Será que cada um de nós, enquanto cidadão interino desta civilização em transformação, não deve mesmo assim, exigir que sejam tomadas medidas preventivas, de modo a evitar que mensagens (implícitas ou subjacentes) políticas, económicas, religiosas e outras, cujo conteúdo possa vir a ser um risco real para a sobrevivência da humanidade, e até do próprio planeta que nos serve de lar cósmico?
Quando uma civilização cresce à volta de um centro de onde irradia um foco de influências perversas, causa directa da propagação da dessensibilização e desresponsabilização tão em voga actualmente. Renunciem à intervenção directa na vida pública, dediquem-se afincadamente às actividades de rapina privada, minagem metódica da paisagem, que alguém (por hipótese, talvez a nossa descendência!), terá que usar para construir o futuro.
Uma civilização que continua a engordar (cresce, literalmente o número de obesos desta civilização do desperdício) à custa da depauperação dos recursos naturais dos países pobres, e cujos responsáveis recusam sistematicamente apoiar medidas políticas de sustentabilidade ambiental, paraalém de hipotecar o futuro desses países, inviabiliza o futuro da própria humanidade.
Uma civilização que dissemina um clima de medo e insegurança entre os cidadãos dos países desenvolvidos, para conseguir implementar medidas de coacção laboral e social, de modo a restringir as liberdades, direitos e garantias consagradas nas respectivas constituições. O desemprego (conceito falso, uma das patranhas mais absurdas do sistema); a emigração (método de contensão salarial, para baixar os custos de produção e aumentar os lucros, em suma, forma de exploração execrável que afecta os trabalhadores emigrantes e fragiliza os autóctones); as regras de mercado, a livre concorrência (meios para manipular trabalhadores em geral e populações desfavorecidas em particular nos países em vias de desenvolvimento).Sempre que uma multinacional anuncia despedimentos, o valor das respectivas acções sobe, porque será?
Os ódios étnicos (alimentados por fanatismos e fundamentalismos religiosos, ou outros) interessam a quem e porquê? O fosso cultural explicará a origem dos conflitos gravissímos entre povos e grupos étnicos, será o verdadeiro móbil do crime?
O optimismo bacoco em que o cidadão acredita, apesar dos indicadores sociais apontarem em sentido inverso, deve-se em meu entender ao facto de o cidadão desejar acreditar que as instituições funcionam, ou que pelo menos funcionarão em caso de crise grave (é fiável o patriotismo institucional?)
Como classificar uma civilização que enreda cada cidadão, numa luta sem tréguas contra tudo e contra todos (competir, outro papão ameaçador, vinculado a falsos pressupostos de dinamismo produtivo), afim de conseguir um lugar ofuscado pelas luzes da ribalta (quando chega a vislumbrar as luzes da ribalta está extenuado, e para além disso os melhores lugares já estão ocupados ou reservados)?
Quanto mais o cidadão escava (a sepultura) o túnel da íntima desesperança, mais intensamente vive a ilusão febril da iminência do sucesso lhe bater à porta, ou seja, quanto mais difícil e vaga a possibilidade de obter sucesso, maior a afinco com que escava o buraco. Sedução, receio pueril de ostracização, o sucesso marca-lhe o compasso de uma música de que só sabe o refrão!
Acontece que, ao concentrar-se quase exclusivamente na sua actividade profissional, ou no seu negócio (é preciso salientar que é cada vez mais evidente a necessidade de lutar com mais afinco para afastar o medo de ver o tapete a fugir debaixo dos pés), o cidadão esgota-se (é notório o desmoronamento emocional) e tenta desesperadamente recompensar-se, satisfazendo caprichos, e enredando-se numa teia de actividades lúdicas e lúbricas (suposto alívio para a desolação interior que (pres)sente, decorrente da luta sem tréguas afim de defender o lugar, e a condição que nunca vai possuir plenamente, fragilidade congrangedora).
Cair neste logro (normalidade inevitável), faz com que o cidadão praticamente perca todo o poder reinvindicativo, quantas vezes, esse mesmo cidadão está pessoal, e/ou profissionalmente endividado até à raíz dos cabelos, ficando à mercé das maquinações dos senhores do mundo (vive literalmente encolhido na espectativa de que a sorte lhe sorria, confia na fé de vencer, mas por outro lado afunda-se nas areias movediças do medo de se transformar num fracassado, risca do horizonte qualquer hipótese de luta que não tenha como consequência a realização do suposto projecto profissional ou empresarial que o absorve completamente). Colocou (in)voluntariamente a coleira recomendada para o seu caso pessoal (sem a qual, seria impossível encontrar o carreiro do sucesso).
A propaganda que consegue depauperar as resistências do cidadão, e ao mesmo tempo inculcar-lhe novas dependências (quando um emprego não chega arranja-se um segundo, é preciso arranjar dinheiro para satisfazer todas as dependências adquiridas, que mais tarde serão substituidas por outras ainda mais onerosas, num círculo vicioso, que nunca mais acaba, perversidade devastadora de qualquer vestígio do bulir interior que faça justiça ao poder recriador da imaginação humana).
Paradigma vigente de comportamento individual e colectivo, atmosfera psicológica (apatia) que o cidadão não questiona, mesmo quando é incentivado a participar em atrocidades, na qualidade de burocrata que cumpre ordens (mesmo que saiba que está a preencher papelada que determine a maior catástrofe humana de sempre, não é nada com ele, cumpre ordens!).
Tudo pode acontecer, quando o cidadão se demite de forma aberrante das suas responsabilidades cívicas. O abuso de poder, consequência da irresponsabilidade colectiva, aproveitando-se da desatenção generalizada, pode em qualquer momento arrastar a civilização para alguma forma de catástrofe, de alcance destrutivo, que ninguém ousa imaginar. Mas há quem esteja atento, sim, isso é verdade, sempre houve, serão os primeiros a ser atirados à fogueira, como exemplo, considerados traidores, difamadores, denunciados pelos bajuladores do sistema, que procuram servilmente assediar quem manda, de modo a salvar a pele, só que, não raramente, também eles terminam igualmente atirados à fogueira, que ajudaram a manter acesa.
