outubro 25, 2004

Questões de sucessão e absentismo cultural...

"Tenho sido frequentemente acusado de ter uma natureza inflexível. Tem sido dito que não me quero curvar às decisões da maioria. Tenho sido acusado de ser autocrático... Nunca fui capaz de concordar com a acusação de autacracia ou obstinação. Pelo contrário, orgulho-me com a minha natureza condescendente com assuntos não-vitais. Detesto a autocracia. Valorizando a minha liberdade e independência, prezo igualmente a dos outros. Não desejo arrastar comigo um único espírito, se não poder fazer apelo para a razão as pessoas. Levo a minha incondicionalidade ao ponto de rejeitar a divindade das mais antigas shãstras (escritura sagrada hindu) se elas não convencerem o meu raciocínio. Mas tenho visto por experiência que, se desejar viver em sociedade e não obstante quiser continuar a permanecer independente, devo limitar os pontos de total independência a assuntos de primeira ordem. Em todos os outros que não envolvam um desvio da religião pessoal de cada um, ou do seu código moral, devemos submeter-nos à maioria."

M. K. Gandhi; Todos os Homens são Irmãos

Apesar de concordar com a ideia expressa por Gandhi, acrescento que o cidadão não pode submeter-se a qualquer maioria que não respeite a sua identidade de indivíduo, o que na prática não acontece. Na verdade, o cidadão anónimo não tem oportunidade de apresentar queixa onde quer que seja, ainda que se sinta encurralado por circusntâncias de mau augúrio e obrigado a sobreviver num ambiente contaminado por dejectos culturais que embotam o discernimento e ensurdecem a alma. Ainda que sinta este castigo como uma maldição sanável, não sabe onde se dirigir, nem a quem confiar, as portas fecham-se, disfarçam-se sorrisos irónicos, o ar é rasgado por risadas sarcásticas e por fim desce o pano da indiferença, acto de misericórdia, supõe-se... Os diferentes poderes instituídos não estão disposto a ouvir o indivíduo, nem a prestar atenção às necessidades específicas que marcam a diferença entre uma existência miserável e a realização de um projecto de vida autónomo; o indívíduo deve, segundo a lógica do poder vigente, resignar-se ou manifestar-se num contexto sócio-cultural em que por vezes se sente um estranho, ou seja não tem voto na matéria, deve seguir regras que já foram determinadas por outros, sem que tivesse tido opotunidade para ser ouvido.
Ao cidadão anónimo é sistematicamente negado o acesso às ferramentas culturais fundamentais ao desenvolvimento da formação da independência de carácter e do sentido crítico e do sentido de cidadania activa; o cidadão anónimo quando a cosnciência individual pende para isso, sente necessidade de desenvolver estratégias de resistência ao obscurantismo institucional, tem que lutar contra a ignorância imposta pela sociedade que supostamente devia ter o papel oposto. Não houvesse uma corrente de resistência intemporal, uma espécie de lufada de ar fresco, uma reserva de lucidez que passa de geração em geração, e não se deixa embalar por modas nem é condescendente com o poder vigente, e o cidadão anónimo estaria condenado a morrer de desidratação ética e estética vítima da propaganda desinformativa e atirado para o fosso comum da imbecilização.
O cidadão anónimo se desejar sobreviver à imbecilização tem que optar pelos circuitos culturais paralelos e periféricos, em certa medida clandestinos para alimentar a sede de conhecimento e esclarecimento que sente não poder satisfazer nas redes normais de abastecimento. Em suma, o estado não cumpre as suas obrigações educativas, mas nunca se esquece de manter a máquina desinformativa bem oleada e afinada. Então quais são as oportunidades reais do cidadão anónimo no campo da cultura geral, do desenvolvimento do gosto pela música e pelas artes, pela filosofia e pelas ciências exactas e humanas, se o estado lhe nega o direito a vislumbrar o patamar de qualidade de vida que merece?!
Centenas de milhar de cidadãos continuam a ser mantidos afastados da cultura e das artes, e é bom que nem sequer sintam falta disso e continuem a mascar e deitar fora a «cultura» de elevado rendimento! Quanto a desenvolver as capacidades e talentos inatos, deixem-nos estar anastesiados... muitos ainda escarnecem dos que assumem uma atitude diferente, é a voz da ignorância atávica a substituir a voz do discernimento activo; ignorância que a modernidade não removeu, muito pelo contrário, está a ser assimilada pelos novos costumes e tradições, e continua entranhada no subsolo cultural, contaminando as novas gerações.
Este país continua a ser uma ditadura escolástica, os doutores continuam a ditar paradigmas de saber morto, defensores de uma realidade social a duas velocidades, a cultura e o saber genuíno apresentam-se em círculos restritos, a grupos de consumidores com necessidades especiais, talvez seja uma questão hereditária, que não interessa resolver, pelo menos é o que parece.

Publicado por Rodrigo Ribeiro em outubro 25, 2004 05:22 PM
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