dezembro 31, 2003

A participação de Mário de Carvalho no "É a Cultura, Estúpido!"

"É a Cultura, Estúpido!" Sim, estive lá; sou cúmplice daquilo que por lá se disse, e talvez, me sinta ainda mais cúmplice, daquilo que ficou por dizer!
A entrevista que o escritor Mário de Carvalho concedeu ao "Magazine Literaturas", no passado dia 9 de Dezembro, explica o motivo que me levou a deslocar-me 200 quilómetros para estar presente neste evento. Tinha vontade de escutar ao vivo, as palavras do Autor do melhor livro do ano --"Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" --; opinião de José Mário Silva e Pedro Mexia.
Portanto, foi a presença ao vivo do escritor Mário de Carvalho, que me levou a assistir ao "É a Cultura, Estúpido!" e caso desejem saber melhor porquê, leiam a entrada que publiquei no dia 13 de Dezembro --"A Verdade Adormecida".
Quanto ao que por lá se disse, rabisquei umas notas, que vou agora tentar descodificar em algo que seja publicável!
No parecer de Mário de Carvalho somos um país de tagarelas. Desperdiçamos o tempo, e o eventual talento a discorrer sobre tudo, e sobre nada, de forma leviana e inconsequente. Este comportamento colectivo inviabiliza qualquer possibilidade de autêntico esclarecimento e é impensável classificá-lo como um acto de comunicação. Mário de Carvalho considerou que explorar o virtuosismo narrativo pode levar à esterilidade da própria narrativa. Em seu entender, seria bom que o romance do século XXI, adquiri-se voz própria, inédita, polémica, revolucionária...
Defendeu a leitura dos autores clássicos. As referências clássicas alargam e tornam mais abrangente a perspectiva como enxergamos a literatura, a arte, a filosofia, a política; em suma, ajudam a encontrar um rumo pessoal que dê sentido à cultura e à própria civilização.
A língua como instrumento de comunicação tem que ser usada de forma artesanal. Podemos imaginar as palavras como as peças de madeira, com que o artesão constrói o instrumento musical; que, por sua vez, ao chegar às mãos do "artesão de som"; se metamorfoseia em emoção pura.
Podemos afirmar que o virtuosismo de poucos, junto à sensibilidade de alguns e à disponibilidade de muitos, permite erguer bem alto o facho, que simboliza a esperança, na recriação da arte da comunicação. Divagar, claro! Mas, devagar...para ver se isto ainda tem alguma repercussão.
A tagarelice nacional amplificada pela irresponsável conduta das televisões, contribui para que o País não tenha emenda. A dignidade das instituições defende-se quando as mesmas preservam uma linha de resistência que não cede às pressões mediáticas. O aproveitamento dramático das questões judiciais é vergonhosamente obsceno. A especulação jornalística explora exaustivamente o voyerismo público.
O que está aqui descrito é da minha inteira responsabilidade; contudo acho que faz jus às palavras que o escritor Mário de Carvalho usou para descrever em linhas gerais, alguns dos temas quentes da agenda política, social e cultural do Portugal que temos.
E se, algum dos eventuais leitores, esteve ontem ao princípio da noite no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, manifeste-se; critique; acrescente; enfim, participe.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:35 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 29, 2003

A tragédia de desperdiçar a vida!

Desperdiçar a vida é a maior tragédia que pode acontecer a um ser humano.
E contudo, parece-me ser a tragédia mais omnipresente na humanidade.
Mas quantos de nós se apercebe da real dimensão dessa tragédia?! Com que frequência estamos predispostos para discutir o assunto? E com quem? Os amigos e os familiares raramente estão dispostos a perder a telenovela ou o jogo de futebol, para discutir um assunto tão vago quanto subjectivo.
Mas, como eu sinto esse suposto "desperdício de vida" presente no meu quotidiano e a funcionar como uma rede de arrasto que, sem qualquer tipo de contemplação leva tudo à sua frente! Ficam as marcas duradouras da desolação, que também ninguém quer ver! Pudera! Essa marcas são uma prova viva do "desperdício de vida".
Será que "desperdiçar a vida" não é uma outra forma de violência?! A qual vai corrompendo a resistência moral já de si enfraquecida por um estilo de vida que menospreza a lucidez!
Até mesmo enveredar pelo caminho da pedagogia, carrega à partida o estigma do fracasso anunciado! Expedição falhada antes de ser iniciada! Será que sou excessivamente pessimista? As mentes juvenis que deveriam estar razoavelmente virgens e não apresentar rigidez estrutural, surpreendem negativamente pelo elevado grau de deformação degenerativa da consciência de identidade. São completamente dominados pelo discurso consumista exacerbado até ao paroxismo; e a vitalidade anímica e criativa, que deveria ser exuberante é tristemente esvaziada pelo arrebatamento competitivo.
As possibilidades destes jovens desenvolverem a sua identidade de forma harmoniosa é remota e, as consequências desta forma deturpada de aprendizagem da vida, degeneram em "desperdício de vida", carregando as inevitáveis consequências nefastas para o próprio e para a sociedade. Quem se importa?! Infelizmente nem os pais, tão ou mais deformados que os próprios filhos!
E o problema é que solitariamente pouco há a fazer. Estamos face a um abismo, tão vasto e imperscrutável quanto possam imaginar! Acredito contudo que será possível interpretar as regras do seu funcionamento e criar os respectivos antídotos.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

Acenar com palavras

Aceno com palavras de liberdade
A um mundo que me quer calar.
Mas continuarei a teimar
Até que alguém as aprenda, a Amar!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

despojos irrisórios

Oh, Ignorância! Espelho Mágico.
Reflectindo a cruel realidade
De mar revolto.
Que devolve ao areal
Das minhas memórias;
Os despojos irrisórios
De um saber naufragado;
Em algum momento
De nevoeiro malfadado.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:10 AM | Comentários (0) | TrackBack

limbo...

Passar o Ano...
A ver os comboios a passar!
Sem sair do limbo,
De ser asno a pensar!
Que em burro,
Se há-de transformar!
Assim que o Ano passar...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:27 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 28, 2003

Violência!!!

A Violência é sempre A Violência! Mas por muito hedionda que nos pareça a violência exercida sobre mulheres e crianças, espancadas por aqueles que as deviam proteger e acarinhar; temos que concordar que o acto violento em si mesmo é já uma consequência, ou seja, é o somatório de diversos factores que por acumulação resultam em violência física e podem até culminar em morte.
Cada caso é um caso, e terá o seu tempo de incubação; ao qual a potencial vítima deveria estar atenta, de maneira a não ser surpreendida e só reagir demasiado tarde. Mas existe um problema que no meu entender é fulcral -- Carência absoluta de formação cívica e humana para que a vítima possa perceber como evolui um comportamento violento, até se tornar potencialmente perigoso. (certamente que existem corportamentos padrão estudados para servirem de exemplo)
Olho por olho; ou dente por dente; não enquadram nas respostas que necessito para sentir que estou no caminho do esclarecimento e não na senda da vingança fácil. A primeira reacção a uma notícia de violência extrema, por vezes executada com requintes de malvadez; é a resposta emocional e quase sempre vai na linha do mate-se e esfole-se! Os argumentos tipo são: "trata-se de uma besta e não de um ser humano." -- "quem comete um crime destes não merece qualquer tipo de clemência." -- crimes horrendos;não justificam outros crimes horrendos. Todos os crimes são horrendos. As perguntas que ficam sem resposta, deixam o amargo sabor de semelhantes crimes terem acontecido em vão! -- Quais as razões de fundo associadas a semelhantes comportamentos violentos? Os quais consideramos hediondos com uma extraordinária facilidade! Sendo óbvio que o são, e será também óbvio existir um carrasco coabitando connosco, aguardando a oportunidade para agir?!
A sociedade civil envolvida na sua labuta competitiva, não tem tempo para se coçar, quanto mais para compreender as motivações mais profundas, que podem estar na origem destes comportamentos violentos. Será que o nosso dia a dia de cidadãos pacíficos e pais de família exemplares não acenta numa conduta violenta? Do tipo comer ou ser comido. Quantas sapos vivos engolimos ao longo de um dia de trabalho? Acontece que há quem, não os conseguindo digerir, acaba por os regurgitar em cima de quem não devia! Cobardias! Como todos bem sabemos, na origem da violência está sempre, a cobardia. Para diferentes tipos de cobardia, diferentes tipos de violência.
Respostas fáceis e toca a andar prá frente... quando acontecer mais uma desgraça, estamos sempre preparados para escalpelizar o criminoso, com o gume ignominioso da sacrossanta hipocrisia.
Isto não é resposta para nada, mas eu arriscava-me a considerar este problema, como mais um, que deriva em linha directa da predominante atitude cultural negligente, que serve de referência ao modo como interpretamos a realidade que nos rodeia. Será que nos tempos que correm seremos mais qualquer coisa, que meros consumidores compulsivos de todas as formas de violência?! Com as quais, aliás, acabamos por nos confundir.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

entertenimento ou tirania?!

A Vida manifesta-se sempre em termos absolutos, por mais fragmentada que nos seja servida pela hegemónica tirania da indústria do entertenimento. Apesar de muitas pessoas estarem já conscientes do enorme poder manipulador que esta terrível máquina usa indiscriminadamente, poucas conseguem resistir ao seu enorme poder sedutor.
Uma máquina que atingiu um tal desenvolvimento consegue com facilidade levar qualquer foco de resistência ao esgotamento. Ao longo de várias décadas esta máquina bárbara (que parece ter por missão recriar uma moderna ultra-obscura Idade Média), tem vindo cruel e sistematicamente a fomentar uma campanha de inoculação de um vírus letal. Virús esse que diminui ou inibe o sentido crítico, privado dessa defesa natural, o ser humano transforma-se num espectador apático de uma realidade que ele supõe transcendê-lo.
O resultado desta política está à vista, ou não lhes parece que estamos todos cada vez mais imbecis! Só assim, se pode explicar o sucesso, com que, geração após geração, não vinga um único movimento capaz de aglutinar as possíveis, prováveis e salutares divergências, entre os opositores a este regime hegemónico. O qual governa o mundo e se alimenta da liberdade de expressão que diz defender; e fomenta a desinformação usando todos os meios de comunicação de que é dono. Paradoxal!!!
Alguém vislumbra que na linha do horizonte, ainda que latente, mas já em formação, alguma forma de sublevação?! Quem se atreve a erguer a voz e gritar: Eu recuso-me a pactuar! Todos temos telhados de vidro; interesses mesquinhos a defender; vivemos todos no horror de perder! E, no entanto, já há muito que nos perdemos de nós próprios e desistimos de viver. Já agora, e guisa de despedida, nem originais somos, em tempos que já lá vão, existiu uma geração que ficou conhecida como "Os vencidos da vida". Que sina esta de ser português, num Portugal que usa o televisor para se manter no poletão da frente, colaborando entusiasticamente no desenvolvimento da Era da imbecilidade integral. Contra esta forma de ditadura urdida com todos os meios que possamos imaginar; resta usar o discernimento...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

Elucubrações... cont.

Cerras as frestas da alma com vista para o mundo!
E acreditas manter a tua intimidade intacta?
Inútil procedimento,
Lamentável aniquilamento!

Fixa o olhar num ponto de referência quotidiano!
E sente como todas as criaturas,
Deambulam em busca de entendimento.
Ainda que perdidas, por ínvios caminhos de desolamento!

Acorda e lê, nas emaranhadas linhas desse quotidiano!
Não o futuro, mas o momento abismado.
Em que o presente desgarrado,
Te cai nas mãos nuas!
E tu, sem saberes como lidar com a situação!

Agarra esse momento, que é presente!
Murmúrio de solidão,
E amá-o, como se ama o filho único,
Que vive só por um dia!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

Elucubrações...cont.

Despenham-se sobre mim
Palavras injuriadas;
Trespassando-me a alma
Como setas envenenadas.
Atiradas à toa
Por vozes desalmadas;
Corrompidas até à medula
Pela arrogância retesada,
Que proclama o sucesso
Da ignorância idolatrada.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 27, 2003

"É A CULTURA, ESTÚPIDO!"

"É A CULTURA, ESTÚPIDO!" O MELHOR E O PIOR DO ANO

O MELHOR E O PIOR DO ANO NO "É A CULTURA, ESTÚPIDO!"

