Escritos num exemplar das «Flores do Mal»
As flores que nossa alma descuidada
Colhe na mocidade com mão casta,
São belas, sim: basta aspirá-las, basta
Uma vez, fica a gente enfeitiçada.
Nascem num prado ou riba sossegada,
Sob um céu puro e luz serena e vasta;
Têm fragância subtil, mas nunca exausta,
Falam d`Amor e Bem à alma enlevada...
Mas as flores nascidas sobre o asfalto
Dessas ruas, no pó e entre o bulício,
Sem ar, sem luz, sem um sorrir do alto,
Que têm elas, que assim nos endoidecem?
Têm o que mais as almas apetecem...
Têm o aroma irritante e acre do Vício!
Antero de Quental, Poesia Completa
Recentemente a pianista Maria João Pires e a Associação Cultural Belgais, foi notícia, pelo menos na blogoesfera; a origem da polémica parece ter-se devido às "queixas" que a pianista teria feito aquando duma entrevista que concedeu ao jornal El Pais; as "queixas" referiam que instituições nacionais, públicas e privadas que mantinham acordos com a Associação Cultural Belgais não os estavam a cumprir; entretanto, Maria João Pires teria encetado contactos com instituições financeiras espanholas de maneira a poder manter a Escola da Mata, um projecto educacional inovador neste país de merda, parafraseando o Avis.
Não conheço Belgais(mas pretendo conhecer), mas não me é difícil imaginar que tenha sido o sonho de uma vida, a morar no coração de uma mulher de sensibilidade e encanto extraordinários, transformado em realidade pela vontade abnegada materializar um ideal, e ser coerente, num país de...
Foi no programa "Por Outro Lado" de Ana Sousa Dias, que tive oportunidade de conhecer (mais de perto) a virtuosa pianista, e a fascinante mulher que é Maria João Pires, na altura pareceu-me evidente o muito que aquela mulher tinha para dar aos outros, por mais que custe a muitos, existem pessoas que sentem uma enorme necessidade de dar e aquela mulher exalava a simplicidade de quem não busca reconhecimento êgoista.
Mas cultura neste país, é o parente pobre que se tolera, desde que não se atreva a envergonhar-nos em público; o caso de Belgais, parece o oposto, mas surte o mesmo efeito, ou seja, a inveja nacional declara desperdício, gastar dinheiros públicos com pobres labregos, nascidos atrás do sol posto, parentes pobres do regime democrático que vão para a escola com a barriga a dar horas, mas que conta isso para os pobres de espírito, que usurpam a seu bel prazer os pedestais de decisão, negligentes e mesquinhos, sem conseguirem enxergar mais longe que o horizonte das próximas eleições.
Convém salientar que o que está aqui em causa, não é Belgais, mas o denso nevoeiro da mentalidade tacanha que nenhuma revolução até agora, foi capaz de dissipar. Imagino Belgais como um daqueles projectos, que não se fica pela fachada (algo muito comum neste país), um projecto que certamente é um exemplo pedagógico a seguir, ou pelo menos a merecer atenção da parte de instituições ligadas ao ensino das artes em Portugal, que deviam zelar pelos interesses culturais, dum país culturalmente anémico.
Imediatismo, facilitismo e eleitoralismo fazem muito mais sentido que projectos a longo termo, que implicam profundas mudanças de mentalidade na abordagem da cultura e da arte num país que exalta a ignorância endémica nas arenas futebulísticas. Faz todo o sentido que os investimentos sejam canalizados para áreas de interesse mais mediático, de retorno rápido, quero dizer, com direito a reeleição; tenho que inferir que no interesse do futuro deste país faz sentido o esforço descomunal dispendido para construir dez estádios de futebol (cuja necessidade efectiva é muito discutível), sempre em detrimento de investimentos em áreas que implicariam mudanças radicais de mentalidade, mas que aliviariam o país do provincianismo que entre as hostes político-futebolísticas e pseudo-culturais deste país de ...
A revolução de Abril de 1974, devolveu a liberdade ao povo português, a sociedade portuguesa modernizou-se (rendeu-se aos favores do consumismo), o acesso ao ensino democratizou-se, as regalias sociais tiveram aumentos significativos, a cultura de massas cresceu. O crescimento económico permitiu que muitas famílias deixassem de estar condenadas à miséria endêmica que durante séculos assolou este país. Novas oportunidades de negócios, resultaram no aparecimento do novo-riquismo; a ascensão social desta nova classe social (constituída maioritariamente por pessoas bastante incultas) deveu-se a uma luta sem tréguas que os seus protagonistas levaram a cabo afim de vencerem na vida. Só que esta nova classe, estava (e continua a estar)mais preocupada em defender e expandir as suas empresas e diversificar os seus negócios; quando toda uma existência é passada de costas voltadas para a cultura e as artes, não é de estranhar que o desafogo económico não seja motivo suficientemente forte para levar os novos-ricos às salas de concerto, ao teatro, às galerias de arte, ou a algum recital de poesia; e em muitos casos os descendentes são empurrados para cursos que promovam uma formação pragmática, é preciso preparar condiganmente a chefia das empresas; os novos-ricos ganharam peso social, relevância local, regional e em alguns casos até nacional, mas o mecenato cultural não faz parte da sua agenda de prioridades; ganhar muito dinheiro, subir na hierarquia social, isso sim, dá estatuto, dá visibilidade e em alguns casos até pode servir de trampolim aos que alimentem ambições políticas. A cultura é considerada uma inutilidade, uma actividade parasitária (em alguns casos tenho que concordar que o é, infelizmente existe muito projecto pseudo-cultural mantido vivo à custa da subsídio-dependência, que também é uma forma de ruína cultural); não podemos ficar melindrados por muitos dos nossos concidadãos não serem sensíveis às questões da arte e da cultura, impingiram-lhes a dignidade do dever sem recurso, do trabalho escravo, da servidão sem direito a contestação; mantidos à míngua de bens materias de primeira necessidade, não é para admirar que sintam uma enorme atracção por qualquer pedaço de metal que brilhe, em detrimento dum quadro, duma peça musical, dum poema , dum trecho filosófico que era suposto fazer-lhe brilhar a mente e vibrar as cordas alma.
A questão cultural está sempre presente, mesmo quando está ausente, e sempre que está ausente, os resultados são catastróficos, e muitas vezes nem sequer é possível quantificá-los, tropeçamos nos destroços, caímos, levantamo-nos e prosseguimos, sem sequer perceber a causa da queda.
Realçar o valor dum empreendimento meritório, soa a blasfémia, denegri-lo parece soar a elogio, reconforta a alma de mediocres empedernidos.
Belgais é a antítese do nosso atávico provincianismo, da nossa endémica inveja, da nossa tacanhez de espírito, decerto, muitos de nós rejubilariam, se o projecto Escola da Mata fosse por água abaixo, porque hão-de aquelas crianças ter acesso ao que os nossos filhos não podem ter? e ainda termos que pagar isso dos nossos bolsos! poque tenho eu que pagar estádios de futebol em que nunca entrarei, quando ainda à poucas semanas necessitei de fazer um exame médico e tive que o pagar do meu bolso. Questões irrelevantes, questões pertinentes, ou será maldade minha, estar para aqui horas a escrever, a emendar e reescrever, a tentar destilar o veneno, sem que ninguém me pague e sem a garantia de que alguém me leia; ridículo eu, ou uns quantos por este país fora, a brincar à chico espertice nacional? Algum projecto que desafie o marasmo em que nos habituamos a viver, deverá invariavelmente fenecer?
Eventos culturais (são às pargas), estão cada vez mais em voga, principalmente os festivais de Verão, destinados a um público, que não está sensibilizado para outro tipo de manifestações culturais; escarnece, é normal, ninguém ainda se quiz dar ao trabalho de lhe revelar as palavras passe de acesso a outras linguagens culturais, de que julga não gostar. Fundamentalismos culturais, pelos óbvios motivos de fazer passar a propaganda do fácil, do deixa-te ir que eu amparo-te! A publicidade demarca e baliza o território, impede a passagem de qualquer informação que vá contra as normas do que interessa vender, e o que interessa vender está obessivamente presente em todo o lado; ressuma alegria, evasão, irreverência, liberdade... (eu atrevo-me a dizer que é o oposto) o que não interessa é relegado para um canto escuro, quase inacessível; mas Belgais vai afirmar-se, e Maria João Pires prosseguir a obra que sonhou, amparada no encanto sereno duma força interior dedicada à musica e à humanidade.
O tema publicidade é recorrente pelo simples facto de ser uma força poderosa capaz de nos tirar o sono, e igualmente capaz de nos adormecer, e não porque alimente qualquer animosidade de estimação pelo assunto. Mas o facto é que a publicidade perpassa transversalmente o quotidiano de qualquer cidadão, violando direitos de privacidade mental básica, sendo pouco provável, que a maioria dos cidadãos possam alhear-se da sua nefasta influência.
Esta presença é aceite por nós de ânimo leve, aceite como mais facto consumado, inserido numa normalidade, acima de qualquer desconfiança.
A publicidade possui uma tremenda capacidade de deturpação dos factos da vida real, desviando com extrema facilidade a atenção dos cidadãos para interesses que estão longe de satisfazer as suas mais importantes necessidades.
Muitos dos efeitos perversos da publicidade têm origem na forma sistemática como a atenção do cidadão é desviada do que é essencial para o supérfluo, resultando daí graves atropelos ao desenvolvimento harmonioso da sua personalidade, sendo também significativo o empobrecimento do seu discernimento; para além disso, esses efeitos perversos provocam deliberadamente a degeneração da percepção da realidade, condição que leva à depravação da sensibilidade, e esvazia a mente de valores éticos, e conceitos estruturantes, injectando venenos diversos, conseguindo transformar o cidadão numa marioneta sem consciência; está satisfeita, atingiu o cume, é a partir desse topo que doravante manipula os gostos e os principais interesses da perspectiva individual de existir.
Esta transformação ocorre ao longo de décadas, mas cada vez começa mais cedo, e o seu poder deformativo tornou-se mais eficiente; são quase nulos os vestígios de provas incriminatórias; sempre que o cidadão tenta encontrar evidências das influências, termina num beco sem saída, resignando-se.
