janeiro 31, 2004

travessia

Instantes desprezados, transformados
Em passos, vagueando anónimos
Costas igualmente anónimas, vergadas
Sombras surpreendidos pela noite.

Manto denso de fria calmaria
Pálpebras cerradas de cansaço
Olhar murcho, que já não alumia
As almas estugam o passo.

Na vereda aberta à catanada
Em fila indiana, esquálidas mentes
Ensimesmadas, tropeçam nas raízes
Pensamentos retorcidos, sarcásticas ironias.

Cascas de nós à deriva
Atravessam a noite tenebrosa
Sacudidas pelas vagas
Do rebuliço quotidiano

Inquietação recreativa
Náufragos sulcam o bréu deste mundo
Tentam descobrir caminho
Consagração do porvir

E do outro lado de um mundo revirado do avesso
Fundar-se-á A Civilização
Sem lugar para escravos aturdidos
Pelo bulir da imbecilização.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 30, 2004

bem estar...e música erudita.

A intensa poluição sonora a que os cidadãos estão sujeitos, provoca problemas de fadiga anímica. Até mesmo aqueles que se julgam imunes, desfalecem aturdidos por irresistível letargia.
Quem durante um dia completo de trabalho, tem que suportar níveis de ruído entre os 60 e os 90 décibeis, ou acima destes valores, corre o risco de ensurdecer; necessitando de ter acesso, no final de cada dia, a um ambiente acolhedor, relaxante e sossegado.
O hábito de ouvir música ao serão, é uma excelente alternativa à passiva perversidade de engolir de olhos abertos, os dejectos informativos, com que as emissões televisivas brindam os sentidos e exploram as emoções.
A música não sendo panaceia universal para as diferentes formas de desconforto que nos atingem, abre janelas de luz na obscuridade em que a mente se vê encerrada.
Despidos da dignidade de ser gente, reduzidos à servidão voluntária de assalariados sem alternativa, atirados para um beco sem saída e, sempre a ser bombardeados com poluição sonora.
Só ao serão, é possível aceder às tréguas merecidas. Então, podemos abrigar-nos no silêncio, mas a música revela-se, regaço carinhoso.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 28, 2004

A sabedoria de vaguear.

Presumo que assuntos para partilhar nunca faltam. Por vezes surgem em turbilhão, desassossegando-se mutuamente. Grilhões, rédeas, emoções... receios, anseios, ufanações... Pensamentos cavalgando céus alucinados, acordam a luz da aurora, é tempo de cantar ilusões novas, é tempo de exorcizar labutas, resquícios de vida ignota.
O gosto pela ópera é recente. Lamentavelmente, desperdicei tempo e dinheiro (leia-se vitalidade e imaginação criativa) construindo, pedra sobre pedra, uma extensa muralha de imobilismo cultural. Paulatinamente, recupera a vida de um longo e penoso processo de delapidação. Tantos anos a preparar mal o futuro, tantos anos a assimilar insensibilidades, a renegar o próprio pulsar da voz sibilina que me habita.
Pura deambulação a minha escrita. Quando saio para o campo, ou para a serra, acontece-me o mesmo. Vaguear é uma arte, e eu creio, que consigo, quando o vento está de feição, libertar-me da opressão de um certo Eu, vassalo das demências quotidianas, e acordar, um outro Eu, liberto dessas absurdas contingências.
No imedato, é-me vedado entender que, por momentos, vagueei em liberdade. Mas, são esses momentos de exaltação, diáfana abóboda mental, cruzada por vagas de migrantes emoções, que tecem no espírito, amplas e profundas revoluções.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 26, 2004

Sinais... em busca de tempo!

Em tempos guardava memórias
nos sombrios vãos das escadas,
enquanto subia esconsos, os degraus...
agoniado pelo rager, interpelações congeminativas
desejava ler, nas entrelinhas interpretativas,
aquilo que parecia afastar-se de mim.

O vasto mundo impiedoso, sugava-me
para o centro cruel, turbilhão de fatalidade
inevitavelmente, o meu lar.
Escada em caracol, por mim acima subindo,
aguardando no céu, minha alma sorrindo.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

Antena 2..."Questões de Moral", de música e outras...

Quem visita este blogue já deve ter percebido, que sou ouvinte assíduo da Antena 2. Entre as minhas preferências programáticas, encontra-se o programa "Questões de Moral", da responsabilidade de Joel Costa.
Eu recomendaria a quem ainda não é ouvinte da Antena 2, que comece a sintonizar a estação, e mesmo que a princípio, julgue que está a ser invadido por alguma forma de vago aborrecimento, não desligue, não desista, invista num hábito que a seu tempo dará frutos. Deliciosos e aromáticos frutos, tornar-se-ão acessíveis quando menos o esperar. Com o tempo, aprenderá a cuidar do jardim (existe mesmo um "Jardim da Música", ao cuidado de Judite Lima). Quem não merece, afinal, a mais bela rosa do roseiral?
Muitas pessoas ainda sustentem a ideia errada da inacessibilidade da música clássica, única e supostamente, só ao alcance das subtis capacidades de interpretação, de uma élite social, de cultura superior.
Quem ainda, continua a acreditar na existência de portas estanques a barrar-lhe o acesso ao admirável mundo da cultura, da literatura, da arte, da poesia, mas também da ciência e do conhecimento, veda a si próprio a possibilidade de melhorar a percepção da realidade que o rodeia.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:52 PM | Comentários (4) | TrackBack

janeiro 21, 2004

Sonambulismo universal!

Tu! Ó sonâmbulo, que deambulas
Pelos trilhos deste mundo transviado;
Qual a cor do medo
Que te esculpiu o semblante amofinado?

Tu! Ó pálida alma de olhar arrepiado,
Escuta o ciciar consciente, do marulhar das ondas
Acordando a aurora. Contempla o raiar da madrugada
Revigorando memórias, guardadas num tempo
Sem lugar para falsas e equívocas glórias.

