outubro 27, 2004

Da paixão à desilusão. As tonturas causadas pelo rodar desgovernado do carrocel da educação.

Muito se fala de educação neste país, e parece ser consensual que a educação não pode continuar a ser uma mera paixão, que passa de mão em mão e acabando por abrir alas, para deixar passar a ignorância, a qual se instalada de armas e bagagens nos hábitos de estudo e de vida dos cidadãos, enquanto os direitos, liberdades e garantias sociais são despedaçados, a indiferença e a inevitabilidade, tornaram-se o denominador comum que regula o fluxo informativo, lastro onde se forma a opinião pública.
A educação não pode depender de paixões arrebatadoras, que além do mais são fugazes; pode até nem estar em causa a honestidade das pessoas (governantes) que fazem da desgovernação apaixonada a norma demagógica, de onde emana o projecto modelo para a educação nacional.
Quando o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, afirmou que a educação carecia de um plano a longo prazo, que não podia estar amarrado às contingências restritivas do exercício simples legislatura, e muito menos dependente dos logros, fantasias e promessas eleitorais, num momento em que as paixões estão ao rubro, e por isso mesmo entram em rápida autocombustão. A educação estaria a transmutar-se em amor amadurecido? É de amor que a educação está carenciada, de amor estável e profícuo; a educação é um processo longo, e como tal precisa de ser acompanhado de perto, a educação pode ser encarada como uma entidade abstracta que ao longo de decénios se tornou tóxicodependente, e como tal, não é de esperar que recupere de um dia para o outro: Não é provável que os senhores deputados presentes (ou ausentes) na assembleia da república, muitos dos quais tem como prioridade diária, a leitura do jornal desportivo, ritual útil de actualização informativa que fornece a base argumentativa nos debates «políticos» de corredor, tem que estar aptos a defender a seu clube, a sua cor, o seu orgulho, a sua dignidade de adeptos, e por aí fora... um excelente meio para exercitarem os dotes oratórios; diferentes deputados, optarão por distintas paixões; e mudar de deputados e/ou ministros não determina diminuição de desilusões.
Entretanto, há que manter a fachada de cara lavada, para isso, é suficiente tomar umas medidas avulso, que não carecem de projecto, nem tão pouco de licênça ou diploma, tudo se resolve entre compadres.
Enquanto proliferarem as alternativas privadas e os filhos dos eleitos (das mais diversas estirpes) continuarem a usufruir de ensino estável e de qualidade, e os pais deste país não entenderem a educação como um processo de formação integral, a educação continuará a ser o abismo nacional. A mensagem actual faz do ensino técnico e profissional, a salvação do ensino, a resolução dos problemas de insercção social, esta mensagem não é inócua, nem é salvação de coisa nenhuma, mas uma outra forma de alienação, de afastamento, de alheamento cultural e de inércia social; a formação do jovem não pode resumir-se à preparação intensiva para ingressar no mercado de trabalho, esse tipo de condicionamento pode parecer favorável, numa perspectiva economicista e laboral, mas deixa o jovem vulnerável em muitas áreas do que considero ser a formação fundamental do indivíduo, que não pode estar apetrechado com ferramentas para execer cabalmente uma profissão, enquanto, por exemplo a educação ética e estética é completamente descurada, caso o ambiente familiar, social e cultural não ofereça alternativas, ou sirva de antídoto ao envenenamento demagógico, o indivíduo dificilmente desenvolverá aptidões, talentos, sentido crítico, por falta de estímulo cultural e humano, um indivíduo nessas condições, apesar de considerar predador, e lutar com unhas e dentes para ter um lugar na sociedade, e quando digo um lugar, refiro-me a um posto de trabalho, e pouco mais; afinal não passa de presa vulnerável, «vítima» de normalização pedagógica, destinada aos filhos do povo, da qual não consta o desenvolvimento harmonioso da personalidade, nem a descoberta da identidade individual, mas sim a sujeição a um esquema de mera formação para integrar o mercado de trabalho, como se fosse ( e como tal é considerado, uma peça de substituição, catalogada e guardada numa prateleira, até que chegue o momento de ser usada.