Posso ser acusado, de querer denegrir gratuitamente uma actividade em que certamente trabalham muitos cidadãos decentes, mas tal não é a minha intenção; interessa-me divulgar a interpretação pessoal dos diversos fenómenos (entre os quais se destaca a publicidade) que funcionam como o eixo à volta do qual roda a sociedade em que estou inserido e que podem contribuir para desviar a atenção do cidadão de si próprio, ou ser causa directa ou indirecta das perversões que levam a sociedade a becos sem saída, sem que os dirigentes políticos, os gestores empresariais, entre outros pareçam particularmente preocupados.
Interesso-me por compreender vários aspectos das influências da presença constante e obsecante da publicidade no quotidiano e mais, de que maneira essas influências afectam o comportamento individual e condicionam a resposta colectiva aos desafios colocados por uma nova ordem em ascensão.
A publicidade substitui-se ao livre pensamento, inibe-nos de procurar soluções, tal como os brinquedos muito sofisticados não estimulam particularmente a imaginação infantil, antes pelo contrário.
Ante a agressiva manipulação do discutível pragmatismo criativo da actividade publicitária, o cidadão abdica de desafiar os seus próprios limites, deixa-se levar, prefere aderir para não ter que pensar por conta própria, mesmo reconhecendo o valor intrínseco duma postura que desafie o poder imposto, um caminho para chegar aos outros, sem recorrer a subterfúgios e maníqueismos recorrentes, a publicidade continua a merecer atenção, por ser presença constante, e também intrusão não desejada, que não pode ser completamente ignorada.
Continuando, os dias passam, a vida desprende-se de nós, precisamos de estabilidade para continuar a viver, e por isso tentamos encontrar pontos de apoio, referências que, no meio da ambiguidade intrínseca do sistema, nos encaminhem de regresso à tão desejada segurança.
O ser humano precisa de acreditar, sabe que é horrível, viver num permanente estado de desconfiança e desnorte, para caminhar em locais menos seguros, não pode estar fragilizado, para atravessar inóspitas montanhas precisa de coragem, precisa de acreditar nas instituições do meio envolvente, para não cair numa letargia agonizante. A realidade não pode ser tão feia, a perversão não pode ir tão longe, ao ponto de sequestar numa ilusão de bem estar evanescente, um delirante pesadelo tétrico.
E, se de repente tudo quanto parecia certo, se todos os alicerces cedessem ao peso da dúvida, da incerteza; e, se de repente, tudo quanto, parecia certo, todos os valores, ou a ausência dos mesmos, todas as ideias preconcebidas, toda a constelação de paradigmas, qual abóbada de ilusões que tornava possível conviver com tanta injustiça, desaba-se ruidosamente? Impossível de aguentar!
Com receio de que isso aconteça, preferimos aceitar as sistemáticas e consentidas lavagens ao cérebro, para não ter que avaliar se estamos enganados, e porque persistemos no engano. A publicidade é uma forma de lavagem cerebral eficaz, a virtude da ubiquidade é o seu principal trunfo, é muito difícil escapar e como tal, por mais resistente que seja o cidadão ao fim de algum tempo rende-se, as energias esgotam-se e os interesses falam mais alto, simples questão de sobrevivência.
Alguns teimosos renitentes, lá vão exigindo explicações mais cabais, refira-se que as exigem em primeiro lugar, a eles próprios, e por isso mesmo, acabam por lançar o desafio aos outros, trata-se de uma questão de coerência ética; o caminhar de ombros derreados, e olhar prostrado, como prisioneiro a caminho do degredo, sem perceber porque se foi condenado, não é a atitude corrente para alguns cidadãos que necessitam de perceber as razões que a Razão desconhece, sempre que algum anúncio publicitário lhes pede que estendam os braços, para lhe colocar as algemas.
Atrair peixes ou seres humanos, lançando engodo às águas paradas (agitadas na superfície) do quotidiano, é uma das estratégias da publicidade para apanhar na rede as incautas presas, e mesmo as que caíram uma vez, e conseguiram sobreviver, voltam a cair, atraídas pelo extraordinário magnetismo publicitário.
A lei do menor esforço, é a principal razão porque, deixamos as coisas correrem ao sabor da vontade e dos interesses dos grandes grupos económicos; os responsáveis dessas organizações, todos o sabemos, estão obrigados a mostrar resultados; a performance profissional que lhes é exigida, muitas vezes obriga esses cidadãos a amordacem os valores que, em circunstâncias diferentes exaltariam; é a irresistível sedução do poder a falar mais alto, é o desejo de subir na hierarquia da organização que servem, a falar mais alto, o indivíduo, por várias razões entrega-se, dilui-se, prostitui-se, sabendo perfeitamente o que está em jogo, quantas vezes em privado, é possível sentir-lhe o sufoco da alma; outros há, insensíveis a qualquer questão humanitária, cortando a direito sem qualquer escrúpulo, a sua obsessão pelo poder é a única motivação que os faz funcionar.
Quanto ao cidadão comum, resta-lhe aceitar, como normal e natural, todas as formas de sujeição a esquemas de influências que transcendem a percepção imediata, mas que afectam a qualidade (ou a falta da mesma) de vida, e determinam opções que se pretendem conscientes, mas que afinal resultam da manipulação do gosto, da vontade, da informação, da formação da identidade, enfim..., em que a responsabilidade da publicidade é flagrante, sempre no sentido de defender o interesse dos grupos económicos em detrimento do interesses do cidadão, do ambiente, das gerações vindouras, e já agora do planeta.
Mesmo os cidadãos menos avisados, compreendem e sentem que os danos directos ou colaterais da publicidade estão longe de ser inofensivos. E se quanto a este ponto é talvez possível, reunir consenso, já não acredito que o mesmo possa acontecer se ousar afirmar -- até que ponto a publicidade pode ser ofensiva, obstrutiva, invasiva e alienante -- sem causar polémica e, ser eu próprio considerado um alienado, por pessoas que estando ligadas ao ramo ou do mesmo dependentes, se considerem atacadas. Um debate franco, sério e arejado está fora de questão, sempre que estão em causa interesses económicos prevalece a intransigência irracional, tão perniciosa, que me arrisco a considerá-la uma forma de fundamentalismo O problema, ou melhor, um dos problemas fulcrais presentes em qualquer tentativa de debate honesto, sem importar o que está em causa; dizia eu, que o principal problema está muitas vezes na impossibilidade de trazer os interlocutores para o mesmo limiar de comunicabilidade (plataforma de inteligibilidade), uma espécie de terreno neutro, onde os interlocutores perdem-se as referências habituais que afastam o homem da verdade. Acontece que, para além de estarem separados por interesses irreconciliáveis, o que de facto os afasta, quase sem remédio é a diferênça de linguagem, cada dimensão de vida possui uma linguagem própria, que não sendo exclusiva de uns e inacessível a outros, dificulta a comunicação, uma vez, que cada interlocutor atribui aos conceitos um valor, ou um sentido que muito dificilmente é reconhecido pelo outro, só quando existe um esforço mútuo de entendimento, uma vontade recíproca de caminhar na mesma direcção, se consegue atenuar essas diferênças de interpretação, que podem ser abismais, e tanto mais, quanto mais estereótipadas forem as ideias, os conceitos e os comportamentos das partes envolovidas, por obviamente estarem habituadas a dar respostas padronizadas, sem questionarem o que realmente estão a defender. Espero que entendam por que motivo eu me desvio do main subject (do assunto principal), penso que o faço por boas e legítimas razões, mas...
A publicidade parece a coisa mais legítima do mundo, serve para tornar um produto, uma imagem, uma ideia, uma informação, etc... mais apetecível. A utilidade da publicidade é conseguir difundir uma informação, fazer com que chegue ao maior número possível de pessoas. Mas, se a publicidade é informação, eu acrescentaria, que é informação tendenciosa, e muitas vezes, torna-se mais que tendenciosa, passa a ser enganadora.
Ao deixar de ser uma presença esporádica no quotidiano do cidadão comum, a publicidade transformou-se rapidamente num grave problema de invasão de privacidade e mais que isso, um veículo de mentiras, preconceitos, hábitos, vícios, criando falsos estereótipos de beleza, de justiça, de liberdade, de pensamento, de acção, etc...
A publicidade adquiriu o poder de manipular os cidadãos apanhando-os desprevenidos, mas a parte verdadeiramente grave, é que a publicidade conseguiu que os cidadãos pensassem e opinassem favoravelmente ou desfavoravelmente sobre um largo rol de assuntos, sem que os mesmo se apercebem-se de que estavam a ser enganados, o mesmo que dizer, enquanto os seus legítimos interesses eram escondidos, ostracizados, vilipendiados, etc... sem que, muitas vezes os visados disso dessem conta. Assim, passaram-se décadas, e o problema subsistiu, agravando-se, uma vez que os meios disponíveis sofisticaram-se, e as mensagens subliminares democratizaram-se; até agora, a coisa não tem corrido mal, a juventude é a principal visada, uma vez que é fácil confundir irreverência com ingenuidade, ou melhor, as duas mesclam-se e são arrastadas pelo natural turbilhão hormonal dessa fase da existência.
Presentemente, existe um conceito novo de publicidade: marketing de guerrilha, muito interessante para uma actividade pacífica. A publicidade funciona de forma ambígua e paradoxal, faz todo o sentido que alargue as suas formas de luta, em suma que inove, que adopte uma postura terrorista, que procure os seus alvos consoante os seus interesses especifícos numa área determinada, e pum, que faça deflagar a carga mortífera, abata um, dois, uma dezena, um cento, ou milhares, com uma inacreditável economia de meios, este aumento de eficácia, é razão para que os senhores da tábua raza rejubilem de contentes, conseguem enganar (matar a identidade), não um, dois, uma dezena, ou mesmo cem mil, conseguir enganá-los a todos, é o lema, em prol do desenvolvimento e da prosperidade dos povos, que outra razão poderia motivar tanta e tão boa gente, a aderir?!
Pelo que foi dito, e pelo muito que ficou por dizer, não é difícil perceber porque é tolerada a publicidade, e mesmo, que cause danos irreversíveis na sanidade mental do cidadão, e que o obrigue a sobreviver, imerso neste banho caústico, até que a sua identidade depois de ser chaga viva, se desfaça, pouco importa! Eu, um ignaro cidadão, pressinto que existem estudos feitos por investigadores isentos, que nunca chegam ao conhecimento do grande público, por tornarem mais que evidente as aberrações que a publicidade pode causar ao nível do comportamento humano, quem se arrisca a agitar as águas salobras do paraíso consumista?