À tua frente está aberta ampla janela,
O olhar vidrado, absorto em obscenas trivialidades
Esculpe esfusiantes alacridades, enquanto
Desfilam as pessoais alarvidades.

Alucinações de pensamentos espalhados
Por campos de batalha atormentados
Cisão de emoções, alastra em cadeia
Rebela-se o núcleo contra bloqueios
Fundindo ostracismos e receios.

Clarões de esperança inúteis
Fendem o bréu, iluminado num ápice
E logo arrependido, reencontra na escuridão
O conforto momentaneamente perdido

Imensidão ignorante, a perder de vista
Manitesto orgulhoso, a fazer sentido
Viajando para lá, do universo reconhecido
Devaneio de orgulhoso presumido.

Estrelas e cinzas apagadas
Frias no tempo que viaja
Escoram no peito a coragem
De ser vida, só de passagem.

Hábitos ancorados em baías de
Nostálgicos pensamentos, suaves feridas abertas,
Pecados e culpas encobertas
Desfiando o nada adormecido,
Sombra do antro quotidiano.


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:24 PM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 19, 2004

Desolação...

Ainda a madrugada vem longe, e já
O raiar do dia fenece, dentro de mim
Basta para isso que pense
No desprezo que voto à liberdade,
De ser servo, de livre vontade.

Este verso é uma simples homenagem ao trabalho de duas horas que estupidamente perdi. Ainda por cima, tenho a sensação de que perco sempre os melhores. Corrigo e volto a corrigir sem descanso. Leio e releio. De tão absorto na escrita, esqueço-me de gravar o texto. Deixei cair o dicionário em cima do teclado e imediatamente vi desaparecer o poema que escrevia com tanto empenho. A primeira reacção é de profunda desolação, e por mais que tente não consigo recuperar o texto.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 18, 2004

"O Bolero de Santana"

(....) Santana faz da política um espectáculo. Talvez por isso quisesse fazer do espectáculo uma política. Sem palco ou sem ecrã apaga-se como balão hiperinsuflado que foi furado e agora esperneia um minuto no ar.
Pedro Santana Lopes é um case study. É volúvel, volátil e versátil. Dizem que é um bom político. Porque a política é a arte da volubilidade, da volatilidade e da versatilidade. Tem sete vidas como o seu amigo Paulo Portas. E o que não o mata engorda-o. Dizem que nunca conclui nada.(....)
Santana conseguiu fazer do anúncio da obra a verdadeira obra. Ele é o legítimo herdeiro de Guy Debord na política portuguesa. Transformou Lisboa num palco de anúncios. Que se podem transformar ou não em obra. O que para o caso e para esta discussão é irrelevante.
A obra é, assim, para Santana um pretexto. Uma gigantesca superfície a explorar como palco de anúncios e declarações.
O anúncio tem ainda uma vantagem suplementar sobre a obra. É que é muito mais fácil voltar atrás. E voltando atrás pode anunciar-se infinitamente o que nunca se chegará a fazer. O anúncio é da ordem da reversibilidade, o que o torna muito mais apetitoso em termos políticos. Satana tem conseguido fazer da política dos anúncios a sua verdadeira política.
Nesta pré-corrida presidencial que não é uma verdadeira corrida, mas uma dança, Santana tem sido mestre na gestão deste jogo de sombras, do claro escuro que se vai clarificando progressivamente, na relação entre bastidores e palco.(....) Ora está; ora não está. Ainda não é candidato, mas já vai ser.(...)

Paulo Cunha e Silva, Professor universitário
Opinião, Domingo, 18 de Janeiro de 2004, DN

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:11 PM | Comentários (1) | TrackBack

Tenho um sonho...(imagine-se!)

O primeiro ministro Durão Barroso comunicou ontem à Juventude Laranja que tinha um sonho (vá-se lá saber, se era sua intenção plagiar Martin Luther King?). E qual era, afinal o sonho? Recuperar a Presidência do Governo Regional dos Açores! O Sr. primeiro ministro realmente revela ter vistas largas e profundos anseios, no que respeita ao conteúdo temático dos seus sonhos. Enquanto veneráveis cidadãos, como o primeiro ministro deste País, produzirem tão previsíveis pesadelos, podem os cidadãos dormir descansados, pois é pouco provável que o País acorde mudado!
Seria assim tão difícil encontrar alguém, que até a sonhar, mais eficazmente governa-se a Nação?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:50 AM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 17, 2004

(A)normalidade...propaga-(se)nda!


