento de unidade nacional em torno de um projecto que visa levantar a moral deste povo acabrunhado, portanto, o momento é de consenso.
Vamos ganhar? Quem é que vai ganhar? E ganhar o quê? O País ganha notoriedade internacional, o país vai mostrar à Europa, que pelo menos a jogar à bola (façam figas, batam na madeira), está à altura dos seus parceiros europeus...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

O embuste da prosperidade democrática!

Sempre que o ser humano não inclui na agenda quotidiana, a elevação espiritual do pensamento, não necessariamente no sentido religioso, constrói à sua volta altos muros defensivos, de ameias bem definidas, onde se alcantila, medroso e inseguro, monotorizando o mundo exterior, que planeia invadir e usar, uma vez que só assim consegue apaziguar medos inconfessáveis, e aproveita para satisfazer caprichos, e realizar projectos ambiciosos, nem que para isso arruine meio mundo.
A espiritualidade é a respiração da mente; o ser humano é influenciado e deformado pela propaganda integrada na informação diversificada com que é sistematicamente bombardeado, sem tréguas, e sem qualquer possibilidade de negociar um cessar fogo, que lhe permita reflectir sobre o sentido da guerra em que tem que participar, aparentemente de livre vontade, (estamos perante um embuste democrático, um falso pressuposto de liberdade de escolha, quando o cidadão não escolheu, antes pelo contrário foi escolhido, eu diria incorporado); o problema é que o ser humano é apanhado indefeso, logo na infância, quando ainda o sistema de vigilância e triagem de informação, funciona de modo rudimentar, como é apanhado desprevenido, durante a adolescência é arrebatado por sentimentos irreverentes, revolta insipiente, que na melhor das hipóteses leverá mais tarde a desenvolver o senso crítico, e a necessiade de resistir aos atropelos que a liberdade pessoal sofre; nesse caso a imberbe irreverência, amadurece, e da inadaptação difusa, passa à plena cosnciência do que está realmente em causa, essa atitude leva o ser humano a desejar partilhar o que eu considero mais importante na natureza humana, a espiritualidade aberta, criativa, empática, que não pretende impor modelos de comportamento, nem rituais de iniciação, nem se deixa seduzir por pseudo- experiências esotéricas, ou outras manifestações de sapiência, atribuídas a quem ensina à distância, com base numa "superioridade" inequívoca; disso, cuido eu, está a humanidade farta... e leva-me a ter ensejo de caminhar noutra direcção, descobrir, mesmo que sózinho (aliás, nunca estamos sózinhos, digamos que o espírito solidário de outros homens, vivos ou mortos nunca nos abandona, uma vez que os laços de empatia humana não terminam, nem se desfazem, mesmo quando o tempo e o espaço deliberam afastar fisicamente as pessoas).
Já, aqui tenho feito referência aos passeios pedestres que dou com alguma assiduidade, acontece muitas vezes, que em vez de seguir trilhos conhecidos, sinto necessidade de me embrenhar no mato, de subir aos cabeços, mesmo que tenha que trepar encostas escarpadas, arranho-me, sento-me nas lages calcárias, e de quando em vez, deito-me, aconchego-me aos raios solares, banho-me no silêncio circundante, escuto o piar das aves, inebrio-me com o colorido da paisagem, adormeço... a deambulação parece-me ser a imagem de "marca", nos passeios, assim como na escrita...