O ano literário e político em revista é o tema do último encontro "É a Cultura, Estúpido!" de 2003, a realizar no próximo dia 30 de Dezembro, terça-feira, às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. O convidado da sessão será Mário de Carvalho, autor de um dos melhores romances do ano, "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" (Caminho).

Para além de poder acompanhar a conversa entre o escritor e a jornalista Anabela Mota Ribeiro, quem passar pelo Jardim de Inverno ouvirá as escolhas dos críticos e jornalistas residentes -- José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos - para as diversas categorias - melhores livros, piores livros, melhores capas, piores capas, títulos mais comerciais, títulos mais improváveis, etc. --, saberá quais são os melhores e os piores factos políticos de 2003, no entender dos colunistas Daniel Oliveira e Pedro Lomba, e assistirá à stand-up comedy de Ricardo Araújo Pereira sobre o balanço do ano literário.

Os encontros "É a Cultura, Estúpido!", organizados pelas Produções Fictícias, continuarão a realizar-se até Junho de 2004, nas últimas quartas-feiras do mês, no Teatro Municipal São Luiz.

www.producoesficticias.pt


Trancrevi esta divulgação do blogue -- amontanhamagica.blogspot.com; mais um blogue de referência que merece a minha assídua visita. Recomendo igualmente que não se esqueçam de comparecer no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz na data acima anunciada, ou seja, no próximo dia 30, terça-feira, pelas 18.30h.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

Elucubrações...cont.

O olhar de mim reduzido
A cinzas de sarcasmos...
Imaginação mirabolante
Onde galopavam
Hilariantes entusiasmos...
Acotovelam-se agora
Enfadonhos marasmos!
Expiando as memórias
De antigos miasmas!
Testemunhos de tormentos
Encarcerando pensamentos
Sem tempo, nem história
Reduzidos à solidão inglória...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

Elucubrações....

A vida é como uma hemorregia
Que sangra desmesuradamente,
A seiva de Amar...
Fluído vital
Desaguando no meu cismar...

O ingrato esgar
Arreganha os dentes
A quem tem a ousadia
De destoar!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 26, 2003

manifesto.... música portuguesa

"Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa"; penso que todos os que, considerando-se cidadãos atentos e lúcidos, confirmam consecutivamente o abusivo, quiçá criminoso cerceamento do direito à dignidade, a que todo o cidadão tem direito, independentemente da sua condição social, cultural, económica, profissional ou outra; deve ler este manifesto disponível no blogue musicaliae.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 08:59 PM | Comentários (0) | TrackBack

um passeio pedestre

Esta tarde fui dar um passeio pedestre pelo Parque Natural da Serra d`Aire e Candeeiros. É dos poucos locais, relativamente perto de casa, onde gosto de caminhar a pé. Por norma são deambulações solitárias, e o local permite que, me embrenhe na natureza agreste; e, regra geral, sem ser perturbado por outras presenças humanas, já que, e com excepção das pessoas que trabalham nas pedreiras, é raro cruzar-me com outro caminheiro. Infelizmente de semana o sossego é tragado pelo ruído de fundo proveniente das pedreiras que se encontram em actividade, e apesar de eu escolher itenerários afastados das mesmas não é possível criar a ilusão de que não existem. Mas ao fim de semana, e principalmente ao domingo, com as pedreiras paradas, pode-se usufruir plenamente a beleza desta serra. A presença física do silêncio; as rajadas de vento marítimo fustigando as faces nuas; as eflorescências calcárias disseminadas por toda a paisagem; a presença dominante do alecrim, cuja fragância apetece inspirar profundamente; e quando a limpidez da linha do horizonte o permite, é possível contemplar os ilhéus conhecidos como Berlengas, (que para quem não saiba ficam próximo de Peniche)de alguns locais do espinhaço da serra, virados a oeste.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

alfabeto da alma...

(....)"Se toda a linguagem é ideia", disse Rimbaud, "o dia da linguagem universal há-de chegar.... Essa linguagem, nova, universal, há-de falar de alma para alma, resumindo em si todas as fragâncias, todos os sons, todas as cores, interligando todo o pensamento. A chave para ascender a esta linguagem é, evidentemente, o símbolo, que só o criador possui. É o alfabeto da alma, primitivo e indestrutível. É por seu intermédio que o poeta, senhor da imaginação e irreconhecido governante do mundo, comunica, estabelece comunhão, com os seus semelhantes. (....) Neste ambiente vê-se para trás e para a frente com igual clareza; a comunicação torna-se a arte de estabelecer em qualquer ponto do tempo uma ligação lógica e harmoniosa entre o passado e o futuro. (....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

a vontade de comunicar

Se as palavras tem algum poder que mereça ser enaltecido; o mesmo revela-se quando são lançadas na fogueira do comum descontentamento, e libertam calor aglutinador capaz de mitigar essa fome universal e intemporal de comunhão comunicativa.
Os rostos que a princípio revelam a tensa ignomínia, ostensivamente exibida como quotidiana máscara de superioridade; distendem-se como que por magia e começam a irradiar uma beleza desconhecida; a alma abre-se num sorriso, desfiando o enredo comunicativo, liberta-se o ser criativo. Caem por terra, barreiras e peneiras confrangedoras; e o calor das palavras, inebriante incenso encorajando as vontades, contribui para extirpar as insanas obscuridades. Estando todos sujeitos às mesmas pulsões porque raio havemos de fenecer como almas desterradas???...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

para que a luz resplandeça

Dias terríveis...
Cinzelados neste cinzento enregelado.
Trémulo coração resfriado!
Ansioso por pintar
No metálico horizonte de arrepiar!
Um colorido sonho
De fazer a multidão pasmar!


Onde quer que estejas?
Risonho céu ensolorado!
Alivia-me o cenho acabrunhado...
Envolve-me no teu calor.
TIra-me deste torpor engadanhado,
A Alma tolhida.
Para que a luz resplandeça
E a dor cansada, adormeça...


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

Até o padre terá que subscrever este Natal!

(....)"Quando iremos?" pergunta ele, "quando iremos para além dos desertos e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a nova sabedoria, a queda dos tiranos e dos demónios, o fim da superstição, --- nós os primeiros! --- o Natal sobre a terra!" Como estas palavras me fazem lembrar Nietzsche, esse contemporâneo que Rimbaud nunca conheceu!
Terá havido algum revolucionário que tenha sido capaz de exprimir o caminho do dever com mais clareza e vivacidade? Terá havido algum santo que tenha falado do Natal num sentido mais divino que este? São palavras de um rebelde, sim, mas não de um ímpio. É um pagão, sim, mas não um pagão como Vergílio. É a voz do profeta e do mestre, do discípulo e do iniciado. Por idólatra, supersticioso e ignorante que seja, até o padre terá que subscrever este Natal! "Escravos, não amaldiçoemos a vida", é o último grito de Rimbaud. Um fim para o lamento e para o choro, para a mortificação da carne. Um fim para a docilidade e para a submissão, para as crenças e orações infantis. Fora com os falsos ídolos e com as brincadeiras da ciência. Abaixo os ditadores, os demagogos e oa agitadores profissionais. Não amaldiçoemos a vida, adoremo-la. Todo o intervalo do Cristianismo tem sido uma negação da vida, uma negação de Deus, uma negação do Espírito. A liberdade nem sequer foi ainda sonhada. Liberte-se o espírito, o coração, a carne. Liberte-se a alma, para que possa reinar senhora de si.(....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:16 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 25, 2003

luta interior

(....) Em tudo revejo a minha própria situação. Nunca afrouxei o combate. E que preço tive que pagar! Tive de conduzir uma espécie de guerra de guerrilha, esse combate sem horizonte que é fruto apenas do desespero. A obra que decidi escrever ainda não está escrita, ou apenas o está parcialmente. Só para levantar a minha voz, para falar à minha maneira, tive de lutar por cada palmo do caminho. E o canto quase fica esquecido sob o peso do combate.(...)

(....)Mas a lei do Universo impõe que a paz e a harmonia só possam ser alcançadas por meio da luta interior. A pequenez humana não quer pagar o preço dessa paz e dessa harmonia. Gostaria de tê-la já pronta, como no pronto-a-vestir.(....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

não há lugar para o poeta...

(....)A morte está na separação, no vivermos separados uns dos outros. Morte não significa apenas deixar de existir. Uma vida que aqui em baixo não teve significado não encontrará nenhum no além.(.....)
(....) Há muito tempo já que a sociedade se acha completamente desinteressada da mensagem do artista. E a voz que passa despercebida, ao fim e ao cabo, torna-se silenciosa.(....)
(....) Se, no momento em que nasce uma nova ordem, não há lugar para o poeta, se dela nada lhe é dado, então ele tratará de a destruir. E começará pelo coração. Esta ameaça não é imaginária, é actual. É o prelúdio de uma dança da morte muito mais terrível que a da Idade Média.(....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

um cidadão....não-violento

O Dr. Fernando Nobre da AMI, esteve ontem, quarta-feira, 24 de Dezembro de 2003, presente no Jardim da Música, como convidado de Judite Lima; e que oportuna participação! Nada pude fazer, escorregou-me a alma para dentro de um cadinho repleto de emoções, onde sofreu alquímicas transformações.
Pessoas como o Dr. Fernando Nobre tem o poder de atingir o âmago da consciência humana, com a seta incómoda da não cooperação com as injustiças que inadvertidamente cultivamos no coração. Senti-me resgatado à labiríntica obscuridade, de pactuar com a cruel e obscena normalidade. O Dr. Fernando Nobre ao incarnar o verdadeiro Espírito de Natal, deu Voz à Luz Humanitária que anonimamente, muitas pessoas teimam em não deixar apagar.
Quem visita regularmente o meu blogue sabe que nos últimos dias tenho vindo a publicar textos que visam partilhar e estimular o interesse pela Não-Violência.
Conceito que está intimamente ligado à necessidade de respondermos cabal e conscientemente às exigentes questões que o actual exercício da cidadania requer. Essa atitude obviamente, que interessa fundamentalmente aqueles que, não desejam ficar à mercé dos múltiplos e eficazes meios de manipulação e alienação que as instituições públicas e privadas têm ao ao seu dispor. A Não-Violência não é uma peça de vestuário que usamos ao domingo para ir à missa; ou numa ocasião de festa , a fim de impressionar os amigos. A Não-Violência é essencialmente um estado de alma, que assume humildemente a postura de tentar não usurpar a liberdade alheia de existir e ser. A maioria de nós, apesar de perceber que o mundo pode estar irreversivelmente em ruptura, continua a ter uma atitude desrespeitosa em relação a tudo o que nos rodeia. Qual o significado que atribuimos ao alimento, que nos habituamos a ver nas prateleiras dos supermercados, nas vitrines dos restaurantes, ou à mesa em nossas casas? Não dedicamos um instante sequer a meditar que ali em frente ao nosso turvo olhar está um ciclo de vida, sujeito às leis da sustentabilidade Universal, onde interviram os mais diversos elementos e factores para que afinal, a Vida se cumpra! Este exemplo simples revela que nos deixamos influenciar de tal modo por uma cadeia de interesses supérfluos, que a nossa vontade acaba por desdenhar daquilo que porventura seja inclusivamente essencial à nossa sobrevivência física, intelectual, moral, e até mesmo espiritual!
À guisa de despedida, concluo que o Dr. Fernando Nobre não só é um cidadão não-violento, como naturalmente dissemina a cultura da Não-Violência.
Aqui ficam os meus sinceros votos de um Natal Feliz e de um Ano Novo pleno de realizações no âmbito das suas acções humanitárias.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:08 PM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 23, 2003

pensamento atento...

" Todo o poder provém da prevervação e sublimação da vitalidade que é responsável pela criação da vida. Essa vitalidade é continuamente e mesmo inconscientemente dissipada, por maus ou mesmo desconexos, desordenados e indesejáveis pensamentos. E desde que o pensamento é a raíz de todo o discurso e toda a acção, a qualidade destes últimos corresponde à natureza dos primeiros. Por isso o pensamento perfeitamente controlado é em si mesmo um poder da mais alta potência e torna-se automático..."


