abril 30, 2004

"O embuste das audiências"

P: A televisão não é o que é porque há quem a veja?
R: Ah, a legitimização das audiências. Os tais entes programadores respondem sempre que se as pessoas vêem é porque gostam, é porque estamos a sufragar, e a partir de aí têm toda a legitimidade....que lhes foi dada a posteriori.. É UM EMBUSTE DEMOCRÁTICO. Não está provado que se em prime time fossem exibidos programas de mais qualidade tantas ou mais pessoas os veriam.
P: Mas se esses bons programas tivessem boas audiências, porque é que os operadores os haviam de rejeitar?
R: A questão é que é mais fácil encontrar o mínimo demoninador comum. O ser humano tem capacidade de ser melhor ou pior, e talvez seja mais imediato puxar pelo que tem de pior. Há sempre muita gente que pára para ver um acidente, vamos cultivar esse instinto mórbido provocando mais acidentes, para as pessoas terem que ver? Não defendemos que a função da TV seja educar, mas educar vem do latim educer, que significa extrair, extrair as melhores capacidades, e é possível educar e entreter. (....) Quando se fala de audiências, esquecemn-se os truques.
P: Quais truques?
R: Se o Big Brother passasse à meia-noite tinha as audiências que teve? Não tinha. Da mesma maneira as boas séries que passam às duas da manhã não seria mais vistas se passassem às nove e meia? Por alguma razão se chama "horário nobre", e sabe-se perfeitamente que dita as audiências -- ao escolher pôr um programa a uma hora e não a outra, está imediatamente a dar-lhe mais audiências. O outro truque é o das auto-promoções: quando se lêem as audiências não se tem presente quanto tempo é que aquele programa foi promovido. Há programas -- porque são mais caros, porque há interesse nisso -- que são intensamente promovidos e outros não. É claro que os primeiros vão ter mais audiência do que os segundos, mas isso nada diz daquilo que as pessoas prefeririam mesmo.
P: É a favor do serviço público?
R: Sobre isso tenho duplo ponto de vista -- todos os operadores mesmo privados são necessariamente serviço público. Não há nada mais público que a TV, e não é admissível que uma coisa que se dirige ao público não tenha perspectiva de serviço. Quando as privadas vêm dizer «os capitais são nossos, deixem-nos em paz», esquecem-se de que quem paga também o canal deles é o espectador -- paga uma dízima em cada produto que compra.
P. E a RTP em concreto?
R. Sim, somos defensores de um serviço público específico, entendemos que, mesmo na concorrência entre canais, o serviço público pode e deve dar um sinal de diferença. E sem entrar em contradição com o que disse antes -- que os bons programas podem ter boas audiências --, acho que um orçamento próprio permite uma ainda maior autonomia, o correr riscos na busca da qualidade.
P: Mas também pode ser facilmente instrumentalizada pelo governo do momento?
R: É um problema profundamente complicado. (....) É que o governo tem legitimidade para governar, naturalmente, mas não esgota em si o conjunto dos cidadãos. Em casos tão sérios como o da televisão, acho que se deveria procurar uma fórmula mais democrática.
P: A sensação que tenho é que os canais são todos iguais?
R: Já reparou que se vir um jornal televisivo nas diferentes estações, oito em cada dez notícias são as mesmas; mais, até o alinhamento é comum? Mesmo que faça um bocadinho de zapping, depressa conclui que não se está a passar mais nada no mundo, que o mundo é mesmo aquilo.
P: E porque é que isto acontece?
R: Desculpe, sei que é jornalista, mas acredito que isto é assim poque os jornalistas se lêem e ouvem uns aos outros, antes de ouvir seja quem for, pertencem a um microcosmos, tendem a ver o mundo da mesma maneira. Cria-se um círculo vicioso, em que todos se seguem uns aos outros. Na prática, é um jogo de espelhos, não há uma concorrência real. Os jornalistas acabam, como todos nós, por estar imersos no mesmo caldo cultural, e são poucos os que pôem a cabeça à tona de água e pensam por si.E isso é preocupante. Quando alguém me diz que a televisão não é tudo, que também há a família e os professores, concordo, mas depois penso que não oferecem tanta diferença como se pensa, porque também eles «bebem nas mesmas fontes».

Excerto (continuação) da entrevista QUE Rui Teixeira Motta, presidente da ATV deu à Notícias Magazine, Nº 622; publicada no passado domingo, 25 de A bril de 2004.
A última parte será publicada em próxima oportunidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

«A Guerra»

Dizes que uma guerra acesa
é teatro de impiedade;
chamas-lhe crua fereza,
flagelo da humanidade,
triste horror da natureza.

Pintas um bravo guerreiro
e a meus olhos vens mostrá-lo,
para ferir mais ligeiro,
metendo o ardente cavalo
sobre o exangue companheiro.

A um lado e a outro lado
a morte mandando vai
co sanguinoso traçado,
até que ele mesmo cai
de um pelouro atravessado.

Coas cabeças abatidas
vão de ferro vil marcados,
maldizendo as tristes vidas,
mil cativos maniatados,
vertendo sangue as feridas.

Entre horrorosos troféus,
o general desumano
manda falso incenso aos céus,
e de espalhar sangue humano
vai dando louvor a Deus.

Dizes que entre os animais
proibe guerra o instinto;
e que, surdo a tristes ais,
vês com horror o homem tinto
no sangue dos seus iguais.

Nicolau Tolentino, Obras Poéticas

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:36 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 29, 2004

Ameaças subjancentes, culturalmente indecentes...

As diferenças civilizacionais podem obstruir a comunicação entre povos e sociedades com culturas diferentes, o mesmo acontece entre indivíduos; mas o caracter irredutível das distintas posturas culturais, que as diferentes facções defendem, depende de factores mais prosaicos, divisões que se radicalizam pela forma como a propaganda quotidiana exibe os inimigos, que pertencem às facções civilizacionais oponentes à nossa.
As mensagens apoiam-se em linguagens, que são interpretadas de acordo com as variantes culturais e de caracter, associadas ao percurso de vida de cada cidadão. E se uns necessitam, como de pão para a boca, da segurança que os dogmas oferecem, para não sentirem o chão a fugir-lhes debaixo dos pés, mesmo quando realizam tarefas rotineiras. A necessidade de estabilidade emocional, leva-os, se preciso for, a fomentar as piores instabilidades existenciais, sempre que sentirem, a sua preciosa estabilidade ameaçada. Regra geral, estas pessoas são conservadoras, e defendem acerrimamente a imutabilidade irredimível da "verdade", indelevelmente incrustada nos seus corações. Os outros, de índole instável, gostam de desbravar locais ermos, de ser confrontados com dúvidas, e não temem ser acossados pelos defensores das "verdades" insofismáveis; portam-se como um bando de descontentes, sempre prontos a subverter as verdades (parciais) imutáveis, que lhes lembram pântanos infectos; e nem mesmo o poder atractivo da sociedade contemporânea (de mente arejada!!!) evita que perscrutem os subterrâneos, onde fervilha a perversidade institucionalizada, produtora de venenos potentes, consumidos à superfície por "incautos" cidadãos que percorrem as "livres" ruelas das oportunidades perdidas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

Recreação divina

A humanidade está fragmentada em cantões civilizacionais, alcantilados em conceitos culturais, sociais e políticos distintos, que levam a disputas sem tréguas. A religião é o pretexto, que as diversas facções usam na tentativa de conseguir fazer respeitar a sua versão da verdade (parcial) imutável, que obviamente lhes foi comunicada directamente pelo Criador.
Cada facção, pretende aumentar a área de influência (geográfica e demográfica) de maneira a espalhar a verdade (parcial) genuína, na versão (deturpada) autêntica, de modo a ser seguida, como a única verdade universal e imutável, que pode libertar a humanidade.
Acontece que qualquer tentativa de implantação da suposta verdade universal, tem recorrido à força bruta, e que as civilizações daí surgidas, são pântanos constituídos com o sangue de muitas existências desperdiçadas; mas como a morte de infiéis (de outra facção qualquer) é abençoada pela vontade divina da facção, a quem o Criador escolheu para defender e espalhar a verdade (parcial) imutável; os crimes humanitários, transmutam-se em actos de bravura inspirada na defesa da palavra do Criador (aquele que tudo criou, até mesmo as facções hostis!).
Ciclicamente, surgem uns oportunistas (predestinados) enviados pelo Craidor para libertar o povo oprimido, e a humanidade fica exposta às arbitrariedades de sujeitos, auto-proclamados, libertadores do seu povo, que constitui uma das facções da civilização; as consequências são desatrosas; a regressão ameaça a civilização, sempre que uma facção intenta impor a verdade (parcial) imutável, a humanidade sofre as nefastas consequências do pior dos oportunismos, a que certos cidadãos recorrem, para conseguir alcançar poder incontestável.
A vulnerável e desconfortável situação do ser humano, perante a inevitabilidade da morte, impele-o a procurar consôlo espiritual; qualquer possibilidade, por muito fantasista que seja, remota ou mesmo absurda, que alimente a ilusão de eternidade, contribui de maneira inequívoca, para que o ser humano adira sem pestanejar a qualquer mensagem de esperança, veiculada por alguém que promete libertá-lo da subjugação das limitações terrenas.
Sendo o Criador a salvação, e o recurso inesgotável, de amor e ódio, a que as distintas facções (radicais e fundamentalistas; moderadas e progressistas) recorrem para defender acérrimamente as suas diferênças, ateando fogo à imaginação do comum concidadão, que naturalmente está sedento de salvação (tal como, os que o influenciam estão sedentos de poder!); a confusão mental ocupa o lugar do senso crítico, o irracionalismo invade e devassa o território, onde a consciência espontânea, devia plantar liberdade de expressão.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:40 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 28, 2004

A Vontade Divina e a Consciência Humana

O que os milagres têm de extraordinário, é o facto, de serem fenómenos naturais, que alguns indivíduos e várias instituições, preferem considerar sobrenaturais, devido a conveniências misteriosas, que garantem dividendos "espirituais", sem concorrência.
A Vontade Divina, é o braço invisível da vontade humana, de conseguir domesticar a vontade alheia, e se possível dominar o mundo, ou mesmo o universo!... e para isso, nada melhor, que convencer o outro, fazendo-se ardilosamente passar, por mensageiro da divina vontade. Uma parte considerável da humanidade submete-se sem desconfiar de nada, e uma outra parte duvida, mas como não quer problemas com a vontade divina, resigna-se; um punhado resiste, porquê?
A consciência humana, indaga o "inacessível" da forma mais acessível, que lhe é possível, recorrendo a "ferramentas" genuinamente humanas; interessa-se pelo desenvolvimento das capacidades de expressão, só dessa maneira pode chegar em condições ao outro; comunicar com ele, criando patamares de inteligibilidade mútua.
Um dia, a humanidade comprenderá que só pode sobreviver, quando cada indivíduo sentir que é parte integrante dessa unidade (HUMANIDADE), e só o desenvolvimento da consciência, que é a descoberta da identidade, pode melhorar as condições de comunicação entre os humanos. Mas afinal, o que torna a descoberta da identidade importante? A consciência revela a beleza intrínseca da vida, e a necessidade de a partilhar conhecimentos e experiências com os outros, torna-se natural, não para os humilhar, nem explorar, mas porque já não há outra volta dar.
A cultura da divisão e da discórdia, serve exclusivamente a exploração do homem pelo homem e a disseminação das injustiças sociais, uma das causas determinantes do subdesenvolvimento individual.
Os cordeiros encaminham-se voluntariamente para a ara sacrificial! E quem não quiser ferir susceptibilidades, não pode escrever (nem existir) em consciência; mas quem desejar ardentemente o "milagre", de ter fé na escrita consciente, como pode evitar que as palavras se transformem em agulhas, espinhos e pregos que ao trespassar a carne alheia, dilacera impiedosamente a consciência; já melindrada, devido ao atrevimento da dúvida sistemática e a provocação incomformista.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:04 PM | Comentários (0) | TrackBack

Tradição por vezes, rima com punição!

Até nos cartazes, fixados por partidos políticos de esquerda, é usada (subconscientemente), a moral punitiva da tradição católica; reminescências culturais que viajam dos lugares mais recônditos e obscuros da mente, para se manifestarem na arquictetura das frases. Estas reminescências culturais atravessam gerações, exercem uma influência indelével, que determina a forma como o indíviduo organiza o pensamento e, nem mesmo as mentes mais lúcidas conseguem evitar as deturpações causadas por este género de lastro cultural.
A crença teológica na punição divina, apesar de ter caido em desuso, não está moribunda, vive em estado latente alojada, em diferentes locais do subconsciente, influenciando a forma como pensamos, sem que disso nos apercebamos, na maioria das situações.
O pecador (prevaricador), pode escapar à punição humana, mas não consegue escapar à punição divina; o povo continua a poder respirar de alívio, a justiça triunfará, não a dos homens (por mais esclarecidos que sejam), corruptível, mas a de Deus (impossível de confirmar, mas fácil de aceitar, basta ter fé), infalível.
Uma boa fatia da população portuguesa, já não engole de ânimo leve, tudo quanto é rotulado como produto cultural (religioso), mesmo quando rotulado com certificado de qualidade passado pela tradição; os portugueses estão, por isso, mais críticos e mais exigentes! Comprova-se isso mesmo, quando os vemos consumir avidamente as "palermices" nacionais e importadas?!!!
A ausência de referências estáveis, gera inquietude mental (inferno insuportável), em desepero de causa, a tábua menos recomendável transforma-se, na falsa salvação da alma desenganada; é neste ambiente, que prosperam as organizações hábeis em criar insegurança; o leme das mesmas, é comum estar entregue a indivíduos ambiciosos, de escrúpulos duvidosos; a propaganda faz o resto; mensagens parciais, e não raramente falsas, transformam-se em incontroversos dogmas universais, nascem tradições, desenvolvem-se "impérios" hegemónicos; e se para uns, é óbvia a intervenção da vontade divina, para outros (que podem ser os mesmos, em momentos históricos distintos) o milagre têm a assinatura do "Diabo" em figura de gente; desta maneira, exclui-se a responsabilidade exclusivamente humana, e a plausível explicação racional.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 27, 2004

Pés(grinalda)chão...!

Os peregrinos caminham aos magotes (perturbam o trânsito), afluentes de fé, que só desejam desaguar aos pés da nossa senhora de Fátima; este é o país dos milagres, e o lugarejo de Fátima foi abençoado com o mais bem sucedido milagre, de que há memória em Portugal. Isto é um leigo a cismar...
Permitam-me que deixe aqui umas insignificantes questões:
«Como imaginam a ocorrência do milagre de Fátima (mesmo pintando uns pastorinhos na paisagem), nos dias que correm?»
«Qual seria o operador televisivo convidado para fazer a cobertura do acontecimento?»
«As datas e os locais escolhidos, por ( ), são representadas por linhas tortuosas e intenções estreitas; que a santidade (suma) explica, intoleravelmente mal!»
Não se trata de maldade minha... não teria qualquer interesse, não me faria sentir sequer bem comigo; simples elucubrações sobre um assunto tabu, indiciador de que o povo continua manifestamente escravizado por preconceitos religiosos e agarrado a superstições atávicas!
Os media, deixam o fenómeno Fátima em paz, por precaução, preventivamente, com as audiências não se brinca!
Fátima chega-me a lembrar uma peça de cristal valiosíssima, na qual os media receiam pegar, não vá o mesmo escorregar-lhes da mão, cair ao chão, e quebrar-se em mil pedaços.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

Desamparadas criaturas, amparadas em modas!