Seria intolerável inverter o movimento, uma catástrofe lida no pánico espelhado no olhar de todos quantos, dependem directa ou indirectamente da sua dose diária de publicidade. Esses claro que consideram o abominável vício, um mal menor, uma consequência funcional da sociedade contemporânea. Até compreendam, que apublicidade pode ser altamente prejudicial, que pode instingar à violência, que o cidadão pode desenvolver sintomas graves de abstinência, causada pela frustração de não poder adquirir um bem, um produto, ou um serviço, que desejava ardentemente, depois de ter sido arduamente influenciado, com imagens pornográficas explícitas ou implícitas do enorme prazer que pode experimentar se... adquirir, se tiver dinheiro, se...como o arranja é pouco importante, esse assunto, devido à sua especificidade já não são contas do rosário da publicidade, até são, mas...não naquela situação, nem em nenhuma situação que em que a publicidade possa ser implicada como cúmplice de crimes de natureza diversa.
Uma criança em crescimento, é forçosamente (não porque eu deseje que tal aconteça, mas porque não acredito em milagres!) afectada negativamente pelo excesso de exposição à publicidade, impossível de controlar pelos pais, que estão impedidos de controlar o que quer quer seja, quanto mais terem possibilidades efectivas de controlar as variadíssimas formas, da publicidade agredir os seus filhos. Não faltará quem defenda que a publicidade até estimula a criatividade e a imaginação, que a criança fica mais esperta, a esperteza é (entenda-se), o despertar precoce para a toxicodependência do consumismo.
Normal, e porque razão não havia de ser normal?!
Também seria normal os cidadãos terem escolha, poderem optar, e no entanto, ou é da minha vista, ou já, nem com binóculos vislumbro alternativas credíveis, de todo o lado chove o mesmo tipo de mensagem, «submeta-se, à inefável lei da publicidade, porque há-de você pensar que sabe, o que é melhor para si, se pode ter à sua disposição, a opinião dum especialista», com tanta gente a saber o que é bom para mim, porque me hei-de ralar, amanhã nem sequer devia de ir trabalhar!
A João de Deus
Embebido num sonho doloroso,
Que atravessa fantásticos clarões,
Tropeçando num povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...
Com um bramir de mar tempestuoso
Que até aos céus arroja os seus cachões,
Através duma luz de exalações,
Rodeia-me o Universo monstruoso...
Um ai sem termo, um trágico gemido,
Ecoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivém...
Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!
Antero de Quental, Poesia Completa
A Francisco Machado de Faria e Maia
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando...
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...
E dentre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...
Antero de Quental, Poesia Completa
A humanidade caminha pela mão da globalização, vai, mas não sabe ainda para onde se dirige, paradoxalmente, a globalização não depende da vontade humana para funcionar, aproveita; hospedou-se, equipara-se ao comum parasita oportunista, que aproveita as fraquezas do hospedeiro (tenho a impressão que o sitema imunológico da humanidade está seriamente debilitado; talvez esteja enganado e isto não passe de mais uma perversidade da minha costela pessimista!), para se instalar.
As tecnologias da informação, ao banirem a noite e o dia da face da terra, determinaram o desenvolvimento e a disseminação da mais emblemática infestação pós-modernista «a globalização»; o célebre passo de Armstrong na superfície da lua, foi largamente excedido pelo verdadeiro passo de gigante, não da humanidade, mas da "ausência" da mesma, e que passo terrível, o ser humano já não pode descansar, o Sol não se põe no reino da globalização, está condenado, o fenómeno excedeu as expectativas, o ser humano já pouco mais é que um objecto descartável, o seu lugar é nas prateleiras das peças suplentes, individualmente impotente, pouco pode fazer para travar as consequências do fenómeno, e colectivamente a disponibilidade para o debate é quase nula, abordar o assunto, através da lupa da honestidade intelectual (outra das vítimas do fenómeno), transcende a vontade humana actual de reciclar hábitos, comportamentos, e mentalidades.
Uma nova "versão" de cidadão globalizado, vai-se adaptando como pode às exigências da nova ordem, só a parte animal que habita esse ser humano, resiste à mudança, pressente a desagregação que a mesma implica, uma violência difícil de suportar.
O Homem global é um Superhomem, não dorme, viaja à velocidade da luz, revolve as entranhas da terra e arranca as "vísceras" aos Homens, que ainda não atingiram a condição de Superhomens; Superhomem, e também Superpredador insaciavél, quem ler este artigo, abra os olhos e verifique como os nossos lares estão pejados de destroços humanos, o assédio é ininterrupto, e nós, irremediavelmente, cedemos às pressões da nova ordem.
O Superhomem global, não deseja levantar a poeira do passado, trabalha em prol de um futuro normalizado, previzível, a sociedade global não pode depender dos caprichos de deuses, ou da natureza. A história que repouse em paz, nas prateleiras das bibliotecas, as religiões que dormitem na penumbra dos templos; entretanto, a instabilidade política e o fundamentalismo religioso do presente parecem impelir a humanidade numa outra direcção, uma questão de tempo; pode parecer ignóbil, mas quem nos garante que a questão israelo-palestina (um problema entre muitos, nem sequer tenho a certeza de que seja o mais grave!)não seja um "fait-divers", uma orquestração (maquialévica é certo) a monopolizar a atenção dos espectadores, claúsura para onde somos empurrados em regime de exclusividade.
Os mortos não contam, quanto muito, são dados estatisticos, escombros e fundações desta nova ordem; se os mortos contassem, quantos ditatadores e democratas estariam no topo da tabela dos mais exímios exterminadores, a realidade pugna por superar a ficção, por vezes temos vontade de duvidar do que os nossos sentidos registam, e tentamos esquecer o que a intuição lobrigou alcançar, a vida humana está longe de ser valorizada, de modo que nenhuma forma de perversidade deve ser excluída, por mais hedionda que nos possa parecer. Eu sei que custa acreditar, que os factos nos empurram para uma leitura mais linear, mas também sei que o que fica por esclarecer é o corpo principal do icebergue, imerso nas gélidas águas da nova ordem, que já possui autonomia suficiente para interferir em todas as áreas da actividade humana; o seu poder é tremendo, e não precisa de se justificar, aliás é irreconhecível, escapa, ou então somos nós que estrategicamente, mudamos de passeio, pensando em escapar às suas pérfidas emanações, enganamo-nos redondamente.
Tudo soa a falso, o malabarismo político atingiu o apogeu, até mesmo as feridas abertas em resultado de clivagens cavadas pela história estão prisioneiras de outros interesses bem mais prosaicos; as vinganças, as traições, os mortos, não são de facto um entrave significativo à implantação da nova ordem, podem até ser um aliado, aliás, a envergadura do empreendimento justifica plenamente esse custo em vidas humanas, e prosseguirá, a instabilidade política, a miséria económica, a irreconciliação religiosa, o fanatismo suicida, nada pode contra um movimento que nunca dorme, o devir circunstancial, dia versus noite, morreu, presentemente é mais um recurso usado para minar a resistência dos mais cépticos, trocar-lhe as voltas, apanhá-los desprevenidos em cada manhã, fazer-lhes crer que o mundo está virado do avesso (the show must go on...), virado do avesso e instável fica o universo privado do cidadão, impedido de descansar em paz consigo e com o mundo.
Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo...
Hoje sou homem -- e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...
Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
Antero de Quental, Poesia Completa
Regra geral não gosto de embarcar em polémicas desgastantes, infladas de ufania estéril que num ápice se esgota e muda de rumo; a volatilidade desse tipo de actividade intelectual não me seduz, antes pelo contrário angustia-me, sinto que serve os interesses de um poder que precisa de manter o cidadão comum ocupado; quanto menos consciente estiver do abismo de imbecilidade em que anda enredado, melhor suportará sobreviver inserido numa sociedade demo(níaca)crática, destina-lhe uma carreira brilhante de servidão voluntária, antes isso que viver abandonado à sua sorte! Afinal, a servidão voluntária é a oportunidade efectiva de o cidadão rejubilar por integrar o monopólio multinacional do entretenimento! O que é que nos que correm, não é transformado em espectáculo?!
Sem que a maioria dos cidadãos se aperceba (anda demasiado ocupada), a sociedade pode entrar num processo de desintegração irreversível, arrastando a democracia para um beco sem saída e empurrando os cidadãos para obscuros abismos de violência. Muitos cidadãos, que no presente defendem a alternância democrática tal como ela está a funcionar, fazem-no com medo da mudança, ou estão couraçados na ilusão de integrarem algum grupo de pseudoprivilegiados, que se considera acima das desgraças que grassam entre a classe média e média-baixa, para não falar da classe baixa e da miséria endémica, que o sistema gera como forma de coacção dos cidadãos mais desfavorecidos, reserva estratégica, disponível em caso de crise imprevista.
Só a ingenuidade ou a má fé daqueles que alimentam ideias utópicas, pretende ser possível eliminar ou reduzir substancialmente o número de cidadãos excedentários, descartáveis, marginalizados, que são atirados para a berma da sociedade, como animais que desconhecendo o perigo, se arriscaram a atrevessar o tráfego vertiginoso da imbecilidade em hora de ponta; foram, obviamente, trucidados.
A independência da unidade elementar da existência individual está interligada ao desenvolvimento trasversal da consciência de ser. Discernir é não ceder de ânimo leve às provocações quotidianas, que na maioria das vezes são um mero desperdício de energias, uma forma de o cidadãos permitir que o pensamento saltite de ramo em ramo, em vez de construir um posto de observação privilegiado, a partir do qual, possa realmente colher dados, reflectir, emitir opiniões e alargar a compreensão dos fenómenos e mudanças que vão ocorrendo à sua volta.
Até a indignação pode ser matéria de manipulação, pode servir de válvula de escape, quem se indigna considera que a sua sensibilidade ainda está viva, não foi vencido pela apatia; afinal, a propaganda ainda não conseguiu esgotar, apagar, bloquear, atentar, aterrorizar, destruir, em suma, fazer evolar a consciência. Mas, não é bem assim, porque a indignação pode não passar de fogo fátuo, sol de pouca dura, que não cria raízes, que não procura ou deseja alternativas, em muitos casos a indignação individual, ainda que honesta, é estéril; nem é causa, nem gera consequência, fica-se por ali, pelas imediações, preza fácil das quotidianas especulações e divagações, que terminam tão abruptamente como começaram, sem deixar resquícios palpáveis de resistência.