Pelo canto de um olho semicerrado (trejeito indiciador de desconfiança), espreito o "outro"; sim, o "outro"! Aquele, cujo respirar me incomoda, e cujo falar me agonia. Para esse "outro", não passo de uma sombra, ou quanto muito, de um obstáculo contornável, talvez um incómodo fugaz, ou eventualmente, uma memória irrisória. Nada deseja de mim, prossegue caminho, e eu (que entretanto, mudei de olhar) inspiro uma reconfortante lufada de reconciliação, com essoutro (espectro de ignorância adquirida).
O ser humano, não é, nem intrinsecamente mau, nem tão pouco intrinsecamente bom. Enquanto existir vida, renascerá a esperança. A beleza do ser humano, radica na (in)certeza dialéctica de estar sempre em aberto uma saída, um caminho.
As influências perversas a que o ser humano está sujeito, não só durante o período de crescimento, mas tanbém durante toda a fase adulta da sua vida, levam a melhor em detrimento do desenvolvimento da consciência. No entanto é possível também, em qualquer fase dessa mesma vida, o indivíduo romper com estes laços de dependência, e iniciar a aprendizagem da liberdade, que obviamente exige abnegação. Nesta fase é muito importante que o indivíduo tenha apoios, mas há quem vença as adversidades sózinho.
A inocência não deve ser confundida com bondade; só a consciência desperta é capaz de desbravar caminho através das brenhas mais ignominiosas, e conseguir reforçar os princípios e valores morais, de forma a aperfeiçoar os meios para interpretar e comunicar com o mundo exterior.
Nenhum caminho é fácil, e nem mesmo as pessoas, que seria suposto, terem razões para serem felizes, como por exemplo, não necessitarem de trabalhar (a maior ambição de muitos portugueses), escapam aos problemas existenciais. Quantas vezes, essas pessoas se deixam envolver num espesso manto de aborrecimento, como se tudo tivesse perdido o interesse, ou então, deixam-se enredar numa teia de hábitos e vícios, que ao invés de lhes alegrarem a existência, lhes sonegam a pouca liberdade já conquistada.
Muitas vezes o caminho que parece ser o mais fácil (que não exige dedicação e atenção regulares) é o que leva (quem por ele envereda) à servidão voluntária. Este condição sócio-cultural (demasiado comum) indica que muitos seres humanos sobrevivem no limiar do desabrochar da vida espiritual (entenda-se viver sem desprezar a beleza, a perfeição, a verdade, a justiça, a não-violência, a lucidez... porque a alma se quer leve e diáfana), e sofrem as pesadas consequências de uma hibernação moral prolongada.
Uma minoria acorda cedo para esse desabrochar espiritual ("vitíma" de influências), e dessa minoria, uma outra minoria (ainda mais reduzida em número), conseguirá desenvolver a consciência, a um ponto que para nós é quase impossível compreender. Essa minoria, por mais exígua que seja, em termos numéricos, nunca é desprezível, como também não passa pela cabeça de ninguém negar a genialidade humana, por a mesma se manisfestar somente num reduzido número de cidadãos.
Mesmo para alguém como eu, avesso a depositar esperanças ridículas no ser humano, sou sensível às mensagens de altruísmo genuíno (influência
intemporal benigna), benção para quem sente que está a desperdiçar tempo e energias, usando meios inadequados e procurando nos locais errados, forma de libertar o que de melhor existe dentro de si, enquanto ser humano.
O ser humano estando em permanete mutação, não pode deixar de aproveitar essa característica intrínseca da sua natureza como ferramenta para aperfeiçoar as potencialidades do intelecto, do sentido critico, da lucidez moral, e deixar fluir as emoções e os afectos de forma livre e espontânea (com o apoio inefável da autodisciplina)
A transformação gradual de alguns de nós, levará inevitavelmente à mudança do colectivo, e mesmo que seja insuficiente para implantar os verdadeiros valores da humanismo, não deixa de conter a beleza de todas as lutas justas (as que não clamam pelo sangue dos inimigos), que podem acontecer no âmago de um ser humano.
Desde que o horário do "Por Outro Lado" de Ana Sousa Dias mudou para as 23.00 horas de Segunda-feira, que eu não assistia ao programa. Porventura, para muitos espectadores, a mudança de horário não é relevante, tal não é o meu caso pessoal (como provavelmente o de outros cidadãos, que por motivos profissionais ou pessoais, à hora a que o programa é transmitido, sentem-se demasiado cansados para usufruir plenamente do mesmo).
Hoje, sabendo que o convidado de Ana Sousa Dias era o musicólogo Rui Vieira Nery, entendi que devia fazer um esforço para estar acordado à hora da emissão do programa. E como suspeitava, as expectativas não foram defraudadas (a vasta e profunda cultura associada ao talento de comunicador nato fizeram prova disso mesmo).
"O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive" Padre António Vieira
"Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro" Henry David Thoreau
Colhido no CITADOR.
Dois homens, duas citações, duas referências incontornáveis para qualquer pessoa interessada pelo humanismo, luz e guia moral, capaz de animar (em qualquer época) uma dimensão nova para a existência humana, que obviamente, não pode ficar confinada às fronteiras arbitrárias do pragmatismo mercantil vigente.
Quando a normalidade instalada, descaradamente contribui para o definhamento da liberdade moral, alicerce fundamental onde assenta o discernimento intelectual, instala-se a servidão voluntária.
A multiplicação das formas de dependência estimuladas pela propaganda consumista, contribuem amplamente para que os cidadãos acreditem não ser viável, contrapor alternativas.
As diferentes formas de sedução estão de tal modo aperfeiçoadas, que o cidadão acaba subornado, enfraquecido, desprezado por si próprio, até que o seu sistema imunológico intelectual, moral e espiritual entra em falência e o virús de uma forma de sida que afecta o discernimento do indivíduo, tem o caminho livre para se desenvolver até aniquilar irreversivelmente a identidade individual.