O povo português adere com demasiada facilidade às "modas" que vêem de fora, adquire e desenvolve um gosto, ou diversos gostos duvidosos (o gosto é sempre relativo?, ora aqui está uma verdade, que persuade, mentindo!); confiar nas "modas", por mais "insuspeitáveis" que sejam as suas origens; é no minímo pueril, acreditar de ânimo leve que possam preencher os anseios e necessidades íntimas do indivíduo, é no minímo, estranho!, o gosto deturpa-se com muita facilidade, e "as modas" apelam ao efémero e ao súperfluo, labirinto em que se entra pelo próprio pé, ou disso se convence o indivíduo, quanto a dar com a saída?!...
A globalização do consumo, trouxe consigo a globalização das "modas", e o gosto do português "médio" passou a ser o gosto lançado pelas grandes marcas criadoras e distribuidoras das modas.
A cultura urbana, impregnada dos valores consumistas e acreditando no sucesso individual, induz o indivíduo a competir acerrimamente para conseguir um miserável lugar (um emprego precário), enquanto sonha vir a tropeçar nas boas graças de algum operador de televisão, promotor de moda, ou publicitário, e assim alcançar os merecidos instantes de glória e protagonismo mediático. O sonho de qualquer indivíduo "normal", enquanto aguarda a sua vez (enquanto vê, em que param as modas!), compra e lê as revistas das modas que estão na moda, ilustra-se!
As culturas "menores" estão vulneráveis às incursões impetuosas da cultura "dominante", cujo dinamismo insolente (marca indelével da pseudo-superioridade ostentatória) arrasta, qual enxurrada de aluvião, as culturas locais, regionais e nacionais, não raras vezes estagnadas, incapazes de servir os interesses da população e de estimular os ímpetos e anseios criativos da mesma, gorando as espectativas de realização dos indivíduos.
A hegemonia desta cultura "dominante" usa pretensos vanguardistas, "criadores" de "modas irreverentes", que servem os interesses dos impérios económicos prepotentes; os progressitas seguem-lhes os passos, os tempos não estão famosos, para que se deitem oportunidades a perder; quanto aos "neutros" (previa e assepticamente neutralizados), deixam-se ir, como bons imitadores, acabam a frequentar os mesmos locais (antros), a dizer as mesmas bacoradas, a consumir os mesmos entorpecedores etílicos e narcóticos, a pendurar nos corpos os mesmos andrajos (da marca da moda, que marca a moda!); quanto aos mais conservadores, esses lastimam a perda de valores (choram os culturais estertores dos privilégios adquiridos, que defendiam com unhas e dentes, alheios).
"As modas" demarcam o território, não por questões de denominação de origem, isso é um assunto descartável, até porque "as modas" são cultura universal (esquecem-se, é de ser cultura!); ficam-se pela produção em massa, feita por muitas máquinas de embutir, muito barro humano explorado pela "cultura" pujante da subjugação económica e precocemente transformado em cacos fora de moda.
Temos pois um Portugal cultural, colossal e abissal; um Portugal letárgico, espreguiçando-se, com receio de se erguer da tumba obscurantista; decorridos 30 anos de democracia, e a nação só arriba, quando alguém se lembra de elogiar os feitos passados e os hérois estouvados; o português, héroi invencível, conquistador vitorioso, não da liberdade, mas das modas invasoras, portadoras de hábeis truques aduladores das personalidades alarves.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 26, 2004

O limiar da maturidade

A democracia portuguesa encontra-se no limiar da maturidade, mas por comodismo, prefere ainda viver às custas dos «progenitores»; falta-lhe a coragem para saltar do ninho (mesmo que o ambiente no interior do mesmo já se tenha tornado insalubre, nauseambundo), e desfraldar as asas da liberdade.
O vôo para a maturidade, é o vôo da identidade, igualmente válida no plano pessoal, cívico, civilizacional; a idade madura, é a idade das opções conscientes, é a idade da auto-crítica, é a idade em que se começa a ter saudades do futuro, sem obviamente desejar obliterar o passado; a idade madura é a idade da comunicação, do fascínio da partilha de experiências, das empatias lúcidas.
Não se pode falar de maturidade enquanto o protagonismo (o fogo fátuo da vaidade) despropositado, descontextualizado, desmiolado, é transformado em bandeira pessoal flutuando acima dos interesses da nação. A maturidade não é discorrer ao sabor dos ventos demagógicos, que mudam de quadrante, aproveitando os ventos (abençoados) das conveniências; a maturidade não se deixa enlevar, nem aproveita sentimentalismos de ocasião.
Hoje, porquê hoje? O primeiro dia da maturidade assumida; não do resto da vida do 25 de Abril, que se pretende longa e profícua; hoje é o primeiro dia; amanhã será, igualmente o primeiro dia, porque cada dia necessita do entusiasmo do primeiro dia, memória do momento crucial, que simboliza a ruptura, o poder criativo, mas também a consciência moral, de resistência e persistência.
A maturidade exige um voto de devoção à liberdade de expressão e de criação; a maturidade nunca alega, uma desculpa esfarrapada para falTar à verdade, para ficar indiferente aos desafios da cosnciência crítica; a maturidade não flameja em datas alumiadas, alumia e actua no desgarrado e hostil teatro de "guerra" quotidiano.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

A maturidade não se compra, vai-se descobrindo...

O povo tem o dever de não deixar apagar a chama inspiradora do facho, que tendo sido aceso na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, assim deve permanecer, a lembrar às gerações vindouras que a liberdade não está à venda nas prateleiras dos supermercados (antigamente era suposto as farmácias terem de tudo à venda, mudam-se os tempos, mudam-se os locais, e algo mais...), mas com a (R)Evolução dos tempos, e a manipulação das mentalidades, é bem provável que se venha a considerar normal "comprar" liberdade, se obviamente, o candidato a "comprador" tiver dinheiro suficiente para o fazer (os corruptores oficiais do rei(na)ção, na posse de carta de recomendação, serão distribuídos salvo-condutos)
Nem "saudosismos" retórico-revolucionários, nem aproveitamento da ingenuidade das gente (causa natural de uma educação sem horizontes); gente traída, imersa no obscurantismo religioso, vigiado por sentinelas atentas, sempre prontas a ler o sermão (a incutir preconceitos e superstições) sempre prontas a aproveitar vacilações de ânimo e carácter, sempre prontas a manter as gentes incultas, com o propósito de as manter impolutas aos olhos de Deus ( pouco misericordioso). Uma nação....
Agora, que o clero perde influência, e que as gentes recorrem à igreja, porque as cerimónias até são bonitas e porque têm vergonha do que os outros possam dizer; resquícios dos tempos em que se podia morrer de vergonha...aos pés de quem não a tinha; nem vergonha, nem consciência e ainda apelava à colectiva demência (subserviência).
Trinta anos de separação, trinta anos de maturação, trinta anos, tantos anos e tão pouco tempo, tão bera colheita, quem se aproveitou da ignorância?, quem continua interessado em macular as gentes deste país?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:16 PM | Comentários (2) | TrackBack

Arrumada a questão da (R)Evolução, vejamos o que se segue!

É tempo de varrer os desperdícios abandonados, é tempo de arrumar as comemorações do 25 de Abril, terminou o indulto, a nação deve regressar ao trabalho, mais aliviada, já percebeu que a polémica da (R)Evolução será encaixotada, e porque não se está em tempo, de perder tempo, a nação deve concentrar-se no evento mais relevante de afirmação do orgulho nacional -- o Euro 2004.
Não faz sentido comemorar o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, no país da baixa produtividade, do absentismo e claro, do único itém que subiu de forma clara e inequívoca -- o desemprego; para além do mais, são cada vez menos os portugueses que, sendo assalaridos (e mal pagos) a gostar que lhe roguem o epíteto de trabalhadores, só não percebi, o que é que se julgam?!!!
No entanto, a nação não pode descansar, novas preocupações formam-se no horizonte como nuvens de mau presságio, o enlace entre a política e o futebol, está de novo na ribalta, a promiscuidade continua, segue-se um novo capítulo, o país terá ainda possibilidades de se apurar! Fazer regredir o défice de honestidade e subir o refinamento do senso crítico do povo?!
Povo que está cada vez menos tolerante, pronto a perder as estribeiras em defesa de algum idiólatra aglutinador (trata-se de uma falsa garantia de aproximação aos poderosos), é preciso salvar a pele dos zeladores da nação, e garantir o farnel, esmolar, rastejar, gritar palavras de ordem em nome do bairrismo, do clubismo e do incivismo estimulado...de forma desmiolada.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 25, 2004

O Contrapoder Associativo...

"Diz que a principal habilitação dos membros da Associação de Telespectadores é o BI da República Portuguesa, que chega e sobra para lhes dar o direito, e o dever, de serem «pensantes e actuantes». Neste caso, em relação ao conteúdo das televisões que temos, e que precisam de tanto mais contrapoder quanto são a única fonte de informação para 70 por cento dos portugueses.
Animais de estimação que condicionam a forma como os donos vêem o mundo. Porque nem tudo o que passa na televisão é verdade, nem sequer de qualidade, falámos com o presidente da ATV, Rui Teixeira Motta, advogado e acérrimo defensor do associativismo."

Notícias Magazine, Nº622; Domingo, 25 de Abril 2004 -- Em Detalhe
Texto: Isabel Stilwell

Na minha humilde opinião, esta entrevista merece ser lida na integra; de qualquer forma vou tentar partilhar uma síntese da incontornável realidade que é fornecida aos espectadores (pelos programadores de televisão), como insofismável verdade informativa, ao serviço de grupos económicos, que desrespeitam os mais elementares escrúpulos éticos e normas deontológicas em nome da liberdade de (des)informar e da livre concorência, invadem o território público e os domicílios privados, como se tal fosse o mais normal, inocente e inquestionável procedimento, como se o mesmo não tivesse repercursões na (de)formação da personalidade do cidadão espectador.

P: Qual é o sentido de uma associação de telespectadores? Não há associações de leitores de jornais, de espectadores de cinema, de fumadores, o que é que leva a que a televisão seja diferente?
R: Não há, mas se calhar devia haver, revelariam um sentido associativo aprofundado, vivificador da sociedade civil, que é aquilo em que acreditamos. Mas o peso da televisão justifica claramente uma associação de telespectadores e não dos telespectadores -- não temos a veleidade de os representar a todos. E a TV tem uma força muito especial, pelo número de pessoas que são abrangidas pelas suas mensagens e com todas as consequências que daí advêm, mas também pela capacidade de imposição que possui face aos seus destinatários. (....) Por outro lado, a televisão como todos os media, não tem nada de neutro, é um instrumento de profunda alteração das sociedades, e também por aí se justifica plenamente uma associação de espectadores (aliás até há duas).
P: Vemos muita televisão?
R: Todos estamos quase umbilicalmente ligados à televisão. (....) a televisão vai galgando para dentro de nós e vai-nos ganhando espaço. (....).
P: Se vimos na televisão, é verdade...
R: Exactamente. E isso é extremamente preocupante, mais ainda se tivermos em conta que as mensagens televisivas são elas próprias susceptíveis de muitas críticas quanto ao seu grau de veracidade, ao critério de escolha, porque esta notícia e não outra... (....).
P: E a TV está em todas as casas?
R: (....) É como mais um elemento da família e as pessoas convivem com ela de uma forma amistosa, estão tão habituados ao seu objecto-televisor, como aos seus amigos ou aos seus animais de estimação. Só que é um animal de estimação extremamente complexo, porque é ele que nos mostra o mundo.
P: Como o mundo é visto por quem orienta cada um dos canais?
R: Acabamos por ver o mundo como ele é construído pelos programadores dos diferentes canais de TV. Programadores é como se chamam em gíria de televisão a quem decide o que vai para o ar, em que dia, a que horas. Só a expressão «programador» já nos devia deixar um bocadinho preocupados, porque se eles são os programadores, se calhar nós somos os programados, não?(....).
P: Defende que o espectador não tem consciência de que há alguém que escolhe por ele?
R: Acho que não tem. Deixe-me voltar ao programador -- para a maior parte das pessoas é uma entidade mítica, funciona como um director espiritual, como um deus até -- (....).
P: Sente que de um lado, o dos operadores, há muito poder, e do dos espectadores nenhum...
R: Se ninguém nega a influência da televisão no espectador, se for perguntar a algum vulgar cidadão, se acredita ter alguma influência naquilo que é a televisão, acho que todos lhe respondem que têm pouca ou nenhuma. E os desequilíbrios de poder nunca levaram a grandes soluções, como todos sabemos. Ao longo dos séculos foram-se craindo contrapoderes para o poder político, nomeadamente o judicial,mas hoje há novos poderes, como o económico e o dos media, e é preciso mais do que regulamentá-los, equilibrá-los. E isso faz-se, por exemplo, criando associações de espectadores, que aliadas a outras associações, nomeadamente de consumidores, podem criar aqui algum contrapoder.
P: É dos que culpam a elevisão de tudo, ou dos que dizem que quem não gosta que não veja?
R: A televisão é governada por seres humanos. E, como qualquer tecnologia, pode ser posta ao serviço do homem ou contra ele. (....) Costumo dizer que pode ser uma arma de construção em massa ou de destruição em massa. Cabe-nos ter o engenho e arte de fazer dela uma boa coisa.
P: Limitamo-nos a ver, sem exercitar a crítica, é isso?
R: A imagem, por natureza, é inimiga da abstracção, e a cultura do audiovisual é uma cultura própria, e a maioria de nós não a tem. A imagem não suscita reflexão e sentido crítico, não acontece a vários passos, como a leitura, e torna por isso mais difícil perceber o que está realmente a acontecer.
(....) E como acreditamos que a humanidade terá que avançar através do refinamento do pensamento e das emoções, angustia-nos a ideia, de que com o consentimento de todos, a TV possa estar a fazer o trabalho contrário.
P: Se por um lado, a televisão nos ajudou a perceber que o mundo é mais do que o nosso bairro, por outro, os dramas e as histórias aparecem, mas não lhes é dada qualquer continuidade, isso tem consequências?
R: A televisão é também muito fragmentária. Hoje vê um noticiário e mostram-lhe a guerra do Sudão, amanhã já é Angola e no dia seguinte a Argentina. Uma realidade dá lugar a outra, mas de forma tão sem enquadramento, tão sem história, que me pergunto qual é a compreensão que um espectador -- cuja principal fonte de informação é a televisão -- tem do mundo em que vive. Uma torrente de imagens não explicadas não serve o conhecimento, a informação descontextualizada não nos torna mais sábios.

«O embuste das audiências» continuação deste artigo a publicar em próxima oportunidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

Garanto que o lápiz azul, cortou este título!

Exasperação... acontece-me com alguma frequência, o computador ir-se abaixo, no momento de gravar o texto que estou a escrever, tal situação ocorre sempre nos "melhores" textos; uma vez que estou completamente absorvido pelo assunto, mais fácil é esquecer-me de gravar o texto. Por vezes só gravo o texto, quando o mesmo já é bastante extenso, ou quando pretendo fazer algumas emendas. Durante alguns minutos fico desolado.
O que mais me chateia, é o facto de eu ter a clara noção, que o texto de substituição, será sempre uma falsificação do original, e a "mensagem" deixará de ser tão genuína quanto o seria a desaparecida em combate; o que realmente está em causa, não é tanto a "qualidade" intrínseca do texto de substituição, cuja escrita poderá até ser mais refinada, mas é como se tivesse optado por um caminho diferente, com paisagens distintas, ainda que a finalidade da viagem se mantenha intacta.
Ainda nem comecei e já me sinto gaguejar, sinto-me como que pregado ao chão, sem saber por onde começar, as palavras debandaram, temendo ser expostas, de novo aos mesmos aviltamentos.
É claro que me lembro de ter escrito sobre um 25 de Abril, ocorrido, ou a ocorrer, enaltecido, vaiado, circunspecto e resignado, atraiçoa-me a memória nublada, palavras encarceradas, impedidas de saber quando será ordenada a sua libertação. Algumas palavras resistiram às investidas bárbaras do esquecimento, e aspiram a ter o seu momento de merecido explendor, quando o país celebra os 30 anos de um Abril em flor.
Os cravos que ornamentaram as metralhadoras, murcharam e a viçosa liberdade perdeu o viço de outrora, mas resiste à ingratidão dos tempos; quanto aos poderes e pudores, e aos novos e velhos senhores, conseguiram o prodígio de, em três décadas recuperar os impérios devastados, e os orgulhos ofendidos, democratas de ocasião, negoceiam os interesses da nação, por baixo da mesa, de permeio distribuem esmolas aos estratos sociais mais vulneráveis ao sentimentalismo primário.
Novos-riquismos pomposos, velhos absentismos extremosos, as tradições adaptam-se, ornamentam-se, seguem os ditames da nova ordem; crescem os condomínios isolados, quedam ao longe os clamores, os sonhos das gentes evolam-se sem resposta; do banquete dos novos e dos velhos senhores, sobram migalhas, e esmolas, só em dias alumiados; comovente, a voz embargada, as lágrimas de circusntância, libertadas... muitas destas palavras, usurpam não a liberdade arrebatada, mas o texto original, enterrado sob camadas de milhões de pensamentos mortos.