O ser humano é por definição camaleónico, artesão da intrujice, laborioso construtor de labirintos para onde deporta as ideias e os sonhos que atormentam as certezas, e duvidam da sanidade de suportar estoicamente a servidão quotidiana; o medo, por sua vez, faz com que o cidadão se refugie na indignação estéril, uma das muitas formas de resignação possíveis; assim, em vez de perscrutar as razões do profundo enfado que o assola, e se apega à alma, como a nojenta osga se agarra às paredes de um edifício em ruínas, deixa-se embalar numa litania de lamúrias inconsequentes, para logo regressar aos seus afazeres importantes.
Como um vento de morte e de ruína,
A dúvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de súbito, imerso
O mundo em densa e álgida neblina.
Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.
E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sudário, donde a morte pende,
Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabrocha no fundo da Consciência.
Antero de Quental, Poesia Completa
Conquistas pois sozinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem -- proscrito rei -- mendigo escuro!
Se não tens que esperar do céu (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de ilusões desenganado,
Das ilusões do antigo amor perjuro;
Ergue-te, então, na majestade estóica
Duma vontade solitária e altiva,
Num esforço supremo de alma héroica!
Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a imensidade eterna e viva
No círculo de luz da tua Ideia!
Antero de Quental, Poesia Completa
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto; fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d`ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d`ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!
Antero de Quental, Poesia Completa
Quando um cidadão pretende compreender, inevitavelmente tem que romper, assim sem mais, nem menos, por dá cá aquela palha?! Sim.
A ruptura é essencial à comprensão; se todos os dias o cidadão é confrontado com novos desafios de interpretação, novas demandas; então, todos os dias tem que estar atento; como pode ele prever se eventualmente um (des)conhecido intencionalmente lhe vai sonegar o oxigénio imprescindível à sobrevivência dos seus neurónios!
A realidade é incrivelmente escorregadia, a face que jazia encoberta, espelha agora beleza radiante, ou quiçá, fealdade insuportável, o cidadão apanhado desprevenido (não será sempre?) reage, comovido e apavorado, mas apesar do desconcerto, reanima-se e tenta agora, com paciência de arqueólogo, juntar os cacos e fragmentos do dia anterior, mas como se fizessem parte de uma cvivilização à muito enterrada nas brumas do esquecimento.
A ruptura é intrínseca à necessidade de interpretar a (des)ordem/entropia que escapa ao desejo de arrumação/organização, que o cidadão persegue, o que é óbvio, a existência transformar-se-ia num inferno, sem a fiabilidade despreocupada dos hábitos quotidianos, o simples bocejar matinal, certamente seria um penoso exercício de avaliação de perigosidade para a integridade pessoal.
Mas, este «mas» deve ser o estado/energia/(anti)matéria, mais estável e abundante do universo, tal é o seu poder interventivo! Bem, ou mas, a estabilidade (cristalização) desse conhecimento feito de memórias e experiências, prega-nos partidas, induz-nos em erros de interpretação, persuade-nos a defender, por vezes com humilhante (para o próprio e para o(s) outro(s)) agressividade uma realidade atávica (ou fragmentos da mesma), cinzas talvez, ou mais provavelemente, uma realidade mutante a desabrochar. Na opinião, deste mui humilde cidadão, esta estabilidade (coerência aparente) é terreno fértil, onde crescem com abundância incrível: divisões, ódios, ressentimentos, frustrações, guerras surdas que minam todos os espaços de actividade social (onde os cidadãos se degladeiam), contaminando, pervertendo, e desacreditando sistematicamente, quem sente que romper é começar a compreender.
Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão...
São como as horas que soam,
E as aves, que em bando vão...
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam...
Às vezes o sol, que as doura,
Parece à glória levá-las...
Mas suge o vento e, num`hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes, o sol que as doura!
Tantos castelos caídos!
Tantas visões dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!
E as donzelas lastimosas,
Que vão fugindo transidas!
A quem fogem elas ansiosas?
Que buscam elas perdidas?
Ó romances fugidios!
Vejo os tiranos sombrios,
E as donzelas lastimosas!
Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos íntimos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...
Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas,
Já que no mundo não cabe...
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!
Antero de Quental, Poesia Completa
O homem vende-se por pouco. Um Volkswagen, um andar no Areeiro, uma mulher que só casa pela Igreja, ou a amizade dum tipo importante, são suficientes para que se esqueça do que tem de mais íntegro e de mais seu. Por vezes o negócio é mais subtil, menos aparente, e o hemem vende-se para ver o seu nome no jornal, para viajar à custa do seu semelhante ou ainda para ter acesso a certos círculos que o deslumbram. A transacção nunca é rápida. O homem vende-se aos bocados, a prestações, dia a dia. Muitos, ao fim dum tempo, já nem sabem que estão a vender-se: atingem uma posição que os obriga a defender interesses contrários a tudo o que sempre sustentaram, e são comprados por essa posição. Continuam, em voz alta, a defender os mesmos princípios de sempre, mas secretamente guerreiam os ideais que dizem ter e fazem o que podem para evitar a sua concretização. A grande maioria dos homens, porém, vende-se por cobardia. Os casados têm medo de ver os filhos com fome e as mulheres desamparadas. Os empregados têm medo de palmilhar as ruas em busca de trabalho. Os homens que optaram pela vida fácil das carreiras têm medo de não ser promovidos. Os que alcançaram uma posição estável e segura têm medo de transformações. Os que têm prestígio receiam o advento dum mundo que discuta os fundamentos do seu prestígio. Os que vivem à custa dos valores que defendem, receiam todos os outros valores. O medo desempenha na vida dos homens um papel importantíssimo. Se não fosse o medo dos homens, os homens poderiam viver sem medo.
Luís Sttau Monteiro, Angústia para o Jantar
A Poesia e a Primavera que me desculpem, mas hoje vou falar de atentados e de terrorismo; não gosto de dissertar sobre temas de memória recente, mas vou tentar embrenhar-me (à minha maneira claro!) pelos meandros do terrorismo, causa directa da síndrome que, ao eclodir em Espanha, rapidamente chegou a Portugal.
A Comunidade Europeia terá que reforçar as medidas de segurança, antes que surja o dia, em que perante a estupefacção de todos nós, a própria democracia, seja atingida por um atentado de tal modo violento, que se confirme o seu óbito; por enquanto, temos que nos contentar em assistir à minagem das fundações da própria democracia por parte dos que proclamam defendê-la.
O caso português tinha que estar relacionado com o futebol; as relações promíscuas entre política e futebol avançaram para um caso de "ménage à trois", uma vez que o terrorismo, nesta altura do campeonato, já deve dormir entre os lençóis que cobrem quer políticos, quer responsáveis desportivos.
Não é politicamente correcto tratar ironicamente, assuntos sérios (considerando assunto sério, o que envolve a vida de pessoas em concreto, o que não é o caso português; razões para ter medo existem sempre algumas, que não justificam tanto alarido) se alguém no entanto, considerar indigna esta abordagem, tenho que responder, neste caso por antecipação, que todos os dias vejo assuntos sérios tratados de forma leviana, mas como são os "ratinhos" do costume a devassar o Queijo, o Bolo, o Dinheiro, o Ambiente, o Futuro, a Esperança, a Poesia, a Primavera, a Vida, e ainda as parcas probabilidades de a Humanidade sobreviver a tanto atentado!
Assuntos sérios, reflicta-se acerca da torrente de tinta e imagens, que inundou todas os "canais" e "vias" de comunicação (in)disponíveis (a justificar o mutismo a que me remeti), e que, mais uma vez, denunciou, como são tratados os tais "assuntos sérios"; uns são terroristas hediondos (a lucidez ajuda-me a anuir) por massacrar cidadãos comuns de maneira tão atroz; e os outros (aqueles que, quer chova quer faça Sol, na paz e na guerra, nos mentem descaradamente e estão a transformar as sociedades ditas democráticas em verdadeiros campos de concentração, basta esperar para ver, e sentir na pele, caso os actuais cidadãos dessas democracias não aprendam a opor-se, de momento demonstram estar filiados numa corrente muito interessante: A APATIA) que devassam e violentam exaustivamente os cadáveres, sem respeitar os restos mortais de cidadãos que, no fundo vão continuar tão anónimos como o eram antes do atentado, a hipocrisia é pegajosa, agarra-se a tudo o que possa trazer dividendos, e as famílias das vítimas não escaparam à devassa; como os designaremos?
Aqui em Portugal, é a fome que silenciosamente despedaça o corpo e a dignidade moral, mas como é uma tragédia menos apelativa (a miséria só é espectáculo quando se passa no quintal alheio) quer para políticos quer para editores de informação; ou será que a fome não existe por não ter entrada num estúdio de televisão? Este tipo tragédia humanitária provocada por atentados perpetrados pelo poder vigente, pode ou não ser considerada um acto terrorista? Ou, o que é o terrorismo afinal? Sempre que é praticado pelas instituições, terá que ter uma alcunha mais pomposa? Há quem avance números, 200.000!; e logo de seguida quem, restabeleçendo a ordem, ou seja, a mentira conveniente, retruca: essa cifra é uma absurdo! e eu acrescento: a mentira é um atentado ao pudor público e privado, a fome é terrorismo social, é manietação primária, e nós somos todos cúmplices, ou nunca vos disseram: «que tão ladrão é o que vai a vinha como o que fica de fora!», estar de barriguinha cheia no prensete, nada significa: o dia de amanhã ainda ninguém o viu! Por enquanto, andamos a ver se descobrimos a pólvora, ou a fé, que faça mover as montanhas, do medo e do tédio.
A educação ministrada aos cidadãos é sempre retrógrada; mesmo nos países mais evoluídos, só um número muito restrito de cidadãos consegue estar sintonizado com a realidade que o rodeia, e possui meios para descodificar cabalmente o imediato histórico, e perceber os factores que determinam a eventual mudança do rumo da civilização.