Ao deixarmo-nos seduzir (ou prostituir, o que vai dar ao mesmo) pela propaganda da fácil e acessível felicidade, que assedia indiscriminadamente, qualquer "tipo" de cidadão, sempre que ao virar de cada esquina, e sem quase dar conta disso, é irremediavelmente arrebatado pela omnipresente propaganda consumista (que é tão só a ponta do icebergue).
A mutação que transforma o cidadão moralmente saudável num farrapo humano, é um fenómeno que aproveita o subdesenvolvimento da consciência crítica, fenómeno comum numa sociedade alicerçada no imediatismo.
Então, "aprender" a ler, e a partilhar palavras, conceitos, ideias, emoções e afectos é dar sentido à existência. Ler, clássicos e não clássicos, simplesmente ler... Ler, é uma viagem que a vida nos propõe, que podemos aceitar ou não, temos o direito de optar. No entanto, é a perplexidade ante a dimensão da complexidade da condição humana que nos mete a caminho.
Relevante, sem qualquer dúvida, é o ambiente em que somos embrulhados à medida que assimilamos conceitos, desenvolve-se a consciência de ser, e a seu tempo, revelar-se-á o "produto", que distingue cada um de nós, dos demais seres humanos que deambulam à nossa volta.
Estas influências, são determinantes para que o indivíduo desenvolva a consciência de ser ramo cultural, de árvore civilizacional, com raízes universais, alimentado-se da intemporal condição do saber, que trancende a mesquinhez dos seus interesses pessoais (para lá da satisfação das necessidades que permitam o pleno desenvolvomento dos nossos talentos e capacidades, o resto é supérfluo, e as mais das vezes, inclusivamente pernicioso, quando o indivíduo caminha na senda da realização pessoal), e ligando-o ao sentido da intemporalidade que perpassa a limitada existência individual, e não o contrário.
O cidadão, para além de ser responsável pelo momento histórico de que é contemporâneo, encontra-se vinculado de forma indelével ao passado recente e remoto e também ao futuro (não considerem esta responsabilidade um fardo insuportável, porque paradoxalmente, a mesma, é fonte de liberdade e alegria de viver, sem estar sujeita à ditadura de modas passageiras).
Observemos de mente aberta, quão diversa e imensa é a quantidade de meios ao dispor da humanidade e a forma vil como são desperdiçados, e pior ainda, usados para abusar da ingenuidade humana.
Agora reflictam se este é ou não um dos maiores crimes que se comentem contra a humanidade, de onde derivam (pelo menos, eu acredito nisso), a maior parte das tragédias com origem na perversão humana.
Entretanto, passeamos a passividade delirante do nosso olhar, pelo enorme parque de diversões em que o mundo se transformou; as guerras, os atentados bombistas, a fome, o crime organizado (só para mencionar algumas), são fonte inesgotável de formas de entretenimento que o povo consome, aparentemente sem discernir, onde começa e acaba a realidade (aliás, que realidade fervilha afinal, no âmago de um cidadão que adormece e acorda a voltar as páginas de uma existência que já nem à força do consumo de Prozac faz sentido?!).
Creio que é consensual (virei aqui para outro ramal) que a educação de uma criança passe por experiências diversas de contacto directo com a natureza, incluíndo passeios a parques naturais. Os miúdos devem ir munidos com manuais botânicos para a identificação de plantas e do respetivo habitat, e já agora salientar a relação de interdependência que o homem estabeleceu, durante milénios, com o meio ambiente, estratégia de sobrevivência mútua.
Com a aproximação da Primavera, arranja-se tempo para sair das salas de aula e ir ao encontro da Mãe Natureza, parece-me ser uma excelente proposta. A escolha de dias soalheiros é importante, uma boa merenda não o é menos (apreciar o que quer que seja de barriga vazia pode ser uma experiência traumatizante), livros, cadernos, lápis, enfim todo o material didáctico que possa fazer falta para que a criançada ponha em evidência a imagimação criativa e a especulação interpretativa do meio que a rodeia. Escrever, desenhar, ler, cantar, aprender a reconhecer as plantas, enfim, usem a imaginação, divaguem, descubram as patranhas nas entrelinhas do que ficou por escrever...e ler.
Com muita frequência ouvimos pessoas comentar, que temos o dever de enaltecer os supostos feitos históricos, que os nossos antepassados conseguiram realizar. Essas mesmas pessoas não querem ver a história adormecida em estantes poeirentas de bibliotecas e outras instituições afins.
Ensinemos pois então à criançada as "verdades" dos feitos patrióticos, exaltemos as vitórias emblemáticas, lembremos como fomos bons a disseminar as sementes da "superior" cultura lusitana (ainda hoje detectável entre os autóctones).
Feitos históricos! Epopeias! Deixar a marca das nossas garras espalhadas pelo mundo, pilhar bens e vidas alheias e ainda vangloriar-se?!
Os feitos históricos (as conquistas, as invasões, as cruzadas e outras iniciativas do género são fruto da ganância política e económica, com o fundamentalismo religioso a ajudar) são a expressão da necessidade artificial de expansionismo que as classes sociais dominantes (que nunca são sensíveis ao flagêlo que vão inflingir a outro povo, como tão pouco os comove o sofrimento que causam aos seus concidadãos).
Aqueles que deviam ser abençoados com uma extraordinária clarividência (por terem a seu cargo a responsabilidade de servir o estado) revelam-se facilmente corruptíveis, devido à ânsia de aumentar o seu poder e influência, chegam a perder a mais básica noção de senso comum. Os feitos históricos (salvaguardem-se as excepções) confirmam amiúde a barbárie dos seus protagonistas, que são capazes de arrastar nações inteiras para tragédias (evitáveis na maior parte dos casos), estupidamente classificadas como gloriosos actos de patriotismo (como se o melhor acto de patriotismo não fosse respeitar a integridade alheia).
Se o problema é de natureza pedagógica vamos então, lembrar todos os feitos históricos (individuais e colectivos) que realcem pessoas e povos que mostraram defender a intemporalidade e a universalidade. Para não terem que pactuar com a mesquinhez inerente à defesa de interesses circunstanciais (que na maioria dos casos não levam em linha de conta o interesse do povos em causa) de indivíduos, instituições, corporações, países e outros, envolvidos em projectos expansionistas que não resolvem os problemas do presente e tantas vezes comprometem o futuro.