«...baldio terceiro-mundista!», palavras incluídas na crónica:"Os acasos de Sampaio" de José Barata-Feyo, publicadas ontem (Sábado, 24 de Abril de 2004) na Grande Reportagem Nº172

Após trinta anos de democracia, liberdade e alguma falta de pão, estão as famílias portuguesas mais endividadas que nunca; agora prestam vassalagem à banca; o novo e o velho riquismo caminham de mãos dadas, criaram organizações, maiores e mais poderosas que muitas nações, são donos de vastos exercítos de servos voluntários e dividem o baldio de acordo com os interesses corporativos; comemoram, os lobbies, o estado da democracia, os fundamentos da nação, à custa da imolação das liberdades individuais de expressão e criação, para que os novos senhores possam dividir a pátria em áreas reservadas, e administrarem os melhores baldios recuperados. O resto do país não é paisagem, é baldio terceiro-mundista?

Gostei do discurso do Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República Portuguesa.

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abril 24, 2004

Lestos VS Lentos

A "Globocivilização" torna a existência dos "lentos" muito desconfortável, ridiculos nos plácidos modos do seu devir existencial; avessos a engolir sem primeiro mastigar e definir se é tragável, ou cuspir, sempre que consideram intragável. Inadaptados é o que são, e a origem desse mal é genética e, é bem provável que a pedido de algumas "famílias" preocupadas, se venha a fazer investigação, de modo a descobrir qual o gene da lentidão, assim, poderá respirar de alívio a "Globocivilização" logo que a ciência descubra a "cura" que leve "os lentos" a abjurar à sua genuína condição.
Estes "lentos", são de tal forma apegados à sua lentidão, que chegam a criogenar vários assuntos, para mais tarde os "descongelar" e observar minuciosamente... incompatibilidade funcional com o sistema vigente: "O Freneticismo", uma ideologia pragmática unificadora das várias espécies de "lestos" efusivos. "Os lentos" são uma desilusão, um entrave, bem podem "os lestos", tragar sem mastigar, tudo o que à frente lhes apareça, desde que o sabor esteja dentro dos parâmetros previamente defenidos, tudo quanto foi inventado é para ser engolido e, não é plausível que alguém se desse ao trabalho de "criar" um produto, que não fosse consumível, assimilável pelas entranhas dos seus concidadãos "lestos"; em oposição, parte considerável dos "lentos" é esquisita, desprezível, complicada e insatisfeita; como não sabem o que realmente querem, dizem mal de tudo.
Talvez, "os lentos" apesar de inadaptados, não estejam condenados à extinção e, mesmo que a engenharia genética venha a alcançar prodígios no domínio da manipulação genoma humano, a lentidão revela-se quanto a mim, a forma mais correcta de adaptação às mudanças ambientais, quando uma espécie ou parte da mesma, se adapta às mudanças ambientais de forma lenta, é provável que o faça de forma mais eficaz; afinal, quando as mudanças acontecem a ritmo inassimilável, são frequentes os desvios de adaptação, uma vez que é impossível, até mesmo para os frenéticos "lestos" interpretarem as novas exigências ambientais cabalmente, aparecem rupturas evidentes no equilíbrio psicossomático imprescindível a uma evolução bem sucedida; a maioria dos "lestos" adere à prática da adaptação às "escuras", que redunda em malformações, consequência de mutações "desmioladas", desenraízadas, com o apoio dos ideólogos da "pressa" (da voragem e da pilhagem) e da estreiteza optimista, da esperança nas "soluções científicas" do amanhã.
"Os lentos" são regra geral mais dados ao cepticismo, talvez devam ser identificados como uma subespécie, que desenvolve alergias ao "Freneticismo" vigente, e como nenhuma claúsula do sistema prevé que se possam manifestar, através do preenchimento de um questionário, se concordam, ou não em aderir à seita fundamentalista, extremista e "exterminista", que se propõe governar o Globo(civilização) com o apoio do "Freneticismo" lesto; "os lentos" que não conseguirem desenvencilhar-se dos grilhões da nova ditadura, ainda continuam a ter a saída dos cobardes (no dizer da moral vigente), o suicídio é coisa de loucos e descontentes;aniquilamento lento, ou reacção em cadeia, com origem num momento de conturbada fissão existencial.
Dissidência e clandestinidade, resistência...aderir à "moda" dos atentados bombistas, ou ao terrorismo sem fronteiras, não funciona, quanto maior for a devastação, provocada pelo terrorismo, maior será a adesão ao "Frenetismo" e os seus mentores terão razões de sobra para impor, para cerrar fileiras, para contagiar legiões de "lestos", para abrir trincheiras de podridão que darão a volta ao mundo, as vezes que necessário for, lá dentro chafurdarão os desertores...da humanidade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 23, 2004

Ser forjado a "furgir"... forjador que nunca "forje"

Arde na forja, o reluzente azeviche, incandescências translúcidas,
Mãos de ferreiro malhando o quotidiano demente...
Bagas de suor, escorrendo pelos sulcos da fronte tisnada,
Olhar vidrado no malhar alucinado... as formas monôtonas
Inconclusivas... modorra de longas horas, ao redor da forja
Espremendo o fole, de pele de cabra, forjando o ferreiro amofinado
Um destino... tempestade de faúlhas...
Modela o ferreiro as formas e a vontade,
Tolda-se-lhe a razão...acabrunha-se-lhe o cenho
Insiste o ferreiro no malhar, como se busca-se a perfeição
Consome-se afinal, como péndulo em movimento e oscilação,
Vacila o fervor que tem na sua profissão... malhar um quotidiano que ostenta
Formas, reformas e contrareformas, sem resolução
Verga-se o ferreiro, pesa o martelo e a desilusão
Reverberam recônditas imagens, de dunas ressequidas
Areias escaldantes, terras esquecidas... onde pernoitam renegados
Que o malhar escorraçou, em tudo iguais ao ferreiro aturdido...
Mas o ferreiro continua a malhar o seu destino, sózinho...
Molda o devaneio com forma ensejada do seu sonhar
Embarca em viagens e aventuras, e sem delongas
Desembarcou amarguras e desventuras...
Na forja adormecida permanecem as pedras rubras enfeitiçadas,
Evocações de sonhos, de ferreiros e mundos novos
Um mundo livre, balança o olhar do ferreiro, navegando na linha do horizonte Como barco em alto mar, e de tanto solavanco
Enjoa o ferreiro, que suspende o malhar, quebram-se as ondas
Na quilha do esquálido trejeito do seu cismar...
Dá por si a vomitar ilusões...
Da forja para a bigorna e da bigorna para a forja
Entretem-se o ferreiro, a malhar oposições, deste mundo
E do que há-de vir... imagina o ferreiro, defender o seu porvir...
Malha o ferreiro, sem descansar
Malha o ferreiro, chispa-me o olhar
Observo ao longe o ferreiro a malhar...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 20, 2004

espiritualidade, uma linguagem livre...

Nada me dá o direito, de asseverar conjecturas inclementes a propósito das "Sagradas Escrituras" não importa de que religião, e considero que os "textos sagrados" em geral exortam as pessoas a praticar o bem, incluíndo o princípio: «não faças ao outro, o que não gostas que te façam a ti mesmo». Simples; tal como eu comentei ontem no blog "A Verdade da Mentira".
A grande diferênça (da qual o Morfeu discorda) é eu não acreditar na imutabilidade dos "textos sagrados" (o que não significa que não concorde que alguns dos mesmos contenham princípios universais que jamais vão estar ultrapassados, e que são uma fonte de permanente inspiração para muitos seres humanos), que quanto a mim, foram escritos por pessoas em tudo iguais a mim, ou qualquer um de nós; provavelmente, com uma inteligência intuitiva mais aguda, talvez detentores de imaginação mística profundamente inspirada, mas não "escolhidos" ou "enviados".
Se Deus existe e eu não estou interessado em "provar" que não existe, da mesma maneira que não gosto de ser influenciado para aceitar o contrário; se eu tiver que o descobrir, encontrá-lo-ei um dia a vaguear no meu âmago.
Cultivo a tolerância, não para ser bonzinho, ganhar o céu, ou qualquer outra forma de "salvação", mas porque pressinto, que é imprescindível seguir a consciência que me inspira, e leva a considerar a humanidade Una, e a perceber que a "salvação" não pode depender de "iluminados" que, por mais abnegados e devotos que sejam, não chegam para aliviar as chagas da humanidade.
Tento não desprezar as pessoas por motivos de cor, credo, cultura, ou qualquer outro... e digo tento, porque não posso dormir à sombra dos louros, porque a consciência me adverte que há muito caminho para andar, muita terra para desbravar, muita semente para lançar à terra, muita vida para admirar...
De quem me afasto, como o diabo foge da cruz?, é dos que sabem tudo, e que vivem entrincheirados numa pseudo-sabedoria dogmática, com a qual ninguém pode bulir. Se o "Criador" me concedeu inteligência, é porque desejou que eu fosse um livre pensador, tão livre que, me arrogue o direito de pensar que o "Criador" esboça um sorriso complacente, por eu ser mais dado a entender-me com as coisas terrenas, e ter a veleidade de lhe pedir que desça do seu pedestal e roçe as suas vestes douradas no pó e na bizarria deste "jardim" desprezado, o qual, têm sido difícil de humanizar, entre muitos outros motivos (e vou cometer sacrilégio), devido também às perversas (mas convenientes) interpretações das "Escrituras Sagrados".
Não procuro vexar, nem ferir susceptibilidades e, é com toda a humildade que afirmo não estar convencido da imutabilidade dos textos sagrados; tudo evolui, tudo se adapta, para não perecer, o perigo de extinção é real, e pode inclusivamente, incomodar o próprio "Criador"; já houve quem o proclama-se morto!, presume-se, que o não esteja, mas a humanidade (ou parte significativa da mesma) haje desesperadamente, dominada pelo medo de tal fatalidade se vir a concretizar.
O facto é que tudo evolui (possivelmente até Deus), tudo, ou quase tudo, está em permanente mutação, e eu não desconfio que tal aconteça, por ensejo de desafiar o "Criador"; e eu, fascinado pelo empolgante fenómeno que é a Vida, sempre atento a ver se lhe descubro algum segredo oculto, sinto que o melhor que há a fazer é respeitar todas as formas de vida (e imiscuir-me o menos possível no processo evolutivo), tão belas e pungentes de vitalidade; estar atento e praticar a auto-disciplina põe-me de bem com a vida.
As "escrituras sagradas" não me incomodam, simplesmente posso duvidar do benefício efectivo que trouxeram à humanidade; não o faço por desprezo , não defendo a abolição das mesmas, só não compreendo, como é que tanta gente que acredita piamente na mensagem divina contida nas "sagradas escrituras", sinta uma tal insegurança, sempre que alguém duvida do conteúdo sagrado das "Sagradas Escrituras"; quem não deve, não teme, só os fracos e os ímpios duvidam...
Todos nós estamos, e estivemos expostos a influências culturais, que geram necessidades e dependências, que estimulam o dever de perteça, de identidade colectiva, de agregado que responde ao mesmo chamamento, que fala a mesma língua, que usa os mesmos códigos, que persegue os mesmos inimigos, e esconjura os mesmos fantamas; todos nós cedemos às mesmas futilidades, todos nós fomos enganados, todos nós, permanecemos sós... ultrajados pela insignificância de ao fim de tanto tempo, ainda não nos ter sido concedida liberdade de conhecer, de estender a mão, e o olhar, na esperança de vislumbrar alguma forma de eternidade, uma oferenda espiritual que nos conceda superar a imbecilidade.
Não pretendo ser cínico, nem pretendo ridicularizar opções distintas da minha (que eu pretendo mutável, capaz de se adaptar às exigências da evolução humana, dialéctica...); o que eu pretendo é abrir janelas, é libertar a alma de miasmas, é dialogar, é não temer a ruptura com os convencionalismos (não me serve a insolência mesquinha, nem a irreverência estéril, entre outras coisas...), é não renegar a espiritualidade intrínseca à condição humana, sendo a mesma identidade de ser, a tentar emergir da ignorância de não-ser.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:21 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 18, 2004

O indelével gosto da mediocridade!

A ideologia consumista narcotiza o cidadão desde tenra idade, tornando-o vulnerável à insidiosa propaganda difundida preferencialmente através dos meios de comunicação social.
A propaganda de apoio ao pleno funcionamento do sistema, possui uma capacidade de persuasão hegemónica, um poder temível, tecnicamente apetrechado para modelar a vontade, o gosto, o senso crítico e a liberdade de escolha do cidadão comum.
Uma sociedade que faz alarde de ser o baluarte da liberdade e da defesa dos direitos humanos, mas cujos mentores apostam no desenvolvimento sistemático de uma extensa rede de influências e formas (com graus de subtileza diferentes consoante os destinatários) de coacção mental, moral, cultural,etc... em tudo similar às vedações das prisões de alta segurança; esta rede de influências interactivas evitam (com elevado grau de eficácia) a dissidência e fuga do cidadão comum, quer o mesmo esteja (des)iludido ou não com o sistema vigente; a "bonomia" intrínseca do sitema não se discute, não sendo dogma abominável, transformou-se em tema tabu.
Os cidadãos gozam a ilusão de liberdade, de uma liberdade de pacotilha, saida de cadeia de produção massiva, como fiadas de pensamentos pré-definidos, de ideias pré-concebidas, em suma, de liberdades pré-cozinhadas, higienizadas, pasteurizadas, assépticas, é sempre bom prevenir o desenvolvimento dos germes do descontentamento, situações indesejáveis, que podem ser causa de distúrbios gástricos, ou mal estar difuso, cujas causas à partida e igualmente à chegada, nem sempre são facéis de identificar, ou pelo menos de divulgar ao público, ou em público.
Esta forma de "uniformização" da liberdade, cada cidadão continua a ter uma leira personalizada, um espaço onde presume cultivar ideias e opiniões genuínas, e igualmente, onde entende ter liberdade de escolher o que lhe apetece plantar e exprimir com espontaneidade o que lhe cresce nas pradarias e serranias da alma; cultiva a ilusão de ser livre criador (e de facto a liberdade é criativa e tendencialmente subversiva); assim o cidadão cuida ser um subversor nato, pouco importando as regras, normas e valores que o sistema lhe queira impor, e quais os termos e meios que use para o fazer, ele, cidadão, que ainda é um livre pensador, que expõe sem medo, as contradições e ambiguidades do sistema; claro, que o sistema tenta dissuadir: "veja lá, no que se mete!", "veja lá, o quanto pode perder!", e perder é sempre importante, são as portas que se fecham, os incómodos que se erguem, altas e intrasponíveis muralhas de incomprensão, de desdém, de marginalização e de ostracismo.
A evolução do sociedade não pressupõe que seja apagada uma única linha à cartilha onde estão inscritos os princípios dogmáticos que suportam e viabilizam o sistema de valores vigentes, esses princípios imbuídos de dinamismo mais aparente que real, veiculam a vontade missionária de expansionismo disssuasor, nenhuma ideia antagónica deve sobreviver, e se por ventura essa ideia, se transformar em potencial opção, em alternativa consistente, mal dê os primeiros passos, a vigilância do sistema reage, infiltra-se, conspira, corrompe e depois abertamente, desacredita e admoesta, envergonha e pune, recorre a qualquer meio, e toma medidas cruéis, sempre que tal se revelar prudente, qualquer oposição ao sistema deve ser cerceada pela raíz, sempre se disse que: «o mal deve ser cortado pela raíz», para que não alastre, para que não deixe descendência? Infelizmente o "Bem" instituído, sistematicamente revela-se um Mal, bem real, mascarado, normalizado, podendo afirmar-se, que passou em todos os testes de "qualidade" a que foi submetido pelas "autoridades" competetes, "Aprovado".
A propaganda encarrega-se de "arranjar" um rosto convincente, afim de tornar o produto admiravelmente consumível, «de comer e chorar por mais» e absolver a mente do cidadão comum dos tormentos do desenvolvimento do senso crítico.
Estabelecem-se relações promíscuas entre as influênias que buscam avidamente os prazeres da mesa, da cama, num ritual de concupiscência degenerativa; atitudes e comportamentos híbridos nascem dessa miscigenação de influêncas, numa desregração total que nada tem de ingénua, o ar está repleto de eflúvios estimulantes, desencadeiam-se comportamentos competitivos, arreigados no culto da ideologia individualista e do mito do sucesso individual, sem olhar a meios.

