O que começou por ser um interregno involuntário, acabou por degenerar em preguiça cismática, e que veio a terminar na decisão de enveredar por outros caminhos. O tempo livre não estica e, creio ser puro bom senso, saber o que se quer e para onde se deseja ir. A existência é uma oportunidade única, que não deve ser desperdiçada, e por isso, considero fundamental que o tempo, o talento, a energia criativa, etc. sejam uma força de discernimento e liberdade de consciência, por forma a impedir que a negligência sistémica aniquile a resistência moral, e ponha em causa o desenvolvimento pleno do indivíduo.
No universo Blog, a informação (na minha perspectiva pessoal) jorra a um ritmo frenético, no seguimento da mesma lógica de esgotamento que o «normal» funcionamento da sociedade vulgarizou. Muitas das questões que afectam o desenvolvimento harmonioso do indivíduo, estão cativas do exasperante individualismo, o qual desliga o indivíduo dos inadiáveis problemas que afectam o seu próprio quotidiano, assim como quotidiano de milhões de seres humanos. O vasto leque de atrocidades cometidas em nome da tolice, da intolerância e da ganância não são suficientemente interessantes para levar o cidadão a reflectir exaustivamente sobre o sentido da intervenção individual na sociedade, que hoje mais que nunca me parece carente de intervenção social organizada, incluindo o recurso à desobediência civil. A lógica do espectáculo, do consumo, do protagonismo fácil, do desperdício de energia, etc., por diluição e fragmentação da informação, fazem do universo Blog, a evolução na continuidade (também, neste caso, como em muitos outros, as excepções confirmam a regra) do fogo fátuo, do culto do supérfluo, do efémero e do fútil, neste caso, somos nós, cidadãos anónimos, que ao divulgarmos avulso, a indignação sentida, mas nem sempre, bem fundamentada, e quase sempre, tendenciosa, vamos mantendo acesa, a chama da mentalidade dominante.
Estou em crer que a maioria dos utilizadores do universo Blog, usufrui de relativa estabilidade profissional, económica e social, e possui formação intelectual, cultural, científica, artística e/ou experiência de vida, que permite alguma liberdade de expressão responsável, mas que, porventura, funciona como extensão cultural do aburguesamento individualista, através do uso desta plataforma (miradouro) comum, os bloguers podem observar a uma conveniente distância asséptica, as misérias do mundo, enquanto, o eixo principal, em torno do qual a existência individual de cada um roda é constituído por uma liga onde abunda a essência subtil das modernas formas de hipocrisia, maleita moral altamente perniciosa que não parece incomodar por aí além.
O universo Blog, pode redundar numa vasta praça pública, onde até os assuntos mais delicados, sirvam de mote a uma boa tagarelice (mais uma vez sou levado a crer, que as excepções confirmam a regra), e nada mais Não se trata de criticar as intenções dos bloguers, que acredito estarem empenhadas em fazer alguma coisa pela comunidade onde estão inseridos, mas todo este esforço me parece estéril, se não evoluir para outras formas de intervenção.
Com toda a sinceridade, não me parece que o universo Blog, faça qualquer diferença, e não me parece que estejam reunidas condições para formar uma comunidade de cidadãos livres e independentes, empenhados em desenvolver projectos alternativos, em dar o exemplo, determinados em formar uma plataforma de reflexão comum, motivados para debater os problemas específicos que afectam a sociedade portuguesa, sem esquecer que os mesmos, são indissociáveis da rede de problemas globais que perturbam o desenvolvimento harmonioso e sustentável da humanidade como um todo.
Entrei nesta aventura por dois motivos, por um lado, divulgar o meu pensamento, por outro, abrir novas perspectivas, conhecer e contactar pessoas saturadas de permanecer confinadas no casulo unipessoal; pessoas interessadas em estabelecer uma rede de intervenção social, política, cultural, etc., ansiosas por criar formas inovadoras de associação e intervenção na sociedade. Como não acredito em debates puramente virtuais, entendi ser possível, usar este meio, para unir pessoas em torno de causas, marcar reuniões, agendar temas, promover actividades, etc., porque há sempre quem não esteja contente com a inércia sistémica. Cepticismo sim! Resignação, não!
O protagonismo não me seduz, o reconhecimento genuíno de alguns dos meus concidadãos, sim. A participação num espaço de comunicação como o universo Blog, baseado na reciprocidade de troca de informação e conhecimento, experiências e comentários, não se compadece com a lentidão (ruminação mental) metabólica a que eu funciono, um dos motivos, que pesou na decisão de por um ponto final na actividade bloguística, e prosseguir caminho a ritmo mais brando, sem atropelos nem desgastes excessivos, de maneira a digerir, assimilar, associar, comparar, etc., acontecimentos políticos, tragédias humanitárias, eventos culturais, inovações tecnológicas, descobertas científicas, etc. Contudo, fica em aberto a possibilidade de vir a colaborar num projecto conjunto, numa página temática, ou qualquer outra iniciativa aliciante, limitado a um artigo por semana/mês, de maneira a não deixar definhar os laços de cumplicidade que entretanto criei com algumas pessoas.
Aos companheiros de jornada, que durante um ano completo contribuíram para o meu enriquecimento humano, desejo as maiores felicidades, e a continuação de uma actividade bloguística profícua e fraterna. Se porventura, alguém desejar contactar-me, deve enviar as mensagens para rodrigo_rosa_ribeiro@hotmail.com.
A todos, um abraço fraterno.
É com muita pena que velho a assistir nos últimos tempos ao encerramento de alguns blogs com muita qualidade, nos quais incluo o seu.
Subescrevo inteiramente o seu juizo sobre a blogoesfera, uma porta aberta para muita coisa boa e muita coisa má.
Regresse sempre.
Um abraço. Augusto
Também lamento. Sentia-me sempre mais enriquecida lendo-te, pelo que permite-me discordar com a inutilidade interventiva que vês na blogosesfera. Eu, isolada numa cidade desconhecida, rodeada por uma espécie de apatia, sem referências de espécie alguma com as pessoas com quem trabalho, sem ler/ouvir opiniões como a tua e a de outros, encontro aqui nestes espaços esclarecimentos, polémicas, constradiões, novas formas de ver o mundo, coisas sempre muito salutares. Não conseguiremos mudar o mundo, nem mesmo abandonando a nossa estabilidade material, mas podemos passar a vê-lo com os olhos insuspeitos dos outros. Para ti não será, talvez assim. Pessoalmente acho que não há intervenção possível fora dos quadros legais. Greves, protestos, denúncia, e educação, educação das massas indiferentes. Estive uma hora na Caixa Geral de Depósitos. Fiz um protesto veemente. Dos muitos presentes ninguém mexeu um dedo para me apoiar. Que podia eu fazer mais? Estamos perante uma espécie de emergir vespertino da quotidiana esterilidade... Até breve, Rodrigo.
oh, Rodrigo...fico desalentada com a sua partida. As suas reflexões eram muitas vezes um complemento das minhas, os seus comentários no "uno" propiciaram dos melhares debates a que assisti na blogoesfera. Desde que iniciei estas lides, com objectivos idênticos aos seus, descobri, neste espaço virtual, 3 ou 4 pessoas que juntas poderiam construir um projecto de intervenção mais "visível", mais activo...o Rodrigo era uma dessas pessoas. Agora deixa-nos mais desasados.
Por favor, Rodrigo, mantenha o contacto com estes insubmissos. Espero que possamos cumprir em breve o encontro que no jantar do zecatelhado não foi possível concretizar.
Até sempre, ou até breve.
Um abraço sempre solidário
o uno e o múltiplo