Feitos históricos, ou actos de rapinice desavergonhada? Todos quantos no seu tempo divulgam a falsidade dos valores da propaganda, que as élites dominantes usam para intoxicar e seduzir o cidadão comum, de maneira a levá-lo a apoiar e participar em crimes humanitários, imaginado que está a defender causas legítimos (a democracia à americana por exemplo), são os intemporais protagonistas da verdade histórica, dos (não)feitos históricos.
«Os tentáculos dos interesses políticos e económicos», excelente entrada do ditocujo.weblog. a merecer leitura atenta. " Captive State: The Corporate Takeover of Britain", by George Monbiot, aqui fica mencionado o livro que inspirou o autor do ditocujo.weblog a escrever a entrada supracitada.
Creio que muitos dos cidadãos que procuram adoptar uma conduta cívica respeitadora do ambiente em geral e da separação dos diferentes tipos de lixo em particular, já pressentiriam que mais tarde ou mais cedo seriam defraudados pelas instituições que deviam dar o exemplo.
Tenho presente a imagem de um país onde um punhado de cidadãos tentam (já que está na moda mencionar o século XXI, quando se pretende insinuar a inadmissibilidade de algo que não correu como devia) cultivar uma conduta digna de cidadãos de uma comunidade civilizada, ajuda preciosa para melhorar a imagem de um país que prefere cuspir para o chão (e para o ar, desde que possa ficar com o rabinho de fora, qual é o problema?!).
Este grupo de cidadãos (que eu acredito ser heterogéneo) não só não é exemplo para nada, como ainda passa por tanso, pois «os outros», ou seja aqueles que estão acima dessas modernices, podem vangloriar-se de continuar a proceder correctamente. O esforço (e sabemos como custa ao português lutar contra a inércia da preguiça estrutural, uma das maleitas nacionais) foi em vão para uns (o que não corresponde à verdade, se agiu de acordo com os princípios de cidadão de consciência acordada, não necessita de qualquer recompensa adicional) e indirectamnete deu razão a muitos (o que também é falso, mas que para muito boa gente serve perfeitamente de desculpa de mau pagador).
Portanto, mais uma vez confirma-se que, pelo menos alguns cidadãos deste país mereciam ter instituições (e não instrumentos ao serviço do clientelismo mais abjecto, e praticado à vista de todos) honestas, dirigidas por cidadãos sérios (que em caso de abuso de confiança, tivessem que prestar contas públicas dos seus erros).
Enquanto neste país não houver espaço para que se possa exercer uma cidadania responsável e atenta, vamos continuar a ter que pagar (quer em impostos, quer em qualidade de vida) uma factura demasiado elevada, por um serviço de qualidade péssima.
No entanto, somos nós, enquanto cidadãos comuns, vinculados a um país por nascença (ou outro motivo qualquer) que temos que encontrar formas de exigir respeito à classe política (entre outras), nem que para isso tenhamos que recorrer à desobediência civil (se não é um direito constitucional é certamente um direito moral, o que para mim basta). Não podemos é continuar a assistir impavidamente ao delapidar de preciosos rercursos sem fazer nada.
Mas enquanto o desígnio nacional passar por eventos, como o EURO 2004, ou a candidatura de um peralvilho à presidência de uma república (onde a lei e a grei estão de costas voltadas para o povo) como é possível arregaçar as mangas, de modo a deixar aos descendentes um país diferente, e já agora de acordo com os canónes (não sei quais são, e até desconfio que sejam de facto bons) deste novo século.
Uma notícia feita do lixo que depois de separado foi de novo misturado, e depositado em aterros sanitários pagos com o dinheiro dos impostos. Uma notícia (que como tantas outras, vai cair no esquecimento) que certamente terminará agonizante misturada com outros lixos diversos, num aterro da nossa praça.
Virá o dia em que os portugueses perceberão que terão que exercer uma vigilância mais directa das actividades públicas e participar nas gestão das mesmas, exingindo tranparência e competência.
Será assim tão difícil? Será que não é possível formar associações e organizações não governamentais, que consigam reunir consensos em matérias vitais para o bom funcionamento das instituições e exigir maior respeito pela legalidade, aos que actualmente se consideram acima da lei?
Correm rios dentro desta cabeça que vulgarmente considero minha. Durante a placidez estival, o caudal é mínimo. É a época em que as memórias vão a banhos. Quando chega o degelo primaveril a corrente extravasa o leito e alaga as margens, num ápice a quietude das paisagens familiares, desaperece. É o tempo das incertezas, das enxurradas em turbilhão, dos pensamentos resfriados e turvos, carregados de sedimentos.
Correm rios nas profundezas insondáveis da minha cabeça; águas que regam sem cessar o éden de desdém, onde crescem as palavras do meu cismar.
Outros rios nascem dentro desta cabeça, afluentes de afluentes, onde se misturam diversas correntes (des)construtivas, sem as quais seria impossível delinear o mapa líquido dos pensamentos, e interpretar a origem e o teor dos diferentes tipos de discernimento.
Nestes rios pesco, navego e bebo; nestes rios travei e travo batalhas desiguais; nestes rios remei contra correntes e meti-me em aventuras arrojadas e insolentes.
Pouco e pouco percebi que as águas que corriam dentro de mim, alimentavam o meu tempo e simultaneamente, todo o tempo do mundo, e eram a única propriedade privada resgistada em meu nome.
Os rios que correm dentro desta cabeça foram (sem que desse conta disso) intencional e intensivamente poluídos com venenos poderosos, que matariam a esmo o viveiro de genuínos pensamentos, identidade de um microcosmos em desenvolvimento, caso o alerta não fosse dado e o processo travado.