Qual a importância deste assunto, não será pura perda de tempo?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:25 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 17, 2004

"ISTO SÓ NESTE PAÍS"?!!!...

"ISTO SÓ NESTE PAÍS"
"Em 31 anos, o nº de lares sem água canalizada passou de 52,6% para 2,1%.
«Parece-lhe muito? E se lhe dissermos que foi muito mais?....(o desfilar da ladainha vai por aí fora, de sucesso em sucesso).... Como vê, desde Abril de 74 que os portugueses têm conseguido uma evolução extraordinária. E isso é algo para celebrar.» Publicidade DN - Pag. 15 - Sábado, 17 de Abril de 2004
Blasfémia! Nem uma palavra a mencionar a instauração da democracia e da liberdade, imaginem comemorarmos o 1º de Dezembro, sem mencionar que afinal a mesma devolveu a independência ao país; parece que existe uma relação directa entre o (sub)desenvolvimento do sistema de educação aberto a todos e a construção das auto-estradas, e eu que pensava que as auto-estradas tinham sido construídas para que os produtos espanhóis chegassem mais frêscos ao consumidor português!
Não basta já, de lastimoso optimismo provinciano?
Será desta forma que se ergue a moral de um povo?
A (R)Evolução de Abril chegou a isto?
Será isto uma maneira de testar a estupidez lusa ?
Continuam a teimar em fazer passar a ideia de que somos um país de sucesso, quando durante estas trés décadas, o país aproveitou (e ainda continua a aproveitar) mal, as oportunidades e as ajudas que podiam ter contribuído mais eficazmente para a insercção do nosso país na CEE.
A nação nunca saberá onde foram parar milhões de contos (apesar de desconfiar) de fundos que foram mal aplicados e desviados.
A educação foi uma paixão assolapada, que falhou, e a prova disso é a chico-espertice vigente, a má preparação dos quadros médios e superiores, que continuam a receber cheques chorudos, só para assinar uns papéis, sem ter que assumir as responsabilidades que cabem ao desempenho das funções para que estão habilitados. Claro, que existem excepções, ou o país já tinha falido em várias frentes (económico-financeira, empresarial, cultural, artistica, comunicacional...), e o que temo afinal é que na realidade, as excepções confirmem a negligência transversal que grassa na sociedade portuguesa, e que raramente é penalizada a sério, o país prefere continuar a culpabilizar as massas trabalhadoras pela má produtividade das empresas portuguesas, resultando nas más prestações da economia, quando na maioria dos casos, estamos perante problemas de gestão, devido a escassa e deficiente formação da classe empresarial, isso torna-se evidente quando pensamos na vergonhosa fuga maciça ao fisco; no desvio de fundos; nas falências fraudulentas; etc....
Existe uma relação dramática entre este fenómeno e o fiasco da educação, o facto de se ter conseguido alfabetizar a maioria da população, não é sinal de retumbante sucesso, o dinheiro gasto daria para fazer, muito melhor; caso tivesse havido vontade política e consciência cívica (seria exigir muito?) a mentalidade colectiva teria "evoluído" de forma mais consistente, a generalidade da população estaria melhor preparada, mais culta e mais crítica, e também mais consciente dos deveres cívicos intrínsecos de ser parte integrante de uma sociedade.
A página publicitária que deu origem a este artigo é ridícula, prova a atitude mesquinha, comum em Portugal, que procura dar relevância a obra feita, que no entanto, ficou muito aquém do que podia ter sido, quase sempre por negligência dos agentes envolvidos, ou baseada em estudos mal feitos, incompletos e mal fundamentados, e quantas vezes isso acontece, em defesa de interesses pouco transparentes, isto quando a corrupção pura e dura não foi (in)directamente o principal catalizador do empreendimento em causa.
Trinta anos, deveria ser tempo mais que suficiente para a Nação ter a humildade de encarar a realidade do passado recente e debaté-lo sem se refugiar em falsos pressupostos de sucessos (no mínimo discutíveis) conseguidos pela sociedade portuguesa, quando é tão fácil perceber os atrasos atávicos que continuam a impedir a saudável "evolução" dos cidadãos que a integram; aos que continuam a ter uma imaginação demasiado febril, capaz de fabricar miragens de sucessos a torto a direito, eu aconselho, logo pela manhã, um balde de água gelada, despejada pela cabeça abaixo. Seria melhor que estivessem moralmente preparados para pedir desculpa aos portugueses, que ao longo destas três décadas têm sentido na pele os efeitos dos dislates político-partidários praticados e nunca assumidos, ou será que a miséria que por aí grassa é obra do diabo?! a conjuntura internacional pode não estar favorável, mas a deplorável situação nacional espelha essa situação e muito mais...
Um sinal de "Evolução", individual, colectiva, corporativa, institucional ou outra qualquer, pauta-se pela coragem de admitir que se errou, é mais sádio admitir os erros, debater publicamente os problemas que minam a confiança dos cidadãos, estabecer estratégias viáveis e não falsas promessas, ou demagogia eleitoralista de laurear por feiras e mercados.
Muitos portuguesses, certamente gostariam de sentir que eram da mesma nacionalidade que muitos daqueles que os querem governar, ou seja, portugueses. A oposição, entre a esquerda e a direita ou vice-versa, só faz sentido quando ambas as facções estão interessadas na verdade, quando a verdade dos factos, está acima dos interesses partidários, ou outros; e quando assim não é, é toda a sociedade que está doente, e sem remédio, e tal como dizia o escritor Mário de Carvalho: «Sem emenda».
Que seja um asno ordinário, ainda vá que não vá; mas que me queiram transformar num asno extraordinário; que após trinta anos de (R)Evolação, vá zurrar (celebrar) para a rua os extraordinários feitos (precisamente num momento em que o país real ilustra bem as consequências, que seria conveniente imputar ao governo anterior!), quando o mal tem raízes profundas, e o povo, em nome do qual se fez revolução, sente que continuam descaradamente a faltar à verdade, em seu nome.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 16, 2004

Democracia é (R)evolução

Após 30 anos de democracia, maturidade ou desilusão?
Sinais de detioração?
Sofrerá a democracia de esclerose múltipla?
Estará o fluxo de liberdade (a seiva vital da democracia) impedida de fluir?
O risco é o sal da vida.
Liberdade sem ruptura, não é liberdade, é resignação e passividade.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:26 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 15, 2004

Liberdade sem expressão (cont.)

Um dos piores procedimentos que afectam a liberdade de expressão, é concerteza, dá-la como adquirida, daí a um passo instala-se a negligência, daí a dois passos está corrompida, daí a três passos, passa tudo ser normal!
Por falta de escrúpulos de uns e falta de atenção de muitos, desenvolve-se uma relação promíscua entre a liberdade de expressão e o cidadão que a usufrui; daí a quatro passos é o desinteresse que assume as rédeas da realidade; ao quinto passo, já não escorre um pingo de elixir ético, capaz de rejuvenescer a liberdade de expressão; o sexto passo, é o mais difícil de descortinar, porque ninguém quer limpar a remela residual excretada pelo processo de consolidação dos interesses pessoais e institucionais que aproveitam a via aberta da liberdade, em grave perda de expressão.
Não existe liberdade de expressão, sem auto-disciplina, mas a auto-disciplina precisa de ter as raízes mergulhadas em boa fé, fenómeno muito raro, pelo menos, quando estão em jogo interesses económicos e financeiros; nesse caso só um inequívoco código ético poderia salvaguardar os interesses da liberdade de expressão e de quem dela necessita para manifestar (des)contentamento no que respeita aos assuntos da nação, incluindo as "negociatas" políticas e os "arranjos" económicos, vulgo panelinhas, que são preparadas em locais protegidos, onde a enfadonha liberdade de expressão não tem entrada.
Educar para a liberdade e educar para a expressão, a unir as duas, uma ponte: a auto-disciplina, que também se educa; aprender a dedilhar as cordas do coração, o próprio, é como receber formação musical, é evoluir para a descoberta da identidade pessoal, sem sentir necessidade de espezinhar jardim alheio.
Diz-me a consciência, que a liberdade de expressão tende a definhar num ambiente em que predomina a competição e esteja enraízada a dependência consumista; comportamentos que levam à devassa da liberdade de expressão, ou não estivessem ao serviço da vaidade pessoal, da procura de protagonismo, sem olhar a meios ou pretextos; exacerbar os instintos de posse e manipulação, é o caminho certo para trapaçear a liberdade de expressão, que passa a fazer sentido, já não importam os métodos, desde que os resultados sejam satisfatórios.
A liberdade de expressão para sobreviver à predação consumista globalizada, necessita de estar protegida por esteios morais fortes; argumenta-se com frequência que o carácter humano é volúvel, para mim, não passa de uma afirmação falaciosa; outros males corroem as fundações morais da liberdade de expressão, tais como: o constante assédio, o cansaço psicológico, a instabilidade emocional, a confusão mental, o vazio espiritual, o labírinto cultural, em suma, o pântano existencial, onde a única coisa que cresce é a humana estagnação; males estruturais, mas também conjunturais a que não é muito fácil escapar; o contacto directo com uma ou várias destas influências provoca intoxicação de grau variável, consoante o tempo de exposição e o nível de concentração, mas é sempre devastador para a liberdade de expressão.
A educação, contínua a não contribuir para a descoberta da identidade individual, o desenvolvimento da personalidade deve ser acompanhado pelo despertar da consciência moral; moralizar não é o mesmo que normalizar; não se pode falar de moral sem mencionar a criativiade, a criança necessita de experimentar um mundo de liberdade, de verdade criativa, esta é a linguagem do amor, alquimia consciente, transformada em genuína comunicação, e só a simplicidade explica, o que é realmente importante.
O ideal político, estético, cultural e mais relevante, o ideal moral e espiritual não pode estar ausente da vida infantil, a assepsia excessiva, o proteccionismo, resultam em esterilidade perniciosa, é a saúde integral da criança que pode estar em causa. A Verdade em nenhum momento da vida, pode estar ausente, sobrevive-se a muitos traumas, mas a ausência de Verdade, pode ter resultados terríveis, dificilmente diagnosticáveis, mas das quais resultam imensos distúrbios; desencanto, agressividade latente e a grave violência emergente.
Caso fosse possível explicar de forma plausível quanto perde a humanidade por se deixar enredar em suposições de sucesso duvidoso; talvez se apercebe-se do quanto "ganhava", em estabelecer ligação com a voz interior e dar consistência ao sentido crítico, esforçar-se por despertar para uma nova realidade, neste caso, não se trata de nenhum produto inovador, mas tão simplesmente, da tão velha consciência redescoberta, sempre nova, criativa, afável e disposta a comprometer-se, a desenrolar novelos, mesmo os mais emaranhados, mesmo os mais empoeirados, mesmos os mais intrincados.

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abril 14, 2004

Crónica: El País

"Observe, observe de novo, torne a observar"
(Flaubert, a Guy de Maupassant)

Estes gajos vivem para ultrapassar-se uns aos outros: em Literatura; no mercado de trabalho; na cama, com as mulheres e ao volante nas estradas. Ontem, quando vim, a pé, de Vila Verde, gostava que tivessem caminhado a meu lado, para rirem, comigo; destes automobilistas a competir.
É um país de corredores, de pedestres, intelectuais, de ciclistas.
É enormemente pequeno, mas de uma pequenez comovente.

Sebastião Alba, Albas

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abril 13, 2004

Espelho oportuno

«É minha decidida convicção que nenhuma instituição meritória morre por falta de amparo. A morte das instituições deve-se a não haver nada que as recomende ao público ou porque os homens que as chefiam perdem a fé ou o que talvez seja a mesma coisa, porque perdem a perseverança. Daí eu exortar os chefes de tais instituições a não se submeterem à depressão geral. Estamos num tempo de exame para as instituições dignas e verdadeiras.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

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abril 12, 2004

A genuína moral

«A verdadeira moralidade consiste, não em seguir o caminho já preparado, mas em encontrar a nossa própria vereda e segui-la sem temor.»

Nenhuma acção que não for voluntária pode ser chamada moral. Enquanto nos movimentarmos como máquinas, não se pode tratar de moralidade. Se quisermos chamar moral a qualquer acção, ela deve ser feita conscientemente e com noção de dever. Toda a acção que é ditada por medo ou por coerção de qualquer espécie deixa de ser moral.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 11, 2004

Raízes do mal

«Aquele que procura destruir homens em vez de costumes, torna-se tão pernicioso como os homens que destrói, porque haje influenciado pela errada crença de que os costumes morrem com os homens. Desconhecem a raíz do mal.»

«O fim a ser demandado é a felicidade humana combinada com um amplo desenvolvimento mental e moral. Uso o adjectivo moral como sinónimo de espiritual. Esse fim pode ser achado sob uma descentralização. A centralização como sistema é incompatível com a estrutura não violenta da sociedade.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

A liberdade sem expressão!