Se a honestidade intelectual é importante, a honestidade espiritual é imprescindível; se uma define os contornos da liberdade, a outra lima-os, porque se a eficâcia é importante, a tolerância é imprescindível; enquanto os interesses materias, estiverem "cotados" acima dos valores espirituais, e os poderes económico e político, não virem as suas "liberdades" cerceadas, de cada vez que algum cidadão anónimo, se cortar no gume afiado do excesso de racionalismo, e ao ficar diminuído para o resto da vida, perceba que, desperdiçar a vida é a violência mais absurda, que o homem pode cometer contra ele próprio; algumas formas de auto-mutilação, indiciam um processo de desintegração espiritual, que ao não ser tratado a tempo, leva à auto-destruição irreversível.
Quando o ser humano faz depender a felicidade, da posse material, e descura a educação espiritual, desde a mais tenra idade ( não que o faça voluntarimente, mas porque todo o sistema se baseia no vazio espiritual, e mais, não é por frequentar a igreja e escutar as sermões, que desperta o espírito adormecido, pode acontecer que sim, mas muitas vezes, o que acorda é o marasmo da aceitação incosnciente; o desenvolvimento da espiritualidade depende do despertar da consciência e da descoberta da identidade), entra na porta errada, o ruído é ensurdecedor, o torpor esmagador, e ainda que por algum tempo compre a felicidade artificial ao centímetro e à grama, a garganta tumefcata denuncia a angústia difusa que lhe tolhe a alma; sente-se um inútil, um inválido, por isso recorre cada vez mais à narcotização, dessa maneira o sistema funciona, e o mercado igualmente, ilegal, subterrâneo, chamem-lhe como quizerem, funciona -- quer dizer, vende, dá lucro -- à custa do auto-aniquilamento progressivo de muitos cidadãos, e da obediência cega aos mandamentos consumistas.
A negligência espiritual faz parte de uma estratégia, que impede o ser humano de descobrir o(s) caminho(s) que levam à auto-realização, e ainda deixar espaço aos outros para que à sua maneira, sigam um caminho autónomo.
Era eu um jovem, e já ouvia contar que os nórdicos, se suicidavam muito mais que nós, a explicação parecia estar na facto de cidadãos (como por exemplo os suecos), a quem nada falta, poderem efectivamente perder o entusiasmo pela vida; explicação plausível das causas que poderiam estar na origem do instinto suicida nórdico, não a tenho; mas interessa-me comentar a ideia «da perda de interesse pela vida por se ter tudo»; o que reduz a vida, e de facto reduz, em muitos casos, a existência humana ao somatório de acumulação material; ora, eis o busílis da questão; sempre que o homem, por ter sido induzido a isso, ou por opção (supostamente consciente), reduz a sua existência a uma luta sem tréguas (com os outros, porque são sempre os outros que nos impedem de alcançar os objectivos a que nos propusemos), que pode levar-nos a ter desejos de eliminar (literalmente) quem intervenha, opondo-se à concretização das nossas ambições pessoais; é neste quadro que somos educados, é para eliminar os outros, que nos entregamos fervorosamente à competição, que exibimos resultados, distribuímos benesses, inventados desculpas esfarrapadas, para dar um ar honesto aos nossos empreendimentos, tudo bons rapazes, benfeitores, que não conseguem deixar de pensar na próxima vítima, porque é de vítimas que se trata, quer se suicidem, quer sejam mortas antes de ter vivido, o que vai dar ao mesmo.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 01, 2004