Quando me comecei a sentir intoxicado, imediatamente percebi que não seria fácil encontrar alguém que estivesse disposto a dar ouvidos a tão descabido queixume! E, quanto mais consciente estava do perigo que corria, mais difícil se tornava explicar o que sentia. Então, principiou uma luta silenciosa contra os agentes poluidores, e quantas vezes assolado pelo desespero, quase me deixei afogar no lodo levantado pelo meu esbracejar. Não cedi e continuarei a não ceder, "mais vale quebrar que torcer" o ditado é velho, mas funciona.
Da janela matinal do carro em andamento
Passeio o olhar, pela viçosa erva em crecimento
E nas gotículas do orvalho semeio pensamentos
Raios de luz massajando a paisagem entorpecida.
Rebentos de ideias imperfeitas
Lançam raízes, na Primavera larvar
Pelo canto do olhar desalinhado, espreito
As pétalas refulgindo, abertas pelo fulgor
Da aurora que alastra dentro de mim.
Laranjeiras carregadas de laranjas
Da baía madura, Mar de gomos suculentos
Recordam tempos, arroubos corajosos
De rapazes imberbes pilhando nos pomares, os frutos verdes
Presos ao estremecimento, das imprevistas sombras
Se transmutarem em dono furioso, abastecido de zelo vigativo.
Os eflúvios sonolentos que respiro
Dentro deste minúsculo habitáculo em movimento
Fixam-me na companhia dos cinco jovens
Mal acordados, que repartem comigo o silêncio.
A verde erva dos meus pensamentos orvalhados
Não encontra hospedagem fácil no langoroso
Húmus cinzento, do seu autónomo pensamento.
Escrever, para evitar o naufrágio de pensamentos, após longa deriva no fátuo mar do quotidiano anuviamento.
Escrever, para juntar as cinzas dos pensamentos aniquilados pelo fogo bárbaro do esquecimento.
Escrever, para reciclar o lixo emocional, separar raios, coriscos e trovões, reutilizar as lágrimas para secar as ilusões.
Escrever, para desiludir todos quantos (conhecidos ou anónimos) pudessem vangloriar-se, por pressentir-me abatido.
Escrever, para não ser atropelado, como animal peçonhento, ao atrevessar inadvertidamente, a enxurrada demente que passa amíude, por virtude decente.
Escrever, para não sucumbir à normalidade aderente.
Escrever, para despir ornamentos, nunca se sabe quando me poderiam conduzir ao altar do optimismo fedorento.
Escrever, para desferir num último fôlego de ironia, o golpe de misericórdia, na vã certeza de ter "ganho" o dia.
Escrever, para sentir o quotidiano estertor da ambiguidade de pareSer.
Escrever, para apertar nas mãos palavras mortas, antes de as lançar à vala comum, da ignomínia a céu aberto.
Escrever, para resgatar memórias à inutilidade das longas horas desencontradas.
Escrever, para que a nómada travessia da noite desértica, seja um apelo à liberdade, de guiar-me pela luz de contelações amigas.
Os dias voam por baixo das longas unhas
Cravadas... na exasperação ampliada
De quem enseja rasgar véus.
Ambiciosos planos, libertam aroma a salva e alecrim
Ecos de pios profundos, despenham-se das altas escarpas,
Adivinha-se-lhes as formas -- são medos alados
Hábitos antigos, ocupando ninhos abandonados
Os céus lembram agora, abismos de luto existencial.
Encontro-me contigo à sombra do tugir milenar
E no teu sorriso reencontro, a voz, a via, a vida
Escrita na palma rasgada, da mão que estreita o beijo
Acordado, e permuta a luz, espasmos de liberdade tua
Companhia leal, para as longas noites de desterro
Bermas da vereda onde desponto, para logo me esquecer.
Puxar memórias e cativar transeuntes
Fuligem esboroada na paisagem, caí o véu
Desnudam-se as entranhas do dever
Escorrem viscosas, as palavras
Vergonha do meu cirandar, floresta virgem
Onde creio, esvoaçar o meu palrar.
Palavras esculpindo o sono
Enroscadas no chão safio, indolentes
Penúria moral, aninhada em lembranças
De um dia caber, em ti de contente
Um nome alinhado, ajuizado, agoniado
Mais tarde, quando ainda for cedo,
Enviarei a mensagem anunciando...
As meias, e as palavras sem meias
Tecem as teias, que prendem as pernas,
Depois do mal feito, para que te quero
Sonho imperfeito. Muro alto, do alto do morro
Salta a esperança, embrulhada no precalço
Rebentos novos e tenros de pecados
Enchem a paisagem, que sou eu.
Vou à volta e procuro-te na bainha
Por fazer, em mim queria eu crer,
Ser antes que depois, cruel-dada, (crueldade)
Ao estado não se olha, proclama...solene
Gasta, desgasta, enrola o tempo enxertado.
O meu pé de laranja, rima,
Pomar dos remorsos, zumbidos de sarcasmos,
Volteiam em torno de orelhudos marasmos
Anoitecem pensamentos em-pé-dormidos, (empedernidos)
Mármore frio, lápide onde gravei esquecimentos
Dedos de areia, garatujos, cordão umbilical
Memórias do pestanejar, periclitante do meu cismar.
Confundir desenvolvimento tecnológico e científico com avanço civilizacional é no minímo ingénuo. A forma como o progresso afecta os cidadãos não é linear, e se uns conseguem discernir (conscientes de que a vida é um bem demasiado precioso para ser desperdiçado) sózinhos, ou devido a influências diversas, o caminho que lhes dá mais garantias de evoluirem como cidadãos completos (cidadão cujo sensibilidade crítica, criativa e comunicativa foi estimulada e não cruelmente estropiada, como vulgarmente acontece).
O actual dinamismo expansionista lança a espécie humana em delírios de conquista e colonização, para lá dos limites naturais da Terra Mãe, berço da humanidade (que continua a ser, pelo menos para mim, paradigma genuíno de beleza, perfeição e verdade, sítio onde flui exuberante, o fascinante fenómeno designado por Vida, o qual procuro estreitar num amplexo de perplexidade e contemplação).
Talvez em nenhum outro tempo a máxima «dividir para reinar» fosse tão exaustivamente usado. As políticas seguidas pelos regimes democráticos, mais não são que remendos para camuflar o colapso evidente de uma cultura poída, que, como qualquer peça de vestuário gasta, não reune condições para proteger corpo humano que se digne.