M. K. Gandhi, Todos os Homens são Irmãos ( Publicação da UNESCO)

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:45 PM | Comentários (0) | TrackBack

As Câmaras Municipais e os postais de Boas Festas

Numa perspectiva natalícia, nada tenho contra os postais de Boas Festas que a Câmara Municipal de Santarém enviou aos seus múnicipes; deverá ser considerado um acto meritório? ou será, que o dinheiro poderia ter melhor serventia?!
Não me parece ser o género de postais, cuja receita reverta a favor de alguma instituição de utilidade pública (e se tal for o caso, apresento desde já, o meu sincero pedido de desculpas)
Tratar-se-á então de operação de charme, ou auto-promoção político- partidária?!
Desconheço se este tipo de iniciativa, percorre o País de lés a lés?
Talvez haja por aí alguém capaz de me satisfazer a curiosidade?
Pode até não ser relevante, a quantia gasta; mas em tempo de vacas magras, será exagero, considerá-la esbanjamento?


A todas as Cãmaras Municipais deste País

Dirijo Votos de um ANO NOVO repleto de obras realizadas.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

A Não-Violência e o Natal

A Violência é para além de outras coisas: Deformação Cultural. Enquanto insistir-mos em acreditar que não há nada a fazer, que o homem sempre foi violento; e que o melhor é assistirmos no conforto amodorrado da mediocridade paralizante, às estratégias cada vez mais subtis, de violência imbecilizante.
O homem transforma-se através daquilo que sente e pensa; sendo a acção, o resultado directo da qualidade intrínseca do seu pensar e do seu sentir. O pensar, nas suas múltiplas formas, educa-se, aperfeiçoa-se, refina-se, e pode mesmo chegar a iluminar-se, quando o conjunto das influências, contigências, e fundamentalmente das circunstâncias sejam potencialmente catalizadoras do BEM (ou se preferirem: da Liberdade, da Verdade, da Não-Violência, e da absoluta sinceridade com que sejam sentidas). O sentir é indissociável do pensar, não é menos importante, mas só o discernimento lúcido lhe abre as portas da beleza e bondade intrinsecas à espécie humana.
O Homem, de facto não responde, e ainda bem, de forma linear aos estímulos do meio ambiente que o circunda. Mas, até mesmo a alma mais empedernida, nunca está completamente fechada a mudar a percepção da realidade, basta que as circunstâncias a isso a obriguem.
Movido, como é, por uma miríade, quase inextricável de interesses, quantas vezes antagónicos; o homem, realmente confronta-se com uma enorme dificuldade em comprender a intrínseca fonte de bondade, que no seu âmago clama por liberdade. No entanto, basta-lhe estar um pouco mais atento às suas necessidades íntimas de comprensão e comunicação para logo perceber que afinal, não é recorrendo à violência (seja lá de que tipo for, e que subtilezas assuma) que consegue sublimar as frustrações, ou reparar as agressões (sejam elas também de que tipo forem, e em que formas diferentes se materializem).
Mesmo quando é arrebatado pela ira, e repentinamente só a violência verbal ou física pareça a única via aberta de resolução do conflito, é sempre possível deixar a consciência apaziguar o turbilhão, e sentir a percepção da inutilidade de semelhante reacção; é nesse preciso momento, que a luz da cordialidade humana derruba a violência profundamente desumana a que, como animais de hábitos arreigados, vamos sendo pela sua insaciedade tragados.

Votos de Um FELIZ NATAL a Todos os que partilhando comigo, a contingência de Existir, venham sentindo a necessidade de Ser.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:36 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 22, 2003

enquanto...o Natal!

No dia 19 de Dezembro o Nuno do blogue Aoeste publicou um planisfério digital que me suscitou um comentário inspirado. Segue-se este serão uma alumiada dissertação, desta vez, inspirada na natalícia iluminação!


Terra africana, ou ermo abandonado...
Negro continente esfaimado.
Pela ocidentalidade profanado!
Séculos e séculos de escravidão,
Manto obscuro de solidão.
Reserva de escuridão...

Obscuridade laboriosamente devassada,
Por satélites de tecnologia avançada.
Planeando futuras pilhagens...
Ou não tivessem a seu favor,
Os ventos das históricas vantagens!


Perdidos na tenebrosa obscuridade...
Só lhes resta,
Atear no peito, a luz da esperança.
E acreditar,
Que ao bréu rutilante,
A alma do povo resgatará
A divina chama fulgurante!

O difícil é obliterar
A ocidental Demência!
E fazer com que o Natal
Seja, prenúncio de Clemência!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:22 PM | Comentários (1) | TrackBack

Não-Violência e Civilização V

"Os meios brutais que inflingem dor, frustração ou morte nunca podem ser considerados como neutros. São intrinsecamente maus. Resta provar que são o menor mal. Mas se a regra da justiça é dar ao mau um "mal igual" como se pode defender que ele é menor? Acrescentemos que são audaciosos por natureza, ligados à excitação e ao excesso, e que somos culpados de não prever que eles tenham efeitos imprevisíveis.
As ameaças de intimidação são da mesma espécie. As manhas e as manobras são de uma espécie mais vil. A sedução ou corrupão, com aparência mais suave, são ainda piores e, ainda que as intenções sejam boas e a causa santa, estão marcadas pela infâmia.
Recorrer a meios maus não é resistir ao mal, mas antes entrar no mal e aumentá-lo. E isso é entrar na fatalidade dos Flagelos.
Se me oponho aos injustos com os mesmos meios, sobre o mesmo terreno, pela mesma estrada, confundo-me com eles na desordem e não posso pedir a Deus que distinga a minha causa da dos ímpios e que me afaste do homem iníquo e fraudulento. Se me ponho a defender a justiça e recorro a meios duvidosos, acrescento a impostura à (in)justiça."

Acto de Fé («Les Quatre Fléaux», Fatalité ou Délivrance, pp. 66-69)

Lanza Del Vasto, Antologia (Helena Santos) Edições Brotéria 1978

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Não-Violência e Civilização IV

"A Não-Violência é coisa simples mas subtil. Se é tão difícil aplicá-la e até compreendê-la é porque é completamente estranha aos hábitos comuns.
Mas a dificuldade torna-se inultrapassável quando se julga tê-la compreendido bem, quando parece evidente que consiste em recusar qualquer luta e em manter-se prudentemente protegido dos ataques.
A Sedução dos Conflitos: Não se pode falar de Não-Violência quando há conflitos, nem se pode chamar Não-Violento a quem se protege enquanto o mundo está a arder. Quem vive descansado talvez seja não-violento, mas não sabe nada. Saber-se-á no dia em que um conflito rebenta e em que o vemos a resolver o conflito sem recorrer nem ao constrangimento nem ao ardil.
Pois a não-violência é dizer não à violência e sobretudo às suas formas mais virulentas que são a injustiça, o abuso e a mentira.
Ora, perante o conflito, quais são as atitudes possíveis?
A primeira é afastar a cabeça e desviar o assunto, sobretudo se não somos dirctamente atacados, visto que como sabeis, «temos sempre muita coragem para suportar os males dos outros». Finalmente esta história não nos diz respeito. Ficamos neutros e não ficamos, esquivamo-nos discretamente.
A segunda atitude é entrar corajosamente na discussão e responder com golpes ripostando a um com dois se pudermos.
A terceira atitude é voltar sa costas.
A quarta é levantar as mãos, cair de joelhos, implorar perdão, evocar clemência de Augusto, capitular.
Vê uma quinta atitude possível?
A quinta atitude é a Não-Violência. Exclui geralmente as outras quatro. Exclui a neutralidade. Exclui a disputa. Exclui a fuga. Exclui a capitulação. (....)
A não-violência é o contrário da justificação dos meios maus para um bom fim, é o ajustamento dos meios ao fim, se o fim é justo, os meios devem também sê-lo.
Gandhi ensina que os meios e os fins estão ligados como a semente à árvore.
É isso que explica a decepção que se segue a todas as vitórias e libertações obtidas pela violência, mesmo quando a causa é boa e os combatentes heróicos e sinceros.
As boas causas não justificam os meios maus, mas são os meios maus que estragam as melhores causas.
Deve distinguir-se eficácia instrumental e eficácia final.
A Ciência presta-se a qualquer aplicação, a Consciência não.
A Inteligência dobra-se a qualquer combinação, a Sabedoria não.
O Poder pode seja o que for, o Autodomínio não.
A Coragem dá-se a qualquer cousa, mas a Caridade não.
A Força pode servir para qualquer fim, mas a Não-Violência ou a Força da Justiça só é eficaz para servir a Justiça.
A Não-Violência pode parar a guerra?
Vede a vida de Gandhi e sabei que ele parou uma, sózinho, em 5 dias.
Se a Não-Violência não pode parar a guerra, nada poderá pará-la.
Portanto, o futuro pertence à não-violência ou então não há futuro.
Trata-se de ser homem e salvar a vida --- dar a sua vida para salvar a Vida.

Definições e Eficácia da Não-Violência («Technique de la Non-Violence», I, 1)
Lanza Del Vasto, Antologia (Helena Santos) Edições Brotéria 1978

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

Não-Violência e Civilização III

"«A Não-Violência é tão velha como as montanhas», disse Gandhi.
Foi ensinada no Evangelho com uma clareza e uma força que não deixam nada a desejar e foi lá que Gandhi a bebeu.
Cinco séculos antes foi pregada por Buda que acrescenta: «Essa é a lei antiga».
Está inscrita nos livros chineses sobre o Tao.
Os rishis védicos conhecem-na.
Aparece na Bíblia desde o livro dos Génesis na história de José e seus irmãos.
Gandhi não traz portanto nenhuma revelação nova. A Não-Violência é conhecida e exige um alto grau de santidade; e quando Jesus exige aos seus que, ao contrário dos pagãos, amem e abençoem aqueles que os odeiam e perseguem, conclui: «Sede perfeitos como o Pai Celeste é perfeito» (Mt. V, 48).
O que é novo e de ousadia inaudita é a aplicação deste princípio de perfeição interior a todos os planos da vida e à vida de todos: à Condução de um Povo, à Conquista da Liberdade, ao Exercício do Poder, à Manutenção da Justiça, à Diplomacia, à Política, à Economia, à Educação, à Medicina, ao Regime Alimentar, à Vida Familiar e Quotidiana."

A Antiguidade da Não-Violência (Ibid., nº 39)

Lanza Del Vasto, Antologia (Helena Santos), Edições Brotéria 1978

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

Não-Violência e Civilização II

"«Um grande sábio, não, não sou um grande sábio --- disse Einstein. Receio que o meu saber e as minhas decobertas possam contribuir pouco para o bem da humanidade. Só há um grande sábio no nosso século: Gandhi». (...) É tentador aproximar a frase de Einstein sobre Gandhi da frase de Gandhi sobre a Não-Violência: «Os antigos rishis que a descobriram foram maiores sábios que Faraday e Papin...». Ele chamava à história da sua vida «Experiência com a Verdade», como se considera-se a Não-Viiolência o objecto de uma ciência experimental."

Ciência Moderna e Não- Violência (Ibid., nº 37)

Lanza Del Vasto, Antologia (Helena Santos), Edições Brotéria 1978

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:52 AM | Comentários (0) | TrackBack

Não-Violência e Civilização I

" Quando falamos da Não-Violência como uma descoberta do século, convém determinar que não se trata da revolução de um novo valor espiritual ou de uma concepção religiosa, mas da entrada de uma capacidade revolucionária e renovadora na história dos povos."

Descoberta da Não-Violência >(«Les Quatre Fléaux», Fatalité ou Délivrance, nº 36)

Lanza Del Vasto, Antologia (Helena Santos), Edições Brotéria 1978

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 21, 2003

carências de ... comentários

Que devo eu pensar, à guisa de balanço, dos poucos comentários que recebo?
O melhor é não pensar; ou melhor ainda, e já que estamos em época natalícia, vou mas é enviar um mail ao Pai Natal para que não se esqueça de mim; é que mesmo enviados lá dos confins da Lapónia, uns comentariozinhos aspergidos com uns pózinhos de hipocrisia perlimpimpim, seriam bem-vindos, e bem aceites! ou talvez, não!!!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

É uma palavra terrível, a liberdade...

(....) Há em nós alguma coisa de toda a criação. Quando nos é negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da míriade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.
A religião faz de nós santos, ou apenas bons cidadãos, mas o que faz de nós homens, o que nos faz humanos até ao âmago, é a liberdade. É uma palavra terrível, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados. (....)