Os agentes económicos habitam um condomínio fechado, ultra-vigiado e ultra-selectivo; a democracia fica à porta, aguardando pelas migalhas (esmola dada de má vontade e só depois de terem garantias que não são incomodados tão depressa).
A liberdade de expressão, o mais sagrado bem que a democracia colocou ao dispor dos cidadãos está cada vez mais cerceada; ao cidadão comum é vedado o acesso aos meios de comunicação social, e quando a sua presença é aceite ou requerida, num estúdio de televisão (traz água no bico), ou pretendem fazer dele um boneco animado, ou então é porque tem algum relato dramático capaz de emocionar a plateia lá em casa, manté-la colada ao sofá, enviando mensagens, ou indignando-se com as injustiças que grassam por este país.
Mas no caso de algum cidadão pretender usar o serviço público de televisão, por entender que tem algo a comunicar ao país, nem sequer é ouvido, provavelmente seria gozado, ou mesmo escorraçado; para que o cidadão comum consiga fazer ouvir a sua voz, as alternativas são escassas ou em certos casos nulas, talvez algum jornal aceite publicar uma carta enviada pelo leitor, mas creio que, se o conteúdo for considerado "exageradamente" subversivo (mas não ofensivo) o mais provável é que não lha publiquem.
Quanto ao local de trabalho, "o sítio", onde o cidadão gasta mais horas por dia, raramente tem direiro a ter opinião, mesmo quando se vê na contingência de suportar condições de trabalho insalubres e injustiças diversas, aconselha-o o "bom senso" (o medo de ir parar ao desemprego) a ficar calado, a sofucar em silêncio, para não ficar à míngua (ele/a e o resto da família).
A "liberdade de expressão" a que o cidadão comum tem acesso, resume-se a poder gritar e insultar a plenos pulmões, nas arenas futebolísticas, contra o árbitro que lhe prejudica a vida, que lhe rouba os golos, que o faz perder as estribeiras, e que em último recurso, deve concerteza ser culpado da sua vida de merda.
Não é a democracia que está em causa; o que está em causa, é a democracia ser terra de liberdade? ou degredo inóspito para um número cada vez maior de cidadãos? vigiados pela escrupulosa guarda que protege os interesses económicos, e não se compadecem com paternalismos democráticos, encarregando os servos políticos das lides domêsticas, que para mais não fazem falta, nem tem competências, na maioria dos casos.
Actualmente é difícil fazer jornalismo de investigação (tive oportunidade de ver excelentes peças documentais que passaram no programa «Sinais dos Tempos»; um contributo inestimável, porque me deu a conhecer manobras políticas, fraudes económicas, crimes ambientais, crimes humanitários, sordidez da pior espécie...que de outra forma, teria permanecido oculta), porque conseguir autorização e disponibilidade de meios que permitam ao jornalista investigar casos de corrupção política e económica, crimes ambientais, ou as ligações do mundo do crime organizado à alta finança internacional, etc... não é do interesse dos magnatas da comunicação.
Se a liberdade de expressão é o baluarte da democracia, então a democracia está empobrecida, uma vez que o acesso a informação honesta e bem fundamentada é pura miragem sem rosto. Muitos dos jornalistas praticam um jornalismo que engana a própria liberdade de expressão, transformando o acto de comunicar, em orgia fragmentada e descontextualizada. A mais estrondosa iniquidade penetra em todos os lares, é desolador e caricato que seja possível falsear mais a informação do que no tempo da censura; atolado com informação falaciosa e propaganda consumista, o cidadão é desviado dos assuntos polêmicos, é baralhado, e acima de tudo é demasiado solicitado, cansado até à estiolação, para que não lhe sobre um pingo de ânimo, deve submeter-se à "liberdade de expressão", que o poder económico usa sem restrições morais, porque censurar é crime, mesmo a mais pérfida propaganda publicitária.
Enfim, a presente situação é defendida por muitos, mesmo dos que são explorados pelo sistema, uma vez que estão convencidos de que nada há a fazer.
Não é a democracia que é defeituosa, está anémica e quem a vampirizou não está agora disposto a ajudar, têm mais que fazer, estão envolvidos noutros projectos e quando chegar a altura propícia, ditar-lhe-ão o destino, entretanto quase nenhum jornalista, levanta a sua voz e proclama que é obrigado a manipular notícias, e que a liberdade de expressão é cerceada todos os dias, sem excepção.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

A vida é uma aspiração

«A desobediência, para ser civil, deve ser sincera, respeitosa, comedida, nunca provocadora, deve ser baseada sobre algum princípio bem defenido, não deve ser caprichosa e, acima de tudo, não deve ter má-vontade ou ódio atrás dela.»

« A vida é uma aspiração. A sua missão é o esforçar-se por chegar à perfeição, que é a auto-realização. O ideal nunca deve ser rebaixado por causa das nossas fraquezas e imperfeições... Aquele que amarra o seu destino à ahimsã, a lei do amor, encurta diariamente o círculo de destruição, e amplia a vida e o amor; aquele que jura pela himsã, a lei do ódio, alarga diariamente o círculo de destruição, e amplia a morte e o ódio.»

M. k. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:13 AM | Comentários (2) | TrackBack

abril 10, 2004

Euro 2004 e Rock in Rio vs Plano de prevenção dos fogos florestais

«Estão entretidos com o Euro 2004 e esquecem a prevenção dos fogos florestais» disse ao DN Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP).
Esta opinião é partilhada por Duarte Caldeira, que lidera a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP): «Sentimos que se está a sobrevalorizar uma situação conjuntural, esquecendo que depois do Euro teremos mais dois meses de Verão», referiu ao DN.
As críticas da LBP e da ANBP são confirmadas pelo próprio Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), num comunicado datado de 26 de Março, em que o organismo reconhece que «tem tido particular atenção aos assuntos associados ao planeamento e preparação do socorro no que respeita ao Euro 2004 e ao festival Rock in Rio». DN Tema, Pag. 2 - Sábado, 10 de Abril 2004

Não me apraz dissertar sobre futebol, exaspera-me o provincianismo que rodeia o Euro 2004, depois porque o futebol (enquanto espectáculo de massas) para mim significa, alienação e nada mais. Também não consigo perceber porque razão, gente que não é exemplo de nada (fanfarrões, vaidosos, oportunistas, etc...) têm mais protagonismo que cidadãos que contribuem para o desenvolvimento científico, cultural e artístico deste País; as portas da comunicação social abrem-se de par em par para os senhores da bola, que são religiosamente ouvidos e lidos por uma pléiade de seguidores, cujo fanatismo, em certas circunstâncias pode tornar-se perigosamente fundamentalista.
O Rock in Rio, é mais um daqueles acontecimentos "culturais" de indubitável interesse, que coloca o País no roteiro internacional deste género de eventos; o protagonismo e a consequente projecção internacional, darão algum pedigree especial ao País, passará a integrar o quê? Que poletão da frente? Será que ninguém se apercebe que isto não passa de propaganda e alienação, que convém enredar os jovens nestes pseudo-eventos culturais, colocar estas fantochadas num pedestal, transformá-las num culto mágico/mitológico para os jovens, manipular-lhe os gostos, de todas as formas e feitios, para lhe extorquir a autonomia de pensamento, é melhor que sigam ícones vazios de ideias, e de ética e se tornem dependentes de subprodutos culturais, na sua maioria, de qualidade péssima, uma intrujice, nem mais, só tolerável pelo dinheiro que faz correr para os bolsos de alguns, essa é a única razão para tanto alarido.
O planeamento para o combate aos fogos florestais pode esperar.
O último estio foi devastador, e pelo que se pode inferir nenhum plano de prevenção está pronto para a época que se avizinha. O futebol é mais importante que a floresta! o Rock in Rio é mais importante que a floresta! Obviamente que não, e as pessoas que têm responsabilidades nessa área sabem-no bem; a organização dos trabalhos falhou, e o dossier relacionado com a prevenção dos fogos florestais foi negligenciado; perante eventos da magnitude do Euro e do Rock in Rio, não era de esperar outra coisa; quanto ao apuramento das responsabilidades políticas por negligência, jamais serão admitidas, por mais graves que sejam as consequências daí resultantes.
A floresta merecia mais atenção, mais empenho e honestidade por parte das autoridades políticas, que de vez em quando podiam por de lado o politicamente correcto, e meditar um pouco mais no País profundo(mente) desconsolado de ser tão esquecido.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:15 PM | Comentários (1) | TrackBack

Situação «altamente preocupante»

O Presidente da República numa entrevista à Economia Social, revista trimestral da União das Mutualidades Portuguesas (UMP), que será lançada na segunda quinzena deste mês, alertou para o risco do aumento da pobreza em Portugal. «Eventuais recuos ou reformulações precipitadas nas políticas sociais» podem ter «efeitos muito gravosos na vida das populações e conduzirem, em pouco tempo, a subidas surpreendentes nos números sobre a pobreza», afirmou Jorge Sampaio. DN, (pag. 8 Nacional) Sábado, 10 de Abril 2004

A que se deve, pois então, o aumento a pobreza?
Em parte, à desenfreda tentação do governo actual para apagar os eventuais vestígios duma política social de apoio aos mais desfavorecidos, tentando fazer passar a ideia de que muitos dos que estão abrangidos por programas (como o caso do rendimento minímo garantido), não merecem que o estado invista neles o exorbitante subsídio que recebem por mês. Talvez, alguns dos indivíduos que recebem essa prestação social, eventualmente não a "mereçam", devido a recusarem aderir a algum projecto que vise inseri-los na sociedade, são alérgicos ao trabalho, como afirmam, os que dele fogem, como o diabo da cruz!
Os casos fraudulentos seriam assim tão difíceis de detectar? Será que não é uma vergonha, o governo, na pessoa do ministro Bagão Félix, arranjar desculpas esfarrapadas para destruir paulatinamente o já insuficiente serviço de apoio social deste país?
Manter e reforçar as assimetrias já existentes, vulnerabilizar e excluir, faz parte da governação actual, o governo aproveita para realçar e enaltecer os "bem sucedidos", divulgá-los como heróis nacionais; estado de graça, e "sucesso individual" caminham de mãos dadas, são colunáveis, têm acesso às luzes da ribalta. O "sucesso" social e profissional, é sugerido como acessível, mas de facto o bolo não chega para todos, aliás, a maioria nunca chegará a saber do seu paradeiro, e que não se iludam os que pensam que o empenho pessoal é garantia suficiente para aceder às migalhas desse bolo tão cobiçado.
O que mais irrita na política é o constante recurso à mentira, ou se preferirem ao "esquecimento", excluir factos imprescindíveis para o apuramento da verdade é prática corrente e, no que concerne à questão do aumento da pobreza (tapar o sol com uma peneira, de nada serve), a fragilidade da economia portuguesa demonstra que um dia destes não temos onde nos agarrar, as empresas, na generalidade estão mal dimensionadas e estruturadas para um mercado globalizado, e as multinacionais fazem gato sapato dos governos (seja de direita ou de esquerda, não se iludam), as opções políticas estão cada vez mais condicionados à vontade do poder económico e finaceiro (de que serve escamotear a verdade?), sem recursos alternativos (a não ser que a nação regresse às ex-colónias, na condição de emigrante), a situação portuguesa é delicada, eu diria deplorável, a agricultura de rastos, e sem estratégia sustentável que possa reaminá-la, a indústria não é competitiva (alguns sectores estão condenados; sem que se vislumbre uma aposta séria na reciclagem dos mesmos), em alguns casos obsoleta, completamente inviável (e não culpem sempre a baixa produtividade dos trabalhadores); o turismo, será o turismo capaz de colmatar o descrédito nos restantes sectores, não acredito?
Portugal está, literalmente, entregue à bicharada (alguma vez o cidadão vai saber onde foram gastos os dinheiros provenientes da CEE? Nunca o saberemos? e não será que deveríamos exigir saber onde foi gasto? numa altura em que parte da nação está a sofrer, também devido ao mau uso dado a esse dinheiro.
A pobreza explica-se, tem causas, é consequência, dramática para muitos, e sempre um atentado à dignidade do cidadão, mesmo quando pretensamente o consideramos um auto-excluído, um marginal, ou até mesmo um delinquente.
As preocupações do Presidente da República são oportunas, no entanto são inconsequentes, quanto mais não seja, pela simples razão, de que quem podia contribuir para minorar esse flagêlo, ou julga-se imune e por isso canta de galo, quando na verdade, nem galinha choca chega a ser, ou então não tem nem prevê ter familiares e amigos em situações semelhantes; a inércia mais uma vez vence, ajusta-se às conveniências de funcionamento do sistema, que continua a prosperar à sombra dos despedimentos (saneamento estrutural), e das falências fraudulentas; os donos das empresas esquivam-se às responsabilidades empresariais, sociais e cívicas, outro exemplo a destacar como paradigma de sucesso pessoal, numa sociedade como a portuguesa que exacerba o chico-espertismo exibicionista e parasitário que gosta de chacotear os menos afortunados.
Em 25 de Abril de 1974 abriu-se uma janela para a liberdade, os portugueses rejubilaram e o regime democrático acabou por vingar, mas será que se pode considerar consolidado? quando parte significativa da população continua a viver na miséria, privada dos elementares bens de primeira necessidade; a pobreza e a miséria social são uma forma de coacção social, moral e cultural, são grilhetas que suspendem a liberdade dos cidadãos, relegados para uma espécie de limbo existencial, que a maioria de nós de recusa a ver, quanto mais a sentir.

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abril 09, 2004

A alma da arte; a arte com alma...

«Nas coisas há dois aspectos -- o interior e o exterior. E para mim apenas uma questão de realce. O aspecto exterior não tem significado a não ser quando sirva de ajuda ao aspecto interior. Por isso toda a arte verdadeira é uma expressão da alma. As formas exteriores só têm valor na medida em que sejam a expressão do espírito interior do homem. A arte da natureza desperta-me o mais que é possível. Mas sei de muitos que si mesmos se chamam artistas, e como tal são reconhecidos, que nos seus trabalhos não têm nenhum traço da inquietação e impulso ascensional da alma.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

Não-violência e justiça social

«Nenhum homem pode ser activamente não-violento sem se levantar contra a injustiça social onde quer que ela esteja»

«O princípio da não-violência precisa de abstenção completa de exploração seja em que forma for»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

A evolução das espécies e dos indivíduos, de mim e de si também!