A propaganda nazi arrastou a humanidade, para a guerra mais mortifera de sempre (como todas as guerras são bárbaras, tenho alguma dificuldade em classificar esta como a mais bárbara de todas). As memórias desse tempo, ainda exercem influência inibidora em cidadãos (penso que posso pelo menos considerar que essa influência existe na maior parte dos países europeus que viveram o flagêlo da 2ª guerra mundial) que, na sua maior parte, já só tomaram conhecimento da guerra nos compêndios escolares, na história mundial, ou em versões orais contadas por compatriotas (familiares ou outros) que tenham passado pela experiência em primeira mão. Por enquanto essa influência ajuda a evitar que cidadãos livres votem massivamente em partidos neo-fascistas, ou engordem organizações, cujas ideologias predominantes não respeitam a liberdade, nem os valores mais elementares da humanidade.
Como a maioria da população apresenta os sintomas que caracterizam a síndrome de dependência do fenómeno de entertenimento das massas, as instituições e organizações (económicas, políticas, culturais, etc.) aproveitam para difundir propaganda persuasiva em limitadas, mas eficazes doses. Lentamente, as pressões dos poderosos agentes manipuladores da opinião colectiva conseguem perverter até os valores mais sagrados da humanidade. Persuadem os cidadãos da inevitabilidade de usar meios menos correctos (leia-se bárbaros) para atingir fins bons (entenda-se; que defendam os interesses dos poderosos, em detrimento daqueles que realmente precisam de ser defendidos).
A eficácia da propaganda nazi tinha ao seu dispor meios que actualmente são ridículos. A propaganda consegue hoje ter campanhas contínuas cruzadas (mesmo antagónicas), diluídas (administradas em doses homeopáticas), versáteis; entram e saem, de e para, sem correrem o risco de serem apanhadas em flagrante (infiltram-se acomodam-se, insinuam-se...cativam e derrotam pelo cansaço.)
O homem da rua (comum, vulgar, indiferente, distraído, apático, sorumbático, optimista...) quer acreditar que o bom senso há-de prevalecer. Afinal, o bom senso adverte que, a ninguém pode aproveitar, a destruição da humanidade. Realmente, parece impossível que alguém, (singular ou mais provavelmente plural, acabe por ser vítima da própria alienação que criou, ou ajudou a criar) possa assistir à agonia do planeta (só para mencionar algo que, já é uma realidade), sem sentir remorsos, mesmo quando é responsável directo por actividades que tornam o processo irreversível. Não só, não é impossível, como esse alguém pode, inclusivamente acreditar que está a fazer o que é correcto, ou seja, defender os seus interesses (a pior das alucinações humanas desenvolve-se sempre que, o ser humano se torna um lucro-dependente; o amor desmedido que passa a ter por dinheiro e consequentemente por poder é tão cego que, pessoa, objecto, ou não importa o quê, que tenha a ousadia de interpor-se no seu caminho, é inevitavelmente destruído).
Estes são aspectos dispersos da propaganda, enquanto agente de normalização da conduta humana no decorrer das actividades quotidianas de garimpo, mísero filão, servindo de entertenimento.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 04:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 15, 2004

remoinhos...

Ruas vazias, onde pernoito.
Recônditos devaneios extraviados,
Abrigando-se nas frias garras de pensamentos,
Obscura selva de lamentos.

Rosto contraído, indolências e desleixos,
Vergões profundos, sulcos rasgados,
Relha abrindo aleivosas frustrações,
Gélidas sombras de íntimas contradições.

Ventos irados, fustigando sarcasmos,
Insolentes sombras escarnecem alucinadas
A difusa luz, de certezas translúcidas,
Na neblina nocturna pairando.

Fantasmas, e trevas desoladas
Contemplam a nocturna dor de sobreviver
Soluços, berros, mutismos, escoando-se silenciosamente;
Zunido de pensamentos, embaraços e arrependimentos.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 14, 2004

em mim...

Este silêncio não é meu, este silêncio, sou eu.
Estas palavras não são minhas,
Estas palavras, sou eu.
Estou em viagem; viajo a caminho de mim.
Tremo de insegurança; recolho-me num sono
De palavras embevecidas; séculos acordados
Lembram-se, vagamente de mim.
Fitam-me emudecidas, as palavras...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:11 PM | Comentários (0) | TrackBack

lembro-me...

Lembro-me, de nada lembrar...
Esquecer e silenciar
Memórias, méritos e glórias,
Tristezas certas e incertezas puras.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 13, 2004

palavras renascendo ao anoitecer

Sinto a luz, do dia apagado,
Reanimar a voz do sonho, sonhado.
Sangue de palavras, sangrado...
A jorrar, desenfado.

Regressa atenuada a dor
De estar, escondida todo o dia.
Ferida que ninguém vê, seiva viscosa
Escorrendo, lágrimas perdidas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:07 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 12, 2004

mui caro le costaria

/23/

Querida Neide:

Os lobos, no Inverno, descem a montanha. Têm de comer. Vão enfrentar cães-pastores, pastores, a aldeia toda, se for alertada. Lê, minha filha, em "Guerra e Paz" de Tolstoi, que Lénine mal tinha tempo de reler, as cenas de caça. A uma dentada fulgurante do velho lobo, um dos cães da matilha, agonizava. Atrás daquele pobre animal, há cavalos, cavaleiros, batedores, cães que foram um dia, seus irmãos e o caçam. Ele galopa no trilho, atento aquela "fiesta" que tem por objectivo sacrificá-lo. Sabe que vai morrer e, sempre que pode mata um deles.
A liberdade é quase só isto, meu amor. E o seu preço a morte solitária.

Sebatião ALBA, "ALBAS"

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 11, 2004

Expiar pela culpa...

Educados no pressuposto de que é preciso expiar através da culpa, os supostos pecados, que nem bem chegamos a saber em que circustâncias foram cometidos. Aprendemos a temer, e a desejar, ser punidos. Sinistra coreografia,
cenário real onde tem lugar a representação da dança macabra entre a necessidade de maltratar e ser maltratado, ou a união simbiótica das duas.
Se os primeiros passos, de inocência titubeante atravessam o campo minado, o futuro apresentar-se-á em público, como realidade individual multi-fragmentada, imagem de um caminhar desarticulado, movimentos descoordenados, próteses artificiais onde devia morar o sonho.
Aprender a aceitar a punição muito antes de aprender a respeitar a essência da
humana condição, deforma irreversivelmente a forma como olhamos a necessidade de liberdade conciente, e a procura da verdade imanente que existe de forma latente, para lá da cortina de ilusão que quotidianamente dispersa a nossa atenção.
Perdemos, aquilo que mais tememos perder, a identidade de Ser.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:37 AM | Comentários (0) | TrackBack

informação, infestação, desilusão...

Informação, infestação,desilusão...
Política, justiça, comunicação...
Incestuosa relação!
Perplexa, a alma da Nação, agarra-se
Com a tenacidade das lapas,
Às rochas fátuas da ilusão, de julgar
Possível descobrir salvação,
Para um país, que parece ter o gosto,
Pela eterna perdição.