Henry Miller, A Obscenidade na Literatura
Excerto copiado do texto editado pelo Citador intitulado: As restrições dos guardiões morais


Descubro incessantemente em Henry Miller o intento fervoroso de nos arrebatar das garras da imbecilidade. A lucidez que iluminou o seu pensamento criativo, continua a representar um manancial inesgotável de humana sabedoria e sensibilidade. A fluidez do seu pensamento aguça-nos o discernimento.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

certeza interior

(....)Quem decide arrostar com o mar da vida tem de tornar-se um navegador; tem de aprender a defrontar-se com ventos e correntes, com leis e limites. Um Colombo não zomba das leis, alarga-as. Não se faz ao mar para alcançar um país imaginário. Descobre um mundo novo acidentalmente. E tais acidentes são os frutos legítimos do atrevimento; de um atrevimento que não é imprudência mas o produto de uma certeza interior.(...)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

anemia cultural!

Do artigo de opinião de Paulo Cunha e Silva, professor universitário, retirei os seguintes excertos: (...) E Coimbra é um exemplo paradigmático do divórcio entre pensamento e cultura.
Aquela que reivindica para si a vetusta designação de «cidade do pensamento», que tem a maior densidade de doutores, a maior concentração de teses sobre a natureza e o sentido do universo por metro cúbico, era uma cidade culturalmente anémica. (...) A cidade que pensava, que se deitava a pensar, que acordava a pensar, tinha dificuldade em encontrar morfologias adequadas para o pensamento.
Ou seja, tinha dificuldade em fazer cultura. A cultura é a forma do pensamento. É um pensamento que, depois de cumprir a sua infinita deriva a uma velocidade maior que a da luz, encontrou um local de acolhimento. (....)

DN, Domingo 21 de Dezembro 2003


Espero eu, que em tempos futuros a anemia cultural, que em meu entender não é um mal circunscrito à cidade de Coimbra, mas uma epidemia instalada à escala nacional; não venha a mutar-se em anemia cultural perniciosa, um mal irreversível, que inevitavelmente soterraria a nação sob as dunas do um deserto cultural em expansão.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

bondade de circunstância!

Não somos, enquanto Nação,
capazes de exorcizar o fantasma;
da arreigada pobreza endémica,
que mancha a nossa inchada vaidade lusitana,
como anátema ao serviço da estupidez humana!

Enquanto as tréguas natalícias
distribuem víveres e prendas perversas!
por muitos dos que...
do reino da abundância,
só conhecem uma forçada abstinência!

Arrebatados pela bondade de circuntância,
embrulhamos a solidariedade,
na efémera abstracção da sacrossanta ganância!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

Bem haja! Manuela de Freitas

O Portugal cultural sobreviverá, enquanto cidadãos como a actriz Manuela de Freitas, recentemente presente no programa "Quinta Essência" de João Almeida, não cederem ao abastardamento bajulador tão comum num tempo em que o protagonismo fácil está acima de qualquer valor ético, estético e espiritual.
A única coisa que posso pedir a alguém aí desse lado, passa essencialmente por partilhar as emoções despertadas pelas palavras da actriz Manuela de Freitas; "Ser tubo de ensaio da humanidade" , esta frase lapidar, fragmentou-me a alma em mil sonhos por realizar!... "Ter a humildade de ser a passagem para qualquer coisa", outra das frases enunciadas por Manuela de Freitas (que temo vir a adulterar, apesar de ser meu intento respeitar), parece-me indicar o caminho de um saber com sabor a intemporalidade,que se comunga, sem estar sujeito aos equívocos das quotidianas provações e privações.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:18 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 20, 2003

cobardia e timidez juntas para me tramar...

As medicinas alternativas ocupavam lugar de destaque nos meus interesses de juventude. Um dia encontrei num alfarrabista de Lisboa, dois livros de Maurice Mességué: "Homens e Plantas", uma autobiografia deste singular curandeiro; e "A Natureza tem Razão", uma compilação de plantas medicinais (Os Simples) usadas pelo próprio no tratamento das mais variadas doênças que podem afligir os seres humanos.
Maurice Mességué nasceu em 14 de Dezembro de 1921, em Gavarret no Gers (Lot-et-Garonne), no seio de uma família com tradição no tratamento empírico à base de plantas. Tendo por mestre, o seu próprio pai, que cedo o ensinou a amar e respeitar (Os Simples). Colher plantas é uma arte; um saber, que leva aquele que colhe a reconhecer quando os princípios activos das plantas estão no seu apogeu; quais os locais mais favoráveis para apanhar tipos de plantas diferentes! quais as horas do dia mais adequadas para se efectuar a colheita! e também quais os melhores métodos de secagem exigidos por cada planta para que não perca parcial ou totalmente as suas propriedades!.
O espinheiro alvar, a celidónia, a alfazema, a violeta, a bolsa do pastor, a malva, o alho, a cebola, a roseira brava, a pimpinela, a cavalinha, a salva, entre muitas outras que componham a panóplia curativa à disposição daquele camponês do Gers.
Aos onze anos, um acidente de caça levou-lhe o pai, que Maurice Mességué considerou a pior tragédia da sua vida.
Com a deflagração da segunda guerra mundial, Maurice, então com desanove anos resolveu alistar-se, sentenciando o final de um capítulo da sua vida: o da sua juventude.
Terminada a guerra, Maurice não vendo grandes saídas profissionais pela frente encarou com audácia a possibilidade de exercer a única coisa para que se achava vocacionado: Curar; não porque tivesse qualquer habilitação académica, mas por ter fé nos conhecimentos transmitidos pelo pai.
Pagou ao seu primeiro cliente; Schoum, o vagabundo. Daí em diante, a sua vida nunca mais viria a ser a mesma; alguma sorte, muita pertinácia e uma fé inabalável nas plantas do seu Gers natal, trouxe a este homem fama e fortuna, assim como a inveja da classe médica que lhe moveu inúmeros processos judiciais, por exercício ilegal de medicina.
A leitura deste livro levou-me aos vinte anos até França, esperançado de vir a ser recebido por este homem. Achava eu que poderia evocar o mesmo amor pela natureza, complementado pela certeza de que as plantas tinham em muitos casos mais poder curativo que os medicamentos de síntese, com a vantagem de não terem na maioria dos casos, os seus perversos efeitos secundários.
Esta era a primeira saída, o primeiro voo, a primeira tentativa; uma mochila carregada de ilusões, uma carteira quase sem provisões; tudo quanto ficou para trás, continuava a fermentar na consciência, como doênça que ciclicamente nos lembra da sua presênça, sem sequer pedir licênça!
O comboio só me quiz levar até Irun; daí para a frente continuei a pé e à boleia.
Estava ali, afim de me dirigir a Fleurance, cidade onde Maurice Mességué chegara a presidente de Câmara, de maneira a entregar o meu destino nas mãos desse homem que certamente entenderia os motivos da minha atitude. No entanto, inconscientemente afastava-me em direcção ao Mediterrâneo, conduzido pelos receios, pelas insegurânças íntimas e tambám pelo denso manto de timidez, companhia assídua na minha existência.
Ocuparam-se os dias sem história, em deambulações e idas à praia. Até que a inevitabilidade do regresso a casa e ao tão odiado trabalho começaram a ser vislumbrados como uma dor que a cobardia torna aceitável.
Poderá ser esta viagem considerada um fracasso?!!!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

citando o "Citador"

" A Independência da Solidão"


O que me importa unicamente é o que tenho que fazer, não o que pensam os outros. Esta regra, igualmente árdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para distinção total entre a grandeza e a baixeza. E é tanto mais dura quanto sempre se encontrarão pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual é o teu dever. É fácil viver no mundo de conformidade com a opinião das gentes; é fácil viver de acordo consigo próprio na solidão; mas o grande homem é aquele que, no meio da turba, mantém, com perfeita serenidade, a independência da solidão.


Ralph Waldo Emerson, in "Essays"

Texto copiado do blogue: Citador

Entre a multiplicidade de textos, citações, exertos e pensamentos, que em minha opinião merecem atenção e leitura cuidada, publicados pelo "Citador" escolhi este, por veicular no momento, a voz de um sentir que se fez pensamento.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

american way of ...

(....) As drogas, o álcool, a depressão, o isolamento, a facilidade em obter armas de fogo, as famílias defeitas, as dificuldades económicas, os suicídios, a espiral de violência, estão ligados entre si. Em 1995 calcula-se que uns 150000 alunos vão diariamente para as aulas com armas de fogo.
Os baby boomers tinham medo da bomba atómica e da guerra, os da Geração X receavam o desemprego e, por último, os da Geração Y podem temer a falta de ética e a violência em que se desenvolvem. Liberais e conservadores exigem uma reforma que traga conteúdo moral ao ensino, mas de momento não se vislumbra uma firme decisão de reordenar as coisas. Fazendo cálculos à maneira americana, revistas como a Time argumentavam, apoiando uma política de prevenção contra o delito, que, se um cargo escolar bem desempenhado custa 5600 dólares por ano, um preso custa quase quatro vezes mais. Para além de sociólogos e educadores ventilando diversas teses, os urbanistas intervieram para explicar que o modelo de cidade norte-americana e o tipo de vida a que induz deveriam ser revistos, se se deseja um século XXI mais ajustado socialmente. A sua análise põe agora em causa o susposto
paraíso das cidades alongadas dos anos 50, as chamadas edge cities ou cidades das periferias, onde se reproduz a ilusão individual americana. (....)

Vicente Verdú, O Planeta Americano

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:58 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 18, 2003

reiterar o direito de sonhar...

"O neo-esclavagismo"


Carla Henriques, investigadora, Coimbra


"Pensar-se-ia à partida que o esclavagismo estaria extinto nos países civilizados e em vias de extinção. Contudo, o esclavagismo sofreu ao longo da história da humanidade diversas metamorfoses, encontrando-se nas sociedades mais desenvolvidas num estádio de evolução preocupante. (....)

O esclavagismo da actualidade surge perfeitamente inserido no mundo pós- moderno, fazendo parte da globalização, da flexibilização do mercado de trabalho e do enfraquecimento das éticas tradicionais. (....)

É assim que a servidão não tem cessado de aumentar, sofrendo as mutações de um virús, que assume as mais diversas formas, de modo a dificultar o seu combate.

As sociedades actuais não se encontram, assim, muito distantes das que existiam no século V a.C., no apogeu do humanismo helénico. A história, em vez de ensinar o Homem, é absorvida pelo esquecimento, perdendo-se no vácuo da cupidez, do egoísmo, do capitalismo exacerbado e do neo-servilismo, conduzindo a uma democracia falaciosa.

É como cidadã que venho denunciar o estado real das condições laborais de alguns trabalhadores no sector bancário, esperando contribuir, deste modo, não só para elucidar o público em geral das condições de trabalho existentes num país considerado civilizado mas também para imprimir coragem noutros cidadãos que ainda não tenham, numa atitude de cidadania, denunciado outros casos aberrantes de neo-esclavagismo no país.

12 de Dezembro 2003 Expresso Online

Sob a égide apologética da omnipresente competição!
A inércia leva-nos à inevitável condição,
De transmutarmos liberdade, em servidão.

Repetem-se notícias inassimiláveis,
Acumulam-se enigmas inextricáveis,
Desmoronam-se sonhos realizáveis!!!

Suspiram as palavras...
Suspensas na lúgubre profanação!
De serem mesquinhamente mutiladas,
Pela quotidiana inadaptação!
Sem poderem ser sonho, nem darem voz à Razão...

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dezembro 17, 2003

poetas...caminheiros dos céus!