A teoria da evolução proposta por Charles Darwin, inspirou-me, a mim leigo que aspira desbravar a extensa pradaria do conhecimento que se estende até onde a imaginação ousa aventurar-se. As ilhas Galápagos, laboratório vivo onde Charles Darwin conseguiu, ao seu tempo, e em primeira mão, estudar in loco, animais e plantas morfologicamente distintos do que até então era conhecido.
Escancaram-se assim as portas a uma nova era de conhecimento científico, com as inevitáveis mudanças na mentalidade predominante baseado no dogma religioso, que referia a existência das espécies como criação imutável da vontade e poder divino.
Acontece que nem a espécie humana estava isenta do "pecado" da mutabilidade evolutiva, dinamismo que demostra quanto a vida é prodigiosa, de como o desejo de perfeição integra a constante necessidade de adaptação ao meio ambiente, simbiose de comprimisso, que nem sempre resulta mas que tende a gerar harmonia sutentável.
A teoria evolucionista, expressa na obra «A Origem das Espécies», apresentada por Charles Darwin em 1859, veio revolucionar a concepção da origem da vida no planeta Terra e da forma como a mesma tinha evoluído; segundo Darwin as espécies adaptavam-se ao meio ambiente, através de mudanças morfológicas contínuas que a longo prazo aumentavam a possibilidade de sobrevibência da espécie, exceptuando os casos em que o excesso de especialização, podia tornar-se dramático, mesmo em caso de ligeira alteração ecológica (há casos de simbiose levada tão longe que a sobrevivência de duas espécies gerou interdepência, devido ao facto de terem evoluído em regime de exclusividade adaptativa.
Eu diria que em muitos casos a sociedade contemporânea difunde subliminarmente a velha ordem defensora do dogma da criação imutável; o qual, continua a influenciar a mentalidade de muita gente que exteriormente aparenta estar completamente inserida e dependente do vertiginoso progresso científico e tecnológico, mas que intimamente permanece agarrada à imutável estabilidade do "conhecimento" que não se discute, influências do meio familiar, mas também das referências históricas, que deixam marcas tanto mais perversas, quanto pior são apreendidos; a dimensão mística e mitológica dos fenómenos religiosos embriaga-nos; as ideias claras e inequivocas atemorizam. Nenhuma época prescinde de impor estereótipos de comportamento estáveis, previsíveis e controláveis, na prática imutáveis, não da imutabilidade transcendental que a religião lhe atribui, mas da imutabilidade pragmática dum sistema que sobrevive à custa de entorpecer as capacidades adaptativas do cidadão, para que o mesmo não crie a ilusão de que pode e deve exigir espaço e tempo (que desenvolva a consciência crítica de modo a comprender como quer adaptar-se à realidade que o rodeia, ao invés de ter que contrariar o que o seu sentido de independência e identidade lhe aconselha.).
A teoria evolucionista pode ser aplicada ao desenvolvimento do ser humano desde que nasce até que morre, quanto mais desadaptado estiver, melhor resistirá às perversões das mudanças aparentes, esse tipo de mudanças estimula dentro de cada um mutações que o levam a aceitar condições artificiais, que não passam de modas passageiras, mas cujas influências são determinantes, se tivermos em conta o poder e influência que exercem em grande parte das pessoas, e que obviamente leva a que essas pessoas contribuam para a involução da espécie, verdadeiro retrocesso civilizacional, ao qual é tão fácil aderir.
Quando o cidadão segue esse falso conceito de evolução, adapta-se a uma ilusão que ao desfazer-se, deixa o indivíduo sem "ferramentas" de sobrevivência num meio que é muito diferente daquilo que suponha. Caso o indivíduo esteja demasiado "deformado", devido à falsa tentativa de adaptação, pode ser impotente para enfrentar a realidade, tal qual ela é, um fantasma da extinção paira no ar, qual abutre aguardando o sucumbir do espirito de ser.
Discernir mudanças aparentes de mudanças reais, numa sociedade que preventivamente distribui pela população a dose certa de alienação, preferencialmente através de propaganda consumista, é tarefa pouco apetecível, pudera habituados a substituir o pensar pelo desejar, pelo querer aqui e agora, quando a obtenção de prazer está acima de qualquer outra actividade humana, é muito difícil impedir o avanço da nova era glaciar, talvez venha a emergir um pensamento novo, uma estética de vida construída a partir da ética de ser, talvez a civilização venha um dia a reconhecer que afinal podemos evoluir como espécie, não devemos estar condenados só porque numa determinada fase, enveredamos por ínvios caminhos de normalização involutiva, restritiva da liberdade de emprender a adptação ao meio ambiente, é que evoluir, pressupõe adaptação não destrutiva, recorra-se a que argumentação se quizer, será sempre dogmática, retórica falsa.
Tendo o saber,pendor evolutivo, cabe ao indivíduo tentar adaptar-se devidamente às circusntâncias em que terá acesso ao conhecimento, inserido num ambiente repleto de informação diversa e contraditória, nem sempre é fácil conseguir-se escapar às influências que vão determinar que o cidadão evolua com base em falsas percepções dos seus interesses como espécimen.
Charles Darwin provou que as espécies evoluem, eu quero "provar" que o ser humano pode evoluir, descobrindo a sua identidade, de maneira a conseguir sobreviver num meio social e cultural que tantas vezes lhe é adverso. Uma boa adaptação ao meio sócio-cultural, não significa apatia resignada, mas pelo contrário, pauta-se por impedir que decidam por si próprio, ignorando-o; cada cidadão tem que contribuir para a evolução da espécie, caso não queira ser uma mera alavanca, que outros usam para arrancar à terra as riquezas que vão usar em benefício próprio, quer dizer em detrimento da evolução da espécie, uma vez que contribuem (literalmente) para a desarmonia global.
A sobrevivência dos mais fortes nunca foi defendida por Darwin; e se hoje à quem a proclame como um facto, isso deve-se ao facto do poder instituído querer apoiar-se nessa teoria de modo a justificar a injustiça de um sistema que considera a competição mais valiosa que a cooperação entre indivíduos, no pressuposto de que o mais forte deve merecer os lugares de destaque por mérito (se o mérito não fosse discutível, em breve a competência erguer-se-ia mais alta que os Himalaias, e destronaria a competição dos altos píncaros da ilusão neo-liberal); a sobrevivência dos mais aptos é um facto, mas tal não se deve a uma estratégia de aniquilação mas de cooperação entre as espécies; à escala humana, o servidão voluntária nunca será a forma correcta da humanidade evoluir como espécie.
Uma vez que o ser humano pode tomar consciência das virtudes da adaptação evolutiva, deve adquirir conhecimentos suficientes para as libertar criativamente, de maneira a não desperdiçar a oportunidade de adaptar esse conhecimentos às reais necessidades evolutivas da sua pessoa, a dificuldade maior está nas adversidades que o meio sócio-cultural ergue, pérfida ilusão de sucesso individual a confundir e magoar, a deixar resquícios de imoralidade por vezes irreversíveis, um meio que afinal devia estar ao serviço da educação para a evolução, está ao serviço da deformação para a regressão, a deturpação do sentido da unidade fundamental que é a Vida, da qual a espécie humana é uma parte, nada mais, e cada ser humano um corpúsculo animado, sensível e abençoado.
Os paraísos artificiais construídos pelos emprendedores artifíces da colectiva
alienação, multiplicam-se em esforços para que as dependências não decrescem de intensidade, os níveis de intoxicação devem ser mantidos a qualquer preço, trata-se afinal da meneira mais fácil de controlar possíveis desertores, o que na prática significa abrir as portas a diferentes formas de adaptação selectiva.
Porque estará o poder económico, político, cultural, religioso, sempre interessado em deturpar a realidade e intervir na evolução individual? Porque tem medo, porque impede o fluxo de vida e o substitue por sucedâneos de péssima qualidade, porque peverte a informação e lança a confusão?
Só pode ser, por piedade! Por classificarem os seus contemporâneos imbecis, incapazes de perceber os mistérios da vida, quanto mais os da criação!
O conhecimento leva a que o indivíduo reconheça as maravilhas da Vida, mas tanta luz podia cegar o olhar inadaptado, das massas humanas, é mais seguro persuadir esse todo informe, a frequentar os paraísos artificiais, a escravizar os sentidos, a deixar definhar a vontade de resistir, aliás, não faz sentido resitir ao prazer, não faz sentido querer amadurecer, não faz sentido evoluir, faz sentido resignar....
Designam-se por "espécies introduzidas" às que originalmente não integravam um determinado ecosistema (ambiente), e que podem contribuir para a ruptura do equilíbrio ecológico existente, podendo levar à extinção das espécies autóctones; assim funciona o falso conhecimento, uma vez disseminado, funciona como um veneno que lentamente vai paralizando o sitema respiratório da vítima, até que a mesma morre por asfixia, o falso conhecimento é contrário à boa adaptação ao meio, confunde, cria desarmonia, destroi a espiral evolutiva do saber que liberta o ser humano da servidão exigida por um sistema de valores inadequados às necessidades evolutivas do indivíduo.
As ilhas Galápagos deram a conhecar ao mundo as espécies mais dóceis e sociáveis que até aí tinham sido estudadas, conclui-se que a inexistência de mamiferos predadores, levou a que as espécies evoluissem sem necessidade de criar estratégias de defesa, o medo não sendo necessário desvanece-se; os seres humanos continuam a servir-se do medo para escravizar os seus irmãos, sem sentirem qualquer repugnância pelos efeitos desastrosos de tais condutas.
Os biólogos continuam a ir para as ilhas Galápagos em busca de conhecimento, ainda hoje são surprendidos com a descoberta de espécies novas; ainda hoje eu sinto que a humanidade deve muito às ilhas Galápagos, como teria Charles Darwin conseguido fundamentar a teoria da evolução das espécies sem o recurso daquele cadinho maravilhoso de vida em mutação (evolução), se a criação fosse de facto imutável, como justificaríamos a necessidade tão humana de criar, de mudar, de romper; perplexo e fascinado quedo eu, de ver que ainda consigo acordar e olhar o mundo com vontade de o transformar, num local melhor para se viver, um lar (home, sweet home); influências evolucionistas, porque as hei-de contrariar...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:18 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 08, 2004

Só o Espírito, quando sopra sobre a argila, pode criar o Homem.

...Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, o filho, bem ou mal, aninhara-se e dormia. Mas a dormir voltou-se e o seu rosto surgiu-me à luz da lampadazinha. Ah! que rosto adorável! Nascera daquele casal uma espécie de fruto dourado. No meio dessa grosseira manada nascera esse prodígio de encanto e de graça. Debrucei-me sobre essa fronte lisa, sobre esse doce trejeito dos lábios, e disse de mim para mim: eis um rosto de músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Os principezinhos das histórias em nada se diferençavam dele: protegido, resguardado, instruído, que não poderia ele vir a ser! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma nova rosa, eis que todos os jardineiros se comovem. Isolam a rosa, cultivam a rosa, protegem-na. Mas para os homens não há jardineiro algum. Como os demais, Mozart menino será marcado pela máquina de embutir. Mozart fará as suas alegrias mais altas da música de pacotilha, na fedorentina dos cafés-concertos. Mozart está condenado.
E regressei à minha carruagem. E ia dizendo de mim para mim: estas pessoas quase não sentem a sua sorte. E aqui não é a caridade que me atormenta. Não se trata de nos enternecermos por causa de uma chaga eternamente reaberta. Aqueles que a têm não a sentem. Quem é ferido aqui, quem é lesado, é qualquer coisa como a espécie humana e não o indivíduo. Creio pouco na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é de modo algum aquela miséria, onde afinal de contas nos instalamos do mesmo modo que na preguiça. Gerações de orientais vivem na imundície e folgam com isso. O que me atormenta não são aquelas covas, nem aquelas bossas, nem aquela fealdade. É um pouco, em qualquer desses homens, Mozart assassinado.

Antoine de Saint-Exupéry, Terra dos Homens

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 07, 2004

Acordar com a guerra...

Ao sinal do noticiário da uma da manhã, acordei com a estridência factual da realidade a despejar-me em cima chumbo derretido; era o ruído longuínquo da guerra irraquina a entrar-me pelo quarto dentro, de imediato a angústia amarrotou-me o coração. À minha frentre estendia-se a lógica da guerra, fustigada nas últimas horas, pelo agravar da humana loucura.
Como não vejo habitualmente noticiários televisivos, nem leio jornais diários (só ao fim de semana), limito-me a debicar, aqui na blogoesfera algumas migalhas da quotidiana informação que circula neste meio. Assim mantenho algum distanciamento, e duvido que fique menos informado, estando quase certo que andarei menos confundido.
A música, a leitura e a escrita foram ganhando terreno à televisão, que em meu entender, e mais uma vez as excepções, confirmarão a regra, a televisão significa prolongamento da esterilidade quotidiana (explica-se deste modo a identidade deste blogue). Os restantes elementos do agregado familiar (mulher e filho jovem) continuam agarrados a hábitos, que eu penso serem comuns à maioria dos lares portugueses: a companheira lá vai dizendo que está farta de telenovelas, mas continua a deixar-se embevecer pelas historietas redundantes que enchem os serões dos lares portugueses, um filme, talvez um concurso para variar, até o cansaço vir lembrar que o corpo não é de ferro, e a cama passa a ser o culminar inevitável para mais um dia, então, é só então, já no aconchego dos cobertores o livro é folheado, mas as palavras mal se aguentam de pé, ainda parecem mais cansadas do que quem as tenta juntar em frases coerentes, ambos, livro e leitor concluem que o melhor é deixarem para o dia seguinte uma nova tentativa de comunicação e despedem-se para logo adormecer, o sono dos justos, ou será que é o sono dos espoliados de qualquer coisa que permanece indefinida, dia e noite, continuamente, sem interrupção.
O elemento mais relutante da família, aproveita o que resta da luz diurna (entenda-se da vitalidade), para saltar da inutilidade convergente, para a utilidade divergente, antes que o cansaço derreie o que resta do ânimo subversivo e já agora comunicativo. Desta maneira salva-se a "honra" do dia, aliviado, talvez ainda esteja vivo, talvez assim o meu coração rejubile, afinal é ele que bombeia o sangue arterial que não deixa entorpecer irreversivelmente os neurónios, onde durante o dia permanece escondido, o bando inssurecto das ideias inconformistas, que há noite ressuscitam pensamentos desalinhados antes que o cansaço engula o que resta da luz diurna, e a escuridão modele a minha solidão, creio que idêntica à solidão de alguns, e os transforme em despojos nocturnos.
De súbito sufoquei, sei que foram as palavras proferidas por uma locutora descuidada que me entrou no quarto evocando a guerra, o campo de batalha entrou por mim dentro, estaria eu já morto, teria sido atingido por algum petardo, ou seriam ecos do medo alheio inflitrando-se no devaneio sonhador, que em mim palpita. Passados alguns momentos, dei-me por acordado, ou por vencido, vá-se lá saber, reconhecer por entre destroços de sono aniquilado, o vulto que anima o meu ser, não é tarefa fácil.
Pensei: ou sei lá se pensei, julgo que quiz chorar! Violência, recrudescimento da violência em... eu sei que podia ser em vários lugares. Violência ignominiosamente exercida em nome da divina vontade, contra a divina criação; eu quero lá saber se é divina, pré-divina, pós-divina ou simplesmente terrena, é violência, é torpeza com rosto, o rosto de muitos seres humanos, subitamente despojados de semblente humanizado. Arremelgo os olhos no escuro, como se perscruta-se o bruxuleante limiar da esperança apaziguadora, afim de tornar o tétrico destino dos humanos, mais suportável. Um movimento automático da mão encontrou o interruptor, o quarto encheu-se de luz, a mesma mão procurou um livro (entre os vários que dormitam em cima da mesa de cabeceira), servirá o que está em cima? Não sabia, para o efeito, devia servir um qualquer, abriu uma página, podia ser a que está marcada, ou outra qualquer; lentamente o noticiário enterrou-se numa página do passado recente, não seria letra morta concerteza, também não sabia o que viria a ser... Por enquanto, estava seguro, enroscado em confortáveis lençois, longe das estridências bombísticas e bombásticas, longe da arena onde os ódios ateiam fogo à reserva "estratégica" do amor ao próximo, e pensou se isso não se devia ao facto das escrituras sagradas, serem demasiado "sagradas", e por isso tão mal interpretadas, ou seria, que Deus invejava a sua criação mais (im)perfeita ao ponto de nenhum sacrifício bastar para lhe apaziguar o coração sedento de vingança? Acordar estremunhado é no que dá... ou será a crueldade humana um mal sem emenda, por mais que o ser humano se empoleire na divina condição?
Queria adormecer, mas sentia o latejar infeccioso das palavras aumentar a febre de descontentamento, isto não era momento para leituras, quando as palavras parecem ter sido despedaçadas por estilhaços de bombardeamentos reais, de nada serve o conforto virtual do lapso espacial.
Os pensamentos entumescidos, a alma aturdida, e a normalidade a espreitar ao longe, como se quizesse adiantar a aurora do novo dia, para mais depressa me obrigar a lançar no esquecimento um episódio, um parágrafo, um lapso de tempo, o acordar e o adormecer do pensamento, o rejubilar por ter gente dentro, por ter sentimento, por me ter a mim, adormecido.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Por que razão se estraga o belo barro humano?

...Uma criança mamava numa mãe tão cansada que parecia adormecida. A vida transmitia-se no absurdo e na desordem dessa viagem. Eu considerei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo curvado no sono desconfortável, comprimido no fato de trabalho, feito de altos e baixos. O homem fazia lembrar um montão de argila. Assim, despojos informes carregam à noite os bancos dos mercados. E eu pensei: o problema não reside de maneira alguma nesta miséria, nesta imundície, nem nesta fealdade. Mas este mesmo homem e esta mesma mulher um dia conheceram-se e o homem certamente sorriu à mulher e por certo depois do trabalho trouxe-lhe flores. Tímido e desajeitado, tremia talvez à ideia de se ver repelido. A mulher, porém, por garridice natural, a mulher segura da sua graça, divertia-se porventura a inquietá-lo. E o outro, que hoje não é mais que uma máquina de cavar ou de martelar, experimentava desse modo uma angústia deliciosa no coração. O mistério está em que eles se tivessem tornado nestes volumes de argila. Em que terrível molde foram metidos e por ele marcados como por uma máquina de embutir? Um animal envelhecido conserva a sua graça. Por que razão este belo barro humano se estragou?

Antoine de Saint-Exupéry; Terra dos Homens

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:41 PM | Comentários (2) | TrackBack

abril 06, 2004

Crime: O Castigo

«Cada vez estou mais convencido de que adquirimos o nosso conhecimento à custa do sacrifício de outros. Ora isso impõe-nos o dever de esclarecê-los, como quem paga uma dívida; despir a nossa roupagem de classe, e aproximarmo-nos deles com a mesma humildade desencantada com que eles se aproximam de nós. E assim tudo correrá bem.
Estou a reaprender contigo a humildade. Eu já a tinha conquistado (a que preço!). Mas tu estás a lembrar-me isso: "ela é parte de ti, a melhor."
Ao reler pela terceira ou quarta vez, em trinta anos, "Crime e Castigo", deparo com esta: "és, sem dúvida, culpado. Mas, sobretudo; porque te imolaste inutilmente".
Dobrei o canto da folha, devagarinho, irritado: "agora só em 93, pensei".
Aquilo era comigo.

Sebastião Alba, Albas

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

Perder parte da condição humana!