A civilização está moribunda, e os cidadãos influenciados por uma política (social, económica, cultural) assente na alienação colectiva, e no poder do entretenimento, afastam-se do essencial para aderir ao supérfluo. Paradoxalmente, a massificação das opiniões e dos gostos, é fomentada por orientações políticas, que dividem e extremam posições, ocultando a crua realidade, e criando ilusórios paraísos individualizados.
No alvorecer de uma civilização (que podia ser de esperança, mas que pende vertiginosamente para a destemperança), que coloca desafios tremendos à humanidade, o mundo tende a tornar-se um vasto viveiro de imbecis, criados de acordo com normas e directrizes que preencham os requisitos do mercado final a que se destinam.
A sociedade de consumo apoiando-se em operações de charme irresistivelmente sedutoras, conseguiu e continua a conseguir angariar irredimíveis defensores. A avassaladora propaganda à escala global, funciona como uma enorme rede de arrasto, a que criatura alguma consegue escapar. Os métodos empregues, incluem muitos golpes baixos.
À primeira vista, o acesso a uma diversa panóplia de bens e serviços parece fácil, e a satisfação de qualquer desejo e obtenção de prazer, não só são legítimas como moralmente inquestionáveis.
O cidadão crê, que pode vir a ser alguém e, nem mesmo quando se encontra num beco sem saída, deixa de dar crédito ao sistema que o explora e encurrala, preferindo lançar as culpas a circunstâncias adversas, ou descarregar em pessoas concretas, passíveis de servirem de instrumentos de catarse.
Encarar o sistema vigente com naturalidade, é uma reacção normal de qualquer cidadão, obrigado a aceitar as regras de um jogo, que trapaceia a inteligência quiçá, desde a ocorrência do primeiro vislumbre de pensamento. No seu subconsciente o cidadão aceita a sociedade como intrinsecamente amigável, portanto parece-me plausível, o cidadão comum aceitar condições indignas de sobrevivência, mesmo quando é obrigado a partilhar as migalhas com as ratazanas, ainda assim, encontra na má sorte ou na crueldade do destino, explicação aceitável.
A perversidade da sociedade de consumo, excede a imaginação mais febril, atravessa todas as barreiras (naturais e artificiais) até mesmo as que pareciam impenetráveis. Actualmente, a propaganda lança nos fluídos vitais que alimentam a sociedade, metásteses e mutantes seus, de tal modo agressivos e corruptores do sentido crítico dos cidadãos, que o mesmo se manifesta cada vez mais debilmente, e em muitos casos, já não passa de um cadáver apodrecendo no interior de uma mente que já não é consciência, de ser consciência.
Os frofetas do optimismo, acenam com os números, as estatísticas, os gráficos, as projecções, as profundas convicções de que até ao último instante, a confiança no sistema (prenhe de virtuosidades) permanece intacta.
É comum esbarrar em concidadãos que por dá cá aquela palha, são capazes de alimentar discussões tão desgastantes quanto inúteis. Aceitam esse tipo de comportamento, tranformando-o na sua genuína forma de estar na vida. Predomina a especulação competitiva, em detrimento da defesa do conhecimento e da verdade factual.
Hoje, como ontem, e pelos vistos sempre, os amantes do saber e da verdade, dificilmente encontrarão paz no convívio directo com os sofistas de qualquer época. Apoiam-se na beleza intrínseca do processo fascinante e arrebatador da emancipação do pensamento.
Sujeitam-se à incompreensão geral, o que acaba por ser tributo perfeitamente tolerável. Difícil é descrever, de forma plausível, as mudanças internas que vão ocorrendo, que o tornam um cidadão mais lúcido, mais livre e mais atento às infatigáveis manobras invasivas da propaganda consumista.
O materialismo pode reduzir o cidadão ao estado de bicho consumista, pode até aniquilar qualquer vestígio de influência idealista, bebido em fonte indevida. Pode, e digamos, que só por "milagre" não o consegue, tornar irreversível. Acontece que alguns cidadãos são, dir-se-ia imunes à intensa lavagem cerebral, pratica comum de quem tem nas mãos, os destinos da sociedade.
Mesmo recorrendo-se às mais assanhadas campanhas materialistas, nunca será possível acabar com os idealistas, e enquanto houver idealistas, os ideais acabarão por brilhar na obscuridade.
Haverá sempre cidadãos, que por mais estigmatizados que sejam pela ordem estabelecida, "nunca conseguirão entregar a alma, por um punhado de lentilhas". Não creio que se trate, de coragem excepcional, ou sequer instinto mártir; julgo que a força que os impele é da mesma natureza da energia que arrebata os artistas na busca de identidade criativa.
Quando um ser humano, seja por influência ou por tendência inata, não consegue satisfazer-se com o cozinhado ideológico, ou a suposta ausência do mesmo, que lhe é servido (mesmo que seja em bandeja de ouro) no seio familiar, na escola, ou através das fontes mais comuns de informação e formação, acaba mais tarde ou mais cedo, a percorrer caminhos solitários em busca de conhecimento genuíno, e mesmo que toda a existência seja gasta nessa procura, raramente sente que desperdiçou o tempo útil da sua vida.
Quase sempre descortina, que afinal não é assim um alma tão solitária, ou tão rara como à primeira vista parecia. E se, não encontra maneira de partilhar a sua peculiar leitura da arte (ou da ausência da mesma) de viver no momento de que se é contemporâneo, com alguém de carne e osso, que habite nas imediações, estabelacerá laços de proveitosa cumplicidade com outros divagadores vivos ou guardados nas entrelinhas do tempo, igualmente sedentos de verdade.
Um dos sintomas da imaturidade de uma nação (mesmo que a mesma apregoe estar consolidada por um milénio de história) revela-se na intolerância às opiniões individuais, sempre que as mesmas expôem os tumores nacionais. Aparentemente a nação não os quer ver sanados, até por desconfiar, confirmando a a tendência nacional, para aceitar as inevitabilidades que o fado, ou o destino ditam, num encolher de ombros resignado.