Peritos e especialistas de todas as disciplinas dissertam acerca de tudo e de nada, especulam a partir de uma base de dados mais que obsoleta; nem todos os seres humanos conseguem desfazer-se do lastro doentio que se vai acumulando ao longo de toda a existência, e que de forma significativa embota e deturpa o discernimento, e mesmo sendo detentores de uma vasta cultura académica (e também devido a isso), recusam-se a abrir as janelas que dão para o mundo concreto, bastando-lhes ostentar um saber mórbido perante uma plateia constítuida por pares em igualdade de circusntâncias. Esta forma de sapiência está longe de perceber as mutações que vão ocorrendo na sociedade, e de que forma as mesmas afectam o presente, mas também como determinam as tendências para o futuro; acontece que este tipo de "sábios" aprendeu a estudar materiais mortos, a dissecar cadáveres culturais inofensivos; aprendeu, ensinou e ainda ensina a quem lhes der ouvidos, a compreensão exige ruptura, e a postura destes "sábios" está longe de o desejar. As excepções confirmarão a regra.
Assim é impossível, formar professores e educadores que tenham uma perspectiva dialéctica do ensino e sintam que, por mais vanguardista que o sistema educativo pareça, está caduco, pela simples razão de que não consegue preparar uma nova geração de cidadãos, em condições de enfrentar os desafios que esta nova civilização lhes lança. Aceitar que o ensino seja cada vez mais técnico, e que os alunos saiam das escolas culturalmente analfabetos, defendendo que desta forma os jovens cidadãos estão melhor preparados para integrar o "mercado de trabalho" (o mercado onde se alugam bestas humanas); antigamente os homens reuniam-se nas praças das aldeias com as enxadas às costas, aguardando que os senhores latifundiários, ou os seus fiéis capatazes, os alugassem ao dia, talvez à semana, em troca de miserável jorna; qual é a diferênça, nenhuma, os servos modernos andam melhor vestidos, à custa dos pais evidentemente (trabalhadores forçados ao serviço de empresas que os escalpelizam em nome produtividade); a diferênça é, no entanto miníma, e ainda estou para saber se o anlfabetismo actual é menos perverso que o do tempo dos nossos avós, uma coisa é certa, nenhum deles é bom, torna-se imprescindível apetrechar uma nova geração de cidadãos com utensílios intelectuais e culturais suficientes para enfrentarem uma sociedade globalizada.
Muitos cidadãos adultos (talvez a maioria) não venha a perceber cabalmente as alterações civilizacionais que ocorreram nas duas últimas dácadas do século XX, e que continuam em marcha no século XXI; a realidade mudou radicalmente, e as memórias servem agora de bengala psicológica aos cidadãos, assim talvez consigam evitar que o chão lhes fuja debaixo dos pés, os que gostam de conhcer o chão que pisam, estão em maus lencóis, a confusão é labiríntica e as saídas estão vedadas.
Os meios de comunicação social são exímios no uso peritos e especialistas, como se os mesmos fossem tábuas de salvação largadas em alto mar, para que os náufragos (espectadores) não corram o perigo de se afogarem até chegarem meios para os resgatar. Esses peritos, não são de facto analfabetos, mas como podem saber onde estão os náufragos, quando a atitude retrógrada com que olham o presente não lhes proporciona grande orientação num mundo cuja configuração escapa até aos mais atentos.
Isto aos poucos, vai... exige um pouco de paciência a quem se dá ao trabalho de ler estas tentativas de aproximação de algo que se devia assemelhar a uma luz, algures a brilhar na densa escuridão.
Não pensem que é fácil; quando era mais novo, deslumbrava-me a imponência das cadeias montanhosas (e continua) com os seus caprichos climáticos; algumas leituras da época, tinham como pano de fundo a cordilheira dos Himalaias, sonhava em participar numa expedição ao Everest, conhecer Katmandu, impressionava-me a coragem dos alpinistas, a forma abnegada com que iam vencendo os obsctáculos.
O sofrimento torna-se tolerável quando o ser humano se empenha em algo que se transforma numa espécie de missão, quando descobre os indícios de uma pista, e sonha que o caminho é por ali, o melhor é escutar a voz, se a tenta emudecer, mais ela se rebelará, para no fim vencer, nem que seja pelo recurso à auto-aniquilação. Tudo está interligado, a existência humana é um todo que deve fazer sentido e estar em sintonia com a vida que flui à sua volta; a simplicidade, quando não se apresenta camuflada na forma de simplismos hipócritas, transmite sinais inequívocos, cabe a cada um reconhecer o seu, e segui-lo...
Há que eternidade passou o dia mulher?! Que interessa isso! Nem mesmo as mulheres que hoje, que neste preciso momento (enquanto escrevo estas frases), andam às voltas com as limpezas de fim-de-semana, estão já interessadas num pormenor que a rotina arrumou num canto, mais ou menos acessível da memória. Ontem foi o dia do pai, amanhã será o dia da poesia, e por aí adiante...
Como podem tantos ecos de existências sem sentido, serem redimidos por dias assinalados, numa sociedade habituada a tudo cuspir fora, quando o maior impacto destas datas será certamente o incentivo ao consumo.
Fica-se com a sensação de que tudo se prepara e acontece de maneira a que o enfadonho, mesquinho e nauseabundo quotidiano permaneça longe do olhar, longe do coração, longe das câmaras de televisão e, por isso, faz todo o sentido comemorar dias de tudo e mais alguma coisa (mesmo que não se esteja a comemorar nada, a não ser cinismo e hipocrisia), é uma maneira de satisfazer gregos e troianos.
Aos que nessas datas, procuram fortalecer os laços afectivos e emocionais que os ligam a pessoas e causas, ou seja, que desejam colocar a cereja no topo do bolo, certamente, não enfia esta carapuça, continuem por muitos e longos anos a comemorar, a lembrar, a respeitar e também a divulgar no quotidiano, o que quer que consideram merecer ser comemorado em datas fixas.
Comemorar o dia (seja lá do que for) poderá significar passar o pano do pó para apagar os vestígios das impressões digitais incriminatórias do desleixo quotidiano, em que a maioria de nós se deixa enredar.
Há dois tipos de dependência que remetem o ser humano para a escravidão e uma única via que abre as portas para a liberdade.
Para satisfazer as necessidades básicas o ser humano assimila hábitos e comportamentos da sociedade em que vive, que são filtrados na primeira fase da existência pelo meio familiar, que exerce uma influência determinante na formação da identidade daquele ser humano em crescimento, e nem sempre benéfica.
Para satisfazer as funções orgânicas naturais, o ser humano até nem precisa de muito, mas ao crescer num meio profundamente alterado, o indivíduo cresce rodeado de conforto, de amenização ambiental, o prazer está a ser imperceptivelmente ligado à satisfação das mais elementares necessidades vitais.
O prazer não é um mal, nem um desvio, mas quando o ser humano é educado num ambiente saturado de conforto, habituado a satisfazer de forma fácil, desejos diversos, e nem sempre saudáveis, sem restrições, a associação incosnciente de prazer à satisfação das necessidades básicas, afecta a compreensão da função do prazer como forma de fruição consciente (prazer não é sinónimo de alegria interior e muito menos de realização pessoal, nem se pode transformar no fundamento da própria existência), ainda antes de atingir a maturidade intelectual, já o ser humano se tornou servo de um complexo sistema de dependêncais psicológicas, emocionais, afectivas e sensoriais, círculo vicioso, labirinto existencial, que afecta a percepção da realidade.
O carinho proteccionista que os pais tentam proporcionar aos filhos pode ser mais prejudicial do que aparenta. O indivíduo cresce, rodeado de conforto, protegido na segurança de um lar mais ou menos normalizado, que no entanto não impede que a criança não começe a ser invadida por estímulos exteriores que vão lançar os fios da teia de dependências que o há-de acompanhar pela vida fora, quanto a macanismos de filtragem, ou são inexistentes ou deficitários, digamos que aquela criatura indefesa fica entregue às feras, começa um ciclo de vida, devotada ao consumismo, cujo sucesso está dependente da multiplicação das necessidades e manipulação dos desejos, a otenção de prazer torna-se a cúpula hierárquica do edifício onde jazem adormecidas a ética, e já agora a estética.
Com as dificuldades actuais (em Portugal são desastrosas) as crianças crescem entregues a terceiros, mas mesmo os profissionais bem preparados sentem dificuldades em ajudar ao crescimento saudável das crianças, que contribua para que o ser humano fosse menos afectado por uma sistema que visa acima de tudo transformá-lo numa máquina eficaz de produção e consumo, portanto um dependente do prazer (que fique bem claro que não sou contra o prazer, nem me passa pela cabeça afirmar que o prazer se opõe à liberdade, mas o prazer nunca poderá estar acima do crescimento sustentado da consciência), em última análise, nem dez planetas como a Terra, seriam suficientes para sustentar a insaciabilidade crescente do pseudo ser humano actual.
O vazio espiritual (que cada um preenche como pode) que o ser humano não quer ver, mas que o obriga a calcorrear as ruas da vida às cegas, batendo às portas erradas em busca de ajuda (sem o admitir), encontra na constante procura de novas formas de obtenção de prazer, uma vaga sensação de alívio passageiro (a insatisfação regressa sempre mais voraz), tratar uma doença com medicamentos errados é permitir que a doença alastre, ainda que camuflada por melhoras temporárias, as maleitas do espírito, necessitam que sejam abertas as amplas (e por vezes, tão estreitas!) portas da comunicação, sobreviver de costas viradas para a natureza, para a arte, para os outros e mesmo para si próprio, refugiando-de no desejo de dominar o mundo (e quão exíguo esse mundo pode ser!) mas acontece que essas portas, ou estão bloquedas, ou severamente deturpadas.
Espanta-me e repugna-me a atenção que devotamos a tanto insulto avulso, participar em semelhante orgia de agressividade, é como atirar pedras a esmo, sem reflectir nas consequências; os políticos e os jornalistas são alvos preferenciais, convém no entanto lembrar, que eles representam a ponta do icebergue oportunista que as nossas grosseiras diligências de ânsia justiceira pretendem desmascarar.
Razões para nos sentirmos indignados, são mais que muitas, mas são muito mais as situações que clamam por envolvimento directo; preferimos no entanto insultar, quase sempre acoitados na cobardia ignóbil do anonimato. Permitir que o insulto avulso se tranforme num hábito, e aquele que o adopta se deixe levar por semelhante impulso agressivo, sem estar aberto e disponível para colaborar em projectos que visem alterar situações consideradas injustas, não pode ser levado a sério, e a perniciosa parcialidade que o instiga, propaga-se no ódio (elemento aglutinador das massas), que a todos faz perder, enquanto os factos ficam por esclarecer; a delicada trama dos actuais problemas civilizacionais, exige dos cidadãos reflexão interdisciplinar, que ajude a compreender a complexidade dos riscos que ameaçam submergir a civilização.