...Aqui há anos, no decorrer de prolongada viagem de caminho de ferro(...) Por volta da uma hora da manhã percorri o comboio de lés a lés. As carruagens-camas estavam vazias. Vazias estavam as carruagens de primeira.
Mas as carruagens de terceira abrigavam centenas de operários polacos despedidos de França e que regressavam à sua Polónia. E eu percorri os corredores de ponta a ponta passando por cima dos corpos. Parei para observar: de pé à luz das lampadazinhas eléctricas, distinguia nesse vagão sem compartimentos, e que se assemelhava a uma camarata que tresandava a caserna ou a esquadra de polícia, toda uma população confusa e agitada pelos movimentos do rápido. Todo um povo mergulhado em pesadelos e que regressava à sua miséria.(...)Homens, mulheres, crianças, todos se voltavam dum lado para o outro, como que atacados por todos esses ruídos, todos esses solavancos que os ameaçavam no seu letargo. Não tinham achado a hospitalidade de um bom sono.
E eis que eles me pareciam ter perdido parte da sua condição humana, sacudidos dum extremo ao outro da Europa pelas correntes económicas, arrancados à casinha do Norte, ao jardim minúsculo(...) tudo o que haviam acariciado ou atraído, tudo o que tinham conseguido domesticar em quatro ou cinco anos de permanência em França, o gato, o cão e o gerânio, haviam sido obrigados a sacrificar e não levavam consigo senão as baterias de cozinha.

Antoine de Saint- Exupéry, Terra dos Homens

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Citações

«De Camus, quero trazer sempre, na algibeira, este fragmento do prefácio a "O avesso e o direito" e que, penso, já constava dos "Cadernos":" No segredo do meu coração, só me sinto em estado de humildade diante das vidas mais pobres e das grandes aventuras do espírito. Entre uma e outra coisa, há hoje uma sociedade que me dá vontade de rir."

Sebastião Alba, Albas

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:06 PM | Comentários (0) | TrackBack

Arte e Criação

"Sê anónimo súbito e criança" (Fernando Pessoa)

«Sempre que o leio, a minha inteligência salta para fora de mim, ri, dá cambalhotas. É outra vez menina. Nos últimos dias venho pensando profundamente em vós, gostaria de que tivessem andado comigo. Mendigo, à Joracy Camargo: pessoas descalças já me deram mil escudos; ao volante dos BMW, as outras dizem-me que não têm nenhum trocado, e "vá com Deus". E eu vou. Um esgar por dentro começa a deformar-me o rosto. Será "o homem que ri", de Victor Hugo?
Não é verdade. Finjo: sou poeta. Volteio véus, jogo com as aparências -- que o olhar de Deus trespassa logo; como dizia Sartre, Ele não é um artista.

Sebastião Alba, Albas

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 05, 2004

À descoberta da identidade

Para amar a vida e dar-lhe um sentido, é fundamental que o ser humano seja estimulado pela descoberta da sua identidade, ao invês de ser catapultado para o culto do individualismo narcisista, levado ao absurdo nestes tempos de globalização da imbecilidade.
O culto da individualidade incita o cidadão comum a enfiar-se num buraco, onde não entra qualquer espécie de luz; por estar tão carente de protagonismo, acaba por se contentar em viver num mundo de sombras, que se transformam em imagens de heróis mediatizados, ícones de entretenimento, paradigmas de falsa evasão, que acorrentam o individualista à sua condição de servo da mesquinhez e da mediocridade, por isso mesmo, despreza a identidade própria, por não perceber porque se manifesta e exige atenções que não se coadunam com o que lhe parece razoável, interesses estranhos à sombra ofuscante do culto da individualidade.
Descobrir a identidade, é descobrir que não é possível crescer (espiritualmente) à sombra de grandes e majestáticos simbolos de ostentação, semelhante fascínio, deixa entrever um drama, que se vai desenrolar à sombra das majestáticas aparências, tão agradáveis quamto perniciosas, na ausência de luz criadora a identidade definha, por não encontrar espaço próprio.
O individualista procura protagonismo, ilusão que o faz adorar o falso brilho dos néons instalados à sombra das majestáticas catedrais do consumo.
A identidade afirma-se pelo desejo de unir; o individualismo projecta-se desunindo, desdobra-se em múltiplos interesses e actividades sem vínculo entre elas, em busca de reconhecimento público, notoriedade social, e egotismo sem barreiras. O discurso individualista é falso, pantomínico, sedutor e aleivoso; constroi para o outro, de quem se quer servir, castelos de ilusões, confunde e confunde-se; engana e engana-se; abusa sem que muitas vezes seja correspondido; consome e sem dúvida que é consumido; vilipendia e muitas vezes fica sem troco; e nem quando se sente frustrado, ou o revés se lhe atravessa ao caminho, nem assim desiste, está viciado num jogo, em que nunca perde, nem mesmo quando está perdido e a compungida alma entorpecida.
Descobrir a identidade, nem por isso é um privilégio a destacar; terríveis dúvidas cerram fileiras, as experiências com a dualidade existencial são desgastantes, nem tunel nem luz, nada está garantido, para além da delirante imbecilidade quotidiana.
Contudo, descobrir a identidade é humanizar a alma, é partilhar conhecimentos, é assumir a necessidade de comunicar sem peias, amarras e sem desejar resguardar-se em falsas ameias, é sentir o fascínio da unidade primordial, que perpassa e integra todas as formas de vida do intemporal património intuitivo da humanidade.
A cultura do individualismo não acrescenta esclarecimento, antes enreda aquele que nesse labirinto se aventura, em perversões insanáveis, que ele julga usar em seu proveito, mas que não raras vezes o levam à exaustão, inviabilizando a comunicação e impedindo a coesão dos valores morais e culturais imprescindíveis para que o próprio, mas também a sociedade onde se insere, não venha a tornar-se vítima do (in)sucesso do individualismo.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

Influências da cultura ocidental

«Deram-me um professor em Thoreau, que através do seu ensaio sobre " O Dever da Desobediência Civil" me forneceu confirmações científicas daquilo que estava a fazer na África do Sul. A Grã- Bretanha deu-me Ruskin, cujo "Unto This Last" me transformou, da noite para o dia, de advogado e habitante citadino em rústico vivendo numa quinta, afastada de Durban, a três milhas da mais próxima estação de caminhos de ferro; e a Rússia deu-me Tolstoi um mestre que me forneceu a base racional para a minha não-violência. Tolstoi abençoou o meu movimento na África do Sul, cujas maravilhosas possibilidades ainda andava a aprender, que mal passava da infância. Foi Tolstoi que profetisou, na carta que me dirigiu, que eu estava a chefiar um movimento destinado a trazer uma mensagem de esperança a todos os espezinhados da terra. Por isso podem ver que não iniciei a presente tarefa com qualquer espírito de inimizade pela Grã-Bretanha e pelo Ocidente. Depois de ter absorvido e assimilado a mensagem contida em "Unto This Last",não posso ser acusado de aprovar o fascismo ou o nazismo, cujo culto é a supressão do indivíduo e da sua liberdade.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

O grito silencioso da Verdade

«A vida é uma contínua aspiração. A missão dela é lutar por obter a perfeição, que significa auto-realização. Não deve o ideal ser rebaixado por causa das nossas fraquezas e imperfeições. Estou dolorosamente consciente da existência de ambas as coisas em mim. O silencioso grito que todos os dias proclama a Verdade dentro de mim ajuda-me a remover essas fraquezas e imperfeições.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 04, 2004

Simples e inteligível

«Um erro não se converte em verdade em razão da sua propagação se multiplicar, nem a verdade se converte em erro só porque ninguém a vê.»

«Não conheço pecado maior do que aquele que oprime o inocente em nome de Deus»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:24 PM | Comentários (2) | TrackBack

Despovoar a mente de fantasmas e fantasias; de medos e ufanias...

«Não me ocupo em julgar o mundo pelos seus muitos erros. Sendo eu mesmo um ser imperfeito e precisando de tolerância e piedade, tolero as imperfeições do mundo até encontrar ou criar uma possibilidade para expostulações fecundas.»

«Quando me tiver tornado incapaz de pecar e quando o mundo do meu pensamento não se ocupar de nada de cruel ou arrogante, então, e só a partir dessa altura, pode a minha não-violência comover todos os corações de todo o mundo.»

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

A propósito da democracia

Toda esta polémica a rodopiar à volta do livro:«Ensaio sobre a Lucidez», revela mais uma vez a apetência nacional pelo linguajar sem sentido, pode até ser oportuno, pode contribuir para aumentar as vendas do livro, mas pouco mais, porque daqui a uns tempos, serão poucos os que continuarão abertos a debater as causas profundas da decadência e descrédito do modedo ocidental de democracia; o espectador, o ouvinte, o leitor, que neste momento é catapultado para a arena, depressa será envolvido por outro assunto igualmente pasageiro, o debate honesto e profícuo fica por fazer, o cerne das questões fica por aprender, como interessa neste modelo de democracia.
Esta manhã, entrei na livraria Bertrand de Leiria, e peguei no tão badalado livro, tentado a trazé-lo comigo, mas resisti, quero deixar que o pó assente e depois talvez o leia, ou talvez não...
Para saber que a democracia está ameaçada, basta-me prestar atenção à forma como se desenrola a vida política deste país em particular e do resto do mundo em geral. Abuso e negligência, estando também ameaçada pelo facto mais que evidente, de que nada pode ser considerado como adquirido, e deixar de merecer atenção e dedicação sempre renovadas, se não é devidamente cuidada é normal que definhe, ou não?
Aliás, a civilização debate-se actualmente com um mal, que a ninguém vai poupar, do mais prosaico que há, voltar as costas, fechar os olhos, fingir que não se vê, agarrar em todas as desculpas esfarrapadas para adiar uma tomada de posição clara e inequivoca a propósito de qualquer assunto considerado premente, que pode afectar o bem estar de muitos cidadãos; preferimos enredar-nos em polémicas estéreis, e depois dobramos a página do jornal, pensando no próximo jogo de futebol, ou na próxima farra com os amigos, porque nem só de problemas vive o homem, o que é um facto; mas de alienação permanente também não se pode suster um sistema, e fazé-lo funcionar, sempre na ilusão de que o mal se há-de remediar.
Que a democracia está refém da economia, não é novidade para ninguém, só se for para políticos da craveira de alguns da nossa praça, mas adiante; que a alta finança, usurpa direitos fundamentais para poder converter negócios sujos, em dignos emprêstimos a países endividados, também já não é novidade para ninguém; que a corrupção cavalga à rêdea solta, e navega de vento em popa, atravessando transversalmente todos os extractos sociais e contaminado todas as actividades produtivas, predatórias ou simplesmente parasitárias, será novidade para alguém? Também creio que não! Então como podemos duvidar, que a democracia ocidental está em decadência, e pode até ter já aberto fissuras, que ninguém ousa divulgar publicamente, não vá a carneirada entrar em pânico! Espera-se que alguém salve a honra da dama, antes que entre em ruptura existencial.
A estagnação é insuportável, e a mim parece-me que a democracia exala a pestilência das águas paradas, que muitos ainda tentam disfarçar, aspergindo-se com perfumes e essências das melhores marcas. Pouco a pouco a democracia transmuta-se em mera figura de retórica, e a polémica em torno do escritor José Saramago, serve para confirmar isso mesmo. No entanto Saramago tem direito a "uivar", ou mesmo a "morder", quem sabe se não é disso que democracia necessita, de ser mordida por cães raivosos, que rasguem as fatiotas ridículas que traz vestidas, na vã tentativa de andar na moda e suas carnes flácidas sejam postas a nu! Atentado ao pudor, ou provocação imprescindível? ou incitação a um exercício de consciência pública que revitalize as carnes que renove o sangue antes que a democracia se esgote exangue, vítima de excessos de sangrias, como se padece de hemofilia crónica.
O pseudo-sucesso individual, narcísico é talvez o principal adversário da democracia, o interesse colectivo trava uma batalha desigual, que vai depauperando os recursos que podiam servir para reanimar o tecido social e cultural das nações pós-modernas.
O nascimento deste novo século, devia almejar parir a revolucão espiritual, ou melhor a revolução dos assuntos do espírito, a maior carência que a humanidade padece, da qual ressumam todas as outras, mesmo as mais trágicas, ou as que aparentam ter origem "natural"; mas para que isso possa tornar-se realidade é necessário uma revolução na educação e formação do cidadão, quer se trate do primeiro mundo, do segundo, do terceiro, ou por aí fora; sem a qual todas as medidas tomadas, não passarão de panaceias ilusórias, que poderão eventualmente atrazar o desgaste que vamos impondo mutuamnete uns aos outros, o qual se reflecte nas outras formas de vida que partilham este malfadado planeta azul.
Educar para a liberdade, que significa isso? significa que cada ser humano é acompanhado num processo que visa auxiliá-lo a descobrir-se, a pensar por si mesmo, como identidade e não como individualidade, o que possui um significado intrínseco completamente diverso, no que concerne ao desenvolvimento do potencial de comunicação com o outro, trata-se de uma questão de sustentabilidade, o cidadão deve sentir que integra uma sociedade, e uma civilização, que é um processo dinâmico e dialéctico inserido na intemporalidade, conceito de unidade de pertença, do qual o cidadão se deve sentir parte integrante; utopia ou talvez não! com os meios técnicos e humanos existentes, se houvesse vontade política capaz de romper com a barreira dos interesses económicos que pervertem o sentido da existência, escravizando os cidadãos a esmo, sem estar claro o que de facto pretendem; se for exaurir o planeta de vida, espero que estejamos conscientes de que somos cumplices, e que preferimos a apatia cobarde, à livre associação, e à luta na praça pública.
Uma das questões fundamentais, onde o cidadão se desgasta sem proveito próprio relevante, é no tempo que perde para angariar meios de subsistência (é óbvio que existem privilegiados que adoram o que fazem, mas serão sempre uma minoria), para chegar ao fim do dia exauto e desejar entregar-se de bom grado a qualquer coisa que o distraia da insipidez do seu quotidiano, e decorrem assim anos a fio, sempre a rodopiar em torno dos mesmos problemas existenciais, sem meios para os resolver, enquanto um bando de palhaços políticos (quando não de energúmenos) lhes salta à frente, não se sabe se para os assaltar, se para os iludir com promessas falsas, e demostrações hipócritas (as excepções só servem para confirmar a regra).
Depois de um século completo de avanço científico e tecnológico, o cidadão comum está ainda longe de ter acesso (por falta de tempo, por falta de meios e pior que tudo por desconhecimento, por lhe estar vedado o acesso a certos ambientes, aliás onde se sente mal, não é aí o seu lugar, manipula-se o gosto, com vista a desviar o cidadão de temas culturais que lhe espevitem o senso crítico, se isto não é feito propositadamente, eu concerteza serei rei da Abissínia, ou coisa que lhe valha.
A imbecilidade interessa, sempre interessou, pelos vistos, até interessa para manter sadia a democracia, ou talvez não? A ver vamos, como dizia o cego!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:50 PM | Comentários (4) | TrackBack

abril 03, 2004

Rodela de metal lisa e sem timbre!

«Ahimsa e a verdade estão ligadas de tal modo que é impossível separá-las. São como faces de uma mesma moeda, ou, antes, de uma rodela de metal lisa e sem timbre. Quem poderá dizer qual o anverso e qual o reverso? Apesar disso, a ahimsa é o meio; a Verdade o fim. Os meios, como meios, devem sempre estar ao nosso alcance, daí ser a prática da ahimsa o nosso supremo dever. Se formos cuidadosos nos meios que escolhermos, chegaremos ao fim mais tarde ou mais cedo. A altura em que atingiremos essa vitória final está fora de causa. Sejam quais forem as dificuldades que encontremos, sejam quais forem os aparentes reveses que experimentemos, nunca devemos de desistir de demandar a Verdade, que é Deus.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ilusão fascinante ou alternativa realista?

«Não acredito nos atalhos curtos e violentos que possam conduzir ao êxito... Por muito que simpatize e admire certos motivos respeitáveis, oponho-me intransigentemente aos métodos violentos mesmo que sirvam as causas mais nobres. Daí que entre mim e a escola da violência não pode haver acordo possível. Mas o meu código de não-violência não me impede, até me obriga, a associar-me com anarquistas e com todos os que acreditam na violência. Porém tal associação é sempre feita com o objectivo único de os afastar daquilo a que a mim me parece ser um erro, visto que a experiência me convenceu que o bem não pode ser nunca consequente da mentira e da violência. Ainda que a minha crença seja uma ilusão sem esperança, deve admitir-se que é uma ilusão fascinante.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 02, 2004

O direito de não dogmatizar

«A primeira condição da não-violência é justiça em todo e qualquer departamento da vida. Talvez seja demasiado esperar isso da natureza humana. Todavia eu não penso assim. Ninguém deve dogmatizar a respeito da capacidade da natureza humana para se degradar ou para se exaltar.