(.....) Frente à nossa porta está já um mundo totalmente novo, um mundo pavoroso e ameaçador. Um dia, acordaremos; veremos então uma cena que há-de estar muito para além da nossa compreensão. Há muitas gerações que os poetas e os videntes vêm anunciando esse novo mundo, mas temo-nos recusado a acreditar neles. Nós, habitantes das estrelas fixas, rejeitamos a mensagem dos caminheiros dos céus. Olhámos para eles como se fossem planetas mortos, como espíritos fugitivos, como sobreviventes de catástrofes há muito esquecidas.
Caminheiros dos céus, os poetas e de que maneira! Não é verdade que, tal como os planetas, parecem estar em comunicação com outros mundos? Não é verdade que nos falam de coisas que hão-de vir e de coisas há muito passadas, sepultadas na memória rácica dos homems? E que significado podemos atribuir à sua passagem fugidia pelo mundo, senão o de que se trata de emissários de um outro mundo? Nós vivemos no meio de factos mortos, enquanto eles vivem num mundo de sinais e símbolos. As aspirações deles coincidem com as nossas apenas nos momentos em que conseguimos aproximar-nos do periélio. Procuram libertar-nos das nossas amarras; convidam-nos a voar com eles com as asas do espírito. Estão constantemente a anunciar o advento de coisas futuras, mas crucificamo-los porque vivemos no terror do desconhecido.(....) A apreensão que o poeta tem das coisas é semelhante à que teria um homem que viesse de um mundo com quatro dimensões para um mundo tridimensional. Está no nosso mundo mas não é do nosso mundo. Aquilo a que deve obediência está em qualquer outro lado; aqui não. É sua missão seduzir-nos, tornar intolerável este limitado mundo que nos aprisiona. Mas só serão capazes de responder ao chamamento aqueles que viveram até ao fim o seu mundo tridimensioal, aqueles que esgotaram as possibilidades deste mundo.

Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 15, 2003

Também é preciso...

(....) Enquanto estiveres no mundo e fores parte dele, diz o que tiveres para dizer, e depois cala o bico para sempre! Mas nao capitules, nao te curves! Qual é o castigo? A expulsao. A auto-expulsao, já que o mundo foi rejeitado antes. E será este destino terrível? Só se se aspira às luzes da fama. Também é preciso que haja alguém capaz de reinar no silencio e nas trevas. (...) Para o homem de Deus, é o mundo crepuscular que é inabitável, pois esse é o domínio da confusao. Era a zona em que Nietzsche situava os deuses caídos. Aí, nem Deus nem Satanás sao reconhecíveis. É o vale da morte que o espírito atravessa, o intervalo obscuro em que o homem perde a sua relaçao com o cosmos. É também "o tempo dos Assassinos". Os homens já nao vibram de exaltaçao; torcem-se e contorcem-se na inveja e no ódio.(....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

expiação profundamente arreigada

Depois de uma longa jornada...
Agonia-me o obsceno banquete de imagens canibalescas!...
Representadas pelas personagens mais grotescas!...
Catarse de vingança colectivizada...
Proporcionando intensa e obssessiva distracção...
Mister de inadiável alienação!...
Caminhando pela estrada da vida, imitando a rigidez aprumada...
De quem participa numa militar parada!...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 14, 2003

a propósito do retrocesso civilizacional

"Há 50 por cento de hipóteses de um Retrocesso Civilizacional catastrófico neste século"artigo publicado na página Ciência do jornal Público, este sábado, 13 de Dezembro de 2003.
O astrónomo britânico, Martin Rees, professor e investigador da Royal Society publicou o livro: "Our Final Century" (O Século Final) e esteve recentemente em Coimbra a participar no Ciclo de Debates da Capital da Cultura
O problema tal como o entendo, não está propriamente nas reais ameaças com que este planeta vivo já hoje se debate: a pressão demográfica, o abate das florestas tropicais, a pilhagem dos recursos minerais, o aumento dos desperdícios domêsticos e industriais, a poluição atmosférica, a má gestão dos recursos hídricos, a extinção irreversível de espécies animais e vegetais; enfim, acho que já chega, para demonstrar que somos todos cúmplices silenciosos do extermínio que vai indiscriminadamente deglutindo a vitalidade deste planeta.
A apatia (indicador de degeneração civilizacional) é um dos problemas entranhado no cerne da identidade individual; afectando a qualidade do desempenho crítico, e funcionando ainda como catalizador de várias formas de alienação colectiva, cada vez mais enraízadas na cultura consumista.
Os métodos de manipulação da vontade estão cada vez mais subtilmente disfarçados, e as barreiras defensivas de qualquer cidadão estão extremamente vulneráveis; o que aumenta a sensação de imunidade, de facto inexistente.
O cidadão é cercado sem dó nem piedade, atravês do esgotamento físico, da chantagem emocional, da pressão psicológica, até soçobrar; se isto não pode ser cosiderado tortura, um sucedâneo "soft" das bárbaras práticas medievas, mas ainda assim tortura.
Vou deixar este tema em aberto, já que o mesmo não pode, nem deve ser tratado de forma superficial e leviana, sob pena de ficar demasiado incompleto. Eu não sei tratar os temas como notícias de "ocasião", sou sempre levado a pensar nas profundas repercussões que toda a actividade humana acaba por ter, inclusivamente na nossa mesquinha e medíocre existência quotidiana. Estes motivos tornam impossível demitir-me das minhas responsabilidades cívicas, humanas, de universal compreensão deste fenómeno assaz fascinante, em que inevitavelmente nos vemos envolvidos, conhecido por VIDA

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

quanto de mim...

A sociedade constroi-se com os tijolos e a argamassa das diferentes influências que é possível em cada época colocar à disposição dos homens de acção.
Quanto sangue, suor, lágrimas; pensamentos, emoções, esperanças e divagações preenchem os interstícios dessas obras como material de calafetagem usado nas mais diversas embarcações?!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

as graças que a vida tece...

O cantar soalheiro da passarada, mesclado com a voz de tenor de Carlos Jorge, as palavras desassombradas de Joel Costa, as violetas africanas (Saintpaulia ionantha) de uma amiga; extasiado pelo perfume desta rara combinação, sublimei as lamúrias, dando largas ao que de mais belo floresce, no humano coração.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 13, 2003

A verdade adormecida

A "Manhã dos 5 dias", de Eduardo Street, que veio substituir o "Jardim da Música" de Judite Lima nas manhãs de fim de semana, presenteou os ouvintes da Antena 2 com a possibilidade de voltar a ouvir, ou eventualmente, como no meu caso pessoal, de escutar pela primeira vez, a entrevista dada pelo escritor Mário de Carvalho ao programa "Magazine Literaturas", do passado dia 9 de Dezembro (terça-feira).
Mencionar aqui, esta memória, é deixar simbolicamente o meu contributo solidário ao homem e escritor, às opiniões e afirmações feitas no programa. E se alguém por aí esteve sintonizado na Antena 2 na passada terça-feira, pelas 17 horas e trinta minutos, ou esta manhã, creio que pelas 9 horas; e foi tal como eu fustigado pelo vento (in)comum do (in)conformismo ( nunca estamos irremediavelmente sózinhos no estéril espaço destes campos de concentração, guardados pelos mais diversos agentes da normalização!), que partilhe, se assim o desejar, algum pedaço do olhar, que os ouvidos concerteza, souberam escutar e, a imaginação desenhar!...


Penso aqui..
excertos de vida.
partilho aqui...
poesia comovida.
junto aqui...
a alma desprotegida.
abrigo aqui...
a imaginação inventiva.
e indago aqui...
a verdade adormecida!!!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

manifesto de cordialidade bloguística

Tenho procurado intervir neste espaço de forma honesta e integra; tentando respeitar, em primeiro lugar a minha (eventual) inteligência. Seguidamente, tento interpretar aqueles que, partilhando a sua experiência, expõem a sua sensibilidade e inteligência nesta forma de comunicação.
Obviamente que se deseja ser lido (não consumido), comentado, criticado, mas também incentivado.
Tenho lido e comentado diversos textos, em diferentes blogues; tento ser participativo dentro das minhas humildes capacidades.
Penso continuar por aqui, e melhorar a qualidade dos textos apresentados, assim como diversificar os temas abordados.
Deixo aqui uma palavra de estima e estímulo a todos os que, localizando-a a desejem receber.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:18 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 12, 2003

cultura alardeada...

Debate-se a cultura, nos píncaros das doutas alvuras,
espasmos de vertigens e tonturas!
rétorica aluvial,
feita de palavras atoladas no lamaçal!
olor bafiento exalado pela nação,
inspira-se atavismo, expira-se ostentação!
somos como somos, graças a não sermos,
de forma a continuarmos a ganir pelos ermos!
ecos de ideias degeneradas,
velório de histórias adulteradas!

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

usurpação consciente...

Um sistema intransigente, (ordinariamente conhecido por sociedade) que esgota o ânimo da maioria dos cidadãos,até ao paroxismo;pode ser em consciência amado e respeitado?!
um sistema que descaradamente, semeia a mentira;pode honestamente ambicionar ser constítuido por cidadãos integros, plenamente desenvolvidos e amantes incondicionais da verdade?!
Um sistema negligente, que faz de conta que não vê a humildade imanente, brotar do âmago do todo o Ser que sente; pode,impunemente, continuar a molestar gente inocente?!
Um sistema moribundo, aproveitando os últimos estertores, para pregar as intrínsecas virtudes,aos que se sentem seus naturais seguidores (interessados defensores de privilégios usurpadores), pode ainda ter o poder de induzir à servidão voluntária?!...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:31 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 11, 2003

Trazer até aqui...

>Trazer até aqui!
As cinzas ainda quentes dos pensamentos ardidos!
Ensaiar aqui, os gestos angustiosamente desvanecidos.
por enleios ardilosamente indefenidos...
Trazer até aqui!
As sombras silenciosas, do dia finado!
Arrumar aqui, a lucidez impiedosamente esventrada.
Pela luz amofinada!
Adormecer aqui, o olhar aberto!
Tactear aqui, a apatia da voz profunda do deserto...
Esperar aqui, a vitória do torpor!
Estiolando sem proveito o resto da Dor...
Irrompem aqui, alvoradas estremunhadas
Pintadas nas cores mais inusitadas!


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 10, 2003

obsessão literária de ser livre

....."Tal como Rimbaud, eu odiava o lugar em que tinha nascido. E hei-de detestá-lo até ao dia em que morrer. O meu primeiro impulso foi sair de casa, cortar com a cidade que detestava, com as pessoas e com uma terra que nada tinham em comum comigo. Como ele, também fui precoce: recitava versos em língua estrangeira numa idade em que ainda me sentavam numa cadeira de bébé. Aprendi a andar muito antes da idade normal, aprendi a falar também antes do tempo e a ler o jornal antes de ir para a escola infantil. Fui sempre o mais novo da aula e, não só o melhor aluno, como também o preferido dos professores e dos colegas. Mas, tal como ele, desprezava os prémios e galardões que me eram atribuídos e fui várias vezes expulso da escola por mau comportamento. Enquanto andei na escola, parecia que a minha missão era apenas gozar os professores e as aulas. Era tudo demasiado fácil e idiota para mim. Sentia-me um macaco amestrado.
Desde a infância que fui um leitor voraz. Pelo Natal só pedia livros, aos vinte e trinta de cada vez. Até por volta dos vinte e cinco anos, quase nunca saía de casa sem levar um ou mais livros debaixo do braço. Lia em pé, durante o trajecto para o trabalho e, muitas vezes, memorizava longas passagens de poemas dos meus autores preferidos. Recordo-me de que entre as minhas preferências estava o Fausto de Goethe. A consequência mais importante desta absorção ininterrupta era o atear de uma revolta ainda maior dentro de mim, o estímulo do desejo latente de viagens e aventura, o tornar-me anti-literário. Desdenhava de tudo e mais alguma coisa, isolando-me cada vez mais dos meus amigos, impondo-me aquela natureza solitária, excêntrica, que faz com que um indivíduo pareça "bizarro" aos olhos dos outros. Dos dezoito em diante ( a idade com que Rimbaud passou pela sua crise), tornei-me completamente infeliz, desgraçado, destruído, desencorajado. Só uma mudança completa de ambiente parecia capaz de dissipar esse estado permanente. Aos vinte e um fui-me embora, mas não por muito tempo. Mais uma vez como Rimbaud, os primeiros vôos foram desastrosos. Voltava sempre para casa, voluntária ou involuntariamente; sempre num estado de desespero. Não parecia haver uma saída, uma forma de levar a cabo a libertação. A ceitei as tarefas mais estúpidas, tudo o que não tinha inclinação para fazer. Como Rimbaud nas pedreiras de Chipre, comecei com pá e picareta, à jorna, como trabalhador migrante, vagabundo. Até no facto de ao sair de casa ter sido com a intenção de viver uma vida ao ar livre, de viver à custa dos meus dois braços, de ser um homem dos campos abertos e não um cidadão desta aldeia ou daquela cidade, até nisto há uma semelhança com Rimbaud.
Contudo, a minha linguagem e as minhas ideias traíam-me constantemente. Quer eu quizesse quer não, eu era em absoluto um homem literário. Embora fosse capaz de me dar com quase qualquer tipo de pessoa, em especial com o homem vulgar, acabava sempre por parecer suspeito."
....