Proliferam imaturas relações,
Entre os responsáveis das instituições,
abrindo as portas da interacção promíscua
Dardos envenenados em provincianismo
Ilustram a devoção secular ao anacronismo.

As atávicas prosternações plebeias
A justificar mentiras e inomináveis aberrações
De políticos, jornalistas, juristas, e outros que tais
Irrepreensíveis condutas de quem
Presta, irrefutáveis serviços! à Nação.

Achas atiradas para fogueiras e lutas,
Disciplina de quilate, gasta em democráticas disputas
E nobres vociferações; verdades!
A favor de habéis revelações!
Amnistiando apóstrofas contradições,
Sem ter que recorrer
A drásticas intervenções.

Com esta aparência vanguardista,
Lá vamos enganado, uns e outros.
E não fosse o despótico arrivismo
De mendicantes oportunistas, e mediocres anafados
À sombra da mesquinha boçalidade, engordados!
Sabe-se lá até onde chegaríamos.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

Resistência

/50/

"Pelo sonho é que vamos"
(Sebastião da Gama)

Pensas que sou um idealista -- e sou, ainda -- perdi o contacto com a realidade circundante, e nada há a esperar de mim.
Tudo isso está quase certo. Hoje, um locutor da Rádio Difusão Portuguesa (ant.1) informou-nos, às 9.30h, de que "a nova realidade mundial era a Perestroyka". Na década de 30, "a nova realidade mundial era o fascismo". De realidade em realidade, cá vamos andando.

Nestes anos de dispersão minha e "Perestroyka" deles, houve horas em que pensei que não resistia, sem refeições regulares, cama, um ténue afago de mulher, a voz de um amigo.
Mas, agora, são eles que estão a apanhar com os blindados nos cornos e, em todo o mundo ocidental, preocupadíssimos.
Que está a realizar-se na União Soviética, o Campeonato Mundial de Futebol ou um concurso de beleza? Sei que se passa lá qualquer coisa, mas nunca ando informado.
Estou preocupadíssimo com o Carlos Fino.
Se "estes" infiltrados provocarem agitações de massas, o Exercíto Vermelho esmaga-os.
Primeiro Napoleão (1812); depois Hitler (1941); agora o Bush, era o que nos faltava!
Enquanto eu, numa aldeia velha em 1944, olhava o ninho de um pássaro ou colhia amoras silvestres, milhares de homens caíam na Europa, na Ásia, nos mares, do ar. Fora do meu campo de consciência, tudo pode estar a acontecer à mulher e às filhas, no momento em que acendo. alheadamente , um cigarro.

Sebastião ALBA, "ALBAS"

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:06 AM | Comentários (0) | TrackBack

CACOS

/19/

Aqui na rua Jacinto de Amorim, no bar do brasileiro, há logo à esquerda de quem entra um quadro que me comoveu.
Uma pequenina partiu um prato, vêem-se os cacos no soalho. Está desolada e à espera do castigo. Com o olhar doce, um cão (seu amigo) pede piedade por ela. O pintor não é da escola holandesa, nem impressionista, ou cubista, etc. Mas é um pintor extraordinário, de quem não conheço o nome. A arte foi sempre isto -- a comoção da inteligência.Passa por lá, quando tiveres oportunidade.

P.S. Tina, a pata esquerda do amigo está no ar, parece um ponto de interrogação às avessas, como quem diz: "nunca ninguém partiu um prato..."

Sebastião ALBA, "ALBAS"

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 07, 2004

A (ine)vitabilidade da extinção...

Hoje, passei todo o dia sem internet. Já é a segunda vez que, a situação se repete este mês. Como vivo numa aldeia com poucos habitantes, e os utilizadores da internet, provavelmente não ultrapassarão a centena, está encontrada a razão de tão longa espera.

O final do Ritornello de hoje foi preenchido com o "Hino à Terra", opus. 95 de Jean Sibelius. A escolha desta peça musical está relacionada com a intenção de Jorge Rodrigues (apresentador do Ritornello) homenagear a Mãe Terra. O comportamento passivo e a postura apática, faz de todos nós cidadãos negligentes, cúmplices da amarga realidade que hoje deixou Jorge Rodrigues consternado: ESTÃO EM RISCO DE EXTINÇÃO, MILHARES DE ESPÉCIES DE SERES VIVOS; e nós serenamente, parafraseando o poeta, Miguel Torga: "E a humanidade dobrou o jornal aliviada" , Diário.
Quando liguei o rádio, já o apresentador do programa manifestava a sua indignação, sem que eu tenha tido oportunidade de saber a origem da notícia.
A mim não me convencem, que é necessário destruir a diversidade de vida, que ainda existe no planeta, para que esta civilização tecnológica possa continuar a desenvolver-se e progredir. A inevitabilidade da extinção quotidiana de plantas, animais, insectos, etc... (ninguém sabe quantas espécies já desapareceram sem terem sido identificadas e estudadas pela ciência) revela a perfídia da nossa maneira de pensar e a mentira com que gostamos de pactuar. Talvez ajude a serenar a culpa que sentimos, nos momentos em que atormentados por uma reflexão mais profunda (algo que acontece raramente), nos apercebemos a herança envenenada que vamos deixar para os nossos descendentes. (os mais optimistas, desde já, acreditam que lá para os finais deste século, princípios do próximo, os terráqueos vão emigrar em massa para Marte, e aí serão imensamente felizes.)
Estéril é a vida de um ser humano que vive de costas voltadas para a cultura e para a arte. Como devemos classificar então, o comportamento que todos os dias, nos encaminha para a beira do abismo? Que é, o desaparecimento irreversível de seres vivos, que levaram milhões de anos a adaptar-se aos mais diversos habitats, possíveis de encontrar neste incrível planeta, de que somos todos filhos legítimos, todos sem excepção; até mesmo, e nestes casos infelizmente (os Bushs e os Saddams que proliferam, como ervas daninhas de uma humanidade que prefere andar distraída. O que significa deixar o terreno livre para que essas "ervas daninhas" possam engendrar os mais perversos planos que se possam imaginar. Quando recobra a consciência, depois de um longo periodo de letargia neurovegetativa, a humanidade fica então alarmada com o perigo que já lhe ronda a casa, ou na melhor das hipóteses já espreita o quintal do vizinho.)
Se a civilização depende da extinção do que quer que seja (o que eu não acredito), para progredir; eu prefiro não ser civilizado (na realidade, são poucos aqueles que merecem essa distinção!). Aliás, ainda nem sequer passamos do limiar de algo, que pudesse ser classificado como tal; colectivamente temos permitido que indivíduos sem quaisquer escrúpulos, dominem as massas humanas e consigam desenvolver e sofisticar a barbárie, enquanto o colectivo aplaude ou assiste temeroso. Encolhe-se no medo de perder as mequinhas vantagens e privilégios que adquriu (quase sempre por meios pouco dignos). Estes privilégios limitam a verdadeira liberdade e o auténtico sentido de civilidade (de civilização, não de mera boa educação).
A irreversibilidade deste percurso de esterilidade que alastra a um ritmo preocupante, é o leit motiv da minha intervenção (humilde e limitada, mas sincera); infímo contributo pessoal (já que abanar as conciências nunca é demais). Nunca é desprezível o nosso contributo. Nunca nos pode demover de acreditar, agir, ou simplesmente pensar, o facto de sentirmos que é muito difícil mudar a realidade. É preciso não cair na esparrela das inevitabilidades (não vale a pena, porque não se vai mudar nada! Sabendo à partida que nada permanece estático, e que sempre que negamos a oportunidade a nós próprios de pensar, alguém o faz por nós, alguém decide por nós, então se assim é, porquê permitir que nos insultem a inteligência quotidianamente, sem que uma única célula cinzenta do nosso cérrebro se insurja, indignada!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 06, 2004