Ño fundo não é difícil perceber as «razões» que levam os governantes a terem paixões tão efémeras pela educação, o único género de formação que importa dar às classes menos abonadas (material e culturalmente), e seguindo a lógica histórica, a educação popular passava pelo ensino da manejo da enxada e da foice, e com o advento da industriallização a integração na miséria proletária, ao domingo ia-se à igreja lavar a alma, os filhos do povo cabisbaixos na presença dos donos do trabalho, digam-me lá qual é a diferença? A diferença está em que hoje, os cidadãos estão sujeitos a mecanismos de repressão social e manipulação de massas de tal sofisticação que observados por certa gente, e numa dada perspectiva até parecem ausentes.
Continuamos na estaca zero, se pensarmos em educação como um processo dinâmico que envolve o indivíduo como uma entidade independente, como um ser complexo em permanente mudança, a que não podem ser cerceadas as oportunidades de descobrir a sua identidade como ser universal, a maturidade psicológica e intelectual não pode estar dissociada do desenvolvimento da consciência ética e estética, a compreensão do fenómeno vida, não pode orbitar em torno da mera formação profissional, ou profissionalizante, caso desejemos formar cidadão completos, culturalmente despertos e socialmente activos, querer legitimar a ideia de realização individual por intermédio do binómio produtor/consumidor é reinventar uma nova era de obscurantismo popular, o qual parece interessar às elites dominantes, a megalomania instalou-se à escala global, e esse é o mal, a que o cidadão comum não pode ficar alheio. Mas como defender uma educação que liberte o indivíduo em vez de o subjugar a uma ideologia dominante? A resistência e a procura de alternativas requer organização, de outra maneira é pura perda de tempo, fogo fátuo e palavras deitadas ao vento. Acredito na educação baseada na aprendizagem dos princípios da auto-disciplina, que em meu entender é essencial ao desenvolvimento da identidade individual.
Duas crianças da mesma idade, uma entra para o ensino privado de qualidade, é integrada numa turma pequena, professores escolhidos a dedo, das actividades extra-curriculares consta o ensino musical, a expressão dramática, a dança, etc... uma criança educada nestas condições não quer dizer que venha ser um adulto exemplar, mas a estrutura cultural está preparada para aguentar os diferentes patamares, dimensões e plataformas de inteligibilidade da realidade natural e cultural; em poucos anos, o jovem estará a léguas de distância do outro jovem, que em crinça entrou para uma escola pública de algum bairro problemático, a que realidade cultural e social esteje exposto a criança oriunda do meio social mais desfavorecido, que perspectivas de futuro tem, o seu futuro está suspenso entre optar por uma carreira de delinquência e escolher um curso técnico-profissional, que o vai habilitar a ser um cidadão respeitável, não há mais nada, é só isso, ser bem comportado e seguir as setas, e competir com os colegas, e ser uma vida inteira escravo do banco mais próximo da sua aflição, enquanto. Entretanto o jovem mais afortunado, sai do colégio particular para ingressar numa universidade de renome mundial, a continua a afastar-se do seu concidadão, aliás, nunca mais os seus destinos se cruzarão, a não ser que, porventura, o mais afortunado venha a «necessitar» do voto do mais desfavorecido para ingressar na instituição mais digna da Nação, sim, aí mesmo, o local onde supostamente se discute o futuro da educação, onde supostamente se debate a necessidade de esbater as desigualdades de oportunidade, desde que cada um siga o seu caminho, ou seja, um punhado de priveligiados continue a receber uma educação esmerada e os outros, aprendam a manejar as enxadas da pós-modernidade, a harmonia social está garantida, o povo sereno, as elites alcantiladas nos torreões culturais e as crianças plebeias induzidas a sonhar em ser jogadoras de bola, ou coisa que lhe valha.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em outubro 27, 2004 07:46 AM
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