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

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dezembro 09, 2003

a tragédia da genialidade

...."A vida de um génio não é apenas miséria e lixo. E toda a gente tem os seus problemas, quer seja génio ou não. Pois, lá isso é verdade. E ninguém aprecia mais essa verdade que o homem de génio. De vez em quando, ver-se-á o génio aparecer com um plano para salvar o mundo, ou, pelo menos, com um método de regeneração. Matéria de riso, propostas para serem encaradas como sonhos selvagens, como total Utopia. Por exemplo "O Natal sobre a Terra". Alucinações! Que prove primeiro ser capaz de navegar por conta própria, é o comentário que se ouve. Como é que pode salvar os outros se não é capaz de se salvar a si próprio? É a resposta clássica. Irrefutável. Mas o génio nunca aprende. Nasceu com o sonho do Paraíso e, por mais louco que isso pareça, há-de continuar sempre a lutar para o tornar realidade. É incorrigível, é um reincidente em todos os sentidos da palavra. Compreende o passado, abre os braços para o futuro, mas o presente nada significa para ele. O sucesso não o atrai. Desdenha de todas as recompensas, de todas as oportunidades. É um descontente. Mesmo quando se lhe dá aceitação ao seu trabalho, não liga. Já está empenhado noutro trabalho; a sua orientação mudou e o seu entusiasmo anda já por outras paragens, Que se pode fazer por ele? Nada. Está fora de alcance. Anda atrás do impossível.
Creio bem que esta imagem pouco amável do homem de génio é bastante rigorosa. Embora com algumas diferênças, necessariamente, é possível que caracterize o conflito do homem vulgar mesmo nas sociedades primitivas. Os primitivos também têm os seus desadaptados, os seus neuróticos e psicopatas. Contudo, continuamos a acreditar que esta situação não é necessária, que virá o dia em que este género de pessoas não só encontrará um lugar no mundo mas também o respeito e a justiça que lhe são devidos. Talvez se trate doutra alucinação. Talvez seja de aceitar que a adaptação, a harmonia, a paz e a comunhão entre os homens sejam umas tantas miragens eternamente ilusórias. Mas o facto de termos criado estes conceitos, de eles terem para nós o mais profundo dos significados, significa que é possível torná-los realidade. É possível que tenham sido criados com base na necessidade; mas tornar-se-ão realidades por intermédio do desejo. O homem de génio, de um modo geral, vive como se estes sonhos pudessem ser tornados realidade. Só que anda demasiado carregado com o peso destes sonhos para os viver ele próprio completamente. Nesse sentido, é aparentável àqueles homens de suprema renúncia que recusam o Nirvana até que todos os homens sejam capazes de o atingir com eles."....

Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

o mundo não quer originalidade

(....) "Devo possivelmente partir para Zanzibar o mês que vem", escreve Rimbaud numa das suas cartas. Numa outra diz que pensa ir à China ou à Índia. De vez em quando pede notícias do canal (do Panamá). Dispor-se-á a partir para o fim do mundo se houver alguma esperança de aí ganhar a vida. Nunca lhe ocorre regressar ao seu país e começar vida de novo. O seu espírito vira-se sempre para locais exóticos.
Tudo isto toca num ponto bem meu conhecido! Quantas vezes, ainda jovem, não terei sonhado partir para Timbuctu. E, se tal fosse impossível, para o Alasca ou para a Polinésia. Certo dia, no museu do Trocadero, fiquei durante horas a olhar para os rostos dos nativos das Ilhas Carolinas. Enquanto estudava aqueles belos traços fisionómicos recordava-me de que antepassados nossos se tinham estabelecido nessas ilhas. Se conseguisse lá chegar, pensava eu, sentir-me-ia finalmente "em casa". Quanto ao Oriente, andou sempre na minha cabeça; um desejo que começou muito cedo, na infância. Não apenas a China e a Índia, mas também Java, Bali, a Bírmania, o Nepal e o Tibete. Nunca me ocorria que ia experimentar dificuldades nesses lugares distantes. Parecia-me sempre que havia de ser bem recebido, de braços abertos. Mas, pelo contrário, a ideia de regressar a Nova York assustava-me. A cidade em que conheço cada rua como um livro aberto, onde tenho tantos amigos, é o último lugar da terra para onde me viraria. Preferia morrer a ter de passar o resto dos meus dias na terra onde nasci. Só consigo imaginar-me de regresso a Nova York como indigente, como inválido, como um homem que tivesse entregue a sua alma.
Com que curiosidade li as primeiras cartas de Rimbaud! Tinha começado as suas deambulações havia pouco. E é também uma deambulação discursiva o que faz a propósito das paisagens que viu, da natureza do solo; das pequenas coisas que as pessoas lêem em casa, sempre deliciadas e interessadas. Vê-se nele a certeza de que, quando chegar ao seu destino, há-de encontrar um emprego adequado. Está seguro de si próprio; tudo há-de correr bem. É jovem, está cheio de ânimo e há tantas coisas para ver por esse mundo fora. Não vai ser preciso esperar muito para que este tom se modifique. Por muito grande que seja o entusiasmo e o ímpeto que deixa transparecer, por maior que seja a sua vontade de trabalhar, por mais talento, engenho, persistência e capacidade de adaptação que tenha, Rimbaud descobre dentro de pouco tempo que não há, em parte alguma, lugar para uma pessoa como ele. O mundo não quer originalidade; quer, isso sim, conformismo, escravos e mais escravos. O lugar do génio é na valeta, a abrir valas, ou nas minas e nas pedreiras, em qualquer sítio onde os seus talentos não possam ser empregues. Um génio à procura de emprego é das visões mais tristes do mundo. Não cabe em lado nenhum, ninguém o quer. O mundo diz que é um inadaptado. E, com isso, batem-lhe com as portas na cara. Mas, será que, então, não há mesmo lugar para ele? Ah, mas concerteza, há sempre lugar no fundo. Nunca o viram num cais a carregar sacas de café ou qualquer outro bem "necessário"? Nunca repararam como lava bem os pratos na cozinha de um restaurante imundo? Nunca deram com ele a transportar malas e sacos numa estação de comboios? (....)


Henry Miller, O Tempo das Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 08, 2003

o milagre de uma serenidade assim...

"Gerês, 4 de Agosto de 1955 --- Tantas vezes me tenho lembrado da paciência deste carvalho! Por que não faço eu como ele, e não espero calmamente pelo que há-de vir, bom ou mau, triste ou alegre, mas inevitável? O milagre de uma serenidade assim, nem passiva nem agónica, apenas atenta e disponível, seria na minha vida o começo da redenção. Talvez até o tal livro ideal, tão repetida e baldadamente escrito, e sempre melancolicamente destruído, me surgisse claro e perfeito na imaginação."


Miguel Torga, Diário

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humilhar o melhor amigo...

No domingo, 14 de Setembro de 2003 a página 43 do DN apresentava-se literalmente negra. Desse fundo negro emergiam as seguintes palavras: " Humilha o teu melhor amigo em público. "
Eu até sei que "aquilo" mais não era que uma página publicitária.
Mas será que a publicidade é porventura uma actividade inocente?
E que a sua função não é manipular o desejo de posse e satisfação imediata das pulsões humanas?
E não seremos todos cúmplices num jogo onde a ética não tem lugar?
Ou porventura estamos incondicionalmente empenhados em criar uma civilização canibal?!
Por acreditar que não podemos, mesmo que a deontologia profissional assim o exija, calar a Consciência, há que estar atentos, há que implementar o reforço da sensibilidade que nos alerta contra a incivilidade que por aí grassa.
Quem terá que pagar no futuro a negligência actual, serão aqueles que no presente clamamos amar.
Eu, ainda quero acreditar que vale a pena viver e lutar, não para humilhar mas para partilhar; não para perverter e alienar mas para comunicar com os outros de modo a que no ensaio da vida, cada um tenha o seu lugar, sem sentir necessidade de humilhar.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

Van Gogh e Rimbaud, gémeos num destino de desventura

(....)aquele cuja tragédia mais se assemelha à de Rimbaud é Van Gogh. Nascido um ano mais cedo que Rimbaud, morre pela sua própria mão praticamente com a mesma idade. Tal como Rimbaud, também Van Gogh tinha uma vontade adamantina, uma coragem quase sobre-humana, uma energia e uma perseverânça extraordinárias, que lhe permitiram lutar contra adversidades insuperáveis. Mas, e aqui ainda subsiste o paralelo, a luta esgota-o na flor da vida e cai vencido na plenitude das suas forças.
As viagens, as mudanças de ocupação, as vicissitudes, as frustrações e humilhações, a nuvem de anonimato que os envolveu. Todos estes factores comuns fazem com que surjam como gémeos num destino de desventura. Duas vidas das mais tristes de que há memória nos tempos modernos. Ninguém pode ler as cartas de Van Gogh sem se angustiar repetidas vezes. Contudo, a grande diferênça entre os dois reside no facto de a vida de Van Gogh ser inspiradora. Pouco depois da sua morte o Dr. Gachet, que tinha compreendido profundamente o seu doente, escreveu, numa carta ao irmão de Vincent, Theo: " A designação -- amor da arte -- não é exacta; é preciso chamar-lhe fé, uma fé em nome da qual Vincent caiu como mártir!" (....) Em Julho de 1880, Van Gogh escreveu ao irmão uma daquelas cartas que vão direitas ao coração das coisas, uma carta que faz correr sangue. (....) Nessa carta, Van Gogh defende-se da acusação de ociosidade. Caracteriza em pormenor dois tipos de ociosidade, a prejudicial e a proveitosa. É um verdadeiro sermão sobre o assunto e vale a pena relê-lo uma e outra vez. Em dado momento da carta ouve-se o eco das próprias palavras de Rimbaud. " Não deves pensar, pois, que eu renegue as coisas", escreve Van Gogh. " Na minha infidelidade sou bem fiel e, embora mudado, sou o mesmo e a única ânsia que me assalta é esta: como é que posso ser útil no mundo, será que posso servir um qualquer desígnio e servir para alguma coisa, como é que posso aprender mais e estudar aprofundadamente certos assuntos? Vês, é isto que me preocupa constantemente e, então, sinto-me prisioneiro da pobreza, impossibilitado de participar em certos trabalhos, há coisas necessárias que estão fora do meu alcance. Essa é uma razão para não viver sem melancolia; e depois, sente-se um vazio onde deviam estar amizade e afectos sólidos e profundos, e sente-se um terrível desencorajamento roendo a nossa própria energia moral e o destino parece interpor uma barreira aos instintos afectivos, e levanta-se uma onda de descontentamento que nos afoga. E exclama-se: Por quanto tempo mais, Senhor! " (....) " E muitas vezes os homens são impedidos pelas circustâncias de fazer coisas, prisioneiros não sei de que gaiola horrível, horrível, extremamente horrível. Também existe, eu sei a libertação, a tardia libertação. Uma reputação justa ou injustamente arruinada, a pobreza, circunstâncias fafídicas, a adversidade, é isso que nos conserva fechados, que nos limita, que parece enterrar-nos. Mas, para além disso, sentem-se certas barreiras, certos portões, certos muros. Será tudo isto imaginação, fantasia? Não acho que seja. E então pergunta-se: -- Meu Deus! Será por muito tempo, será para sempre, será para toda a eternidade? -- Sabes o que nos liberta deste cativeiro? É toda a afeição profunda, séria. Ser-se amigo, ser-se irmão, o amor, é isso que abre a prisão por meio de uma força suprema, mágica. Sem isso permanece-se na prisão. Onde se renovar a simpatia restaura-se a vida. " (....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

encontrar um sítio onde fincar os pés

(....) Foi a partir do momento em que começou a trabalhar para ganhar a vida que começaram para Rimbaud as verdadeiras dificuldades. Parecia que todos os talentos que possuía, e eram muitos, não serviam para nada. Apesar de todos os reveses, continua. "Avança, avança sempre!" A energia não tem limites, a força de vontade é indomável, a fome que sente é insaciável. "Deixai o poeta explodir, na sua procura desenfreada de coisas inauditas inomináveis!" Quando penso nesse período, marcado por um esforço quase frenético para entrar no mundo, para encontrar um sítio onde fincar os pés, quando penso nas sucessivas investidas nesta e naquela direcção, como um exército cercado que procura romper o abraço da tenaz que o agarra, vejo e revejo a imagem de mim próprio quando jovem.(....)