DESERTO

/26/

Hospital

Neide: naquele bilhete, comoventemente mal escrito, tu agradecias ao papá a firmeza nascida da profunda afeição por ti, com que ele te acompanhava sempre nas situações em que te sentias insegura. Estou emocionado, querida. Um tédio de deserto ( nem um pequeno escorpião, vento); de dunas imobilizadas e sem rastos, invade-me. Só uma experiência anterior de desolação total me ajuda a suportá-lo.

SEBASTIÃO ALBA, "ALBAS"

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

RESSUMAR...

Caminhar...
Por campos de amor
Dissipado,
Nuvens de passagem
Deserto de idas e vindas,
Nem sopro, nem aragem
Sementes, pensamentos aguardando
A gota de elixir,
Liberdade de existir.

Solidão que me guia
Campo de estrelas infindo;
Marcha forçada
Vontade dominada,
Caminho de desterro;
Receio ambulatório, e de permeio
Vaidade inútil, como recheio.

Continuo a caminhar,
E as estrelas continuam
A pairar...
Sentinelas luminosas,
Vitalidade desesperada
Olhar de alma escorraça;
Brilhando na noite,
Encantada....

Doce entrega, este
Cansaço de caminhar,
Pertence às estrelas
O brilho do meu olhar;
Pernoitar serenamente
Neste regaço de grãos,
Areias do meu deserto
Movimento imperceptível, desperto
Inexorável, indecifrável!

Os passos suspiram
O corpo exausto,
O pálido coração arrefece
Afundado nas areias
Deste deserto, reino
De desejos insondáveis
Ressumando tempestades.

Indómito caminhar
Irónico desatinar, em
Poeira de estrelas. germinado...
Passos desarticulados,
Avançando destemidamente
Na noite, enterrados no silêncio
Das dunas...
Palavras movediças
Emoções, tições bruxuleantes
Do meu delírio...


Acompanhamento musical:
Concerto para piano Nº 5, OP.73 "Imperador"
Sonata para piano Nº 29, OP.106
Sonata para piano Nº 17, OP.31 "Tempestade
"
WILHELM KEMPFF, Piano
Filarmónica de Berlim conduzida por FERDINAND LEITNER
LUDWIG VAN BEETHOVEN

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 05, 2004

CAPRICHO ITALIANO

/202/

Que sede, que fome de te ver! Morro à míngua de tactear com os meus dedos as extremidades dos teus; de te dizer, por entre os cabelos, "amo-te"; do beijo na tua espádua, quando cozinhavas (e nem sequer te voltaste); da mirada sem fundo e calma dos teus olhos, que nunca denunciam o que sentes. Santos Deus, quem és? Tu andas com medo! Mas de mim, que te amo? Ontem, na esperança de te ver, e enquanto falava com a tua companheira no limiar da porta, comecei a ouvir do apartamento ao lado um capricho de Paganini. Irresistivelmente fui tocar à campainha.
Conheci então um casal ainda sem filhos: pessoas acolhedoras estudiosas, simples. Ficámos amigos. Ouvi, de novo o capricho, era o 24º, que me dá sempre vontade de ter levado, um dia, a Paganini, a sua caixa de violino como qualquer moço de fretes. Sem gorjeta.
Mas outra coisa: fazes ideia dos obstáculos que tenho que remover para me aproximar um bocadinho de ti? Para ver-te à minha frente, falando? Farás alguma ideia da estranha doçura com que te quero? Não.
Ainda há amigos; condições para ir, limpo, barbeado, bem-vestido, ver-te. Mas tu queres ver-me assim, como os outros?
Ah! Como contenho, calmo, o desejo de precipitar um encontro, de beijar-te nas faces nuas, diante de toda a gente.
Só poderia conviver contigo se o desprezo pela classe que tu acabarás, um dia, por integrar, não fosse já racionalizado, incombatível. De qualquer modo, eu perder-te-ia, ó meiga querida, porque sou associal..amoral, atudo.