A pastilha elástica dos olhos

P: Parece o Matrix, o filme. Se calhar somos cobaias de uma grande experiência qualquer, aquilo que julgamos real não é...
R: Temos uma visão do mundo demasiado homogeneizada e isso é mau porque nos torna mais facilmente manipuláveis. Acho que se devia pensar seriamente na figura do jornalista -- aparentemente muito poderoso, mas de pés de barro. Dependente de grupos económicos e de situações laborais precárias é fácil que mesmo incosncientemente se censure. Não é por acaso que em todo o mundo ocidental as grandes empresas económicas sentem uma atracção imensa pelos media. Não é certamente pelo lucro que dão!
P: Estendem a vossa análise crítica aos conteúdos da publicidade, um dos «programas» mais vistos?
R: Os conteúdos publicitários são dos mais sofisticados que a televisão tem, amensagem é preparada cientificamente, com as técnicas mais apuradas, com o objectivo de chegar depressa e bem ao destinatário. A publicidade impõe-nos hábitos, comportamentos ideias, valores -- em vez de impor, podia dizer « contribui largamente para formar um estado de espírito que tenderá para a imposição...», mas gosto de ser directo. Sendo assim, é claro que a associação tem chamado a atenção para situações preocupantes também nesta área. Calamo-nos demais.
P: Achamos que não vale a pena?
R: Deixe-me contar-lhe a história da rã, e todos nós fazemos o papel de rã. Uma rã, se for atirada para dentro de uma panela de água a ferver, tenta por tudo saltar para fora, sair dali. Mas se for metida numa panela de água fria e a água for sendo aquecida gradualmente, ela morre cozida... e nem refila nem tenta sair, nada. Porque não se apercebe da subida da temperatura. Estamos exactamente como a rã -- é tudo tão lento , tão gradual, é tudo tão normal, talvez esteja um bocadinho mais quentinho, mas nad de especial, e vamos ficar cozidos. A não ser que tenhamos consciência do que está a acontecer, que alguém deite água na fervura!
P: A televisão por cabo não representa uma alternativa?
R: Numa perspectiva optimista, o aumento de opções tende a criar uma escolha mais livre, e o cabo vai durante algum tempo ser até essa alternativa. Mas se os pressupostos se mantêm, moneadamente o das audiências, então é provável que os problemas se repitam. Não se pode resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou, dizia Einstein.
P: Então não há nada a fazer?
R: Se mantivermos a perspectiva de que a televisão é a «pastilha elástica para os olhos», nada se alterará. Mas se mudarmos esse estado de espírito, então tudo o resto muda também, e a nova tecnologia é criada ao serviço desses valores. E eu não acredito que o mundo vá a algum lado a partir da mediocridade e da falta de raciocínio, por isso a solução é a lucidez e a militância.
P: E quais são as vossas propostas concretas?
R: Temos um painel que avalia todo o tipo de programas que passam nos diferentes canais e, uma vez por mês, indicamos quais são, para nós, os melhores e os piores de cada estação. A imprensa tem-nos ajudado muito ao publicar essas avaliações, não só pela publicação em si, mas porque revela que esta é uma preocupação da sociedade. Por vezes, perguntam-nos que «habilitações» temos para fazer esta crítica, e costumo dizer que o nosso grande título, a nossa grande credencial, é o Bilhete de Identidade da República Portuguesa, chega e sobeja para sermos pensantes e actuantes. Na realidade, temos muitos especialistas, mas não é isso que está em causa, somos uma associação de cidadãos.
P: E são ouvidos pelos responsáveis dos diferentes canais?
R: Temos tido contactos regulares com os operadores, chamado a atenção para estes problemas e, na maior parte dos casos, a recepção tem sido encorajadora. Mas queremos ir mais longe, e por isso neste momento estamos a procurar criar um «formedia» (o nome ainda é só uma ideia), um forúm onde se juantariam diferentes entidades, passando pelos consumidores e incluíndo os publicitários e os anunciantes. Só assim teremos algum poder, e deixaremos de parecer todos o menino que é obrigado a andar de carrossel, mas que se sente muito feliz porque o deixam escolher entre a zebra e a girafa.

Última parte da entrevista que Rui Teixeira Motta, presidente da ATV, concedeu à Notícias Magazine, Nº 622 -- publicada no passado domingo, 25 de Abril de 2004.