M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:29 PM | Comentários (1) | TrackBack

A responsabilidade é de todos

A tentação para fazer recair em alguém que se tornou figura pública, a responsabilidade de resolver embróglios sociais que a negligência depositada em sucessivas camadas fossilizadas, durante séculos, é terrivelmente sedutora para o cidadão comum.
O cidadão comum, afim de salvaguardar os seus interesses, e poder entregar-se aos prazeres da vida, sem restrições, delega (levianamemente) a responsabilidade de "mudar" os problemas pendentes (acumulados devido a negligência) em alguém que eventualmente mostre disponibilidade, tenha ou não capacidades para resolver problemas, que o passar do tempo tornou crónicos.
O Francisco, da Planície Heróica lançou-me ontem o desafio de lhe responder à seguinte questão:«Gandhi não poderia ter feito mais para acabar com as castas na Índia?», incluída no comentário que fez à posta «Ergue-te e caminha».
Otexto que se segue, é uma tentativa alargada de esclarecimento, contudo resultará incompleta e imperfeita.
Penso que o Francisco se queria referir ao facto do sistema de castas hindu, assentar na intocabilidade de reincarnar intocável, o que na prática significa estar condenado à miséria merecida, o intocável redime-se do mau Karma acumulado numa vida anterior, sofrendo nesta o estigma social de ser a base da pirâmide social. Durante séculos a sociedade indiana poucas dúvidas teria acerca da justeza deste sistema, e assim chegou até ao século XX, e quem me garantirá, que não perdurará por muitos mais séculos? E porquê?
A religião sempre foi pródiga em tecer estratégias de culpabilização das vítimas, conseguindo dessa maneira, exercer formas de opressão que transcendiam a humana compreensão, e por isso mesmo inquestionáveis; as classes que claramente beneficiavam do sistema, ficavam automaticamente desculpabilizadas, e conseguiam manter um manacial de servos, sem direitos, carregando às costas a responsabilidade da degradante condição que lhe estava destinada, e suportar ainda a exploração desdenhosa dos seus amos.
«Não sustento que tudo o que é antigo é bom apenas por esse facto. Não advogo a renúncia das faculdades de raciocínio que nos são dadas por Deus em face da antiga tradição. Qualquer tradição, mesmo antiga, deve ser banida da terra se for inconsistente com a moralidade. Pode a intocabilidadeser considerada uma antiga tradição, tal como a viuvez e o casamento de crianças, que não deixam de ser crenças horríveis e práticas supersticiosas. Se tivesse poder, suprimi-las-ia.»
M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos
Como é fácil depreender, após a leitura da citação do parágrafo anterior, Gandhi nunca defendeu o sistema de castas que existia no seu país, aliás denunciava essa superstição arreigada nas tradições antigas com sendo um abominável ultraje aos seus semelhantes; não tenho dúvidas que foi insuficiente para acabar com uma injustiça, mas a culpa não pode recair em cima de quem pelo menos tentou fazer alguma coisa; enquanto outros, tão conscientes dessa injustiça como o estava Gandhi, não ergueram um dedo, nem erguem hoje, para minorar as injustiças que alastraram na India, com em outros locais do planeta.
Gandhi, como qualquer um de nós teve de conviver de perto com a sua própria imperfeição; ninguém pode ser incubido de resolver os problemas do mundo, esse fardo é demasiado pesado, e quem se arrogar tal empreendimento sobrehumano, acabará esmagado sem hipóteses de sobrevivência. O que não desculpa a tendência do cidadão comum para se considerar incompetente, ou indisponível e agarrar-se à "mania" de atirar as culpas para cima dos outros, e espiar-lhes os caixotes do lixo em busca de evidências da sua perfídia, por não confiar na dignidade alheia.
Avaliar a vida de alguém, é sempre um acto de injustiça, mesmo quando está provado que esse alguém foi um impostor, ainda assim, subsiste a possibilidade de ter escapado algum pormenor relevante que muda-se o veredicto da história pessoal da pessoa em análise (eu não conheço ninguém que pudesse explicar cabalmente quem eu realmente sou), definir um ser humano e perceber as motivações profundas que o agitam é tarefa quase impossível. Por reconhecer essas dificuldades, procuro fundamentar cabalmente as minhas opiniões, mesmo quando o processo é intuitivo. As opiniões infudamentadas geram desordem, confusão e mais descontentamento.
Não posso responder cabalmente a esta questão, mas acredito que Gandhi tenha feito o que lhe foi humanamente possível (há que ter em atenção, que qualquer ser humano para além de ter que lidar com a instabilidade da sua natureza, não se pode esquivar às circunstâncias envolventes); Gandhi conseguiu desafiar o império britânico usando uma unica arma: a moral! Mas como pode a moral desafiar soldados que tendo sido submetidos a lavagem cerebral, preparados para entrar em acção, como autómatos dessensibilizados, ou desafiar polícias que recebem igualmente ordens para carregar contra manifestantes, e fazem-no sem remorsos? Mas que pode a moral contra regimes corruptos e ditadores sanguinários?
Pode mais do que aparenta, e eu acredito que, a sua prática não é mais assídua, porque muitas das "boas causas" estão infiltradas por oportunistas que propositadamente arrastam os companheiros pela via da violência, porque o seu interesse não é luar contra a injustiça, mas antes pelo contrário, aproveitam a situação para atingir o poder que tanto ambicionam, estando pouco preocupados com a mortandade de inocentes (e/ou ingénuos).
Não se pode confundir a força moral, com ingenuidade, é preciso coragem para enfrentar a ira do adversário ameaçado por métodos não convencionais, mais importante ainda é adestrar a auto-disciplina, para assumir qualquer acto de forma consciente e não irreflectida, ou emocionalmente perturbada.
Não estivessem os cidadãos deste mundo num estado tão lastimoso de confusão mental, sem conseguirem perceber que deitam a perder a oportunidade única que é a vida, e ser-lhes-ia fácil descobrir o fascínio da Não-violência; a maoiria dos cidadãos deixa-se enganar pela retórica fácil de quem visa acima de tudo desviar a atenção do que é importante, apologistas do falso optimismo, que tem como único fito controlar as massas e manté-las afastadas do cerne das principais questões que afectam a qualidade de vida dos cidadãos. Arriscar-se a enfrentar um inimigo poderoso recorrendo à resistência não-violenta pode acarretar consequências trágicas; a primeira reacção será decerto violenta, intimidatória, de maneira a refrear a coragem dos menos temerosos, e tentar apagar o fogo antes que o mesmo alastre a uma opinião pública susceptível de ser emocionalmente arrebatada; a força moral, se não for deturpada torna-se contagiante, mete-se debaixo da pele, arrepinha o escalpe, pode muito mais do que parece, e isso sabem-no bem os que dela escarnecem.
Eu acho que Gandhi conseguiu "pragmatizar" um ideal de justiça, liberdade e amor pela verdade.
Enquanto a civilização da informação viaja à velocidade da luz, as mudanças de mentalidade viajam à velocidade de caracol, e a qualidade do pensar e do sentir revela exactamente isso mesmo, quanto mais não seja, pelo desinteresse instalado. Mas o que é facto, e que a qualidade da acção, resulta da interacção qualitativa dos supracitados, em alternativa rebenta o terror, ensaido no palco das ilusões de mudança.
Acreditar que o pragmatismo pode funcionar, desvinculado da moral é um erro crasso, é a multiplicação, não dos pães, mas de todas as formas de atentados, com cobertura legal, ou ilegalizados, tão pouco importa.
A responsabilidade de mudar o que que que seja, é sempre do colectivo, que não pode, como acontece amiúde, constituir-se como uma enorme força de inércia, geralmente como resultado da viculação a atavismos diversos, que isolam e barricam o colectivo numa realidade incapaz de responder cabalmente aos desafios da contemporaneidade.
Acreditar que um único ser humano,por mais genial que seja, por mais escrupuloso que seja, por mais motivado que esteja, seja capaz de resolver os problemas da humanidade, enquanto o tal colectivo, permanece estirado no sofá, engordando a imbecilidade que o há-de tornar em mais um vítima de AVC, (leia-se ignorância e insensibilidade), é acreditar na ilusão de uma utupia inverosímil, que como sempre, resulta na demissão das responsabilidades colectivas das obrigações cívicas e civilizacionais, quase sempre com um final trágico.
Devido a factores e circunstâncias diversas, de quando em vez, aparece um reformador destemido, assumido, lúcido; consciência, de ser consciência trespassada por intensa dor moral, mais devastadora que sismo violento. Quando assim é nada a fazer, o vulcão expelirá a lava...
Esse esforço individual há-de ser sempre em vão (só não o é completamente, porque haverá sempre quem junte mais um elo à cadeia intemporal que mantém a humanidade em permanente estado de comunicação, venha quem vier, ou mande quem mandar; o elo manter-se-á vivo) se o colectivo persistir em andar distraído, e envolvido com os afazeres considerados normais; quanto mais observo essa "normalidade", mais demencial a mesma me parece, olhar enviezado de misantropo ensimesmado.
Ao caro amigo Francisco agradeço a paciência que tem demonstrado, ao visitar o blog mais fastidioso da comunidade.
Este blog é uma experiência, talvez seja possível semear algumas ideias, plantar alguns valores, lançar o húnus da polémica, evitar as abordagens mesquinhas, o criticismo fácil. O meu conceito de informação "útil" (é absolutamente contrário ao mastigar e deitar fora que nos impingem), insere-se na necessidade de esclarecimento, o saber para mim representa a unidade do ser, não a fragmentação do mesmo, o sarcasmo é vital, é fundamental chocar o pensamento comodista e conformista.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:23 PM | Comentários (5) | TrackBack

Ahimsã ou o caminho da Não-Violência

«A questão é subtil. Ela admite diferenças de opinião, e por isso submeto os meus argumentos, o mais claramente possível, aos que acreditam na ahimsã e que estão a fazer sérios esforços para praticá-la em todos os passos da vida. Um devoto da Verdade não pode condescender com a covenção. Deve sempre procurar corrigir-se abertamente, e onde quer que descubra que errou tem que confessar o erro a todo o custo, e expiá-lo.»

M. k. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 01, 2004

sabedoria da miséria evitável

«Reconheço que se fosse um homem perfeito não sentiria as misérias dos meus semelhantes como sinto. Como um homem perfeito tomaria boa nota delas, prescrevendo um remédio, compelindo à sua opção por força indiscutível da Verdade em mim. Porém até agora só consigo ver através de um vidro obscuro e por isso tenho que carregar a minha convicção por lentos e laboriosos processos, e depois, também, nem sempre com éxito... Seria menos humano se, com toda a minha sabedoria da miséria evitável que domina a terra... não sentisse intimamente o sofrimento dos milhões de emudecidos indianos.»

M. k. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

Uma fonte de inspiração...

«Resolvi reatar a publicação de excertos da colectânea de pensamentos e memórias de M. k. Gandhi, colhidos no livro:«Gandhi, Todos os homens são irmãos» uma compilação da responsabilidade da Unesco, editada pela Portugália Editora, em Junho de 1983, tive direito a um exemplar numa tiragem de dois mil.»

Inevitavelmente os seres humanos vão mudando ao longo da sua existência, e se as alterações fisícas são visíveis a olho nu, as mudanças da estrutura psicológica (são um pouco mais difíceis apreender), desencadeiam alterações da personalidade de amplitude variável, consoante o ambiente em que o indivíduo está inserido e as características inatas que o tornam único. A complexa constelação constituída por conceitos, valores, emoções, afectos, intuições vai sofrendo mutações extraordinárias ao longo do caminhar que é a vida.
Durante as primeiras décadas de vida, essas mudanças não são fáceis de percepcionar pelo próprio, a ingenuidade pesa a favor da engrenagem social, que falseando valores a induz em erro, solicitando-o para actividades de consumo viciantes, mas se fosse posssível, ao jovem viver num ambiente onde não predomina-se a exacerbada estimulação sensorial (cuja influência me parece nefasta e com imprevisíveis consequências a longo prazo), e esse jovem estar rodeado de exemplos de conduta baseada na auto-disciplina, aplicada a vários aspectos da vida quotidiana, tal ambiente acabaria por determinar o fundamental desenvolvimento da atenção.
Daí em diante, esse jovem seria um privilegiado, começaria a perceber o funcionamento da sua mente, e aprenderia a compreender as suas emoções e sentimentos com uma clareza nascida da suave aproximação ao pensamento disciplinado, génese da liberdade de Ser.
Mas como, de há uns milénios a esta parte, a humanidade se deixou enfeitiçar, pelo pérfido jogo do poder, assumiu e integrou um mau exemplo de conduta, que barra o caminho de acesso à compreensão do que se passa no âmago de cada ser humano como se isso não fosse o mais importante conhecimento a partilhar pela comunidade humana; a humanidade pulou de civilização em civilização, perpetrando crimes hediondos repetidamente (e sempre pelo mesmo motivo), aparecendo sempre alguém pronto a branquear o sistema (algo que ainda continua a ser explorado até à naúsea nos dias que correm).
Cidadania, ou toxicodependência de mil e uma drogas legais, que implicam decadência evitável, e representam o combustível que ao derramar-se incendeia ódios recalcados, e fobias desmesuradas, prevalece a rigidez estrutural do pensamento.
Reaminar as memórias de Gandhi, é abrir as portas do mundo mágico da liberdade ética, é partilhar a ousadia não-violenta e o seu inesgotável manacial de saber único, é não se conformar em permanecer num ambiente saturado de miasmas culturais que empestam a existência e ofuscam a inteligência.
Na fase inicial da existência o ser humano aprende, imitando, depois vai evoluindo até conseguir dominar uma linguagem, e desenvolver meios de descodificação autónomos, e até que a morte o devolva à procedência, nunca mais poderá dar por terminada a jornada de interpretação da vida, da sua vida, e do sentido que a mesma deve conter, o fascínio desse lento descobrir é a essência da necessidade de libertar. Os meios de descodificação disponíveis devem ser proporcionais ao grau de complexidade de funcionamento da civilização em que se está inserido, caso contrário, a humanidade acabará sempre perdida.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ergue-te e caminha...

«Quero declarar ao mundo, seja o que for que possa ser dito em contrário, e muito embora possa perder a consideração e até a confiança de muita gente do Ocidente -- e deixo pender a cabeça contrito -- que não devo suprimir esta voz interior, mesmo à custa da amizade e amor desses ocidentais, chamem a isto consciência ou incitamento íntimo da minha natureza básica. Existe qualquer coisa dentro de mim que me impele a gritar a minha agonia. Tenho sabido exactamente o que isto é. Esta qualquer coisa dentro de mim que nuca me decepcionou e que me diz agora: «Tens que te levantar contra todo o mundo muito embora tenhas que ficar sózinho. Tens que fixar o mundo de frente muito embora o mundo possa olhar para ti com os olhos raiados de sangue. Não temas. Confia nessa pequena coisa que reside no teu coração e diz: Abandona amigos, mulher, tudo: mas dá testemunho daquilo porque tens vivido e porque tens que morrer.»

M. K. Gandhi, Todos os homens são irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:24 PM | Comentários (1) | TrackBack

Auto-disciplina essencial

«Todo o poder provém da preservação e sublimação da vitalidade que é responsável pela criação da vida. Essa vitalidade é continuamente e mesmo inconscientemente dissipada por maus ou mesmo desconexos, desordenados e indesejáveis pensamentos. E desde que o pensamento é a raíz de todo o discurso e de toda a acção, a qualidade destes últimos corresponde à natureza dos primeiros. Por isso o pensamento perfeitamente controlado, é em si mesmo um poder da mais alta potência e torna-se automático...»

M. K. Gandhi, Todos os homens são irmãos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:04 PM | Comentários (0) | TrackBack