Sebastião ALBA, "ALBAS"

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:29 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 04, 2004

exportar idiotas

"Tenho uma proposta a fazer à nação" «porque hoje é domingo» Isabel Stilwell, NOTÍCIAS Magazine 4 de Janeiro 2004

Uma ida ao cimena, serviu para esclarecer a directora da Notícias Magazine (Isabel Stilwell) do estado a que chegou a educação, a formação cívica e moral e a falta de respeito mútua, prática normalizada entre os cidadãos portugueses, que ninguém parece achar descabida ou ofensiva dos direitos alheios.

O artigo reza assim, passo a citar: "(...) Fui ao cinema e ao meu lado ficou um moço dos seus trinta anos, sem sinais exteriores de atrazo mental. Na fila em frente sentou-se uma excursão de seis imigrantes de leste. (....)"

É a partir daqui que Isabel Stilwell descobre que, e passo a citar: (...)«ó pá, já viste o barco a abrir as asas?» -- e continuava:«O gajo vai fazer a folha ao puto», «O tipo não aguenta, "amanda-se às águas», quando não encorajava directamente as personagens com um «vai-te a ele!»."(....)

No dia 3 de Janeiro 2003 afixei um comentário, relativo à entrada:«Os novos empresários portugueses têm menos do que o 8º ano de escolaridade» publicada no blogue João Tilly, que diz o seguinte:«Nos últimos vinte anos nenhuma instituição ou orgão de poder investiu (em algo que viesse a atenuar o atraso que temos em relação aos outros países da Europa) em politicas de desenvolvimento cultural.
É que, em meu entender a cultura é algo que não se aprende nos manuais escolares correntes; a cultura consolida e dá sentido à diversidade de saber que vamos adquirindo (mas ao qual falta a energia aglutinadora). Querer fazer da educação um meio para instrumentalizar o cidadão, levando-o a desenvolver aptidões técnicas, e descurando todo o resto de uma aprendizagem que deveria ser multidisciplinar.
Um povo que não desenvolve a necessidade de integrar a literatura, a poesia, a pintura e, em meu entender a rainha das artes, a música (a música clássica para a maioria dos portugueses deve ser um bicho de sete cabeças!), nos seus hábitos de vida quotidianos; terá grandes dificuldades em desenvolver uma postura cívica digna; em aumentar a produtividade profissional; em ser um bom gestor de negócios ou de recursos humanos, etc...
Quem não aprende a respeitar o espírito criativo, o auto-domínio, a sensibilidade emocional, o sentido estético, e até a lucidez intelectual, como pode estar preparado para entender a complexidade de funcionamento das modernas sociedades.»

De volta ao texto de Isabel Stilwell:(....)"«Enquanto isto os pacatos eslavos comoviam-se com as sonatas que o comandante e o médico tocavam, e de que claramente reconheciam o autor, e olhavam discretamente para trás na tentativa de perceber a origem de comentários tão labregos.»"(....)

Prosseguindo com o comentário que fixei no texto de João Tilly:« Este conjunto de problemas, é cada vez mais difícil de resolver. Durante duas gerações nada, ou muito pouco foi feito; quando podiamos ter implementado medidas para corrigir o atávico atraso que acumulamos durante o período fascista. Não o fizemos, e não acredito que tenha sido por falta de meios, mas essencialmente por falta de visão política; por negligência, por torpeza de carácter de muita gente que tem estado à frente das instituições deste País. Parece-me que os poderes instalados possuem uma tendência inata para tratar os cidadãos, como se fossem idiotas incuráveis!
Toda a gente se demite de responsabilidades; toda a gente quer um tacho; toda a gente aspira a ser mediocre, (a fasquia é colocada tão baixa, e usam-se de tão baixos meios, para manter a cultura onde deve estar; ou seja, na valeta, qual parente pobre, que ninguém quer em casa por não saber o que fazer com ele!).
Alegremo-nos, pois em breve, não faltarão motivos para festejar!...»

Vamos lá então a transcrever a última parte do texto de Isabel Stilwell:(....)"« E foi aí que percebi tudo, ou seja, que o que temos de instaurar é um sistema de troca. Se não cabemos cá todos, então há que seleccionar. Mas a escolha não deve assentar na nacionalidade, mas na cultura e na inteligência. Ou seja, por cada imigrante sensível que entar, exportamos um idiota como aquele que me calhou em sorte. Assim respeitam-se as quotas e ficamos todos a ganhar, até o patego que talvez numa escola decente aprenda pelo menos a estar calado no cinema!»"

Sra. Directora, o texto já vai longo e como é sabido, os portugueses também não estão muito receptivos a longas leituras e profundas reflexões. Não acredita que o melhor é tentar mudar alguma coisa neste jardim tão mal cuidado? Sra. directora, sabemos que os melhores cérebros deste País, tem que emigrar para não definhar; vamos pelo menos fazer um esforço para reciclar aqueles, cujo perfil coincide com a descrição do jovem que tanto a perturbou (e com razão); sem termos que exportar ninguém para onde quer que seja.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

FUTELÂNDIA

"Futelândia"