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Segregação (intencional) educacional

(....) Um sistema a duas ou mais velocidades: é essa a chave desta filosofia da educação que, a partir do secundário, só favorece um certo número de alunos. Tristeza de liceus profissionais, considerados por muitas crianças que para eles são arbitrariamente dirigidas como o sinal de uma limpeza social, como uma sentença definitiva que as condena a um destino subalterno, estreito. E não é o ambiente ou os equipamentos oferecidos em geral por esses liceus, nem o número dos seus professores, que contradirá esse juízo. Não sendo a escola rentável, que se lixem os professores, que se lixe a tradição que exige que a cada criança sejam dadas as mesmas oportunidades! Pelo menos simbolicamente.
Esses já sabem que estão classificados. Poderá dizer-se «desclassificados»? Aos que protestam que nada é mais útil, mais racional, mais gratificante do que esses liceus profissionais, pergunte-se-lhes então onde prosseguem os seus estudos os seus filhos e os dos que lhe são próximos. Informem-se do número de alunos que pertencem às classes afortunadas ou mesmo abastadas que estão inscritos nesses liceus profissionais, nessas escolas técnicas ao que parece tão prezados. Descobrirão que são frequentados unicamente por crianças provenientes de famílias pouco favorecidas. A ponto de nos podermos indignar com o facto de estas terem conseguido obter um tal privilégio, tão apreciado nos seus discursos por aqueles que continuam afastados do que tanto admiram e de que se apressam com abnegação a privar a sua descendência, destinada, ela, a ensinos humanistas ou científicos de larga vocação, prodigalizados nos estabelecimentos de ponta! (....)

Viviane Forrester, Uma Estranha Ditadura

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

A esperança do trabalhador está no Homem!