Henry Miller, O Tempo dos Assassinos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:59 PM | Comentários (0) | TrackBack

resgatar à alucinação

Porque preservas os momentos inspirados?
Para me resgatar à alucinação,
de estar confinado à vegetal condição!
Tentas e tornas a tentar,
sem seres capaz de descobrir, a forma de sublimar!
Esse estar na vida,
como num sonho a flutuar!...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 04:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 02:04 PM | Comentários (0) | TrackBack

dois americanos para ler

INTRODUÇÃO

Constituiu experiência gratificante para mim a tradução do texto integral de Walden ou A Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau, nome que, quase obscuro por ocasião da sua morte, em 1862, vem crescendo cada vez mais em importância, a ponto de um grande escritor norte-americano deste século, Henry Miller, ter afirmado que entre os cinco ou seis homens que para ele têm significado, na história dos Estados Unidos, um é Thoreau


Astrid Cabral, tradutor

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 01:49 PM | Comentários (1) | TrackBack

cultural visão vestibular

Sento-me aqui à secretária voltado para a janela. Necessito da claridade diurna. De vez em quando espreito as folhas amaralecidas do damasqueiro, as vergônteas verde prateado das oliveiras e o ramo de laranjeira que pende devido ao peso dos frutos já quase maduros.
Amalgamada na cinzenta predominância nebulosa,
a paisagem está hoje envolvida por uma monotonia assombrosa...

O primeiro gesto que habitualmente envolve o acto de me sentar a esta secretária é sintonizar a Antena 2. Por esse motivo, voltei esta manhã a dedicar a minha atenção ao programa de Joel Costa, " Questões de Moral " difundido no passado domingo (30 de Novembro 2003, pelas 23 horas) e repetido esta manhã, dedicado à actual problemática do financiamento das actividades musicais. Nem mesmo instituições como a Filarmónica de Berlim, entre outras do panorama musical berlinense, estão imunes à escassez de meios financeiros, para poder continuar a manter a tradição qualitativa que pautava o seu habitual desempenho.
Nestes tempos de mudança, os imperativos orçamentais erguem-se inflados na sua exorbitada importância e congruente lógica económica.
Devassar o que vai restando de singular, parece mobilizar aqueles que da cultura possuem uma visão vestibular.
A música clássica é, nas palavras de Joel Costa, uma área ardida na sociedade portuguesa, onde impera a penúria financeira, mas à qual se sobrepõe a penúria intelectual.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:46 PM | Comentários (1) | TrackBack

lágrimas ou pétalas, tanto faz

Escola ( educação, socialização, competição, consumição )
Muitos jovens de hoje sofrem de exclusão auto-punitiva por falta de meios económicos face aos colegas materialmente mais afortunados.
Os menos afortunados estarão mais habituados há abundância dos ralhos domêsticos, das carências de natureza diversa, cujos efeitos perversos não tardam em dar frutos (vergonha, revolta, instabilidade emocional que depressa evolui para depressão). Dir-se-ia que cometeram algum crime ( difuso, mas profundamente arreigado).
O tempo passa, só a revolta persiste em revolver as entranhas (em que pasta ministerial estão guardadas as promessas de futuro destes jovens?).
Histórias de final potencialmente infeliz, idiotia premeditada...


...como podem compreender que vento enraivecido
lhes arrancou a ingenuidade do olhar,
restando apenas dois buracos vazios de sonho...
apenas as mãos tacteando um destino
ainda mais cego que o olhar sem luz!
rebentaram as águas da vida, prematuramente...
morreu a educação de inanição precoce.
o ar rarefeito,
do apelo ao consumo
extingue no peito,
o último suspiro de liberdade...

mas a vida teima em acordar
o ímpeto criativo...
irrigando a desfalecida imaginação!
numa atmosfera prestes a rebentar
e em lugar de chuva
pétalas perfumadas começam a tombar...
um céu prenhe de beleza abraçando a terra!
e os homens desconfiados
apertados pelo corrediço nó das suas incongruências
como animais recuperando os sentidos,
lágrimas ou pétalas, tanto faz
assim a dor nos deixe em paz...

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 12:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 07, 2003

a insustentabilidade produtivista

A Promessa Pervertida

2. A Pilhagem

"Infelizmente, a natureza está entalada entre duas lógicas: a do progresso técnico e a da febre produtivista que a degrada. A procura de produtividade -- fenómeno positivo -- transforma-se em produtivismo negativo a partir do momento em que o fenómeno, deixando de servir as finalidades humanas, se fecha sobre si mesmo para se tornar o seu próprio fim.
Já vimos como as empresas industriais, submetidas à dupla pressão dos custos fixos que precisam de ostentar e dos rendimentos exigidos pelos seus parceiros financeiros, se vêem forçadas a uma autêntica competição produtivista. O mesmo fenómeno estende-se à agricultura: o explorador que quer realizar os seus ganhos de eficácia, que permitem poupar os meios naturais de produção, só pode fazê-lo equipando-se, entrando assim no círculo vicioso dos empréstimos e da corrida aos rendimentos. O peso dos juros, do reembolso da dívida e da amortização dos equipamentos condena-o a produzir e a vender sempre mais, contribuindo dessa forma para uma descida das cotações que mina os seus esforços. Na agricultura, mais do que em qualquer outro sector, ter bons desempenhos torna-se o meio mais seguro de caminhar para a ruína.
Eis então o agricultor condenado ao quantitativo. Por um efeito de propagação, o produtivismo mercantil, para além dos seus malefícios directos, acarreta inevitavelmente a destruição dos sistemas de produção que uma longa tradição transformara em administradores desse ambiente natural de onde retiravam os seus meios de subsistência: a agricultura familiar, a pesca artesanal e a criação tradicional não resistem à abertura dos mercados. Nova « lei de Gresham»: tal como a«moeda má expulsa a boa», os modos de produção destruidores da natureza expulsam as práticas ecologicamente sustentáveis.
Mais uma vez a promessa volta-se contra si própria, a atenção em relação à natureza transforma-se em pilhagem, e o respeito por aquilo que está vivo dá lugar a uma atitude de confiscação por parte dos interesses privados em detrimento das leis elementares da vida."(....)

René Passet, A Ilusão Neoliberal

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:38 PM | Comentários (1) | TrackBack

dirigindo-se à mente e ao coração da humanidade

Leitura

«(....) O orador entrega-se à inspiração de um momento efémero, dirigindo-se à turba diante dele, aos que podem ouvi-lo; o escritor, porém, cuja vida mais estável é necessidade sua, e que se distraíria com o evento e a audiência que inspiram o orador, dirige-se à mente e ao coração da humanidade, a todos em qualquer época capazes de entendê-lo. (....)»


Henry David Thoreau, Walden ou A Vida nos Bosques

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

a perseverança de ler bem

Leitura

« (....). Às vezes as pessoas comentam que o estudo dos clássicos acaba por abrir caminho a estudos mais modernos e práticos; mas o estudante ousado sempre se dedicará aos clássicos, em qualquer língua que estejam escritos e por mais antigos que sejam. Pois o que são os clássicos senão o registo dos mais nobres pensamentos do homem? São os únicos oráculos que não entraram em decadência e há neles respostas a indagações actuais como Delfos e Dodona nunca deram. Por ser velha, poderíamos também deixar de estudar a Natureza! Ler bem, isto é, ler livros verdadeiros com espírito verdadeiro, é um nobre exercício que põe à prova o leitor mais do que qualquer outro exercício tido em alta conta nos hábitos contemporâneos. Exige um treino semelhante àquele a que se submetem os atletas, a firme perseverança de quase toda a vida nesse objectivo. Os livros devem ser lidos com o mesmo cuidado e circunspecção com que foram escritos.(....)»


Henry David Thoreau, Walden ou A Vida nos Bosques

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

intemporal contemporaneidade

LEITURA

« Com um pouco mais de deliberação na escolha dos seus objectivos, possivelmente todos os homens se tornariam em essência estudiosos e observadores, porque a natureza e o destino de cada um interessam sem dúvida de igual maneira a todos. Ao acumular bens para nós ou para os nossos descendentes, ao fundar uma família ou um estado, ou ainda ao alcançar a fama, somos mortais; mas ao lidarmos com a verdade somos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes. O mais antigo filósofo egípcio ou hindu levantou uma ponta do véu que cobria a estátua da divindade; essa trémula túnica ainda permanece levantada, e eu contemplo uma glória tão fresca como a que contemplou o filósofo, já que era eu nele quem se mostrou tão audacioso naquela época, e ele em mim quem agora volta a observar a visão. Nenhuma poeira se depositou nessa túnica; tempo nenhum decorreu desde que tal divindade se viu revelada. O tempo que aproveitamos realmente, ou que é aproveitável, não é passado, nem presente, nem futuro.»

Henry David Thoreau, Walden ou A Vida nos Bosques

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 09:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

partilha bloguística

Aquando de uma visita ao blogue Anomalias.weblog, fui agraciado com um poema de José Régio, Poemas de Deus do Diabo que me suscitou o seguinte comentário:
«Como é possível, escrever tanto em tão poucas palavras?... galgar as intransponíveis barreiras da vida e ainda sonhar!...
Intensamente surpreendido, sinto as entranhas revolvidas por palavras tão sãs e destemidas...
Felicitar e agradecer a quem partilha inconfidências intemporais, seria blasfemar...bastando a eloquência do silêncio cumplice...»


Partilho-as humildemente com todos os que as lerem, e aconselho a leitura do poema.


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:06 PM | Comentários (0) | TrackBack

todos querem navegar de luzes apagadas

" Gerês, 7 de Agosto de 1949--- Nada poderá escandalizar tanto o homem médio de hoje, o burguês que se considera, e é, a trave mestra do presente edifício social, do que a afirmação de que será precisamente ele o coveiro dessa caricatura a que se chama civilização cristã. E, contudo, os factos falam por si. Embora cada época se queixe de que em nenhuma outra a degradação chegou a tal ponto, a verdade é que nunca como agora, uma classe justificou tão completamente o seu fim. Pode-se dar a prova disso de todas as maneiras, mas é talvez na literatura que o caso se apresenta com maior evidência. Enquanto que no romantismo, por exemplo, o espírito era centrípeto, o poeta polarizando, com consciência própria e alheia, o clima moral e intelectual da sociedade em que vivia --- um Byron a empolgar a Europa inteira e a ser a sua expressão ---, nos nossos dias pode Sartre dizer mil verdades, que toda a gente se negará a reconhecer-se no que ele escreve, a confessar que é assim negra e porca a sua vida. Uma grande, uma trágica onda de mistificação, tolda a realidade do nosso tempo. E o indivíduo --- o médico, o advogado, o negociante , o funcionário --- que tem a alma suja de mil cobardias, de mil aberrações e de mil compromissos, nega-se a reconhecê-lo, a ver n`O Muro a fotografia da sua inconfessada impotência ou secreta devassidão. O espírito deixou de ser um guia e um freio. Na medida em que o seu cristal é um espelho e uma acusação, desvia-se dele o rosto ou quebra-se. Todos querem navegar de luzes apagadas. O contrabando da vida faz-se na escuridão.
Enquanto o homem é capaz de se reconhecer nos próprios erros, o mal não é grave. A tragédia começa quando ele, relapso nos vícios e perversões, se vê no espelho da consciência um monumento de dignidade e de duração.
Então, Roma tem os dias contados, e o jogo vai começar de novo."

Miguel Torga, Diário

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:17 PM | Comentários (0) | TrackBack

querer coisas impossíveis

"Gerês, 23 de Agosto de 1942 --- Não queira coisas impossíveis, --- dizia-me hoje uma mulherzinha que andava na serra à lenha, quando eu tentava subir a uma penedia inacessível.
--- Quero, quero! --- respondi-lhe, obstinado.
Ela então olhou-me com uns doces olhos de ovelha tosquiada pela vida, e sorriu melancolicamente. Depois, pôs o molho à cabeça e partiu.
E eu fiquei-me o resto da tarde ali, a ver cair o sol e a pensar em que sonho irrealizável teria aquela alma simples posto um dia o desejo, para com a sua desilusão formular uma frase tão carregada de renúncia e amargura."