"O ano que agora começa será inevitavelmente marcado por dois desfechos. O desfecho do processo Casa Pia e o desfecho do Euro 2004. (....) Mas apesar do nosso futuro ser sempre uma improvisação, este ano, está escrito nos astros e a Maya confirma, não temos como escapar ao Euro e à pedofilia. (....) No que diz respeito ao futebol, o País estará embrulhado até Junho numa mortalha adrenalínica, de tensão, ansiedade e expectativa, que só desaparecerá se houver um penalty que nos afaste imediatamente da competição. Aí um manto negro cobrirá a nossa alma e todo este esforço de construção de mil estádios (são dez mas é como se fossem mil) parecerá um absurdo. (....) Mas estes dez estádios são gigantescos divãs, onde o País se vai deitar até acordar de um sono que tem a mesma probabilidade de ser sonho ou pesadelo (e aqui a Maia já não nos vale). Dez divãs gigantescos onde o País se vai deitar para fazer o seu psicodrama e esquecer outro drama que uns anunciam como terramoto, mas que a mim me parece mais um maremoto. Ou melhor um tsunami., uma onda gigante que vem do mar e nos pode submergir. (....) Os estádios surgem, assim, como arenas, arenas da catarse colectiva que o País se ensaia para fazer, quando as suspeitas se transformarem em confirmação (ou ilibação) e novos nomes vierem a ser revalados com uma sequência que não se consegue perceber se é estratégia ou tão simplesmente ausência dela.
Os estádios serão lugares de euforia; ou, então, de anastesia para a culpa que for sendo revelada.
O País viverá a primeira metade de 2004 nesta estranha coreografia com a sua identidade e o seu destino.
Com aquilo que é e foi e com aquilo que pode ser, mas ainda não sabe. Por isso, e paradoxalmente, nunca um país teve uma agenda tão fechada relativamente aos assuntos que marcarão o seu futuro próximo, mas nunca a evolução dessa agenda foi tão imprevisível. Por isso, e porque não queremos que Portugal se transforme na pedolândia, só podemos desejar boa sorte à futebolândia."

Paulo Cunha e Silva, Professor universitário

DN "OPINIÃO" Domingo, 4 de Janeiro 2004

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:23 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 02, 2004

CRIANÇAS...

Apagarás da memória?
Cruéis sentimentos
Ignóbeis testamentos
Tudo junto? Pérfido!

Álea conspurcada...
Mentira, cobardia
Mil obséquias, torpes
Ilustre, Poderoso...

Tourada, marrada
Visão afunilada
Cabeça parada,
Atoleiro, podridão...

Fado, peregrinação
Abençoada nação,
A cuspir,
Para o chão.

E o ar, de quem
Forjou mérito.
Patranhas
Aprendidas em sebentas.

Lembranças fedorentas
Dos hinos cantados
De olhos vendados.
Céus esventrados...

Poletão de fusilamento
A caminho do átrio
Aberto, espelho inocente
Infantes, rostos limpos.

Pusilânime ladrão
Oportunidades
Da árvore,
Primavera condenada.

Reclamada, injusta
Invejada.
Buracos de mentira
Implacável.

Vida cerceada
Sem os ramos
Estender, florescer
Frutos do amanhecer.

Sorrisos livres,
Devassados
Por mil vilezas
Indescritíveis.

Torpes glórias.
Poderosas manápulas
Asfixiando pequenos
Universos, sem absolvição...

Em vão foi, e será...
Se tu e eu, e muitos
À sombra da indiferênça
Aquietarmos as almas.

Adormecer cúmplice
Acordar criminoso.


Acompanhamento musical :
Béla Bartók, Danças Populares Romenas
Toru Takemitsu, Quotation of Dream
Witold Lutoslawsky, Variações sobre um tema de Paganini
Robert Schumann, Sinfonia nº 2, em Dó Maior, op. 61.

Intérpretes: Katia e Marielle Lábeque (dois pianos)
Maestro: Lawrence Foster
ORQUESTRA GULBENKIAN

Concerto realizado no dia 7 de Março de 2003, no Grande Auditório da Gulbenkian

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:59 PM | Comentários (2) | TrackBack

Rascunhos

Espalhados neste tampo
Densas agruras madrugam.
Neste leito de secretária
Rascunhos preguiçosos.
Vidas entrelaçadas
Arpejos de fantasmas,
Palavras amotinadas...
Cortinas e biombos
Lágrimas turvas
Quotidianamente...
Explendor insolente.
Grilhões enferrujados
Brumas, ausências...
Dedilhando a mestria
De descrer ...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:36 AM | Comentários (1) | TrackBack

Pessoas...guiam a mão, quando escrevo.

"ÓBOLOS: SOLO MIO"


Isto pode parecer dialéctico: quanto mais a solidão se adensa mais eu aprendo com ela a dissipá-la. Tenho abordado mulheres de meia-idade modestamente vestidas, pedindo-lhe ajuda para pão. Abrem o porta-moedas e dão-me mil escudos. Digo-lhes: "Não preciso de tanto." E elas: "Isso dá-lhe para uns dias."
É quase certo que nunca mais as verei. Mas são pessoas dessas que me guiam a mão, quando escrevo.
A minha melancolia é tão dolente que só ouvindo uma bela canção napolitana eu poderia reencontrar-me. Mas interpretada por Caruso.

Sebastião ALBA, "ALBAS" Vol. 2

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:03 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 01, 2004

murmúrios...

Talvez as folhas caídas fossem do Outono.
Talvez este desfolhar acontece-se intacto
naquele intímo fugidio
de ramos nus,
murmúrios de alma
anelada em mim...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

AMÉRICA, Estados desunidos do mundo...