Primeiro dia do novo alargamento da comunidade europeia; mais um dia do trabalhador, as mesmas comemorações sem graça, uns "palermas" sindicalistas a debitar uns chavões insipientes sobre a situação do país, com destaque para o desemprego.
Os desempregados são um problema de quem?, Do governo?, da sociedade?, dos sindicatos?, Chegarão os desempregados a representar um problema?, Serão eles próprios o problema? Pelo menos há quem quem goste de afirmar que sim! Há quem se sinta satisfeito em afirmar que só não trabalha, quem não quer! Como se todos os desempregados fossem um bando de preguiçosos, que não merecem a água que bebem!
As organizações sindincais, com estatutos obsoletos e estrutura rígida não conseguem adaptar-se convenientemente às circunstâncias e dificuldades acrescidas que a nova ordem despoletou. Os interesses instalados, a defesa dos lugares, etc... levam ao funcionamento anómalo das instituições, e as imprescindíveis reformas guardam-se a sete chaves na gaveta, nunca se sabe se poderiam acarretar prejuízos pessoais, para quem mais não deseja que continuar a ter o seu "lugarzinho" seguro; é o «o salve-se quem puder» instalado transversalmente na sociedade portuguesa.
O cidadão hodierno não quer saber de nada que não passe pela satisfação dos seus desejos, quer divertir-se e tirar prazer de tudo, em que toca, não está para perder tempo com chatices e aborrecimentos; como é óbvio este comportamento nada tem de inocente, é a mensagem subliminar da propaganda que não dá tréguas ao cidadão, que visa torná-lo dependente de hábitos, que ele vai desejar satisfazer a todo o custo, custe a quem custar; os recursos humanos, materiais e logísticos que estejam à mão, serão requisitados sem qualquer outra intenção, que não seja satisfazer os caprchos pessoais; todos conhecemos o termo «amanhar»; há poucas décadas a sociedade portuguesa dependia da agricultura de subsistência, quase toda a gente amanhava um leira de terreno, onde cresciam viçosas hortaliças; os tempos mudaram, e os campos e os quintais estão ao abandono, no entanto mantemos a tradição de nos «amanharmos» como podemos, mesmo que tenhamos que pilhar as hortas alheias, que mal tem isso afinal? Se todos o fazem!
Parece tudo vazio sentido, parece que já ninguém é de fiar, e no entanto, continuamos a necessitar de confiar e acreditar nos outros, é o drama humano; a farsa torna-se insuportável, começa por nos apetecer fechar os olhos, adormecer, para acordar noutro local, ou noutra época, mas de cada vez que abrimos os olhos, a palhaçada continua no adro, o cheiro da mentira empesta o ar, e se o hábito o torna tolerável, e as perspectivas de mudança são quase nulas, alimenta-se a ilusão -- um dia alguma coisa vai mudar -- alguma alma piedosa, vírá em nosso socorro, devolver à nação a sanidade mental.
Muitas vozes evocarão durante o dia de hoje, os desempregados, algumas, ainda mais depresa os esquecerão! Não me lembra de ter conhecido o desemprego, a não ser por por iniciativa própria; no entanto, sempre me
considerei "mal empregado", «o trabalho nunca faz por nós, o que nós fazemos por ele!» ( adaptação de uma máxima já publicada, substitui o vocábulo dinheiro por trabalho), por entender que desperdiçava (e ainda desperdiço), "talento", em troca de um prato de lentilhas!, e ter ainda que tragar a farsa de estar integrado em coisa nenhuma; usado e abusado, para que a colectiva alienação continue a funcionar.
Deste palanque virtual lembro aos desempregados, que são necessárias novas formas de luta, não podem ficar de braços cruzados à espera de melhores dias, terão que usar o "excesso" de tempo "livre", de forma criativa, procurando conhecer outros cidadãos, que estejam a viver dramas idênticos, e com eles partilhar ideias e experiências, e porque não tentar organizar actividades com vista a melhorar a sua situação e resistir melhor às pressões do sistema.
O cidadão trabalhador sente-se débil, inseguro e apoquentado, sabe que o sistema o considera uma peça descartável, e não um ser humano, nem sequer a besta de carga, que outrora foi; agora é uma peça, demasiado dispendiosa e menos fiável que uma máquina; já não lhe é reconhecida legitimidade de intervenção, deve submeter-se à precaridade, sem refilar; a situação é cada vez mais delicada, a liberdade de acção e participação nas decisões que afectam a sua qualidade de vida, é nula.
O cidadão trabalhador pode recorrer a formação profissional, disponibilizada pela sociedade, que espera tirar dividendos desse investimento, em termos de produtividade. A formação cívica, cultural, política, ambiental, artística, moral... é descurada, considerada um desperdício, um cidadão mais culto, mais crítico, é também mais "perigoso" (subversivo), torna-se intolerável, para os poderosos que não gostam de ser interpelados pela plebe. Criar condições ao cidadão trabalhador, para que o mesmo não esgote a sua participação activa na sociedade, como trabalhador/consumidor, não faz parte dos planos da sociedade em que vivemos; adensar o círculo vicioso, trabalhar mais, para fazer face às despezas do apelo ao consumo, dependências que desarticulam o discernimento! Quantas mais horas o cidadão trabalhador passar a trabalhar, mais definha como ser humano, o tempo não estica; impedido pelas circusntâncias de se associar a outros cidadãos trabalhadores, de maneira a debater aberta e amplamente as questões relacionadas com as limitações da sua condição de trabalhador; mais vulnerável fica face às investidas neoliberais, encolhe a liberdade de acção, encolhe a liberdade de opção.
Falta capacidade inovadora ao sindicalismo, a nova ordem mundial exige uma postura diferente, outro dinamismo, outros métodos de luta, outra mentalidade; os estatutos terão que ser revistos, as necessárias reformas estimuladas, a eventual corrupção instalada sanada; os trabalhadores e os desempregados agradecem. No entanto, os trabalhadores e os desempregados têm que diversificar as formas de luta, criar uma rede de resistência que mantenha conexões com vários tipos de actividades cívicas, culturais, políticas, artisticas, etc... é necessário desenvolver um associativismo forte, porque dizer mal não chega, e insultar, não passa de desabafos inconsequentes, mudar mentalidades exige participação, exige aprendizagem, exige disponibilidade, o amanhã constrói-se hoje, e a máquina que manda actualmente no mundo, sabe-o bem, e tece, de forma intricada uma vasta rede de influências, de forma a debilitar qualquer embrião de resistência ao seu poder hegemónico.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:23 PM | Comentários (0) | TrackBack