O insulto avulso é uma arma de arremesso, ao ser usada indiscriminadamente, desencadeia uma onda de choque com consequências imprevisáveis. Se nos insultam a inteligência, será louvável que ripostemos com um chorrilho de injúrias exacerbadas? O desejo de eslarecimeto não se demostra pela evidência agressiva de uma linguagem apelando ao ódio.
Os meios de comunicação social difudem propaganda imbuída de mentira, mas o que é verdadeiramente nefasto para o esclarecimento factual, não é tanto a mentira piedosa (para quê massacrar os cidadãos com a verdade!), mas o uso de mensagens sedutoras fortes que capturam a atenção do consumidor de informação, intoxicando-o com mensagens subliminares, a eficácia deste tipo de enredo valida a aberração do insulto fácil, e da opinião mal fundamentada.
Sinto-me muitas vezes encurralado como um animal de circo que aguarda na jaula o momento de ser chicotedo, com a certeza torpe do olhar dominador do domador que exige a execução de ridiculas habilidades, em caso de falha lá se vai a ração diária; o olhar apagado dos animais não devia acendar o riso sincero das crianças, humilhação pública dos animais, humana crucificação, pesadelo ou realidade?!
O quotidiano não é o lugar da comunicação, é o lugar da intrusão abusiva do espaço alheio, é o lugar da servidão, do acumular dos sedimentos e abundantes escórias informativas. Esse é o jogo, em que inacreditavelmente apostamos os talentos pessoais e intransmissíveis, embriagados pelo desejo do sucesso fácil, empenhamos a liberdade.
Talvez esteja sempre a escrever o mesmo, ou talvez não?! Sei que não, ao longo de muitos anos consegui não desistir de caminhar a pé, e sinto sempre o mesmo, ao embrenhar-me na paisagem, é a magia do lugar que prevalece, os odores inebriam-me, linguagem que se desenvolve sem pressas, as conclusões rapidas e definitivas não me interessam, quando viajamos de carro, amodorrados ao conforto ronronante, aprecíamos o desfilar da paisagem, mas é uma realidade distante que nos escapa e no entanto está ali tão perto. Um pequeno esforço de vontade, inicia um débil interesse que ao crescer se pode transformar na sequóia gigante e milenar à sombra da qual é possível contar as histórias de existências vivas, e deixar de lado o mórbido conformismo normalizado, e as injúrias cínicas engalanadas.
Percepcionamos e digerimos a realidade de forma fragmentada. A realidade escapará sempre à capacidade humana de apreensão.
O pulsar geológico que marca o tempo deste planeta, só é perceptível para o ser humano quando este descobre dentro de si mesmo dimensões espácio-temporais, que escapam às normas do convencional marchar quotidiano.
A sobrevivência da humanidade depende do desenvolvimento dos "orgãos sensoriais interiores", juntar as peças de modo a formar uma ideia inteligível e comunicável de unidade.
A arreigada alienação globalizante dificulta a percepção da fragmentação da realidade. A enxurrada de informação que diariamente corre pelas autoestradas da informação, arrasta uma tal quantidade de lixo, que nos afoga dentro das nossas próprias casas. A deturpação da realidade é consequência, não causa, ninguém consegue digerir tão grande quantidade de informação, divergente, tendenciosa, maniqueísta, sem que os sentidos não acabem embotados. Discutir acaloradamente assuntos, que à partida sabemos serem causas perdidas, e deixar sempre para depois os temas que mais nos empolgam, pressentimos que estamos sempre em perda, uma vez que os casos mediatizados nos levam sempre a melhor, quando efectivamente nos desviam a atenção do essencial, a informação infiltra-se sem respeito, mete-se entre nós e os nossos interlocutores, a creatividade de uma salutar conversa entre iguais é cerceada pela raíz, domínio absoluto da realidade difundida pelos massmédia, aniquilação da realidade dinâmica em que o indíviduo devia estar inserido.
Afastem-se um pouco, para mais longe, até que o burburinho se torne inaudível, não acontece nada de extraordonário, o silêncio, uma questão de atitude, cerrar as pálpebras alguns intantes, correr as cortinas, os véus, as importâncias, as certezas, resta sempre alguma coisa, talvez a vontade de entregar os despojos aos seus legitímos donos, varrer o lixo, apagar a sinalética das paredes.
A dificuldade é enorme, tal avalanche de informação, não para de deslizar encosta abaixo, muitos são os que ficam soterrados sem hipotéses de escapar ilesos e os outros captivos do acontecimento, são igualmente vitímas.
Uma civilização hipercativa que literalmente move montanhas, não pode ser deixada ao Deus dará (o mesmo que dizer entregue a interesses políticos, económicos e estratégicos, cujo passatempo preferido é atirar milho informativo envenenado, deleitado-se enquanto os patêgos lutam por conseguir engloir mais uns grãos!).
Quanta informação intrometida nos corta uma linha de raciocínio ao longo dia, e muitas vezes o que se assemelha a interrupções insignificantes, torna-se um empobrecimento sistemático de linhas de pensamento critíco-criativas. Uma mente mal cuidada, assemelha-se a um jardim desprezado. O ser humano assimila regras, normas, valores, símbolos, conceitos, de maneira a conseguir integrar-se num espaço sócio-cultural, e interagir com outros seres humanos que dominem uma linguagem idêntica. Desde o momento do nascimento até ao último suspiro que esse linguajar dialéctico sulca tempestades e bonanças. Chegados à encruzilhada presente, em que as consequências dos nossos actos individuais podem ser devastadoras, quantas espécies correm risco de extinção? O modelo democrático vigente já não serve os interesses individuais, e consequentemente os interesses colectivos, o cidadão cada vez está mais indefeso, perde o trabalho e dizem-lhe que é a conjuntura, que são as regras de mercado, que é assim, que a produtividade está a cima dos interesses do homem e do próprio planeta, e nós cúmplices do retorno da barbárie, lodaçal de cobardia onde chafurda a consciência, mete dó, mete dó o desatino direita, esquerda, mete dó a desonestidade intelectual, a quem enganamos nós?
Somos negligentes convictos, de o podemos ser! Até quando?
Hanon -- Porque motivo voltará Vulcano quem daqui partiu Mercúrio?
Trasímaco -- Que quer dizer isso de Vulcanos e de Mercúrios?
Hanon -- Quer dizer que, quando saíste, parecias ter asas e que agora coxeias.
Trasímaco -- É geralmente neste estado que se volta da guerra.
Hanon -- Que tens que ver com a guerra, tu que és mais covarde que um gamo?
Trasímaco -- A esperança da presa dera-me coragem.
Hanon -- Então voltaste carregado de despojos inimigos?
Trasímaco -- Pelo contrário, trago o cinto vazio.
Hanon -- Custa menos a levar.
Trasímaco -- Mas volto carregado de crimes.
Hanon -- Fardo de bom peso, na verdade, se tem razão o profeta ao comparar o pecado ao chumbo.
Trasímaco -- Por lá vi e cometi mais crimes que em todos os meus anos já passados.
Hanon -- Que há então de agradável na vida militar?
Trasímaco -- É a cousa mais criminosa e mais desastrosa do mundo.
Hanon -- Mas que pensam então os que, alistados por uns soldos, e até mesmo por nada, se precipitam para a guerra como para um banquete?
Trasímaco -- A única hipótese possível é que, perseguidos pelas Fúrias temíveis, entregues de corpo e alma a um diabo maligno e à miséria, só aspiram por este meio a apressar a morte.
Hanon -- É também a minha opinião, porque ninguém os poderia, por preço algum, meter em acções honestas. Mas conta-me lá a batalha e diz-me para que lado se inclinou a vitória.
Trasímaco -- O alarido e o estrondo -- toques de clarins, mugidos de trombetas, relinchos, vociferações -- eram tão intensos que nem podia dar pelo que se passava e mal sabia onde estava.
Hanon -- Como é possível então que os que voltam da guerra nos descrevam com pormenores os actos e as palavras de cada um, como se apenas tivessem sido os espectadores ociosos de todo o combate?
Trasímaco -- Porque são uns refinados mentirosos. Sei o que se passou na minha tenda, mas não sei nada do que foi pelo campo de batalha.
Hanon -- Até és capaz de ignorar como ficaste coxo.
Trasímaco -- Quase. Que Marte me seja daqui por diante contrário, se não fiquei ferido no joelho, ou por uma pedra ou por um casco de um cavalo!
Hanon -- Pois eu vi como foi.
Trasímaco -- É verdade? Contou-te alguém?
Hanon -- Não, mas adivinho.
Trasímaco -- Dize lá então.
Hanon -- Encheste-te de medo e, ao fugires, estendeste-te no chão e bateste com um joelho muna pedra.
Trasímaco -- Diabos me levem se não foi mesmo assim! Adivinhaste!
Hanon -- Olha: vai para casa e conta essas histórias à tua mulher.
Trasímaco -- Vai-mas dizer bonitas quando me vir voltar sem vintém.
Hanon -- E como é que te arranjas para restituir as rapinas?
Trasímaco -- Já estão restituídas há muito tempo.
Hanon -- A quem?
Trasímaco -- Às mulheres, aos taberneiros e aos que me derrotaram nos dados.
Hanon -- Cousa bastante militar. É justo que o dinheiro mal ganho seja ainda mais mal gasto. Mas teria satisfação em saber que não cometeste sacrilégios.
Trasímaco -- Ora! Por lá não havia nada de sagrado; ia tudo, profano e divino.
Hanon -- Como hás-de tu reparar isso?
Trasimaco -- Há quem negue que se devem reparações por estragos de guerra; tudo o que nela se faz assenta em bases de direito.
Hanon -- Direito de guerra, sem dúvida.
Trasímaco -- Claro.
Hanon -- Mas esse direito é a pior das injustiças. Não foi o amor da pátria, foi a sede dos despojos que te levou à guerra.
Trasímaco -- Confesso-o; mas acho que bem poucos vão para lá por cousa mais nobre.
Erasmos, Colóquios
A política está refém da economia, o cidadão está refém do consumo, a lógica neoliberal corrompe a essência do sentido da existência humana.