AMÉRICA, Estados desunidos do resto do mundo.
O problema é que não existe outro mundo. A AMÉRICA está em todo o lado, e simultaneamente em lado nenhum. Não há país ou cidadão verdadeiramente livre. Uma rede transcontinental, não sujeita a códigos nem barreiras de espécie alguma, tem vindo a expandir-se e fortalecer-se à custa da cumplicidade dos governos da maioria dos países de um mundo, que também já não existe, ou está em vias de extinção.
A identidade nacional, é uma espécie de folclore retórico, que nada tem que ver com a realidade. Observem o vosso comportamento; acreditam piamente que permanecem herdeiros legítimos da raça lusitana, parida nos interstícios dos montes Hermínios? Acreditam que por serem defensores de um patriotismo futebolístico, raíado tantas vezes pela violência gratuita, ainda trazem na alma a epopeia camoniana? Sabem bem que não.
Então, quem somos nós afinal? Americanos?! O mais provável é que sejamos náufragos à deriva, flutuando no que resta dos destroços de uma identidade cultural, que já só pode afirmar-se, em exibições de carácter folclórico.
A AMÉRICA, tal como a pensamos, já não passa de um holograma. Mas, então e o poder militar? É FICTÍCIO?! Claro que não. Mas está ao serviço de uma organização transcontinental, que viaja permanentemente à velocidade da luz; e, que à imitação de qualquer divindade, adquiriu as "virtudes" da omnipresença, da omnipotência, e da omnisciência; está em todo o lado, manda em toda a gente, e sabe tudo; ou seja não admite qualquer tipo de dissidência. E, não pensem que somos só nós, os cidadãos anónimos, fragilizados, ignorantes, que não tem outra solução, senão baixar a guarda, e aguentar esta nova era do neo-esclavagismo. As empresas de pequena e média envergadura tambám têm que prestar vassalagem a esse poder, cuja omnipresença quase o torna invisível! Eu arriscaria a dizer que ninguém está a salvo, e o futuro neste momento é uma autêntica espada de Dámocles suspensa sobre uma humanidade perplexa, ante a sua própria incapacidade de reacção.
Começam finalmente a perceber, aquilo que representa a AMÉRICA do século XXI? Apontar o dedo, ou o olhar no planisfério, e pensar que é possível confinar a AMÉRICA dentro das suas fronteiras convencionais, é um erro crasso.
Portanto, defender a cultura tradicional e pensar que é possível estabelecer um convívio são entre o velho e o novo, não passa de uma crise de flatulência intelectual, de quem não está a digerir bem a actual indefinição cultural em que vivemos. Este abraço asfixiante a que ninguém consegue escapar, afecta irreversivelmente a existência de qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, e como são perniciosos os efeitos (colaterais). É a própria identidade, que confere a cada um se nós a indelével marca pessoal, que nos distingue dos demais seres humanos, que é desmembrada, atingida no âmago por poderosas influências detonadoras da implosão, que acaba por ocorrer no intímo do nosso Ser.
Vai ser muito difícil interpretar os sinais preocupantes de hegemonia estrutural, já que os mesmos vão sendo introduzidos na vida quotidiana, devidamente normalizados, ou seja, transformados em produtos apetecíveis, adequados ao consumo massivo.
Tal como tem acontecido noutras épocas históricas, os cidadãos comuns e não só, (como geralmente andam distraídos) quando se apercebem da existência de uma nova realidade, já é demasiado tarde; já estão completamente subjugados e alienados, o que equivale a dizer, com pouca ou nenhuma liberdade para reagir, ou desenvolvar alternativas.
Como o nosso modo de pensar ainda se estrutura em torno de conceitos culturais caducos; caímos, com alguma facilidade na esparrela de um discurso político de conveniência, enquanto a nova época vai instalando arraiais, quase sem oposição.
É cada vez mais difícil cultivar e manter uma atitude crítica, e um espírito lúcido, tantas são as fontes de permanente distracção e entertenimento, e julgam os caros leitores que isso acontece inocentemente?!
É claro que não. Nos tempos que correm, é fácil confundir felicidade com imbecilidade. Não somos mais que marionetas vampirizadas, atiradas sem dó nem piedade, para as modernas arenas, para gáudio dos que tendo meios para assistir a uma distância confortável, vão manipulando o espectáculo como mais lhes convém. (segundo a sua própria necessidade de satisfazer as mais variadas perversões morais, legitimadas por uma "normalidade" destituída de qualquer sentido ético.).
Ainda estamos a falar da AMÉRICA, ou se preferirem da sua extinção! Não pretendo ser exaustivo, nem o conseguiria. Hão-de surgir novas oportunidades para desenvolver e aprofundar este assunto. POLÉMICO! ABSURDO! ACHO QUE NÃO.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:30 PM | Comentários (2) | TrackBack

O primeiro dia...

Hoje. Hoje é mesmo
O primeiro dia...
E carrego já
A silente agonia,
De ser tudo...
O que não queria.


E continuo... imerso
Neste langor indulgente,
Limbo...
De sonho impertinente.


A aurora entorpecida
Raia na esquálida lonjura,
Lembra o perfil
Desengonçado, da loucura.


Irromper abrupto,
De hirsutas ufanias
E sábias anomalias;
Arrojos e desalinhos
Apagados dos pergaminhos.


Hoje. Hoje é mesmo
O primeiro dia...
Sombra esculpida
Na soturna ironia;
A que não escapo
Nem no primeiro dia.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

ALBA... de um Novo Ano

"MEMÓRIAS DO CÁRCERE: O ALIENISTA"

Há "traços de desvio da personalidade" no teu vizinho de baixo, isto é em toda a gente. Mas alguns de nós, mais conhecidos que outros, são objecto de estudo, e dissecados, como cobaias.
Na minha infância, o nosso pai pensou em internar-me.
Aos 20 anos, qualquer médico escreveu num relatório que eu era um "psicopata constitucional". Foi o dr. Sobrinho; psiquiatra que dirigia a 20ª enfermaria do hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques. O enfermeiro- chefe quando me surpreendia a ler, cá fora, nas escadas, ao crepúsculo, dizia-me: "Então você, durante o dia não lê, e agora que há pouca luz..." Sorria.
Como vês, o diagnóstico estava a confirmar-se. Eu, ali, no uniforme do hospício, uma vestimenta que lembrava a dos prisioneiros dos campos de concentração nazis, estava a ler Hegel. Lembro-me de que era a "Estética", desse filósofo alemão, de que o enfermeiro-chefe não entenderia duas páginas. "Vá, vá lá para dentro", dizia-me com uma palmadinha no ombro.
E eu ia , que remédio.
Pois bem: agora já não vou lá para dentro. Lá dentro estão eles.

Sebastião ALBA, "ALBAS" Vol. 2

Acompanhamento: "Carmen" Georges Bizet

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:06 AM | Comentários (2) | TrackBack