Imaturidade, sim. Mas quem são afinal os protagonistas deste enredo? E como são bons a representar a pobreza de espírito, essa doênça endémica que provavelmente grassa nas mentes nacionais desde os primórdios da nação.
Políticos, jornalistas, apresentadores de programas televisivos, cronistas, artistas, actores, membros ilustres das mais diversas profissões liberais, enfim toda a estirpe de cidadãos, que tendo acesso aos meios de comunicação social, torna-se (co)responsável pela (de)formação da opinião pública.
Acontece que a maioria dessas pessoas (a cagar alto da sua pretensa sabedoria), pedagogos da chafurdice nacional (infelizmente os canudos que se recebem no final de um curso universitário, não atestam elevação da conduta moral do seu portador, nem sequer deviam ser salvo-conduto cultural, usado para abrir portas, janelas e postigos de acesso directo ao mundo da comunicação social).
Provincianismo revelador do culto da mediocridade. Ainda hoje acontece, no país dos brandos costumes (e ódios camuflados) matar-se por um metro de terreno de horta, ou por desentendimentos acerca de uma serventia comum.
Se estiverdes atentos, será fácil confirmar este tipo de comportamento, em muitos daqueles que vos entram pela casa dentro (são como os cães, apanham a porta "televisão" aberta e zás, quando damos por eles, estão sentados à nossa mesa, a comer a nossa refeição e a deixar-nos os ossos para roer).
São sofistas modernos às voltas com os seus ódios de estimação, ganham fama e deitam-se a dormir à sombra dos mesmos. O pior dos males é arratarem para o seu atoleiro, qualquer cidadão que se descuide.
Não será já tempo de Portugal se transmutar numa nação de corpo inteiro? Não estamos já todos fartos de flectir os joelhos e bajular pseudo-importantes, que mesmo bem espremidos, não deitam sequer, uma gota de genuíno suor em prol do desenvolvimento (uma nação culturalmente negligente, cercada pela atávica chico-espertice, não se pode considerar livre e desenvolvida) do seu país?
Esta tarde submeti-me a uma endoscopia digestiva alta (exame auxiliar de diagnóstico), segundo recomendação do médico de família, já com meses de atraso. Mas como:«gato escaldado, de água fria tem medo.» lá fui arranjando desculpas esfarrapadas, para adiar o encontro com a "mangueira" endoscópica. Há um par de semanas, resolvi visitar o médico, porque as queixas que estavam na base da recomendação anterior, persitiam em atormentar-me e o exame por fazer. Desta vez, não saí do consultório sem prometer ao médico que o exame seria feito num curto espaço de tempo. Seguindo a sugestão do médico, optei por recorrer a uma clínica particular, onde podia fazer o exame com recurso a anastesia geral (uma anastesia leve bem entendido).
A endoscopia estava marcada para esta tarde (14.15). Escusado será dizer, que a ideia de ter que "engolir" o tubo, gerou um desconforto psicológico que foi aumentando à medida que o sacrifício se tornava inevitável. Por fim, e após penosa espera, chegou o momento de dirigir-me para o cadafalso.
Uma simpática auxiliar, encaminhou-me escadas abaixo, indicando-me uma sala climatizada, onde eu deveria despir-me completamente ( excepto as cuecas e os peúgos) para vestir uma bata branca aberta à frente, e enfiar umas sabrinas verdes nos pés. Pediu-me para aguardar, e eu submisso, permaneci de pé, esperando que alguém viesse chamar-me. Ainda demorou algum tempo, até que fosse solicitada a minha presença junto do anastesista. Daí a pouco, embalado pela cordialidade do profissional que me ia injectando as drogas na veia, adormeci. Acordei na sala ao lado, com uma auxiliar solicita, pronta a segurou-me no braço afim de me ajudar a sentar na maca. O médico, sorria, postado em frente a mim, e quando confirmou que estava em condições de o escutar, deu-me informações sobre o exame. Numa espécie de recusa em aceitar que o exame tivesse sido tão fácil, perguntei ao médico se a endoscopia já terminara! Afinal, não dera por nada.
Adiei este exame durante meses, por achar o sacrifício desumano, para afinal descobrir que pela "módica" quantia de 165 Euros (que o estado não está disposto a investir em mim!), o mesmo, pode ser feito sem o mínimo sacrifício. Chego à conclusão de que sou cidadão, de um estado sádico, que só consegue obter prazer, assegurando sofrimento aos cidadãos. A preferência sádica do estado vai para os cidadãos de menores recursos económicos, supostamente os mais embrutecidos, ou seja, que melhor suportam a dor. Os mais favorecidos (que podem pagar a diferênça), para não terem que suportar sofrimento desnecessário, são feitos de uma outra estirpe de carne e espírito, menos ao gosto tacanho das perversões estatais.
É do conhecimento geral, que a televisão é o principal meio de difusão de qualquer tipo de mensagem. As mensagens, mesmo as de aparência inócua, veiculam amiúde, propaganda encapotada. Da euforia sem razão à apatia sem remédio, o espectador torna-se escravo da cruel ditadura da imagem.
Inadvertidamente, o telespectador consome as mais diversas e perniciosas formas de propaganda, sem desenvolver qualquer sintoma de rejeição. Esta ausência de resposta imunológica revela o estado deplorável do sistema de vigilância mental, que deveria ter por missão, evitar a entrada de mensagens indesejáveis, perturbadoras e acima de tudo, as que contribuem para degradar(muitas vezes até ao aniquilamento), a integridade da identidade do cidadão telespectador.
A propaganda tem ao seu serviço exércitos de "criadores", de veia ultraliberal, cuja exemplar conduta, depende exclusivamente dos legítimos princípios da "arte" de competir. Os valores morais, os princípios éticos e os códigos deontológicos cedem lugar ao interesse mais ou menos camuflados, de instituções públicas ou privadas, que defendem uma ordem e uma normalidade. Rio, cujas águas correm às avessas, do interesse dos indivíduos e das nações.