Os fogos restritos à esfera pessoal tornam evidente o inferno colectivo de uma sociedade atolada na intolerável (a)normanidade.
Quando a ética e a estética não atravessam o quotidiano de mãos dadas, a caminhar humano perde o tino, acaba a maior parte das vezes devorado nas arenas públicas e privadas, pelos leões reais e fictícios, o público assiste inebriado, o momento é de catarse, o violência esfuma-se num céu boquiaberto.
A mudança de mentalidade não basta, é preciso observar de forma detalhada o que se pensa, sente e obviamente, como se atravessa o quotidiano.
Queria escrever da mesma maneira que os ramos das árvores crescem, ou seja, de modo a que nenhuma folha fique privada da luz essencial às funções vitais da mesma.
E no entanto escrevo, como os agricultores que mutilam as àrvores de modo a que os seus ramos cresçam atados a uma armação.
Escrevo, desejando que a premência de divulgar a flor que corre perigo de murchar, não me leve a obliterar do horizonte, a ideia do jardim onde cresceu.
Voltar as costas à torrente de violência que ameaça inundar o nosso quintal, é o acto de negligência social mais comum, inventamos mil desculpas esfarrapadas, até criarmos a ilusão de imunidade aos perigos que espreitam. Existe sempre algo mais importante que atraí a nossa tão assediada atenção, montras onde se exibe a vacuidade vaidosa da inconsciência, que nos faz amíude sentir tão orgulhosos!
Depois as lágrimas jorram, para limpar a culpa do sangue derramado, é a responsabilidade que tentamos imputar aos outros, a dilacerar-nos as entranhas. No dia seguinte, atarefados, às voltas com as importâncias que empolgam a nossa vaidade, atiramos para o esquecimento o projecto falhado conhecido por humanidade, nem por um minuto duvidamos de estarmos a fazer a opção correcta!
Acho que é apropriado citar aqui Miguel Torga, a propósito do lançamento da primeira bomba atómica:
Caldelas, 7 de Agosto -- A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, teimou e descobriu a pedra filosofal!
Caldelas, 8 de Agosto -- Em Hiroxima, onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa durante vinte e quatro horas, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da verdade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil pessoas, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente, não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, nem sessenta, nem setenta mil mortos. Isto só: todos os seres vivos liquidados!
E a humanidade dobrou o jornal aliviada.
Miguel Torga, Diário
Para que seja possível compreender os mecanismos que levam o ser humano a permitir que a violência e o desejo de ser violento (obter prazer quando castiga alguém, provocando dor) se apoderem da vontade de forma tão avassaladora, é necessário descobrir as barreiras sociais, culturais e morais que criaram bloqueios ao desenvolvimento da identidade desde a infância até à idade adulta.
Quanto mais detalhadamente me observo, melhor percebo "o milagre" que representa ter atingido a idade adulta, psicologicamente são, sem ter cometido qualquer crime contra a humanidade. De tal forma fui agredido (por instituições e indivíduos) sem direito a manual de instruções, que me ajuda-se a defender e resistir ao desconhecimento, à negligência, à vingança (a vítima de outrora transforma-se em carrasco) e aos arbitrários interesses que menosprezam a integridade fisíca, psicológica, emocional e moral de qualquer cidadão indefeso.
Muitos dos actos violentos, não passariam de surtos relativamente fáceis de circunscrever, mas na verdade, transformam-se em epidemias incontroláveis, aparecendo novas estirpes, cada vez mais tenazes e resistentes aos tradicionais mêtodos de contenção, e quanto aos meios de prevenção, não só são ridículos, como perversamente ainda contribuem para o alastramento das epidemias.
A competição desenfreada considerada normal numa sociedade que a estimula, sujeita a maioria dos cidadãos à ditadura da produtividade, sem opção e sem voz, são violentados cruelmente, e aconselhados a resignar-se, as consequências desta forma de violência sâo das mais nefastas, aliás, são cada vez mais comuns as doenças psicosomáticos, psicoemocionais que debilitam os cidadãos comuns (consideradas o preço justo a pagar pelo desenvolvimento). Esta forma de violência execrável, que visa fragilizar os cidadãos, torná-los mais dóceis, mais amedrontados, mais desconfiados, mais isolados, ou seja, menos propensos a colaborar activamente em projectos alternativos (não-violentos) onde a união faria a força e a diferênça.
Que fique claro, que apesar de até hoje as civilizações conhecidas terem como suporte alguma forma de escravatura, não é possível à espécie humana baixar os braços e ceder à intransigente delinquência instalada (mentira, manipulação, corrupção,etc... fervorosas prátixas que os governos democráticos adoptaram como norma de conduta e dignidade ministerial) na forma de múltiplos poderes dominantes, que obviamente, estão dispostos a levar até às últimas consequências e usar todos os meios à sua disposição para "convencer" pela força, os insubmissos.
Educar para a violência, ou melhor educar o ser humano, de modo a que o mesmo aceite e se submeta à violência sem fazer ondas, aplicando estratégias de sedução, ou o oposto, de punição, como formas de instigar à violência.
É muito difícil discernir a melhor maneira de construir a harmonia interior, imprescindível para se conseguir manter uma conduta lúcida e atenta, método eficaz para evitar cair em equívocos interpretativos de conceitos e valores que alimentam a alienação das massas, e que são o combustível das caldeiras onde sentimentos, como o ódio, a inveja, a ambição, a vaidade, etc...activam os mecanismos das respostas violentas.
Querer à viva força que os seres humanos sejam considerados violentos, sem merecer sequer o benefício da dúvida, é acreditar que a humanidade nunca poderá romper o véu de imbecilidade que actualmente a envolve, o que seria demasiado trágico e insuportável, e seria a negação do esforço de muitos homens e mulheres, que ofereceram a sua vida em prol da evolução da sociedade e consequentemente da humanidade. E apesar de parecer que estamos sempre a retroceder (o perigo de isso acontecer é real), e até poder estar em causa a própria sobrevivência do planeta, continuamos a ter que resistir à mediocridade e à mesquinhez que desacredita o ser humano, não dar crédito aos oportunistas que aproveitam todas as oportunidades para fazer a apologia da violência, de todas as violências que diminuem o ser humano.
Sem memórias o pensamento humano seria tão estéril como as vastas crateras da lua, mas as memórias podem transformar-se em terríveis armadilhas existenciais. Para reconhecer os locais críticos, o melhor é bisbilhotar desavergonhadamente a carta onde pouco convictos, rabiscamos ao longo de toda a existência, esboços de memórias, ridiculas bizarrias, que só muito remotamente poderiam ser de alguma utilidade.
As memórias são muito difíceis de perceber, caprichosas, intrometidas, perturbadoras, inebriantes, e como deixaram de estar sujeitas às leis das contingências temporais, não são nem passado, nem presente, nem tão pouco futuro. Diria que as memórias funcionam como um labirinto em permanente mutação onde nos perdemos, por julgarmos deambular em paisagem familiar.
O cinismo de algumas memórias abalrroa-me, em braçadas desesperadas tento manter à tona a lucidez que o momento requer, mas as memórias são o fluído que tranversalmente atravessa a identidade, património que partilho, sem controlar; à experiência pessoal, concreta, sofrida, junta-se toda a panóplia adicional construída pela imaginação.
As memórias são movimento, perpétua inquietude, incorpórea deformação do passado emergindo na perplexidade do fugaz presente.
Os livros sagrados foram escritos por homens que estavam tão longe de perceber a essência da verdade humana, como qualquer outro ser humano que existiu ou venha a existir. A pretensão de que alguns homens de antanho seriam bafejados pela sorte de terem uma via aberta e directa de comunicação com a divindade, é identica à de alguns cidadãos (demasiados, tristemente famosos, sombrios e perniciosos) que hodiernamente disseminam mensagens presunçosas de verdades, assumidamente de natureza divina, ou divinatória, envolvendo a humanidade num espesso manto de cegueira iridiscente.
Outros seres humanos, mais humildes e discretos, desinteressados do protagonismo fedorento, reconheceram que o conhecimento é sempre escasso e fugidio, assim como qualquer descoberta à escala humana é sempre o resultado do esforço da consciência colectiva de toda a humanidade, e não êxito individual, deificado ou não, mera vaidade sem consistência, digna de repúdio. O que na natureza humana é verdadeiramente divino é essa necessidade de partilhar, de ir ao encontro do outro, quantas vezes por caminhos tortuosos é certo, mas intrinsecamente libertadores.
Enviados especiais, existiram e continuama existir às pargas (Praga divinatória) a percorrer o mundo de lés a lés em busca da "verdade" jornalística que lhes traga protagonismo e reconhecimento entre os (ím)pares, e só muito poucos percorrem a estreita e espinhosa vereda, que coloca o homem em frente das esmagadoras incertezas e medos comuns a qualquer humano, sob a égide não importa de que civilização.
A verdade não só é acessível a qualquer ser humano como estabelece com esse mesmo ser humano uma relação dialéctica de mútua descoberta e interminável aperfeiçoamento, e toda a informação sagrada ou ímpia que não contribua para o desanuviamento moral e espiritual da mente humana, é um atentado à memória da humanidade.
Ser a favor ou contra é a maneira fácil de enrolar o pensamento numa inconstância ridícula que não é digna de alguém que aspire a respeitar o verdadeiro legado da espiritualidade humana, existe qualquer coisa de conhecimento genuíno a que o ser humano deseja acerder para satisfazer uma necessidade íntima de comprensão, desejo de apaziguar o desconforto interior, a ténue manifestação dessa necessidade tão humana, é no fundo a revelação "divina" de que existe realmente algo, intríseco à natureza humana que precisa de ser enxergado e estudado com afinco e determinação, esse algo pode defenir-se como verdade, e o caminho para lá chegar a não-violência.
A espiritualidade é essencialmente crescimento humano, e crescimento humano é a tentativa humilde de compreender a natureza do medo, e desejar interpretar de que forma a imaginação humana pode deturpar a essência da liberdade humana e lançar qulaquer civilização num obscurantismo sedento de violência, sedento de saque, sedento de martírio, em suma, sedento de mentira, castigo divino condenando gerações após gerações a vegetar à sombra de confortável, mas falsa segurança existencial.
A verdade não existe, a verdade cresce dentro do homem e por vontade do mesmo, influências várias determinam o desabrochar da necessidade intrínseca do que vou considerar uma forma de honestidade essencial, que vincula o ser humano a si mesmo, desse modo a identidade flui livre e espontânea, e liberta o despertar da consciência que é consciência de ser.