Miguel Torga, Diário

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

notícias ao fim de semana

Durante a semana quase não vejo noticiários televisivos, nem leio jornais. Quando chego a casa depois de um dia de trabalho, apetece-me tudo, menos prestar atenção aquilo que, ao abrigo de um suposto serviço de informação, mete em casa dos cidadãos mais uma forma de entretenimento.
Porque raio permitimos que a televisão se torne no meio de (in)comunicação hegemónico dentro das nossas próprias casas (um dos poucos locais onde o cidadão se pode permitir ser ele próprio, ou deveria poder!)?!!!
Será assim tão mau jantar ouvindo música? (mesmo não sendo fácil agradar a gregos e troianos, com um pouco de disciplina e acima de tudo auto-disciplina --imprescindível para se conseguir realmente almejar viver em liberdade -- é possível respeitar diferenças e estabelecer comprimissos).
Pelo que acima foi escrito, chego ao fim de semana não completamente como uma folha em branco, mas certamente desfazado em termos de actualização noticiosa. Algo que me agrada, pela frescura intensa do impacto que, então algumas notícias provocam em mim, obrigando-me a reflectir com mais afinco do que seria normal (na quotidiana tarefa de mascar e deitar fora).

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 05:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

homem come homem

DN, domingo, 7 de Dezembro de 2003, página 15, artigo de opinião de Paulo Cunha e Silva, professor universitário --- " Homem come Homem"
... ( vivemos numa sociedade canibal.
Basta olharmos para o lado e vemos uma fila de candidatos a Armin Meiwes, o homem do anúncio que, satisfeito, ria com uma dentadura canibal nas imagens da imprensa.
Esta versão de canibalismo suave é cultivada em todas as áreas da actividade que pressuponham a existência de um ganhador e um perdedor. Olhemos para os políticos, para os empresários, para os artistas, para os universitários, para os jornalistas, para os magistrados e peçamo-lhes o pequeno esforço de mostrar a dentição. Só em casos muitos raros não se encontram vestígios de sangue alheio na base dos dentes. E o problema é que há cada vez mais canibais porque há também cada vez mais pessoas a responderem ao anúncio. Não de uma forma activa, mas porque baixam os braços perante a eminência da dentada.)


A falta de conhecimentos impede-me que use os recursos disponíveis neste serviço de modo a aumentar a qualidade, a interactividade e a diversidade informativa que gostaria de disponibilizar. Esfoçar-me-ei, para que a minha prestação melhore substancialmente.
Aconselho vivamente a leitura do artigo integral supracitado.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:11 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 06, 2003

...e por serem a única grandeza de Portugal com que apetece a gente medir-se.

"Gerês, 26 de Agosto de 1958 --- Quatro horas de serra. De vez em quando gosto de pôr à prova a fibra herdada dos maternos avós almocreves, para que lá na eternidade não se sintam atraiçoados junto dos paternos cavadores, que rememoro como posso diariamente.
Meti a direito pelo fraguedos, e foi até o corpo dizer basta. Gargantas temerosas que engolem o tempo eo silêncio, e que o vento --- respiração da natureza --- atravessa a uivar, ribeiros que se despenham nos abismos num ímpeto lírico e suicida, lagoas límpidas e secretas onde ninguém lava a impureza. Graníticos e orgulhosos, os píncaros viam-me aproximar e cerravam catadura. Mas levei ao alto de todos a minha cordialidade humana. Por honra da firma, como já disse, e por serem a única grandeza de Portugal com que apetece a gente medir-se."

Miguel Torga, Diário

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sinto-me uma província suplementar de Portugal

"Gerês, 17 de Agosto de 1958 --- Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessito diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies conmo se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância`. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal. Uma província ainda mais pobre do que as outras, que apenas produz uns magros e tristes versos..."

Miguel Torga, Diário

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

...eco da minha pobre humanidade.

"Gerês, 16 de Julho de 1976 --- Subo, subo, subo. Mas de nada vale. Não consigo chegar ao cimo de nenhum Sinai de transfiguração. A sarça ardente que me envolve em cada píncaro é um delírio dos sentidos exasperados pelo próprio cansaço. As tábuas da lei que me ficam nas mãos depois do transe são as mesmas tristes normas de vida que já trazia. A abóbada celeste devolve-me apenas o eco da minha pobre humanidade."

Miguel Torga, Díário

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

abrindo as portas da cumplicidade usando a solidão como chave!

"Gerês, 15 de Julho de 1976 --- Não consegui dominar a emoção quando à pouco o correio me entregou um envelope meticulosamente lacrado, dentro do qual se escondia, ainda a latejar, um poema enviado pelo autor, que numa carta junta, canhestramente, tentava justificar o impulso do seu gesto. Lembrei-me daqueles amadores de rádio que passam horas a auscultar o silêncio da noite, até que finalmente descobrem uma solidão igual à deles a quem abrem desajeitadamente o coração.

Miguel Torga, Diário

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dezembro 05, 2003

olhar a paisagem

Gerês, 2 de Agosto de 1968.


REFLEXÃO


Sim, olhar a paisagem...
Olhá-la como um bicho
Ou como um lago.
Olhá-la neste vago
Sentimento
De pasmo e transparência.
Olhá-la na decência
Original,
Com olhos de inocência
E de cristal.

Miguel Torga, Diário


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

liberdade sem peias!...

" Coimbra, 1 de Fevereiro de 1958 --- Liberdade! Liberdade! Liberdade!
Parece infantil, mas é verdadeiro. Sem ela, é que nada feito. Poderá dar lugar a um certo desregramento, a uma certa anarquia. Mas o melhor do homem só nela se realiza. A chispa do seu génio criador, como o raio das trovoadas, necessita de amplidão para se mostrar. Já se sabe que a palavra foi degradada por Gregos e Troianos, e que um bom sofista é capaz de demostrar que a água do mar é doce. O pior é que, quando a gente a bebe, sabe-lhe mal. Pregam-nos a excelência da força e da opressão; confiamos e provamos; e sai-nos o estômago pela boca. A autoridade imposta, a ordem por canalização das vontades, serão úteis na construção de pontes e na regularização do trânsito. Em matéria de floração humana, mirram e matam. Contra o definhamento do espírito, só realmente a liberdade. E a oposição de qualquer época, embora às vezes a não soubesse conquistar, soube pelo menos avaliar-lhe o poder. A razão esmagada viu sempre que a única forma de corrosão da tirania seria uma expressão sem peias. Sempre comprendeu que no dia em que a primeira voz açaimada se pudesse erguer a sério contra os muros das Bastilhas, começaria a derrocada. A desgraça é que a tirania soube-o também. E, nesse capítulo, nunca fez qualquer concessão. Cortou, como corta ainda, impiedosamente e cerce, a língua dos rebelados."

Miguel Torga, Diário


Dão-se alvíssaras a quem descobrir e restítuir em perfeitas condições, a liberdade que vai faltando pelas mais diversas razões.
A tirania continua democraticamente a cercear a voz daqueles que a míngua económica faz calar.
O povo tiranizado pela indústria do entretenimento, consome sem qualquer constrangimento, doses maciças de embrutecimento.
Todos os dias a teia é reforçada, para que a liberdade esteja sempre condicionada.



Publicado por Rodrigo Ribeiro em 11:09 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 01, 2003

através da calúnia

III


"--- Agora, gostava de dizer uma palavra a esta comissão, já que ela é composta por altos... talvez mesmo alarmantemente altos... representantes americanos. Tenho observado que o vosso interesse em manter a coerência política, embora sem dúvida sincero, se encontra subordinado à vossa... queiram perdoar-me a palavra... paixão colectiva pela publicidade. Afinal, a política é a única profissão em que os medíocres conseguem obter a atenção do Mundo, através da calúnia."

Gore Vidal, Washington D.C.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 10:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

só se pode ser aquilo que já se é

"As pessoas parecem assombradas e fascinadas quando eu falo do efeito que esta visita à Grécia produziu em mim. Dizem que me invejam e desejam poder, um dia, ir lá elas mesmas. Porque não vão? Porque ninguém pode saborear a experiência que deseja enquanto não estiver preparado para ela. As pessoas raramente querem dizer o que dizem. Qualquer pessoa que diz estar ansiosa por fazer alguma coisa que não seja o que está a fazer, ou estar em qualquer outro lugar, está a mentir a si mesma. Querer não é meramente desejar. Querer é tornar-se aquilo que essencialmente se é. Alguns homens, quando lerem isto, dar-se-ão inevitavelmente conta de que não há nada a fazer além de pôr em prática o que desejam. Uma frase de Maeterlinck a respeito da verdade e da acção modificou toda a minha concepção da vida. Levei quarenta e cinco anos para acordar por completo para o significado da sua frase. Outros homens coordenam mais rapidamente visão e acção. Mas o que importa é que na Grécia consegui finalmente essa coordenação. Desinflei, fui restituído às proporções humanas apropriadas, preparado para aceitar a minha sorte e dar de tudo quanto recebi. Parado no túmulo de Agamémnon, passei por um verdadeiro renascimento. Não me interessa minimamente o que as pessoas pensem ou digam quando lerem semelhante declaração. Não tenho desejo algum de converter alguém ao meu modo de pensar. Agora sei que qualquer influência que possa exercer sobre o mundo será o resultado do exemplo que eu der, e não devido às minhas palavras. Faço este relato da minha viagem não como um contributo para o saber humano, porque o meu saber é pequeno e pouco importante, mas sim como um contributo para a experiência humana. Há sem dúvida alguma erros de uma natureza ou outra neste relato, mas a verdade é que me aconteceu alguma coisa e eu transmiti isso o mais verdadeiramente que soube."


Henry Miller, O Colosso de Maroussi


Publicado por Rodrigo Ribeiro em 07:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

não se fabricam sobredotados

Notícias Magazine 26.Out.2003

"Não se fabricam Sobredotados"

"As crianças particularmente dotadas, são crianças com necessidades educativas próprias e específicas. Por isso, têm de ter diferenciação, o que implica individualização. Sem defender escolas especiais para sobredotados, Helena Serra sabe que estas crianças não têm um percurso normal.
Com desempenhos excepcionais, de excelência, ímpares, numa ou em várias áreas, há a necessidade de desenvolcer essas capacidades.Se não se desenvolve, a criança estiola, pára. Depois não se pode fazer remendos. E sabe-se que a sobredotação é um fenómeno genético. Ou se nasce ou não sobredotado. Não se fabricam sobredotados. São crianças com inteligência, criatividade e motivação superior. Acha Helena Serra que estas crianças não são bem aproveitadas." Nem nisto somos planeados e organizados. Temos tido fuga de cérebros". Extremamente sensíveis, o equilíbrio entre a família, a escola e os amigos é fundamental."

"Em mil crianças, trinta a cinquenta são sobredotadas."

Seria díficil imaginar um País que gosta de se atafulhar de inveja e vaidade flatulentas, despertar para desvelos particulares a crianças sobredotadas.
(ainda se as mesmas tivessem algum jeitinho para dar uns chutos numa bola!)
Provavelmente estranhamos ser bafejados com inteligência e sensibilidade superiores, já que estamos mais habituados ao "portuguesíssimo chicoespertismo", matéria em que certamente não estaremos na cauda europeia ou até mesmo mundial.
Se nos inclinamos mais para ser adoradores da mediocridade e temos um poder político que nos faz a vontade! porquê perder tempo a compreender diferênças, e a gastar dinheiro com crianças, para que as mesmas não venham a transformar-se em adultos frustrados e empedernidos, ultrajados e incompreendidos, quando o desígnio nacional é fazer a apologia do banal.
Gostaria de saber quantos portugueses ainda se lembram do artigo (obviamente aqueles que o leram!)? que relevância teve na mudança de atitude em relação a este assunto em concreto, e se sentiram algum desejo de compreender mais detalhadamente o impacto que a negligência institucional pode ter não só nas crianças consideradas sobredotadas como na sociedade em geral (temos o péssimo hábito de acreditar que as coisas se resolvem por elas mesmas ou por intervenção da Providência, e não mexer uma palha sequer, nem mesmo para melhorar o nosso estado de consciência)?

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 06:14 PM | Comentários (2) | TrackBack

a um poeta

"Surge et ambula"

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões.
São teus irmãos que se erguem! são canções
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faz espada de combate!

Antero de Quental, Sonetos Completos

Publicado por Rodrigo Ribeiro em 03:33 PM | Comentários (0) | TrackBack