Tudo é feito às claras, aceite como normal. A confrangedora e "inofensiva"normalidade, toma as rédeas de milhões de existências, com se fossem bestas atreladas a diligências. E quanto mais às claras, tudo é feito, mais invisível se torna. É devido à conivência voluntária do espectador que a propaganda se aloja sem dificuldade de maior. O processo é cumulativo, quer isto dizer, que quanto mais se embrenha no indivíduo, melhor este aceita a sua influência, considerando-a normal.
Mas, e as criancinhas meu deus, porque lhes é negado viver? Porque não podem crescer em liberdade e para a liberdade?
Saga após saga, campanha após campanha, as crianças vão sendo encurraladas num mundo de aberração consumista, atribuindo-se a culpa à negligência parental, que efectivamente existe. Muitos pais, devido à deficiente formação cultural, como podem estar sensíveis às graves consequências que o excesso de exposição à propaganda enviada via televisão, pode ter nos seus filhos. E quantos pais, apesar de estarem conscientes de tais malefícios, têem meios para arranjar alternativas interessantes, que absorvam a curiosidade infantil, estimulando-lhe a criativiadade?
Revolvo papéis, procuro tino
Estranho prazer. Assediar palavras adormecidas
Perfeição ingrata, cruel; disseca-me a sensibilidade
Agitam-se reflexões, libertam-se emoções; húmus fértil
Vacilam os horizontes, das certezas próximas
Atacados por hostes assanhadas; ironias e sarcasmos
Forças demolidoras, alegorias de mentes sonhadoras
Frestas do olhar, cinzas dos sorrisos decapitados
Agora transmutadas em pensamentos iluminados.
Nós, os cidadãos (eleitores, gastadores, prevaricadores, espectadores e abusadores da nossa própria paciência), regra geral, somos de compreensão lenta (uns mais que outros, claro).
A capacidade de rastreio dos sensores críticos funciona sem falhas. O problema é a incorrigível esperteza individual, muito difícil de erradicar, e nem mesmo quando estamos perante sinais evidentes de engano, desistimos.
Vomitamos cobras e lagartos da boca para fora, acreditando algumas vezes e desacreditando muitas outras na informação distribuída (não gratuitamente; nunca se esqueçam de que a publicidade é paga pelos cidadãos consumidores) por organizações supostamente (in)dependentes.
Com que linhas se cose a comunicação social deste ínicio de século?
Muitos jornalistas argumentariam que a comunicação social continua a desempenhar o seu papel regulador (farol alumiando a brumosa noite ultraliberal) convictos, de que a sua missão é imprescíndivel, para que a sociedade não caía nas arbitrárias, maquiavélicas e corruptas maquinações de uns quantos oportunistas (ditadores em potência).
Talvez, alguns jornalistas ainda sejam ingénuos ao ponto de acreditar, que a sua missão é salvar o mundo da obscuridade global (a sua ingenuidade comporta perfeitamente a sede de sucesso e reconhecimento profissional que os motiva) outros, estão perfeitamente conscientes de que faz parte do seu trabalho quotidiano, explorar sem restrições éticas e morais, as emoções mais primárias do público espectador (aquilo que nos entra pela casa dentro é pura crueldade predatória. Quantas crianças, e adultos menos avisados estão expostos a esta actividade venatória?). Muitos dos nossos concidadãos jornalistas, são também caça, com poucas possibilidades de escapar ilesos.
Trazem-se a público falsas questões de invasão de privacidade. Hipocrisia demagógica. Onde deve terminar a investigação jornalística, versus segredo de justiça? Ou, como salvaguardar os cidadãos da pública expiação?
Estas, e outras questões são irrelevantes, num contexto complexo (aproveitado pela comunicação social, enquanto agente de manipulação de massas).
O poder da comunicação social, é usado como um meio para atingir fins, que ainda não estão completamente esclarecidos (duvido até, que alguém consiga interpretar, qual o género de beco sem saída para onde se encaminha a sociedade?).
A classe jornalística em geral não pode ser responsabilizada por este fenómeno. Provavelmente, muitos jornalistas sentem que a qualidade do seu trabalho é afectada negativamente por este fenómeno que transcende o jornalismo, como actividade profissional. Acontece no entanto, que pelo menos alguns jornalistas aproveitam-se da situação, como forma de promoção profissional e pessoal (nem o facto de terem que aderir a uma mediocridade abjecta os demove; ambição ou alienação, eis a questão? São estes que vigiam de perto o forno crematório, para que o mesmo funcione sem falhas.
Inseridos defenitivamente neste admirável mundo novo, só os pessimistas ficam de fora. E ainda bem. Subverter, está nas suas mãos, e principalmente nas suas cabeças. Talvez, o pessimismo, seja afinal, uma reserva de esperança para a humanidade. Então eu, hei-de permanecer atento, para não ser vencido pelo desalento (cansaço provocado por excesso de exposição à nefasta radiação, dimanada pela social comunidação).
No universo da comunicação social ainda são toleradas excepções, até quando é que não se sabe? Sujeitas a pressões normalizadoras, como conseguirão resistir? Não passam de perguntas tolas. Quanto às respostas...
Palavras que passam, passando por mim...
Palavras que passam, fugindo de mim
Palavras que se embrenham, inexpugnável esquecimento
Palavras que descobrem esconderijos
Onde pernoitam vadios conhecimentos
Fugidos de albergues, atulhados de constrangimentos.
Palavras que amam, vinculam-se a mim
Possuem a graça, de avivar a imaginação
Indício indelével de expiação criadora
Intimidade de ser, amendoeira em flor.
Palavras que lembram, exultantes
Calor primaveril lirbertado...
Palavras que derretem o gelado torpor
De pensamentos tiritantes, encolhidos no temor
De mostrar a nudez do seu fulgor.
Palavras que passam por mim, ensaiando
Um louvor à vida, luz que almeja
Anunciar a Primavera, cantar e espantar
Escorraçar fantasmas e sombras.
Palavras que lembram estilete provocatório
Enterrado no âmago aflito...
Lava ardente, reinventando a vida
Primavera geológica, ajustando-se a mim
Numa vaga alusão, de eternidade.