O deambular do meu raciocínio não tem por finalidade "inventar" respostas, mas reivindicar dúvidas e interrogações, manifesto opondo-se à enfermiça condição de subserviência a qualquer forma de mentira, que usa meios sobejamente conhecidos para se instalar como verdade inequívoca, eleita por uma maioria abespinhada em torno dos despojos fictícios, ou reais do drama humano.
Canto da vida, canto da terra de Gustav Mahler, (Das Lied von der Erde) aconpanhou-me ao longo de mais uma tentativa de aproximação, palavras, embaraços, abraços...
A mundialização está a transformar a democracia num imenso deserto de areias movediças, e os políticos continuam vergonhosa e impunemente a assegurar aos cidadãos a inexistência de perigos que justifiquem alterações estratégicas de fundo, para que a humanidade não venha a correr o risco de sucumbir à desenfreada pilhagem em que o planeta se encontra submergido. Então, porque será que cada vez mais pessoas sentem o terreno fugir-lhes debaixo dos pés?... Preocupações sem sentido, dirão aqueles que de longe observam nas areias reluzentes, a miragem das ambições desmedidas, cerrando-lhes as cortinas da consciência.
A realidade está sempre em fuga, esgueira-se pelas mais infímas fendas das certezas que o tempo corrompe, e o ser humano esbarrando na inevitabilidade de satisfazer necessidades vitais, confunde o supérfluo com o essencial.
A hipocrisia adulta costuma carregar aos ombros delicados do futuro, a esperança nas crianças que crescem rodeadas pela negligência presente.
Falar de crianças é lembrar que a vida é um caminho (interligando gerações), quem pode afirmar qual a parte mais importante (e mais interessante) dessa viagem? E como podemos designar o que é verdadeiramente o início, o meio ou o fim da caminhada que é a vida?
Quem afirma que as crianças são o que há de mais belo no mundo e simbolizam a esperança no futuro, esquece-se que a beleza é um valor em desenvolvimento dentro de cada ser humano, e simultaneamente não percebe como está indelevelmente ligado à corrente comum (enquanto ser humano em permanente mutação) que une todos os seres humanos que partilham a sociedade.
Se o cidadão estiver atento ao funcionamento do seu universo interior, acabará por perceber que não é melhor nem pior em adulto do que era em criança, é no tempo presente, um ser humano numa diferente fase da sua evolução. O facto de se supor que tenha perdido a inocência, não significa que tenha perdido a alma. A maturidade revela ao ser humano a beleza da consciência ética e estética, que o leva a respeitar a vida de uma forma que seria impensável em criança, da mesma maneira que a lucidez do pensamento adulto exalta a necessidade de verdade e liberdade, inacessível numa fase da vida que é dominada pela espontaneidade inconsciente.
As crianças são a esperança que o coração adulto deve albergar, de maneira a que, enquanto seres humanos em evolução, crianças e adultos, tenham ao seu dispor meios para que, ao longo de cada distinta (mas não separada) fase das suas existências compreendam a importância da interacção criativa entre as diferentes camadas etárias da população.Com um pouco de esforço o adulto torna-se um ser humano que irradia genuína beleza, tão cativante e irrevistível como a beleza infantil.
O adulto pode até aceitar (é mais confortável) que o considerem perverso, desígnio inevitável dessa fase da existência, consequência "natural" da perda de inocência, trata-se de um preconceito derrotista e oportunista com consequências terríveis nas mais diferentes áreas da actividade humana. O adulto deixa-se corromper, julgando assim, ser possível couraçar a fragilidade intrínseca que lhe constrange a desenvoltura exigida pela socialização.
O desenvolvimento da atenção é fundamental, quer durante a infância, quer na idade adulta, trata-se da chave mestra, que abre as portas ao sentido de responsabilidade interactiva, indispensável para que o ser humano não passe boa parte da sua vida à deriva, ao sabor de forças que não respeitam os seus legítimos interesses de indivíduo.
Podemos sair formados dos institutos e universidades, mas como seres humanos nunca estamos verdadeiramente formados, o dinamismo deste processo, necessita de atenção permanente, quando a mesma é descurada permite que a corrupção se entranhe na mente, iniciando um processo de deformação (corrosão do sentido crítico), quando deixado ao acaso, pode chegar à completa perda de identidade, e consequente perda de respeito por si próprio, e pelos que o rodeiam. Este processo degenerativo, leva-nos a desacreditar o adulto, e olhar para as crianças como reserva de esperança. Na verdade, essa esperança, continuará a ser fogo fátuo, caso os adultos teimarem em negligenciar aspectos fundamentais do seu comportamento na fase adulta da existência.
Reparem como é fácil tropeçar e cair no vazadouro da inconsciência comum, e aí permanecer para a vida inteira agarrado ao destroço em que a existência pessoal se pode transformar, ou eventualmente, ao destroço de alguém a quem por questões de proximidade, seja possível deitar a mão.
Olho em redor em busca de motivo (para o crime de escrever), lembra-me a imobilidade felina do gato que aguarda junto ao buraco, de onde o rato há-de assomar.
Papagaios coloridos agintando no céu as nuvens de silêncio sem idade, fluíndo e refluindo, movimento amplo de marés, onde mergulha o meu olhar.
Andar desembaraçado, avançando no areal, pés descalços tacteando cumplicidades perdidas, em estivais devaneios.
Consumo exacerbado, preservação ambiental e liberdade individual, vivem de costas voltadas.
Vinculados a esta forma exasperada de sobreviver, consumindo desenfreadamente a alma, atafulhada de bens e serviços supérfluos, em doses tais, que seriam letais para ser humano que ainda estivesse no seu perfeito juízo!
Vivem os trabalhadores atemorizados com a sobrevivência das empresas, que dependem da real possibilidade de escoar os bens produzidos. Por mais intragáveis que esses bens sejam, e por mais desnecessários que se revelem, ainda assim devem ser religiosamente vendidos aos incautos consumidores. Incrivelmente aperece sempre alguém que se deixa convencer, e ainda bem, pensam aqueles cuja sobrevivência está presa pelo fio esgarçado das vendas do produto que fabricaram.
A teia é simples, mas o enredo das mútuas dependências é complexo, ainda que não fosse difícil provar as degrandantes consequências ambientais e humanas (cada vez mais, o pão nosso de cada dia), agudizadas por crises mal explicadas, coube à passividade instalada, assumir-se como única resposta viável.
De que serve o voto que nos deixa à míngua de soluções justas e equilibradas, para que as futuras gerações não venham a ser severamente penalizadas pelos bárbaros actos cometidos em nome do bem estar (cada vez mais questionável), enquanto o planeta agoniza e a humanidade se precipita no abismo.
O consumo de bens supérfluos é mera a solução paliativa, para uma doença disseminada à escala planetária, que consome vorazmente pessoas e ambiente. A extraordinária capacidade de adaptação do ser humano, trouxe-lhe o sucesso enquanto espécie, mas poderá determinar o seu extermínio.
Por mais que queira, a propa(ganda) merda! não me larga, e por isso mesmo, acredito que seria capaz de enfastiar até o mais paciente dos interlocutores. A ignorância é o conceito chave, eu iria mais longe, é a degeneração do código genético onde deveria estar inscrita a matriz da moral, alimento imprescindível ao desenvolvimento da capacidade de discernir em liberdade. Discernir é simplificar, é não ficar agarrado ao acessório, quando com o mesmo esforço se pode usufruir do essencial (trata-se de economia de meios e rentabilização de recursos, portanto economicamente correcto!).
Acusado de simplista! Eu que exerço uma autocrítica cerrada aos pensamentos que ousam erguer-se na aurora íntima do irreprimível desejo de liberdade.
Se fosse possível semear palavras livres, como quem planta no quintal os vegetais da sua preferência, deixava imediatamente este teclado em paz e aproveitando a luz diurna que ainda resta, revolveria entusiasticamente a terra macia, que se estende para além da vertigem debruçada a este janela onde paira a inquietude do meu olhar.
Mas não, as palavras custam a desabrochar, permanecem longo tempo enterradas na gélida e dura terra, coberta pelo inverno da incúria humana. Algumas brotarão, ao pressentirem a chegada dos primeiros raios de luz primaveris, singelas e frágeis promessas de autonomia, nascidas para envergonhar, mesmo quem, não as lendo, julgue ficar imune. Nos jardins citadinos, improvisarão desalinhos, espalhando o odor acutilante, as cores da liberdade, acordarão a vontade.
Regurgitações inconvenientes, elucubrações indecentes, espirros impertinentes disseminam os esporos da indigência escandalizadora, pobreza de espírito paradigmática, manobras da "arte" de não-comunicar, de quem possui os meios para intoxicar a pública opinião, forjando a ilusão de autenticidade do serviço de informação, método eficaz de alienação, para entreter o consumidor.
As repercussões futuras desta forma de vacuidade existencial depende em muito dos caprichos da história, os sintomas palpáveis são de mau augúrio.
Nem mesmo a estirpe de mandatários celestiais, escapará ilesa aos efeitos colaterais das mensagens subliminares desinformativas (com consequências deformativas da atenção do espectador/consumidor), que desvirtuam a apreensão dos factos reais.
Quando observamos uma máquina poderosa em movimento, sentimos um mistura de fascínio e terror, sentimento idéntico ao que o indivíduo experimenta perante as tremendas forças da natureza em acção. Fascínio e terror. Quantos elementos descartáveis são quotidianamente consumidos num ritual sacrificial, afim de apaziguar a besta desumanizada em que semelhante máquina se transformou? Para manter a ilusão de funcionamento escrupuloso.
Não tenham, os eventuais leitores desta tumefação interpelativa, que quero mudar seja o que for, quero é espalhar aos quatro ventos palavras fedorentas, conceitos envergonhados, pensamentos ostracizados, valores absurdos e princípios obituários; insurjam-se as tranquilas(de)mentes contra a obnubilação abjecta das águas turvas deste cismar.
Pessi(istmo), a esperança de não estar só, espírito em deriva dialéctica, drapejam memórias amarradas aos postes do pensamento. Escrevo na vã tentativa de salva(guardar) a escorregadia alma, e contrabandear cumplicidades entre irmãos de escárnio e maldizer.